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PRODESE E ACRA



VIDA QUE SEGUE...Uma
das principais bases de inspiração do PRODESE foi a Associação Crianças Raízes
do Abaeté-Acra,espaço institucional onde concebemos composições de linguagens
lúdicas e estéticas criadas para manter seu cotidiano.A Acra foi uma iniciativa
institucional criada no bairro de Itapuã no município de Salvador na Bahia, e
referência nacional como “ponto de cultura” reconhecido pelo Ministério da
Cultura. Essa Associação durante oito anos,proporcionou a crianças e jovens
descendentes de africanos e africanas,espaços socioeducativos que legitimassem
o patrimônio civilizatório dos seus antepassados.
A Acra em parceria com o Prodese
fomentou várias iniciativas institucionais,a exemplo de publicações,eventos
nacionais e internacionais,participações exitosas em
editais,concursos,oficinas,festivais,etc vinculadas a presença africana em
Itapuã e sua expansão através das formas de sociabilidade criadas pelos
pescadores,lavadeiras e ganhadeiras,que mantiveram a riqueza do patrimônio
africano e seu contínuo na Bahia e Brasil.É através desses vínculos de
comunalidade africana, que a ACRA desenvolveu suas atividades abrindo
perspectivas de valores e linguagens para que as , crianças tenham orgulho de
ser e pertencer as suas comunalidades.
Gostaríamos de registrar o nosso
agradecimento profundo a Associação Crianças Raízes do Abaeté(Acra),na pessoa
do seu Diretor Presidente professor Narciso José do Patrocínio e toda a sua
equipe de educadores, pela oportunidade de vivenciarmos uma duradoura e valiosa
parceria durante o período de 2005 a 2012,culminando com premiações de destaque
nacional e a composição de várias iniciativas de linguagens, que influenciaram
sobremaneira a alegria de viver e ser, de crianças e jovens do bairro de
Itapuã em Salvador na Bahia,Brasil.


quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Blog do Acra Entrevista: Narcimária Correia do Patrocínio Luz

ITAPUÃ ÁFRICA VIVA!


Em entrevista exclusiva a Associação Crianças Raízes do Abaeté, a professora Narcimária Correia do Patrocínio Luz comenta aspectos da sua pesquisa que realizou sobre o bairro de Itapuã e a importância de conhecermos e valorizarmos a história do lugar onde vivemos. Narcimária é Professora Titular Plena do Departamento de Educação Campus I da Universidade do Estado da Bahia-UNEB; Doutora em Educação; pesquisadora no campo da Educação, Comunicação e Comunalidade Africano-Brasileira; coordenadora no Diretório dos Grupos de Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-CNPq do PRODESE- Programa Descolonização e Educação, grupo de pesquisa que vem se destacando pelas iniciativas junto às comunidades tradicionais da Bahia.


ACRA: Como surgiu a idéia de realizar a pesquisa sobre Itapuã?


DRA. NARCIMÁRIA: Itapuã tornou-se referência fundamental para meus estudos, porque encontrei nessa territorialidade um repertório de vínculos de sociabilidade que me permitiu a aproximação com aspectos que ao longo de vinte anos vinha me dedicando a estudar, a saber: a força da civilização africana na constituição da identidade profunda de muitas territorialidades na Bahia. Daí a nossa opção em estabelecer nosso estudo na territorialidade de Itapuã, Salvador Bahia. Tenho uma relação visceral com Itapuã porque toda a minha infância e juventude esteve envolvida com os valores e linguagens desse magnífico lugar. Recebemos também um convite especial da Associação Crianças Raízes do Abaeté para compor uma equipe que se dedicasse a desenvolver iniciativas sócio-educacionais visando a implantação de condições infra-estruturais que legitimassem os valores comunais do bairro de Itapuã, e através dessas iniciativas, promovesse o desenvolvimento físico-emocional da população infanto-juvenil, base das projeções de futuro dessa territorialidade. É assim que nasce a nossa arqueologia sócio-histórica e cultural sobre Itapuã, que apresenta para as crianças e jovens a riqueza do patrimônio civilizatório dos povos tupinambás e africanos base da identidade cultural do lugar.


ACRA: O que constitui esse patrimônio civilizatório em Itapuã?


DRA. NARCIMÁRIA: Um olhar panorâmico vai nos ajudar a começar a aproximação com a abordagem da pesquisa, se não vejamos: Somália, Nigéria, Mali, Sirilanka, Egito, Costado Marfim, Tailândia, Líbano, Haiti, Cuba, Jamaica, Guianas, Austrália, Colômbia, Peru, Venezuela, Caribe, África do Sul, Bolívia, Brasil, México, Angola, Romênia, Yuguslávia, Camarões, Paraguai, Panamá, Índia, Congo, Peru, Chile, Argentina, Tailândia, Líbano, Zimbabwe...

Mas o que aproxima esses povos da iniciativa da pesquisa sobre Itapuã? Uma observação fundamental: muitas iniciativas similares a nossa iniciativa vêm sendo fomentadas no seio de muitos povos através de movimentos sociais vigorosos, voltados para erguer espaços institucionais que promovam políticas de educação, saúde, alternativas de modos de produção que favoreçam a qualidade de vida enfim, ações que abram perspectivas de futuro e continuidade do patrimônio civilizatório característicos dessas nações. Vamos pousar nossa atenção sobre um dos graves problemas que vêm afligindo todos os povos do planeta: as relações de prolongação neocolonial capitalista que impõem valores existenciais que tendem a recalcar as expressões civilizatórias de muitas comunalidades tradicionais.

A conseqüência tem sido o acirramento de tensões e conflitos que geram violências de toda ordem, guerras, fome, perdas territoriais, destruição da natureza, pobreza crônica, mortalidade infantil, institucionalização de políticas genocidas, muita desigualdade social mapeia o planeta. Contemporaneamente distintas comunalidades tradicionais de vários países, têm tomado para si a iniciativa de aplacar as angústias que têm comprometido o direito à existência das suas crianças e jovens, gerações que representam o futuro dos povos. Essas organizações sociais, muitas delas em intercâmbio com a nossa pesquisa que enfatiza os valores da territorialidade Itapuã, têm procurado abrir horizontes de questionamentos, interrogações e proposições seminais para uma educação que realmente contemple os distintos contextos culturais que caracterizam as suas populações.


ACRA: Como você desenvolveu essa arqueologia sócio-histórica de Itapuã?


DRA. NARCIMÁRIA: Visitamos a exposição comemorativa dos 90 anos de Abdias Nascimento e identificamos um ideograma cuja força semântica nos emocionou muito. O ideograma que abria a exposição é o sankofa e nele está contida a seguinte perspectiva: ”Nunca é tarde para voltar e apanhar o que ficou para trás... Aprender com o passado para construir o futuro.”

Foi esse exercício de elaboração profundo que fizemos. Procuramos escutar com o coração o que há de mais precioso e milenar em Itapuã. Sabe o que é? A pedra que ronca. A arqueologia sócio-histórica que realizamos nos remete ao mito fundador de Itapuã, que é a pedra que ronca, realçando de modo valioso a presença inaugural da comunalidade tupinambá e sua continuidade e relação mítica com os povos africanos. Os princípios inaugurais de Itapuã estão completamente envoltos pela temporalidade dos povos indígenas e dos povos africanos, que se presentificam organizando e estruturando comunalidades que se aprumam na infinitude do universo simbólico que constitui os mistérios do mar. Itapuã na língua tupi-guarani: ita significa pedra e puã significa choro, gemido. Há também outra interpretação que diz ser Itapuã em tupi, um rochedo que se ergue, a pedra que ergue a cabeça redonda acima das águas na margem do oceano. Vimos então que a abordagem do estudo para se consolidar deveria acolher as perspectivas de elaborações que enfatizam o princípio inaugural que é a “pedra que ronca”, referência apresentada e legítima também para muitos moradores antigos. Os filhos e filhas de Itapuã como são conhecidos os moradores antigos que nasceram e cresceram ali, sabem e sentem que fazem parte dessa extensão de valores contidos nesse princípio mítico, que é Itapuã a pedra, aliás, toda a comunalidade se identifica com esse imaginário milenar que carrega um significado simbólico profundo que alimenta e dá pulsão a comunalidade africano-brasileira. Itapuã a “pedra que ronca” e “gemi” atravessando os tempos, se insurgindo insistindo no direito a existência. O ronco e/ou gemido de Itapuã são metáforas que carregam o as projeções socioexistenciais dos povos que foram agredidos pelas relações coloniais e de expansão do capitalismo industrial.


ACRA: Você afirma nos seus estudos que Itapuã é uma África viva. Por quê?


DRA. NARCIMÁRIA: Com certeza. Itapuã abriga uma rica tradição cultural africana, podemos afirmar que é uma das mais expressivas do mundo, de onde se desdobram linguagens e formas de comunicação própria da comunalidade africano-brasileira, de suma importância na estruturação e legitimação dos valores sócio-existenciais da sua população. Assim, tivemos que lidar com a radicalidade das questões que floresciam na arqueologia sócio-histórica impregnada pelo universo simbólico afro-brasileiro, dando forma às narrativas de mitos, provérbios, música polirrítmica de base percussiva, danças, dramatizações, repertório culinário, conhecimento milenar sobre a complexidade de vida que atravessa as dunas, o mar, a lagoa, as instituições e suas hierarquias comunitárias, organização territorial, repertório de cantigas e histórias dos pescadores, ganhadeiras, lavadeiras que acumulam narrativas valiosas sobre os princípios fundadores da territorialidade, classificação dos peixes no mar de Itapuã; tecnologia da confecção de redes, o uso de canoas, saveiros e jangadas, a arquitetura e estética urbana africano-brasileira; a culinária tradicional africana, a celebração referente à visão sagrada de mundo expressa na entrega de oferendas à Yemanjá no mar e outros espaços míticos como a Lagoa do Abaeté, enfim o mistério do viver e as estratégias de continuidade da tradição herança dos antepassados.


ACRA: De todo o universo explorado sobre Itapuã o que mais lhe emociona?


DRA. NARCIMÁRIA: A infinitude da existência que o mar carrega. O mar é um espaço sagrado, imponente, pleno de mistérios, do imponderável. É preciso respeitá-lo e a relação com ele se faz através de linguagens míticas que ritualizadas apelam para as forças cósmicas que o constitui. Os princípios de ancestralidade que inauguraram a territorialidade de Itapuã, a exemplo da “pedra que ronca” e “gemi”, caracteriza o repertório mítico dos tupinambás que habitaram Itapuã e os africanos que herdam o mesmo princípio inaugural da pedra atualizando-o até os nossos dias. Nesse universo simbólico entram as oferendas para Yemanjá e Oxum princípios das águas, de suma importância para prover o êxito dos ciclos da pesca que sustentam o a expansão comunal. As oferendas para Yemanjá e Oxum princípios fundamentais à dinâmica comunal que envolve a pesca protagoniza o mapeamento. O Mar e seu entrelaçamento com a correnteza dos rios repercutem na organização societal de Itapuã, e nessa dinâmica mítica envolvendo as forças cósmicas, a lagoa do Abaeté torna-se uma referência-chave no viver cotidiano dos descendentes de africanos. É nesse cenário sagrado de Itapuã para os africano-brasileiros que são reverenciadas as Mães-d’água quer no mar ou em Abaeté.


ACRA: Fale-nos do impacto dos valores urbano-industriais contemporâneos em Itapuã.


DRA. NARCIMÁRIA: O impacto contemporâneo dos valores urbano-industriais que atravessam o universo sócio-existencial característico de Itapuã, também constituiu um dos desafios da pesquisa, a exemplo da pretensa “americanização urbanística” refletida na construção, da Estrada Velha do Aeroporto, Avenida Otávio Mangabeira, a rede de avenidas que se abrem a partir delas, e outras iniciativas da Razão de Estado que impuseram valores que interferiram de modo perverso no viver cotidiano dessa população africano-brasileira. As estratégias de resistência estabelecidas pela população, visando manter e legitimar seus valores socioexistenciais, e as perspectivas de futuro para as gerações sucessoras herdeiras desse patrimônio africano-brasileiro, denominado Itapuã, são também foco da nossa análise.


ACRA: Que aspectos das políticas de educação adotadas no Brasil e a repercussão em Itapuã você aborda.


DRA. NARCIMÁRIA: Abordamos aspectos sobre Educação, destacando referências do século XIX através da Escola Normal e seus desdobramentos; a Casa de Mestre, que chega a Itapuã no início do século XX; a implantação em Itapuã do ensino público de massa a partir dos anos cinqüenta e o impacto dessas políticas de Educação ensejadas para o Brasil e sua repercussão em Itapuã. Nesse caminhar desenvolvemos reflexões que identificam no contexto das políticas de Educação adotadas no Brasil e na Bahia, os projetos que marcam as alianças feitas pela elite dirigente da ditadura militar com os Estados Unidos, a exemplo do acordo MEC-USAID.


ACRA: Que tipo de contribuição a sua pesquisa tem dado ao ACRA?


DRA. NARCIMÁRIA: Nossa presença na ACRA tem sido realizar esforços para prover crianças e jovens de uma ambiência socioeducativa que fortaleça suas identidades culturais, permita-lhes o acesso a serviços de saúde, educação extensiva às famílias, estabelecendo um pólo irradiador de ações na área de Educação que tendem a aplacar, a anomia que historicamente atravessa o viver cotidiano da população.

As principais metas da nossa participação no CRA, além de legitimar aspectos fundamentais à compreensão de Itapuã, também se dedica a lidar com: o espaço-tempo que inauguraram o bairro através da presença indígena e africana; os vínculos de sociabilidade através da pesca referência original do modo de produção coletiva; a dimensão ético-estética da capoeira desdobramento da tradição africana e sua importância na estruturação das identidades de crianças e jovens; o impacto contemporâneo dos valores urbano-industriais que atravessam o viver cotidiano de Itapuã, bem como as perspectivas de futuro para as gerações sucessoras herdeiras desse patrimônio territorial denominado Itapuã.


terça-feira, 6 de outubro de 2009

Seminário de Monitoria de Extensão da UNEB

No dia 01.10.09 as pesquisadoras do PRODESE-Programa Descolonização e Educação representaram o Departamento de Educação do Campus I no Seminário de Monitoria de Ensino e Extensão da UNEB no Hotel Vilamar, no bairro de Amaralina, em Salvador. Na ocasião a equipe PRODESE, composta pelas professoras Narcimária C. P. Luz, Paula Grejianin, Rosângela Accioly e Daniela Cidreira, apresentou aspectos das linguagens lúdico-estéticas desenvolvidas com crianças e jovens da ACRA em Itapuã e o impacto qualitativo dessas atuações. Ao final da apresentação as pesquisadoras presentearam com um xequerê (instrumento de percussão afro-brasileiro) a equipe da Pró-Reitora de Extensão da UNEB.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

PARABÉNS DAYÓ ACRA!


PARABÉNS DAYÓ ACRA!

SOMOS SEMIFINALISTAS NA 8ª EDIÇÃO DO PRÊMIO ITAÚ UNICEF

A Equipe da ACRA compartilha com você uma novidade boa que nos enche de orgulho! A ACRA através do projeto Dayó: compartilhando a alegria socioexistencial em comunialidades africano-brasileiras de autoria e coordenação da professora Doutora Narcimária C. P. Luz e também constituído pelas professoras Daniela Cidreira, Jackeline Divino, Paula Grejianin e Rosângela Accioly, com o apoio do Departamento de Educação do Campus I da Universidade do Estado da Bahia - UNEB, participou da 8ª Edição do Prêmio ITAÚ UNICEF e nesse processo de avaliação fomos indicados como semifinalistas.

O Dayó está presente em várias localidades da Região Metropolitana de Salvador, mas para a 8ª Edição do Prêmio ITAU UNICEF a territorialidade de Itaúã constitui as proposições que a equipe DAYÓ selecionou para participar do prêmio, em destaque as iniciativas socioeducativas que realiza junto às crianças e jovens em Itapuã em parceira com o ACRA.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Indicação do Filme: BESOURO: Da Capoeira, Nasce um Herói

O Blog do Acra indica o filme: BESOURO: Da capoeira nasce, nasce um herói baseado na história do capoeirista baiano Manoel Henrique Pereira. O filme esteve na lista dos filmes brasileiros a serem indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o vencedor foi Salve Geral.

"Quando nasce Manoel Henrique Pereira, não havia nem dez anos que o Brasil tinha sido o último país do mundo a libertar seus escravos. Naqueles tempos pós-abolição nossos negros continuavam tão alijados da sociedade que muitos deles ainda se questionavam se a liberdade tinha sido, de fato, um bom negócio [...] 1897, ano em que Manoel Henrique Pereira, filho dos ex-escravos João Grosso e Maria Haifa, nasceu na cidade de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano.

Vinte anos depois, Manoel já era muito mais conhecido na cidade como Besouro Mangangá - ou Besouro Cordão de Ouro -, um jovem forte e corajoso, que não sabia ler nem escrever, mas que jogava capoeira como ninguém e não levava desaforo para casa. Como quase todos os negros de Santo Amaro na época, vivia em função das fazendas da região, trabalhando na roça de cana dos engenhos. Mas, ao contrário da maioria, ele não tinha medo dos patrões. E foram justamente os atritos com seus empregadores - e posteriormente com a polícia - que deixaram Besouro conhecido e começaram a escrever a sua imortalidade na cultura negra brasileira. Há poucos registros oficiais sobre sua trajetória, mas é de se supor que a postura pouco subserviente do capoeirista tenha sido interpretada pelas autoridades da época como uma verdadeira subversão. Não por acaso, constam nas histórias sobre ele episódios de brigas grandiosas com a polícia, nas quais ele sempre se saía melhor, mesmo quando enfrentava as balas de peito aberto. Relatos de fugas espetaculares, muitas vezes inexplicáveis, deram origem a seu principal apelido: Mangangá é uma denominação regional para um tipo de besouro que produz uma dolorosa ferroada. O capoeirista era, portanto, "aquele que batia e depois sumia". E sumia como? Voando, diziam as pessoas...

Histórias como essas, verdadeiras ou não, foram aos poucos construindo a fama de Besouro. Que se tornou um mito - e um símbolo da luta pelo reconhecimento da cultura negra no Brasil - nos anos que se sucederam à sua morte.

Morte que ocorreu, também, num episódio cercado de controvérsias. Sabe-se que ele foi esfaqueado, após uma briga com empregados de uma fazenda. Registros policiais de Santo Amaro indicam que ele foi vítima de uma emboscada preparada pelo filho de um fazendeiro, de quem era desafeto. Já a lenda reza que Besouro só morreu porque foi atingido por uma faca de ticum, madeira nobre e dura, tida no universo das religiões afro-brasileiras como a única capaz de matar um homem de "corpo fechado"."

Mais informações no site do filme: http://www.besouroofilme.com.br/

Assista ao trailer oficial do filme: http://www.youtube.com/watch?v=W2QgxB5xw-k

sábado, 26 de setembro de 2009

Atividades no ACRA: Capoeira, Orquestra de Ritmos e Sons, Dança Afro, Grafitagem e Inglês

CAPOEIRA

Um dos aspectos principais do trabalho com a capoeira é a conscientização de seu valor como patrimônio cultural nas comunalidades africano-brasileiras e pelo que representa enquanto resistência dos povos africanos e africano-brasileiros e como referência do bairro de Itapuã e da cidade de Salvador, Ba.

No período de 13 a 25 de julho de 2009, a Associação Crianças Raízes do Abaeté, recebeu a visita do seu idealizador, contra-Mestre Luis Negão, e alunos/as do grupo Capoeira Abolição Oxford, sediada na cidade de Oxford, Inglaterra. O intercâmbio ACRA/Brasil com a Inglaterra se estabeleceu há cinco anos envolvendo também crianças e jovens da África do Sul. Através desse intercâmbio as crianças e jovens do ACRA têm a oportunidade de interagir com outras culturas comunicando as linguagens da tradição da capoeira da Bahia. Em 2008 a ACRA com o Grupo Capoeira Abolição Oxford criou as condições para a ida do professor Rupi e o aluno Jair "Teimoso" para à Áfirca do Sul e de dois jovens da África do Sul compartilharem suas experiências da cultura da capoeira na Bahia. São momentos muito especiais no contexto dos ciclos de culminância dos semestres na ACRA. Jair, que viajou para a África, disse ter gostado muito da viagem e das pessoas, que são muito "amigáveis". Após esse intercâmbio ele afirmou ter começado a pensar mais no seu futuro e de se dedicar mais aos estudos. Destacou que através da capoeira ele aprendeu a ser mais disciplinado e a respeitar os mais velhos.

Ainda em 2009 a ACRA está criando as condições para que a aluna Joice "Abelha" e o aluno Jair realizem o intercâmbio com a Inglaterra.

Em entrevista realizada pela equipe PRODESE/DAYÓ Joice, cujo apelido na capoeira é "abelha" comentou: “no futuro eu quero... pretendo ser uma bela capoeira e quero ensinar pras crianças também capoeira... e da viajem que vai ter [...] pra Inglaterra [...] além de conhecer o país, né... vou jogar capoeira lá, conhecer outras tradições, outras pessoas, outros lugares”.

Durante a culminância do primeiro semestre de 2009 o contra-mestre Luís Negão estabeleceu várias atividades em parceria com o professor Rupi e os integrantes do Grupo de Capoeira Abolição Oxford. Na oportunidade foram apresentados alguns resultados das oficinas que constituem o cotidiano da ACRA, a saber:

ORQUESTRA DE RITMOS E SONS

A orquestra de ritmos e sons, sob a responsabilidade do professor Sidney Argolo, articula o saber musical africano que envolve os berimbaus, xequerês, tambores e outros instrumentos da composição musical a partir de elementos da cultura de raiz. O Professor Sidney desenvolve ações em que os alunos constroem seus próprios instrumentos, conhecem sua história e a maneira correta de retirar o material da natureza sem agredí-la.

O desenvolvimento da musicalidade está vinculado às canções de domínio público e outras canções que fazem referência à cultura africana, ao cotidiano dos pescadores, das lavadeiras, das ganhadeiras e mantém vivos os valores comunais característicos da territorialidade do bairro de Itapuã e da cidade de Salvador-Bahia-Brasil. E neste momento dedicam-se a criação da música e coreografia para a história "Itapua, a Canção do Infinito" de autoria da professora Narcimária C. P. Luz. Vale ressaltar que "Itapuã, a Canção do Infinito" vem sendo elaborada também com a equipe PRODESE/DAYÓ formada por Paula Grejianin, Rosângela Accioly, Jacqueline P. Amor Divino e Daniela Cidreira. "Itapuã, a Canção do Infinito" será apresentada de modo itinerante pelo bairro de Itapuã e a cidade de Salvador promovendo o reconhecimento dos valores e linguagens que constituem a história de Itapuã.


DANÇA AFRO-BRASILEIRA

A atividade de dança promovida pela educadora Eliana dos Santos também está apoiada na tradição africana com coreografias que abraçam a corporeidade rítmica com vivências de preparação lúdico-estética. Nesta mobilidade, estão intrínsecos os traços da civilização africana que advém das vivências acumuladas pelas tradições, por sua vez são transformadas em linguagens, que se expressam, se intercambiam, evidenciando os modos de sociabilidades africano-brasileiros.

A dança e a orquestra de ritmos e sons estão sempre em diálogo intenso e neste momento de criação da coreografia da história “Itapuã, a Canção do Infinito" as aulas estão sendo realizadas em conjunto.


INGLÊS

A opção pelo ensino da língua inglesa está vinculada a necessidade de inserção no mercado de trabalho dos jovens e ao potencial turístico característico de Itapuã e da cidade de Salvador.

O curso de inglês oferecido na ACRA se desenvolve de maneira diferenciada, associado aos valores comunais do bairro. Assim, a dinâmica do curso contempla uma perspectiva inovadora que é a de trabalhar com textos do contínuo civilizatório africano-brasileiro, como por exemplo, o trabalho desenvolvido a partir de livros africanos e do livro "Os Contos Crioulos da Bahia", de Mestre Didi, cujo trabalho em sua primeira edição já está escrito em três idiomas o yorubá, o português e o inglês. Aqui, o aprendizado da língua estrangeira assume uma função importante, pois toda base metodológica desenvolvida pelo professor Abílio procura afirmar o patrimônio cultural africano-brasileiro saindo das referências europocêntricas lugar comum nos cusrsos de inglês. Então aprender Inglês na ACRA é através do universo de Itapuã!

O Professor Abílio de Mendonça além de professor de inglês é pesquisador de História, Arte e Literatura Africana.


GRAFITAGEM

Outra linguagem acolhida na ACRA é a grafitagem, pois tem uma relação especial com as expressões de resistência cultural através de sua exposição pelas ruas, colocando em evidência nossa pluralidade cultural.

O Professor Tárcio Vascolcellos tem em sua história o exemplo da arte da grafitagem como alternativa aos jovens da periferia e assim, procura divulgá-la vinculada ao respeito ao patrimônio público e privado e como veículo para o resgate e valorização da história, da biodiversidade, da cultura e identidade local partindo do repertório que as crianças e os jovens conhecem para confeccionarem desenhos e gravuras da territorialidade do Abaeté.


sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Homenagem do Blog do Acra a Miriam Makeba

A ACRA tem a honra de apresentar para os visitantes do blog a extraordinária cantora e interprete sul africana Miriam Makeba, cuja obra valiosa e voz magnífica disseminou pelo mundo através de muitas gerações, mensagens exigindo o direito a alteridade civilizatória africana e incentivando campanhas contra o apartheid e todas as políticas racistas que infelizmente ainda persistem pelo mundo.

Aqui as interpretações de Miriam Makeba soam como uma homenagem singela que fazemos as crianças e jovens da África do Sul vinculados as comunidades com as quais a ACRA vem intercambiando através do Grupo Capoeira Abolição Oxford que nesse continente reconhecido como “berço da humanidade” vem assumindo iniciativas socioeducativas de suma importância.

Miriam Makeba faleceu em 10 de novembro de 2008 em pleno palco onde iria apresentar-se no contexto de um concerto dentro da perspectiva da afirmação dos direitos humanos.




quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O REI NASCE AQUI - Entevista com Marco Aurélio Luz



O REI NASCE AQUI

Entrevista feita a Marco Aurélio Luz por Fala Nagô

Nesta entrevista exclusiva a Fala Nagô, Marco Aurélio aborda aspectos interessantes sobre a dinâmica do cotidiano curricular da experiência pluricultural africano-brasileira desenvolvida na Mini Comunidade Oba Biyi.A experiência educacional é relatada no livro “O Rei Nasce Aqui” em co-autoria com Mestre Didi Asipá. Marco Aurélio Luz possui os títulos de Elebogi na Comunidade terreiro Ile Asipá e de Oju Oba no Ilê Ase Opô Afonjá. É co-fundador da comunidade-terreiro e da Sociedade civil, acompanhando o Alapini Mestre Didi, desde quando se conheceram em 1974. Além dessa participação e compromisso comunitário, o Elebogi estende sua atuação em atividades acadêmicas e sócio-culturais, a saber: escultor de imagens da temática arte sacra afro-brasileira, Filósofo, Doutor em Comunicação, Pós-Doutorado em Ciências Sociais Paris V-Sorbonne-CEAQ-Centre D’Etudes sur L’actuel du Quotidien. Foi professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ, do Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense-UFF e da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia onde criou na Pós-Graduação e Graduação a Linha de Pesquisa Educação e Pluralidade Cultural.

FALA NAGÔ: Qual o significado e o valor desse novo livro em co-autoria com Mestre Didi?

MARCO AURÉLIO LUZ: “O Rei Nasce Aqui” é um livro que se baseia na experiência pedagógica da Mini Comunidade Oba Biyi, nome em homenagem a Mãe Aninha fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá.Na Mini Comunidade Oba Biyi foi implantado um currículo pluricultural coordenado pelo grupo de trabalho em educação da SECNEB -Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil no âmbito da comunidade-terreiro Ile Axé Opô Afonjá nas décadas de 70 e 80, e que resultou numa verdadeira revolução na educação.

FALA NAGÔ: O que você chama de “revolução na educação”?

MARCO AURÉLIO LUZ: Para atender as expectativas das crianças e jovens integrantes de uma comunidade de tradições culturais afro-brasileira, e que se sentiam rejeitadas pelas escolas do sistema oficial de ensino, constituiu-se um novo “continente pedagógico” que iria caracterizar o projeto educacional Mini Comunidade Oba Biyi. O caminho indicado na primeira metade do século passado por Mãe Aninha, Iyalorixá Oba Biyi, de ver as crianças da comunidade no dia de amanhã “de anel no dedo e aos pés de Xangô ”inspirou a trajetória de nascimento de uma nova linguagem educacional. Fundou-se um espaço pedagógico assentado na recriação das linguagens e nos valores da comunidade. Da tradição nasceu o novo; gerado na criação um novo currículo, uma nova forma de aprendizagem. Uma revolução à lá Copérnico, uma inversão, o sol e não a Terra está no centro do universo. A cultura que guarda o saber da tradição comunitária passa a ocupar o centro da experiência educacional.Todavia, é uma revolução a passos de pombo como diria Nietzsche.

FALA NAGÔ: De que modo o ensino oficial é incapaz de acolher as crianças e jovens e mesmo os rejeitarem?

MARCO AURÉLIO LUZ: O sistema oficial de ensino se ergue em “território” do contexto ideológico laico, positivista se podemos assim dizer. A República desdobrada do mundo colonial ou neocolonial constitui sua Razão de Estado baseando-se na filosofia de Augusto Conte e de suas derivações ao longo do tempo. Ela vai cimentar os aparelhos de Estado e os aparelhos ideológicos de Estado como o da educação.

FALA NAGÔ: Mas como se operacionalizava essa rejeição?

MARCO AURÉLIO LUZ: A teoria dos três estágios da sociologia positivista qualifica e desqualifica linguagens e valores de civilizações diferentes num arcabouço ideológico evolucionista e europocêntrico. Supostamente ela anuncia a chegada da humanidade ou, da sociedade humana, a etapa positivista isto é, o Estado deverá reger as relações sociais baseado nos cânones da ciência da sociologia. As demais etapas, ultrapassadas e combatidas são a metafísica, baseada na predominância do discurso filosófico e, a religiosa baseada na linguagem do mito. Nesse contexto teórico-ideológico, a rejeição possui inúmeros aspectos, é o terreno onde se constrói o apartheid ideológico, onde derivam os preconceitos e os estereótipos. No sistema oficial de ensino, o eixo central da rejeição é o lugar de rainha do currículo escolar a ser ocupado pela ideologia de onipotência de conhecimento que envolve a ciência e a pura abstração, e ainda, consequentemente a crítica, a condenação e o combate incessante aos discursos míticos e filosóficos. Acrescente-se ainda que por sua vez o discurso científico cada vez mais visa atender as demandas da tecnologia e essa, por sua vez as demandas do produtivismo industrial, de estimulação militarista, fator de acumulação incessante do capital financeiro, uma ordem de valores bem distinta das elaborações sobre o mistério do existir constituinte dos demais discursos, especificamente em outros contextos culturais.

FALA NAGÔ: Então é essa ideologia que alicerça o sistema oficial de ensino?

MARCO AURÉLIO LUZ: Exatamente, ainda mais que a ideologia não é só discurso, mas, sobretudo instituição e exigência de determinados comportamentos. Nesse contexto a escrita foi “abduzida”, ou sugada pela Razão de Estado e pela burocracia onde se constituem as chefarias dos especialistas na geração e manutenção da “ordem” nas cidades. A escola está estruturada em torno dessa escrita e dessa burocracia. Isso faz com que a aprendizagem seja, sobretudo, a adaptação do corpo e da mente para esse tipo de comunicação cujo epítome se caracteriza pelas bibliotecas, com seu silêncio, sua cor pálida, seus móveis discretos para uma comunicação solipcista, mediatizada pelo livro num único apelo sensorial – olho-cérebro; a denominada sujeição voluntária para alguns ou sujeição premiada. Enfim a constituição do sujeito produtor e consumidor, o incluído na concorrência tecnológica.

FALA NAGÔ: Fale-nos dessa sujeição voluntária e premiada.

MARCO AURÉLIO LUZ: A sujeição voluntária é uma noção integrante do pensamento de Michel Maffesoli. Refere-se à acomodação do cidadão ante as seduções encantadoras dos discursos da Razão de Estado. A sedução premiada é mais ou menos como aquela descrita na famosa música Conceição cantada ou interpretada por Cauby Peixoto: “Vivia no morro a sonhar com coisas que o morro não tem”...

Em contextos pluriculturais a principal conseqüência dessas sujeições é que os jovens têm de abandonar o contexto de sociabilidade de suas tradições para se adaptar ao sistema de valores europocêntricos se tornando no dizer de Eldridge Cleaver, ”almas no exílio”. Hoje em dia porém, já existe defesa de proteção a essas enganações, como na música de Assis Valente, “quem desce do morro não morre no asfalto”... “Lá vem o Brasil descendo a ladeira”... ou como prevenia Dorival Caymmi, “pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz...” ou ainda como cantou o poeta Zé Kéti, “quando derem vez ao morro toda cidade vai cantar...”

FALA NAGÔ: E como a experiência da Mini Comunidade Oba Biyi sobrepujou esses obstáculos que resultaram na constituição de um novo continente pedagógico baseado nos valores das comunidades afro-brasileiras?

MARCO AURÉLIO LUZ: A constituição de um novo currículo brotou dos valores e das linguagens da tradição, da territorialidade “da porteira pra dentro da porteira pra fora” como se expressou, certa feita, Mãe Senhora, Iyalorixá Oxum Miuwá. Na civilização africana a religião ocupa lugar central e predominante, na tradição nagô, nada de importante deve ser feito sem mobilização de axé. Para tanto tudo começa com a consulta ao sistema oracular, onde o jogo de Ifá ou Erindilogun constitui o imponderável e se caracteriza pela interpretação sacerdotal baseada numa classificação combinada de mitos ou contos ou ainda awon itan em língua yorubá.
A partir de então são designados os rituais a serem realizados, sempre envolvidos pela expressão estética que magnifica o sagrado promovendo emoção e alegria numa forma de comunicação que promove a sociabilidade comunitária, o povo junto compartilhando as elaborações do mistério do existir, a pulsão comunal.

FALA NAGÔ: Então é desse território que se constitui o currículo pluricultural africano-brasileiro?

MARCO AURÉLIO LUZ: Sim! As recriações dos mitos ou contos já constituíam um gênero literário na obra de Mestre Didi. Além do valor de verdade no contexto da liturgia, os contos guardam uma sabedoria acumulada pela antiguidade resultante da experiência humana preservada pela tradição. Eles possuem uma dimensão de aprendizagem expressando preciosas lições de vida, uma filosofia nagô. Agregando um valor literário na língua portuguesa do Brasil entremeadas da maneira de falar dos antigos africanos e seus descendentes, sentenças em língua yoruba, os contos foram adaptados para a experiência da Mini Comunidade Oba Biyi por Mestre Didi, e por iniciativa dele, dando-lhes uma linguagem dramática contextualmente apropriada. Nessa linguagem sobressaem-se as dimensões estéticas emergentes da comunidade, especialmente a música percurssiva combinada com as danças dramáticas ou coreográficas.

FALA NAGÔ: E qual foi o papel dos contos no currículo pluricultural?

MARCO AURÉLIO LUZ: Foi fundamental! Em torno deles foram se organizando as atividades da aprendizagem, o espectro de conhecimentos de variados matizes, e que culminavam a cada semestre letivo no Festival de Artes Integradas Mini Comunidade Oba Biyi. Nessas ocasiões as crianças interagiam com a comunidade expressando emoções e conhecimentos de uma estética constituída de ludicidade, saber e alegria. Nessa toada fundou-se um novo território de aprendizagem, o da educação pluricultural africano-brasileira. Inaugura-se a possibilidade de circulação entre mundos sócio-culturais diferentes com liberdade e integridade.

FALA NAGÔ: Nos cursos de formação de professores há um uso impreciso de termos como multiculturalidade, interculturalidade, diversidade cultural...

MARCO AURÉLIO LUZ: Desde o início do projeto se falou em educação pluricultural. Eu entendo cultura como uma expressão derivada de contínuos civilizatórios. Falando em Brasil nós temos uma pluralidade de culturas derivadas do contínuo civilizatório aborígine, ou como se menciona geralmente de ameríndio, do contínuo civilizatório europeu, e do contínuo civilizatório africano, esse o mais antigo da humanidade.

FALA NAGÔ: Concluindo...

MARCO AURÉLIO LUZ: ”Do Mundo Fechado ao Universo Infinito”, como nos diz o título do livro do filósofo Alexandre Koyré. Os contos narrados e adaptados por Mestre Didi para a Mini comunidade Oba Biyi, além de constituir o currículo pluricultural, possuem uma dimensão especial. Eles transcendem a limitação imanente, da construção ideológica positivista da materialidade do “real” característico do contexto das projeções industrialistas mercadológicas sobre a escola oficial, e abrangem um outro real, isto é, o do universo infinito, lições de vida que compreendem o mistério do existir.

Neste sentido o currículo que emerge da tradição africano brasileira acompanha os valores, éticos e estéticos, e a visão de mundo herdada de nossa ancestralidade africana projetada desde os inícios da humanidade e suas primeiras e magníficas civilizações, cuja origem se perde na noite dos tempos...

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

o Griot Doudou Rose Thioune visita o ACRA

Por  Rosângela Accioly



No dia 17 de agosto de 2009 tivemos um grande evento no ACRA, a visita do Griot Griot Doudou Rose Thioune, dentro do Projeto "KALAMA, um griot aficano visitando as escolas", de sua autoria .
A iniciativa da realização deste evento foi da Educadora Rosângela Lins Accioly e está contemplada no Projeto de sua autoria "Nro Ojù Oná: pensando caminhos", a proposta foi acolhida com muita alegria por toda a equipe pedagógica do Acra, pelos professore se pelo Presidente, Professor Narciso José do Patrocínio.

O Griot Doudou Rose Thioune é oriundo de duas famílias tradicionais e nobres de músicos e griot´s, cantor, dançarino, maestro, músico, compositor, inventor, reparador e afinador de instrumentos. O senegalês, nascido em Dakar, herdou o nome do avô, o primeiro músico de sucesso que divulgou a música do seu país no mundo ocidentalizado.
Eva Patrícia abriu a apresentação explicando para a atenta platéia o que é um griot: Um Griot é um contador de Histórias... que desde muito pequenos é preparado para isso, ele nasce numa família que tem a casta de griot (...) para ser griot tem que nascer em uma família de griot”

"O Griot “tem a função de divertir, entreter as pessoas, passar a história porque antigamente não havia nada escrito. Tudo que se sabe da história antigamente é o que os gritos viam e passavam de geração para geração, por isso são uma casta tão respeitada”.

O griot iniciou falando de si e de seu ofício e dos de sua casta de contar história e de tocar seus tambores. Apresentou também os tambores que traz consigo, explicando o nome de cada um deles e dos lugares da África em que são tocados.

A relevância da temática que trata da tradição oral é defendida por um dos mestres africano e conhecedor acerca das sociedades negro-africanas das Savanas Amadou Hampaté Bâ, que assim afirma:

Quando falamos de tradição em relação à história africana, referimo-nos à tradição oral, e nenhuma tentativa de penetrar a história e o espírito dos povos africanos terá validade a menos que se apóie nessa herança de conhecimento de toda espécie, pacientemente transmitidos de boca a ouvido, de mestre a discípulo, ao longo dos séculos. (BÂ, Hampaté A. 1982, p.181)”

Neste projeto, há uma preocupação com a preservação e valorização da figura do griot, pois este carrega em sua concepção de vida, a riqueza das histórias que foram preservadas de geração em geração pelos povos africanos que estão cheias de musicalidade, tradição, poesia e ludicidade.
A oficina de contação de história se faz importante uma vez que estão abrindo novos horizontes pedagógicos que legitimam perspectivas por meio da tradição oral, também os vínculos de sociabilidade relevantes para o fortalecimento da identidade cultural das crianças, dos jovens e adultos que nasceram e vivem intensamente Itapuã.


Cumprindo também o objetivo de intercâmbio com as escolas da comunidade, estiveram presentes os alunos do Grupo de Canto da Escola Municipal Manoel Lisboa, trazidos pela Pró Carminha e pela Pró Regina. Destaque especial para os alunos Sueide, Emerson e na Flávia.










Estiveram ainda presentes no eventos Thiago Bols estudante de Belas artes da UFBA e Décio Jr. estudante de música, também da UFBA.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

"Pra ficar bem mais Odara" - Poesias e Telas de Januária Avelina Correia do Patrocínio


Apresentamos nesse espaço do blog algumas colaborações da arte e poesia da Professora Januária Avelina Correia do Patrocínio que desde os anos sessenta participa da história da área de Educação em Itapuã. Foi vice-diretora do Colégio Estadual Governador Lomanto Júnior , vice-diretora do Colégio Rotary e responsável pela criação da Escola Verde Recanto cuja abordagem teórico-metodológica abriu muitas perspectivas de linguagens divulgadas em eventos nacionais e internacionais na área de Educação Infantil e Ensino Fundamental. Vale registrar que a professora Januária é uma das principais parceiras da ACRA pois a sede/espaço onde realizamos as atividades com as crianças e jovens foi cedida por ela desde 2005.


A Professora Januária Avelina Correia do Patrocínio é poetisa, autora do livro “Antologia Poética Ciclos da Vida”, 2005 (no prelo), co-autora no livro Identidade Negra e Educação, Salvador: Ianamá-1986; colaborou com diversas poesias no Sementes Caderno de Pesquisa publicação do Programa Descolonização e Educação-PRODESE e autora de telas inspiradas no cenário de Itapuã com exposições realizadas no Festival Awon Esó PRODESE/UNEB-2005. Licenciada em Geografia pela UCSAL; Especialização em Psicopedagogia pela UFBA; Formação em cursos livres promovidos pela Escola de Belas Artes da UFBA. Participou de muitos eventos nacionais e internacionais apresentando idéias e propostas pedagógicas na área de Educação Infantil e Ensino Fundamental.


Itapuã

Natureza pura sem igual
Mar com suas ondas a beijar
Natureza pura dominando
Raios de sol iluminando

Como é lindo o amanhecer
Com suas aves de candura
Onde o verde ainda perdura
Com coqueiros franqueando a areia
Barcos ao longe vislumbrando sereias

Itapuã cheia de pedras
Esculpidas pelos mares
Pedra que ronca
Areias amarelas e brancas
Grossas e finas a depender das praias

Mas o brilho do sol
E o clarão do luar
Sempre estão presentes a embelezar

A brisa é boa
A depender da maré
Itapuã da Lagoa do Abaeté

Itapuã de gente bonita
Banhadas pelo sol
Pescadores com destrezas
Armados de cestas e anzol

Itapuã dos beija-flores
Dos cardeais e rouxinóis
De violetas azuis
E samambaias que reluz

Itapuã paraíso
Tudo é belo em você
Até a chuva é obra de arte
Entre raios e trovões
Atrapalha a pescaria
O que raramente acontece
Você é um pedaço de céu
Na imensa crosta terrestre


Poesia e tela de autoria de Januária

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Blog do Acra Entrevista: Rosângela Accioly Lins Correia


Blog do Acra Entrevista: Rosângela Accioly Lins Correia, autora do projeto "Nro Ojù Onà: : Pensando Caminhos"

em 11.08.09, por Paula Cristina Grejianin

Paula Grejianin: Rosângela, o que é o Projeto "Nro ojù Onà: Pensando Caminhos"?


Rosângela Accioly: O projeto Nró Ojú Onà: pensando caminhos de minha autoria surge das pesquisas epistemológicas do projeto Dayó: Compartilhando a Alegria Socioexistencial em Comunalidades Africano-Brasileiras, que busca aprofundar as questões históricas, culturais e sociais do bairro de Itapuã interligando-as a sua arkhé, de autoria da professora Doutora Narcimária Correia do Patrocínio Luz coordenadora do PRODESE/CNPq/UNEB Programa Descolonização e Educação vinculado a Universidade do Estado da Bahia e ao Departamento de Educação do Campus I.


As proposições metodológicas que estão presentes no projeto foram elaboradas por meio de minha participação na monitoria de extensão da Universidade do Estado da Bahia junto ao ACRA Associação Crianças Raízes do Abaeté, dando origem às atividades teórico-metodológicas que partiram da pesquisa acerca desta territorialidade realizadas pelo Dayó. O projeto procura manter viva a presença do continuum civilizatório africano-brasileiro e dos Tupinambás, base desta territorialidade em atividades pedagógicas como: Capoeira, Dança Afro-Brasileira, Grafitagem, Inglês, Narrativas Míticas Milenares, Preservação da História Oral Africana e Africano-Brasileira, Ithans, Orquestra de Ritmos e Sons, dentre outros.


P.G.: Qual o objetivo deste projeto?


R.A.: O objetivo do projeto é trabalhar proposições pedagógicas fundamentalmente imbricadas com as pesquisas da arkhé do bairro de Itapuã refletindo acerca de suas origens, que estão alicerçadas sobre o legado do povo Tupinambá e da presença africano-brasileira fazendo nossos jovens se perceberem presentes neste patrimônio e nas ações pedagógicas mantidas pelo trabalho desenvolvido na Associação Crianças Raízes do Abaeté. Pois é a geração sucessora de Nzinga* que efetivamente é herdeira desta herança e nela buscamos desenvolver este trabalho que acolhe muita riqueza e diversidade.


P.G: Quais os impactos esperados?


R.A.: O projeto repensa a exclusão do patrimônio histórico e cultural das heranças africana e dos povos inaugurais no currículo das escolas brasileiras em séculos de escolarização, por esta razão buscamos propor ações baseadas na lei 11.645/08 resultado das lutas das comunalidades e dos Movimentos Negros no Brasil que foi sancionada pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva que diz: “Art.26- Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena.
§ 1o O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da áfrica e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil.
§ 2o Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileira.”


Os nossos impactos já estão sendo sentidos em atuações como: preparação dos professores para atuarem com a diversidade étnica e cultural existente em nossas territorialidades, apresentações acadêmicas que nos respaldam teoricamente e oportuniza o comunicado deste trabalho para outros educadores a exemplo do CONFELE-IV CONFERENCE INTERNATIONAL ON EDUCATION, LABOR AND EMANCIPATION que ocorreu no período de 16 a 19 de junho no Hotel Tropical, Salvador, Bahia (Brasil). O objetivo da CONFELE é divulgar as iniciativas na área de Educação que valorizam e afirmam a diversidade cultural como canal importante para a “equidade, potencialiazação das ações sociais”. Também a construção de blog e site do ACRA, publicações, coletânea de imagens das dinâmicas territoriais e comunalidades presente em Itapuã, realização de evento local que acolhe os resultados das elaborações pedagógicas na ONG pertinentes ao trabalho desenvolvido em 2009 dentro do projeto Nro Ojú Ònà: pensando caminhos, intercâmbios com o grupo Capoeira Oxford na Inglaterra, e continuidade das relações institucionais estabelecidas pelo PRODESE no âmbito acadêmico-científico.


Nossa equipe pedagógica é composta pelo gestor da Associação Crianças Raízes do Abaeté, o professor Narciso José do Patrocínio que acolheu o projeto de maneira singular na ONG, a professora Doutora Narcimária Correia do Patrocíno Luz coordenadora do PRODESE Programa Descolonização e Educação que tem como principal objetivo, dentro deste contexto excludente na história da Educação no Brasil o de acolher o repertório de valores e linguagens do continuum civilizatório africano, africano-brasileiro e dos povos inaugurais no cotidiano do currículo das escolas brasileiras. Além do grupo de capoeira Oxford Inglaterra que juntamente com o idealizador da ONG, o Sr. José Luis Correia do Patrocínio Contra-Mestre de Capoeira apóia o desenvolvimento das condições infra-estruturais da instituição. Também do aporte teórico da mestranda Jackeline do Amor Divino, e das graduandas concluintes do curso de pedagoga pela Universidade do Estado da Bahia e pesquisadoras do PRODESE Rosângela Accioly Lins Correia, Daniela Cidreira, Paula Cristina Grejianin, e o corpo docente da Associação Crianças Raízes do Abaeté professor Rupi - Capoeira; Sidney Argolo - Orquestra de Ritmos e Sons; Abílio Mendonça - Inglês; Tarcio Vasconcelos - Grafitagem e Eliana Santos - Dança Afro-Brasileira.


*Nzinga é Rainha entre 1624 e1663 do povo Ginga de Matamba e Angola, nascida em Cabassa, interior de Matamba.


sábado, 8 de agosto de 2009

IV Batizado de Capoeira e Troca de Cordas da Associação Crianças Raízes do Abaeté e do Grupo Capoeira Abolição Oxford - 25 de julho de 2009

CAPOEIRA

Capoeira é luta de bailarinos. É dança de gladiadores.

É duelo de camarada. É jogo, é bailado, é disputa

– simbiose perfeita de força e ritmo, poesia e agilidade.

Única em que os movimentos são comandados pela música e pelo canto.

A submissão da força ao ritmo.

Da violência à melodia.

A sublimação dos antagonismos.

Na capoeira os contendores não são adversários,são “camaradas”. Não lutam, fingem lutar.

Procuram – genialmente – dar visão artística ao combate.

Acima do espírito de competição há neles um sentido de beleza.

A capoeira é um artista e um atleta,
um jogador e um poeta.

(Dias Gomes)



No dia 25 de julho de 2009, foi realizado no ACRA o IV Batizado de Capoeira e troca de cordas.



Estiveram presentes o Contra-Mestre Luis Negão Idealizador e fundador da Associação Crianças Raízes do Abaeté e do Grupo Capoeira Abolição de OXFORD, os mestres Olavo, Daiola e Charlatão e muitos outros convidados, contra-mestres, formados, alunos antigos do ACRA e amigos capoeiras.

Foi um lindo evento que envolveu à todos que estavam presentes