sábado, 27 de março de 2010

A PRÓ JANUÁRIA COM CARINHO



Encerrando as nossas homenagens as mulhers em março, nos dedicaremos aqui a homenagear a nossa admirável Mestra Januária Avelina Correia do Patrocínio (conhecida carinhosamente por “Pró Januária”) pelo apoio e incentivo que vem dando a ACRA fortalecendo os projetos e iniciativas envolvendo as crianças e jovens de Itapuã.Aqui uma breve biografia dessa mulher que carrega no seu coração a competência e criatividade inerente as grandes Mestras que vivenciaram a Bahia irrigada pela presença dos valores africano-brasileiro. É uma educadora entusiasmada e muito criativa! A ACRA tem sua sede no espaço cedido em 2005 pela professora Januária uma entusiasta das iniciativas do projeto Dayó implantado na Associação.Januária nasceu no bairro de Quintas na Cidade Nova nos anos de 1930.Filha de Januário Gasparino Correia e Anastácia Conceição Correia ambos nascidos uma ano após a abolição da escravatura numa Bahia aprisionada pela herança colonial do preconceito e racismo. Ingressou na Universidade Católica do Salvador formando-se em Geografia.Nos anos 70 Januária realizou cursos de especializações na área de Psicopedagogia na Universidade Federal da Bahia e desenvolveu durante trinta anos na área de Educação realizou iniciativas valiosas apelando para linguagens lúdico-estéticas voltadas para o público infantil e jovem de escolas públicas e particular em Itapuã. A presença dessa educadora no Colégio Estadual Governador Lomanto Júnior e Escola Rotary foi muito importante para várias gerações de Itapuã. Além das escolas públicas Januária também lecionou nos Colégio Antônio Vieira e Instituto Feminino da Bahia. Criou a Escola Verde Recanto em 1978 em Itapuã onde se dedicou integralmente a desenvolver dinâmicas pedagógicas singulares.A sua performance como educadora a tornou muito querida,respeitada e reverenciada por muitas gerações de alunos/as! A vida como ela mesmo nos disse em entrevista “não foi nada fácil!”, mas aqui ela preferiu nos contar fatos que nos ensinam a olhar a vida com coragem e saborear momentos bons. Acompanhem.

ACRA-Fale-nos um pouco da sua infância, bairro onde nasceu, vivências com seus pais e irmãos na Bahia daquela época.
Januária
-Ah!Infância querida inesquecível!Vestidinhos de chita para usar em casa, com chinelinhos ou tamancos... Vestidos de seda pura,crepes e chifons,com lindas e suaves estamparias escolhidas e compradas pelo meu lindo pai.Não gosto muito de lembrar-me dos sapatos,geralmente de verniz com passadeiras,elegantes,porém apertados.Risos.Que sofrimento!Fora isso que maravilha!Naquela época, tinha bondes, marinetes transporte populares importantes, mas o povo gostava de andar a pé. Em casa a convivência com e meus pais e irmãos foram as melhores possíveis. Só reinava amor naquela família.



ACRA-E seu pais/Quem eram?


Januária- Meu pai foi Januário Gasparino Correia que nasceu em 1889. Era um negro alto,forte,sadio.Vestia-se muito bem.Era um intelectual apesar de não ter estudos.Era um cidadão digno,honesto e muito caridoso.Nas horas vagas visitava amigos,hospitais e presídios.Era sócio fundador da Sociedade Protetora dos Desvalidos e da Irmandade do Rosário dos Pretos. Meu pai era funcionário público trabalhava como Oficial de Justiça no Fórum Ruy Barbosa. Carismático,amigo de todos desembargadores e juízes da época.Conhecido como Gasparino meu pai teve a sua mão direita destruída numa padaria quando menino operando uma máquina antes dele ser funcionário público ele se virava para poder se manter).Ele perdeu todos os dedos dessa mão restando apenas a falange do polegar.Mesmo assim escrevia seus ofícios,despachos e notas as quais sua profissão exigia.Não conheceu os pais.Era órfão morava com umas tias quando criança.Como era muito travesso,as tias vestiam um camisolão para ele não ir para a rua.Como era muito cheio de energia e não se conformava em ficar preso em casa e com a rigidez da criação das tias ele fugiu de casa.Foi nessa época “batendo a cabeça aqui e ali” que aconteceu essa tragédia em que ele perdeu os dedos.

ACRA-E sua mãe?
Januária- Minha mãe Anastácia da Conceição Correia era uma mulher negra muito linda!Elegante e se dedicava completamente a família. Filha de pais pobres de família numerosa.A mãe era lavadeira e o pai exímio mestre de obras que trabalhava em grandes obras usando como material óleo de baleia.A família de minha mãe passou muitas dificuldades fome, ao ponto de minha avó colocá-la em regime de semi internato no Convento das Irmãs de Caridade. Era uma costureira espetacular. Fazia cada modelito...Cozinhava muito bem!Fazia fritadas e feijão de leite ma-ra-vi-lho-sos!Era minha amiga uma grande mulher. Ensinou-me muitos provérbios importantes para a vida: “Não faça para os outros o que não queres para si”;água mole em pedra dura tanto bate até que fura”;de grão em grão a galinha enche o papo”;quem planta vento colhe tempestade”;quem come guarda,come duas vezes”.Aprendi com ela o slogan da minha vida:LUTAR PARA VENCER!

ACRA-Como seus pais se conheceram?
Januária- Meus pais se conheceram de maneira bem interessante(risos). Desde menina que minha mãe queria aprender um instrumento. Então quando ela ficou mocinha começou a trabalhar fazendo costuras,etc e realizou o seu sonho. Minha mãe aprendeu a tocar bandolim na Escola de Música !Foi numa dessas iniciativas de ter um rendimento para se manter que minha mãe colocou na janela de casa uns mamões para vender. Vale ressaltar que os mamões eram do quintal da casa dela. Meu pai passou observou-a e através da conversa de freguês interessado nos mamões foi fazendo amizade e em onze messes se casaram.(Risos)

ACRA-Eu vi uma foto da senhora com seu irmão Jaime com roupas elegantes...
Januária- Meu pai era um homem temente a Deus criando assim também os seus filhos. Todo o domingo dia Santo levava-nos as igrejas para ouvir missa, principalmente na Igreja do São Francisco,Catedral Basílica, Nossa Senhora da Conceição, Bonfim, etc. Eu e meu irmão Jaime éramos vestidos a caráter. Com todos os acessórias.Eu vestida de melindrosa,sombrinha,boina,etc.Meu irmão de traje completo de paletó de homem e gravata borboleta e chapéu panamá.nas ruas onde passávamos todos ficavam admirados e meu pai ficava orgulhoso com o sucesso. Após a missa íamos visitar amigos parentes que moravam entre o Terreiro de Jesus e a Praça do Cruzeiro de São Francisco. Lembro-me pouco desse circuito.Existiam Sobrados com joalherias no térreo.Nos andares superiores moravam umas tias africanas de consideração,as quais se alegravam ao nos ver e meu pai nesses encontros ficava muito feliz em mostrar seus rebentos.





Januária aos 08 anos de idade e seu irmão Jaime com 06 anos


ACRA-D. Anastácia sua mãe costumava passear em Itapuã. O que ela lhe contava sobre esses passeios?
Januária- Minha mãe morava em Quintas, porém tinha amigas que passeavam em Itapuã e ela as acompanhava.Esse bairro apesar de ter sido uma fazenda naquele tempo existia muitas casas de palha.Ela me contava as peripécias para chegar em Itapuã. Vinham a pé pelas fazendas do Cabula.Quando chegavam à beira da praia tinha o encontro das águas do Camurujipe com o mar.Se a maré estivesse cheia todos teriam que esperar para atravessar.

ACRA-Ah!É verdade que a senhora ouvia o ronco de Itapuã quando criança?
Januária- Eu me lembro quando criança que ouvia um ruído vindo do mar,longe surdo e contínuo.Perguntava a a minha mãe e ela explicava :É uma pedra oca em Itapuã e o mar ao se chocar com a mesma resulta nesse som que ouvimos a distância.E acrescentava:quando Itapuã ronca é sinal que vai chover muito! Porém só ouvia o som do mar longe porque o bairro que eu nasci e morei Quintas, ficava no mesmo nível do mar e é de lá que se avistava ao longe oceano.Eu tive esse privilégio de viver numa Salvador cuja paisagem natural me permitia ver de Quintas o mar.Imaginem que maravilha!

ACRA-Pró Januária sei que a senhora tem muitas histórias para contar e muitas sabedorias a nos ensinar mas vamos abrir no blog um outro momento para ampliarmos a nossa conversa sobre outros temas e questões. Obrigada por esse momento.
Januária-Foi um prazer, principlamente porque vocês me fizeram lembrar de momentos muito especiais na minha vida e que me tornaram uma mulher forte ,alegre e cheia de otimismo para ser educadora,mãe e avó.Tudo isso se resume em ter recebido muito amor,carinho e atençaõ.Se você é regada por sentimentos como esse desde pequenina você com certeza será uma pessoa melhor capaz de doar amor e carinho por onde passar.


domingo, 21 de março de 2010

A noite não adormece nos olhos das mulheres - Conceição Evaristo



A noite não adormece nos olhos das mulheres








Conceição Evaristo
Em memória de Beatriz Nascimento


A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.

A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.

quinta-feira, 18 de março de 2010

WANGARI MUTA MAATHAI - PRÊMIO NOBEL DA PAZ



WANGARI MUTA MAATHAI
PRÊMIO NOBEL DA PAZ




Wangari Muta Maathai, esse é o nome da mulher guerreira do Quênia nascida em 01 de abril de 1940 que foi a primeira africana a receber Prêmio Nobel da Paz em 2004.


Wangari vem desenvolvendo ao longo dos anos iniciativas que fortalecem as várias comunidades do Quênia ajudando-as a manter-se erguidas face ao regime de opressão política que suprimia direitos da população inclusive das mulheres quenianas e seus filhos condenados infelizmente a conviver com o vírus HIV.


Maathai expressou sua opinião sobre a origem do vírus HIV numa conferência às mídias internacionais e isso gerou algumas polêmicas e constrangimentos entre os pares que a indicaram ao Pêmio Nobel. “...Ela falou em favor da alegação de que o vírus HIV era um produto criado pelo homem através de Bioengenharia, e então lançado na África por cientistas ocidentais não-identificados como uma arma de destruição em massa para ‘punir os negros’. A alegação foi apoiada apenas por uma pequena minoria, e é uma das várias teorias conspiratórias sobre a AIDS. Desde então ela tem fugido de uma posição definitiva: ‘Eu não sei sobre a origem... E espero que um dia saibamos, porque é algo que obviamente todos queremos saber - de onde vem a doença’.

Pelo reconhecimento dos seus inúmeros trabalhos para dignificar as populações do Quênia Wangari Muta Maathai recebeu os prêmios:
1984: Right Livelihood Award (conhecido como "Prêmio Nobel Alternativo")
1991: Prêmio Goldman do Meio-Ambiente
1991: Prêmio África
1993: Medalha de Edingburg (para "incrível contribuição a humanidade através da ciência")
2004: Prêmio Petra Kelly
2004: Prêmio Sofia
2004: Nobel da Paz

(Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Wangari_Mathai)

sábado, 6 de março de 2010

OBIRIN - Entrevista com Marco Aurélio Luz


OBIRIN

IYÁ IBEJI, Escultura de Marco Aurélio Luz


Comecemos as nossas homenagens conversando com o Oju Obá Marco Aurélio Luz sobre o significado de mulher na tradição afro-brasileira nagô. Nessa breve entrevista a ACRA Marco Aurélio destaca que na língua yorubá a palavra OBIRIN significa MULHER e demonstra que essa semântica “mulher” aprisionada na lógica das sociedades urbano-industriais não corresponde e não dá conta da infinitude de valores e linguagens que o universo simbólico afro-brasileiro apresenta e legitima.

Marco Aurélio lançou recentemente o livro “TUN ONÁ RI RETOMANDO O CAMINHO” que aborda aspectos das culturas africano-brasileiras e a visão de mundo que se expressa através de refinados códigos estéticos e suas formas de comunicação.

Acompanhem a entrevista consultando a escultura na foto acima para identificar a riqueza da simbologia expressa.

ENTREVISTA

ACRA - Fale-nos do significado de mulher na tradição afro-brasileira nagô.

Marco Aurélio Luz - Na tradição nagô a mulher, obirin, está representada por seus mistérios e poderes imutáveis. Na tradição a linguagem e as instituições elaboraram a essência dos seres no caso o ser da mulher é uma expressão do princípio feminino da existência.

ACRA - Você recentemente fez uma exposição de suas esculturas no foyer do Teatro UNEB e entre elas estava uma escultura representando o princípio feminino da existência. Você poderia comentar a simbologia dessa escultura?


Marco Aurélio Luz -
Essa escultura de minha autoria é a IYÁ IBEJI, a Mãe dos Gêmeos, que emerge dentro dos cânones estéticos da tradição. De início devo logo dizer que a capacidade de concepção, de gestação, de formidável transformação do corpo feminino constitui e expressa o mistério e o poder da mulher, tanto mais em sociedades em que o valor da expansão de famílias e linhagens significa fortes elos de ancestralidade, sucessão, gerações, continuidade comunal.

ACRA - A IYÁ IBEJI expressa em sua simbologia esses valores?


Marco Aurélio Luz -
Sim. Sei que vocês irão ilustrar essa entrevista com a foto dessa escultura e isso dará ao leitor a dimensão dos comentários que irei fazer. Uma mulher jovem e fértil sustenta duas crianças gêmeas em suas pernas caracterizando poder de procriação. Os gêmeos, IBEJI, ibi+eji, nascidos dois, são símbolos de fertilidade e como tal são entidades muito cultuadas na Bahia. Eles seguram com uma mão o seio da IYÁ, e com a outra um abebe, emblema em forma de leque, de forma a representar o útero fecundado. O abebe é emblema característico dos paramentos dos orixá que regem príncipios femininos como Oxum e Iyemanjá caracterizando seus poderes e mistérios.

ACRA - Na escultura vemos outro abebe também gravado na figura de um ovo.O que significa?


Marco Aurélio Luz -
O ovo é um elemento símbolo integrante da representação de Oxun caracterizando a continuidade das próximas gestações, que está representado nos IBEJI por Dou o nascido subsequente.

ACRA - Na base da escultura você esculpiu umas ondulações o que representam?
Marco Aurélio Luz - Contornando a escultura na base, tem a representação de água corrente, expressão da natureza regida pelos poderes de Oxum, simbolizando também o corrimento menstrual símbolo do poder de fertilidade feminina. Oxum representa poderes de beleza, encantamento e sedução da jovem mãe. Conforme uma saudação da tradição africana relatada por Fatumbi Verger, "Oxum limpa suas jóias de cobre antes de limpar seus filhos".
Atrás da escultura, referência e alusão a passado, poente, dois pássaros caracterizando a proteção das IYA-MI, as antigas e venerandas mães ancestrais, que se consubstanciam em pássaros, peixes ou sereias...
Muitos outros aspectos podem ser abordados sobre OBIRIN é um assunto que não tem fim.
ACRA - Mais uma vez agradecemos sua valiosa colaboração nos ajudando a consolidar o blog da ACRA.

MARÇO MULHER ACRA - OBIRIN

MARÇO MULHER ACRA

OBIRIN

O mês de março é dedicado nacionalmente a promoção de homenagens às mulheres de todo o planeta. A ACRA irá se dedicar durante esse período a apresentar para nossos/as leitores/as entrevistas, informes, músicas, vídeos, etc que possam contribuir para a afirmação da importância e valor das mulheres na estruturação e expansão das nossas sociedades contemporâneas. O título OBIRIN escolhido para sustentar todas as homenagens aqui reunidas durante o mês de março é resultado da entrevista que realizamos com Marco Aurélio Luz como vocês poderão acompanhar a seguir.