sábado, 11 de abril de 2015

OBA NIJO, LITERATURA ODARA


                  Por Marco Aurélio Luz                                                          


 Em Oba Nijo, O rei que dança pela liberdade, o livro de Narcimária do Patrocínio Luz nos leva a dar um passeio pela história da presença do negro baiano na luta pela liberdade através de um fato, a insurgência e revolta nas armações de pesca de Itapuã no século XIX, liderada por Francisco admirado como grande dançarino segundo as notícias oficiais.
Baseado num fato histórico de descrição nua e crua dos arquivos policiais, o historiador em geral procura historiar o acontecido “cientificamente” dentro dos cânones materialistas empiristas.




                                        Foto: acervo do autor

Não é esse o caminho de Narcimária para nos contar essa história que será uma outra história com lindas ilustrações de Ronaldo Martins. É a história que leva em conta a realidade do universo simbólico afro brasileiro.



                                         Narcimária Correia  do Patrocínio Luz
                                                   Foto: Maurício Luz


O universo simbólico é oriundo do pensamento e das formas de comunicação da tradição africana transposta para a Bahia e para o Brasil.
A religião é a fonte da civilização e das culturas africanas. 



                                   Ojá o mercado ilustração de Ronaldo Martins 

Na tradição africana, música, dança, vestuário, paramentos, emblemas, concorrem para a ação ritual. O bom e o belo são inseparáveis, como expressa o conceito de ODARA na cultura nagô. No culto aos orixá as danças, combinações de ritmo e gestos, simbolizam os princípios do universo que constituem a cosmogonia.
A dança é imprescindível na dinâmica do sagrado. Pés descalços em contato com a terra, o solo consagrado.  Para os nagô, o ¨céu¨ é no chão.
Uma sacerdotisa ou sacerdote grande dançarino, são muito admirados, pois além de possuírem o dom, o talento ou ¨pé de dança¨, expressam profundos conhecimentos dos fundamentos e da visão de mundo que constituem as identidades e identificam o grupo.
 Narcimária não se afasta desse cânone para nos apresentar a história fascinante de Francisco, Obá Nijo, o Rei da Dança que juntamente com sua mulher e companheira Francisca Ade Bu Mi lideraram uma luta pela liberdade em Itapuã.
Em seu livro ABEBE, ela já anunciara; “é necessário que o corpo saia da inércia e vibre com o ritmo do cosmo.”.



                                                       
                                                  Coreógrafo  Ismael Ivo 
    Foto disponível em http://spcd.com.br/depoimento_ismael_ivo.php


O “fato histórico” é envolvido pela imaginação criativa dos valores e linguagens da tradição afro-brasileira. É a poética que vai constituir a narrativa de Narcimária. É a atmosfera da alusão à iniciação aos poderes da religião, que permite a autora embelezar seu texto com encantadoras fantasias.



     
                                             Puxada de rede


É todo um imaginário de encantamento poético que emerge dos fatos e torna-os mais reais.
Assim a luta pela liberdade deverá se caracterizar também pelos fundamentos da capoeira; que contém simultaneamente, aspectos de religião, invocação à ancestralidade, preparação e pedidos de proteção, gestos rituais, valor da tradição e antiguidade, hierarquia com base nas iniciações, os nomes simbólicos, o conjunto de música percussiva, o berimbau, o repertório pertinente das cantigas, a ordem hierárquica da roda, saudações, técnica de sucessão de golpes baseada na ginga, segredos, mandingas...



Foto: Marcelo Luz

O efeito estético da literatura sublime da autora resultante de suas emocionantes vivências juvenis em Itapuã se harmoniza sinergicamente com a beleza das ilustrações de Ronaldo Martins.
Enfim é esse contexto cultural que envolve o texto de Narcimária que o torna belo e bom, ODARA, como acontece com as legítimas filhas e mães de Itapuã, mães e filhas da Bahia e do Brasil.

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