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PRODESE E ACRA



VIDA QUE SEGUE...Uma
das principais bases de inspiração do PRODESE foi a Associação Crianças Raízes
do Abaeté-Acra,espaço institucional onde concebemos composições de linguagens
lúdicas e estéticas criadas para manter seu cotidiano.A Acra foi uma iniciativa
institucional criada no bairro de Itapuã no município de Salvador na Bahia, e
referência nacional como “ponto de cultura” reconhecido pelo Ministério da
Cultura. Essa Associação durante oito anos,proporcionou a crianças e jovens
descendentes de africanos e africanas,espaços socioeducativos que legitimassem
o patrimônio civilizatório dos seus antepassados.
A Acra em parceria com o Prodese
fomentou várias iniciativas institucionais,a exemplo de publicações,eventos
nacionais e internacionais,participações exitosas em
editais,concursos,oficinas,festivais,etc vinculadas a presença africana em
Itapuã e sua expansão através das formas de sociabilidade criadas pelos
pescadores,lavadeiras e ganhadeiras,que mantiveram a riqueza do patrimônio
africano e seu contínuo na Bahia e Brasil.É através desses vínculos de
comunalidade africana, que a ACRA desenvolveu suas atividades abrindo
perspectivas de valores e linguagens para que as , crianças tenham orgulho de
ser e pertencer as suas comunalidades.
Gostaríamos de registrar o nosso
agradecimento profundo a Associação Crianças Raízes do Abaeté(Acra),na pessoa
do seu Diretor Presidente professor Narciso José do Patrocínio e toda a sua
equipe de educadores, pela oportunidade de vivenciarmos uma duradoura e valiosa
parceria durante o período de 2005 a 2012,culminando com premiações de destaque
nacional e a composição de várias iniciativas de linguagens, que influenciaram
sobremaneira a alegria de viver e ser, de crianças e jovens do bairro de
Itapuã em Salvador na Bahia,Brasil.


sábado, 6 de março de 2010

OBIRIN - Entrevista com Marco Aurélio Luz


OBIRIN

IYÁ IBEJI, Escultura de Marco Aurélio Luz


Comecemos as nossas homenagens conversando com o Oju Obá Marco Aurélio Luz sobre o significado de mulher na tradição afro-brasileira nagô. Nessa breve entrevista a ACRA Marco Aurélio destaca que na língua yorubá a palavra OBIRIN significa MULHER e demonstra que essa semântica “mulher” aprisionada na lógica das sociedades urbano-industriais não corresponde e não dá conta da infinitude de valores e linguagens que o universo simbólico afro-brasileiro apresenta e legitima.


Marco Aurélio lançou recentemente o livro “TUN ONÁ RI RETOMANDO O CAMINHO” que aborda aspectos das culturas africano-brasileiras e a visão de mundo que se expressa através de refinados códigos estéticos e suas formas de comunicação.


Acompanhem a entrevista consultando a escultura na foto acima para identificar a riqueza da simbologia expressa.


ENTREVISTA


ACRA - Fale-nos do significado de mulher na tradição afro-brasileira nagô.


Marco Aurélio Luz - Na tradição nagô a mulher, obirin, está representada por seus mistérios e poderes imutáveis. Na tradição a linguagem e as instituições elaboraram a essência dos seres no caso o ser da mulher é uma expressão do princípio feminino da existência.

ACRA - Você recentemente fez uma exposição de suas esculturas no foyer do Teatro UNEB e entre elas estava uma escultura representando o princípio feminino da existência. Você poderia comentar a simbologia dessa escultura?


Marco Aurélio Luz -
Essa escultura de minha autoria é a IYÁ IBEJI, a Mãe dos Gêmeos, que emerge dentro dos cânones estéticos da tradição. De início devo logo dizer que a capacidade de concepção, de gestação, de formidável transformação do corpo feminino constitui e expressa o mistério e o poder da mulher, tanto mais em sociedades em que o valor da expansão de famílias e linhagens significa fortes elos de ancestralidade, sucessão, gerações, continuidade comunal.


ACRA - A IYÁ IBEJI expressa em sua simbologia esses valores?


Marco Aurélio Luz -
Sim. Sei que vocês irão ilustrar essa entrevista com a foto dessa escultura e isso dará ao leitor a dimensão dos comentários que irei fazer. Uma mulher jovem e fértil sustenta duas crianças gêmeas em suas pernas caracterizando poder de procriação. Os gêmeos, IBEJI, ibi+eji, nascidos dois, são símbolos de fertilidade e como tal são entidades muito cultuadas na Bahia. Eles seguram com uma mão o seio da IYÁ, e com a outra um abebe, emblema em forma de leque, de forma a representar o útero fecundado. O abebe é emblema característico dos paramentos dos orixá que regem príncipios femininos como Oxum e Iyemanjá caracterizando seus poderes e mistérios.


ACRA - Na escultura vemos outro abebe também gravado na figura de um ovo.O que significa?


Marco Aurélio Luz -
O ovo é um elemento símbolo integrante da representação de Oxun caracterizando a continuidade das próximas gestações, que está representado nos IBEJI por Dou o nascido subsequente.


ACRA - Na base da escultura você esculpiu umas ondulações o que representam?

Marco Aurélio Luz - Contornando a escultura na base, tem a representação de água corrente, expressão da natureza regida pelos poderes de Oxum, simbolizando também o corrimento menstrual símbolo do poder de fertilidade feminina. Oxum representa poderes de beleza, encantamento e sedução da jovem mãe. Conforme uma saudação da tradição africana relatada por Fatumbi Verger, "Oxum limpa suas jóias de cobre antes de limpar seus filhos".

Atrás da escultura, referência e alusão a passado, poente, dois pássaros caracterizando a proteção das IYA-MI, as antigas e venerandas mães ancestrais, que se consubstanciam em pássaros, peixes ou sereias...

Muitos outros aspectos podem ser abordados sobre OBIRIN é um assunto que não tem fim.

ACRA - Mais uma vez agradecemos sua valiosa colaboração nos ajudando a consolidar o blog da ACRA.

2 comentários:

  1. Há criaturas que reencarnam com o propósito divino de despertar consciências, libertando-as da estagnação no roteiro evolutivo. Decididamente, um desses seres é o nosso Marco Aurélio Luz. Deus o ilumine, cada vez mais, nessa luminosa senda. Cumprimentos.

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  2. Agnaldo Fonsêca3 de junho de 2010 23:51

    Estou passando a conhecer a grande contribuição de Marco Aurélio Luz ao povo africano-brasileiro em minha Graduação pela UNEB e fico feliz e orgulhoso em ter não só referênciais teóricos de bases fundamentadas, mas representadas plasticamente em suas obras. Felicidades! Que a infinita luz de olorum permaneça a nos iluminar através de seus passos.

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