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PRODESE E ACRA



VIDA QUE SEGUE...Uma
das principais bases de inspiração do PRODESE foi a Associação Crianças Raízes
do Abaeté-Acra,espaço institucional onde concebemos composições de linguagens
lúdicas e estéticas criadas para manter seu cotidiano.A Acra foi uma iniciativa
institucional criada no bairro de Itapuã no município de Salvador na Bahia, e
referência nacional como “ponto de cultura” reconhecido pelo Ministério da
Cultura. Essa Associação durante oito anos,proporcionou a crianças e jovens
descendentes de africanos e africanas,espaços socioeducativos que legitimassem
o patrimônio civilizatório dos seus antepassados.
A Acra em parceria com o Prodese
fomentou várias iniciativas institucionais,a exemplo de publicações,eventos
nacionais e internacionais,participações exitosas em
editais,concursos,oficinas,festivais,etc vinculadas a presença africana em
Itapuã e sua expansão através das formas de sociabilidade criadas pelos
pescadores,lavadeiras e ganhadeiras,que mantiveram a riqueza do patrimônio
africano e seu contínuo na Bahia e Brasil.É através desses vínculos de
comunalidade africana, que a ACRA desenvolveu suas atividades abrindo
perspectivas de valores e linguagens para que as , crianças tenham orgulho de
ser e pertencer as suas comunalidades.
Gostaríamos de registrar o nosso
agradecimento profundo a Associação Crianças Raízes do Abaeté(Acra),na pessoa
do seu Diretor Presidente professor Narciso José do Patrocínio e toda a sua
equipe de educadores, pela oportunidade de vivenciarmos uma duradoura e valiosa
parceria durante o período de 2005 a 2012,culminando com premiações de destaque
nacional e a composição de várias iniciativas de linguagens, que influenciaram
sobremaneira a alegria de viver e ser, de crianças e jovens do bairro de
Itapuã em Salvador na Bahia,Brasil.


sábado, 22 de outubro de 2011

SINBAIANIDADE ECLODE EM SEABRA

 
Entre 13 a 16 de outubro realizou-se importante Simpósio  no Campus XXIII da UNEB na cidade deSeabra. Além de importantes e renomadas personalidades do mundo acadêmico também artístico e literário, muitos estudantes de diversas cidades do interior compareceram no evento.
A abertura atendeu as formalidades de praxe com a mesa composta das autoridades que juntamente com o público ouviram o hino nacional da Nigéria,Brasil,e da Bahia.

Mesa de abertura composta por autoridades do I Simpósio Internacinal de Baianidade

A ACRA através da parceria com o PRODESE-CNPq, esteve representada pela professora Dra. Narcimária do Patrocinio Luz e pelo Professor Dr. Marco Aurélio Luz,que participou da Conferência de abertura fazendo a apresentação do Professor Dr. Muniz Sodré.Um auditório lotado e ávido de novas percepções sobre o tema acompanhou atento o desenvolvimento da apresentação do conferen discursos.

Auditório lotado para a cerimônia de abertura do Simpósio
 Na apresentação do conferencista, Marco Aurélio relatou que  numa viagem à Bahia em 1973 a convite de Muniz, ele  lhe apresentando aspectos do que chamou de baianidade profunda. A primeira e primária, foi a familiar, seus pais que lhe acolheram na residência em Feira de Santana demonstrando muita ternura pelo filho e que ricocheteava nele, e nas longas conversas emergiam aspectos da identidade que os caracterizavam. Marco se lembrou de um prato de maturi inesquecível feito pela mãe, e de seu Cabral contando as aventuras por que passou como mascate de jóias e pedras preciosas pelos sertões dominados pelo afamado coronel Horácio de Matos.
Depois veio na lembrança o impacto fulminante que iniciou sua vinda para a Bahia. Foi a ida ao terreiro Ilê Agboula de culto aos ancestrais masculinos nagô em Itaparica, âmago da ancestralidade que permite garantir a continuidade da tradição religiosa que sustenta a presença preponderante da cultura afro- baiana na Bahia.
Por fim destacou os ensinamentos que Muniz lhe proporcionou advindos da sabedoria da capoeira. Muniz foi discípulo de Mestre Bimba.
Por sua vez Muniz fez uma belísima explanação, destacando que mesmo em tempos de globalização é o vínculo da localidade que alimenta a identidade. A identidade não é algo em abstrato mas se constitui pelas vivências e experiências que ocorrem dentro de contextos de sociabilidade determinados, localizados. Esses vínculos de pertença enriquecem as características de valores que constituem determinados grupos ou povos em suas singularidades. É nessa trama entre as características do recôncavo e do sertão que se caracteriza a baianidade.

Conferência de abertura do Simpósio.A Esquerda Professor Doutor Marco Aurélio Luz que fez a apresentação do conferencista Muniz Sodré.A direita o Professor Doutor Muniz Sodré realizando a Conferência Magna "Sobre a Maneira de Estar no Mundo"
Após os muitos aplausos, o SINBAIANIDADE através do professor e Diretor do Departamento XXIII da UNEB Gildeci de Oliveira Leite,também  presidente da Comissão Organizadora do evento,concedeu 16 comendas a pessoas de merecimento dentre as quais,o professor Marco Aurélio Luz e  a professora Narcimária do Patrocínio Luz.

Marco Aurélio Luz e Narimária Luz foram homenageados no evento.
Na foto apresentam  os emblemas representativos das respectivas Comendas que receberam no âmbito do SINBAIANIDADE.
Os homageados entre graduandas que participaram do Simpósio.
Também foi descerrado um painel com a caricatura de notáveis que inspiraram por suas trajetórias a realização do evento.

Painel com as caricaturas dos notáveis do sinbaianidade

Outras atividades compuseram o SINBAIANIDADE na noite de abertura, dentre elas uma noite de autógrafos e lançamentos de livros.
Marco Aurélio Luz fez um pré-lançamento da 3ª edição do livro CULTURA NEGRA E IDEOLOGIA DO RECALQUE e apresentou também AGADA Dinâmica da Civilização Africano-Brasileira (a ser lançado brevemente em 3ª edição) e CULTURA NEGRA EM TEMPOS PÓS MODERNOS já em 3ª edição todos pela EDUFBA.


Professor Gildeci Leite Presidente do Simpósio prestigiando o pré-lançamento do livro Cultura Negra e Ideologia do Professor Marco Aurélio Luz

Público presente no pré-lançamento do livro Cultura Negra e Ideologia do Recalque



Da esquerda para a direita Professora Filismina Saraiva que integrou a Comissão Organizadora do SINBAIANIDADE,Professora Narcimária Luz e o Professor Gildeci Leite Presidente do SINBAIANIDADE.

Outra programação que estivemos presente foi a mesa redonda “Ancestralidade Nagô e a Identidade Afro-baiana”.
A comunicação inicial foi da professora Dra. Narcimária do Patrocínio Luz intitulada “Mosaico Afro-Baiano de Educação”.

Professora Narcimária Luz fazendo a sua exposição sobre Mosaico Afro-Baiano de Educação
Utilizando-se de uma seqüência de imagens de espirais, formas geométricas bastante presente nos artefatos, no artesanato,e na arte afro-baiana,a professora foi fazendo alusões  as formas presentes na composição urbana das cidades tradicionais, como Ilé Ifé, cidade de origem do povo nagô yorubá e finalmente, na religião se referindo a espiral Okotó que tem na sua base, seu ponto inicial o Exu Yangi.
Todo ser que existe tem o seu Exu, assim os seres humanos tem o seu Bara o rei do corpo. É o Exu Oloja que toma conta do mercado origem da cidade em frente ao palácio do Oba, rei, rodeado pelas famílias e linhagens fundadoras. Na formatação espiralada da cidade, quanto mais próxima do núcleo inicial mais antiga e respeitada é a linhagem. Ela contém o culto aos ancestrais fundadores que garantem a continuidade da circulação da força espiritual, axé, que promove e permite a expansão das gerações.
Ela destacou que essa territorialidade envolvida pelos valores de comunalidade e ancestralidade estão ausentes do sistema de ensino. Mesmo agora, a África é apresentada numa cartografia abstrata sem nenhuma relação com os/as alunos/as que respiram a presença da cultura nagô especialmente na Bahia.Narcimária citou o caso do jovem da Mini Comunidade Oba Biyi que em contraposição a apresentação da África como um mapa, ele fez a escultura de um Baba Egun um ancestral masculino, uma África como ele sentia e expressava, uma África viva.
Depois o Sr. José Felix dos Santos, descendente da tradicional família Axipá, originária de Oyó antiga capital do império yorubá e uma das sete famílias fundadoras da cidade de Ketu, cidade de importância especial para a continuidade da tradição africana na Bahia e no Brasil. O Sr. José Felix ocupa o posto de Otun Alaba no terreiro Ilê Axipá de culto aos Egungun, ancestrais masculinos,e na Mesa sobre “Ancestralidade Nagô e a Identidade Afro-baiana”  proferiu importante comunicação,realçando o significado do culto aos ancestrais para a continuidade da tradição e as diferenças com o culto aos orixá “o to egun oto orixá.”
Mesa “Ancestralidade Nagô e a Identidade Afro-baiana”.
A esquerda a Professora Narcimária Luz,ao centro o Sr.José Félix dos Santos e a direita o Professor Marco Aurélio Luz

 Depois ele destacou a trajetória da família Axipá. Primeiramente sua tetravó Sra. Marcelina da Silva, Iyalorixá Oba Tosi, uma das fundadoras da primeira casa de culto aos orixá em Salvador o Ilê Iya Nasô. Depois a Sra. Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora Iyalorixá Oxun Muiwa do Ilê Axé Opo Afonja e Iyanasô, sua bisavó, e finalmente seu avô, Sr. Deoscoredes M. dos Santos, Mestre Didi Axipá e Alapini Ipekun Ojé, o sacerdote mais importante dos cultos de Egun, os ancestrais masculinos da tradição nagô e também fundador do Ilê Axipá.
Ele abordou a responsabilidade do trabalho,a dedicação necessária de manter esse legado religioso e a luta pelo reconhecimento e legitimação dessa riqueza cultural e religiosa que engrandece o povo da Bahia e do Brasil.
Marco Aurélio Luz Oju Oba e Elebogi falou sobre a tradição de culto aos Egungun. Começou dizendo que para os nagô nada de importante pode ser feito sem axé. Quem garante a mobilização e a circulação de axé na forma de oferendas para as entidades que protegerão e proporcionarão o êxito das ações a serem desenvolvidas são os sacerdotes e as sacerdotisas preparadas e iniciadas para lidar com os mistérios e preceitos da tradição religiosa. Eles têm uma vida dedicada em atender aqueles que os procuram para obter a melhor maneira de cumprir o destino enquanto estiver nesse mundo. Aqueles sacerdotes e sacerdotisas que se destacaram, que o destino lhes reservou essa missão e tem muitos filhos, e que sobretudo são guardiões da tradição e protetores da comunidade, poderão se tornar ancestrais venerados e cultuados após a partida para o além. Se for sacerdote do culto aos Egungun, ancestrais masculinos, um ojé agba poderá se tornar um Baba Egun.O Baba Egun receberá oferendas e homenagens e se apresentará nas cerimônias publicas com o egbé a sociedade de fiéis reunidos para conjuntamente celebrar, se divertir e confraternizar distribuindo axé com o banté paramento de sua roupa sagrada em meio a dinâmica estética que magnifica o sagrado para que a comunidade obtenha a força espiritual necessária para o bem viver nesse mundo.
A estética da tradição nagô, na dança, na música, nas vestimentas, paramentos, emblemas, na culinária, a sabedoria acumulada ao longo de séculos, o complexo de conhecimentos sobre a vida, a visão de mundo, cosmogonias etc, se desdobram dos Ilê Axé e suportam a cultura que marca profundos traços da identidade afro-baiana âmago da “baianidade”.

MAPAS POÉTICOS:TRANSCENDENDO A CARTOGRAFIA DO RECALQUE

Por Narcimária Luz

O vídeo a seguir é um convite especial para educadores/as.
Qual o propósito?
Realizar o exercício necessário à superação dos grandes sistemas explicativos sobre o mundo o estar no mundo!
Infelizmente  o que chamamos "mundo",é apresentado as nossas crianças, jovens e adultos fixado na idéia e/ou representação de uma pólis universal baseada nos valores greco-romano, anglo-saxão, judaico-cristão.
 Em 2010 o blog da ACRA apresentou o vídeo  da música “Sei lá não sei Mangueira” de Hermínio Belo de Carvalho e Paulinho da Viola,interpretada pela Velha Guarda da Mangueira e Beth Carvalho. Hoje apresentamos a mesma música, interpretada pela saudosa Clementina de Jesus.
Esperamos que esse vídeo entre novamente nos corações dos/as educadores/as ajudando-os a transcender a ditadura do "dever ser" da cartografia dos livros didáticos,televisão e WEB.

O RIO, A FLORESTA E A CIDADE: TRANÇANDO VALORES, TECENDO CULTURA E ENTRELAÇANDO SENTIDOS RELIGIOSOS/PARTE II

Por Magnaldo Oliveira dos Santos



NÃO É ESCRITO, É FALADO! O ENSINAMENTO BOCA A OUVIDO PRODUZ CULTURA E CONSTRÓI IDENTIDADES

Tudo começa e se desenrola por meio e através da linguagem, uma vez que o ser humano é um ser verbal que se expressa e concebe o mundo através da palavra. Toda sua compreensão de mundo e sua relação com ele se realizam pela palavra. Então, a palavra proferida, falada, tem um poder de ação, movimento, construção ou destruição. A transmissão simbólica, a mensagem, se realiza conjuntamente com gestos, com movimentos corporais. A palavra é vivida, pronunciada e está carregada de ondulações, de emoção, sentimento e força, de história pessoal e/ou coletiva, do poder e da experiência de quem a profere ou do grupo a profere. A palavra transporta o alento-veículo existencial e atinge os referentes e planos mais profundos da personalidade.
Foi, preponderantemente, através da transmissão oral que várias sociedades negro-africanas nos possibilitaram o conhecimento, sobre si mesmas, suas religiosidades e seus legados civilizatórios, ou seja, sua identidade/alteridade, bem como a manutenção desses valores aqui no Brasil, através, das narrativas de itan, òwe, adúrà, oríkì, orin, ìrémòjé, ìjálá, etc., bem como outras narrativas, das variadas línguas, culturas e religiosidades, dos diferentes povos africanos, também, para cá trazidos.

Pamò Ìránti Dáàgbára! (Preservar a Memória Dá Poder!)

Memória, para nós aqui, é também o acervo individual e/ou coletivo ou o conjunto dos registros pessoais e/ou grupais que selecionamos para armazenar/preservar e que constitui ou passa a constituir o patrimônio, histórico, linguístico, artístico e cultural de um determinado grupo. Esses acervos individuais ou coletivos não se compõem aleatoriamente e estão disponíveis por meio de criteriosos processos de lembranças.
A memória social é um conjunto de registros e processos eleitos coletivamente como significativos por uma dada sociedade. Ela define, em grande parte, a teia cultural na qual os indivíduos estão inseridos e compõem sua visão de mundo. Nesse sentido, a memória social estrutura, substancialmente, os valores simbólicos de uma sociedade [...] (WORCMAN, 2007, p. 8).




Para nós africano-brasileiros, nossos ancestrais são memórias, referências de cultura, educação, princípios e aprendizagens que nos orientam coletivamente, através dos tempos. Nossas comunidades-terreiro não são espaços estáticos, que se prestam a ser observatórios, elementos de especulações e de teorias científicas, guardando um passado inerte e congelado no tempo, a exemplos dos museus e suas peças compositoras, muito pelo contrário, elas são territórios pulsantes de vidas, acervos e memórias vivas que se reelaboram diária e constantemente, entrosando passado, presente e futuro, assim como, o mundo sagrado e o mundo cotidiano, em diálogo constante. Tudo isso, se constitui como elementos fundamentais na formação e construção/reconstrução das identidades individuais e coletivas dos povos negros.

Awo ni o, Awo ni mi! A Comunidade e a Formação das Identidades Pessoais e Coletivas

Nas civilizações tradicionais africanos e em nossas comunidades-terreiro, o ser está plenamente ligado e integrado à coletividade, há o sentimento de pertença e de colaboração para o bem comum a todos. O sujeito, então, enquanto indivíduo é um ser único com um lugar e função no grupo, observado e respeitado por todos.
A sabedoria está na dialética da individualidade interagir e se expressar na coletividade. Loureiro (2004, p. 49) declara: “O conceito de identidade está originalmente relacionado ao fato de um indivíduo construir a sua própria história. [...] A identidade passa a ser articulada a interação, autonomia e processos sociais”.



Por essa concepção que as comunidades-terreiro são territórios de produção de culturas negro-africanas que são elaboradas e reelaboradas no cotidiano das mesmas, através dos seus modos operandi e vivendi. Alguns como: o ético-estético que anunciam esses sujeitos da “porteira para dentro e da porteira para fora”; a gastronomia com suas variadas formas, consistências, cores, odores e sabores com suas sofisticadas elaborações de pratos votivos e de uso diário, não somente de uso dos membros das comunidades-terreiro, mas, que há muito já ganhou o domínio público; artes plásticas nas suas mais diversas modalidades e utilizações de variados materiais como o barro, a louça, a madeira, a pedra, as fibras etc., para representações antropomórficas, e de objetos comuns e sagrados, entre outras possibilidades e elaborações; as artes cênicas que, através das ricas coreografias que representam o sagrado e variadas instâncias do mesmo, bem como os seres míticos e ancestrais; a arte musical com suas sonoridades, cânticos, tons, ritmos e intensidades complexas e sofisticadas; os vestuários e suas diferentes representações de modelos, cores, tecidos, texturas, adereços, ferramentas e instrumentos sagrados e consagrados; visões de mundo; o respeito à ancianidade; a relação para com a natureza e seus elementos materiais e imateriais; comportamentos; linguagens e modo de ser e estar no mundo, entre outros desdobramentos, tudo isso, concomitantemente, constrói/reconstrói identidades, valores pessoais e coletivos, nas relações internas e externas ao grupo de pertença e da própria comunidade-terreiro.

REFEREÊNCIAS:

DURKHEIME, Émile. Sociologia e Filosofia. 2. ed. Rio de Janeiro: Forence Universitária, 1970.

ESPÍRITO SANTO, Maria Bibiana do. “Da Porteira Para Dentro da Porteira Para”. Mãe Senhora Òsun Muiwa. Terceira Ìyálórìsà na ordem de Sucessão do Ilé Àse Òpó Àfònjá. Em São Gonçalo do Retiro- Salvador: 1942/1967.

GOMES, Mércio Pereira. Antropologia: ciência do homem: filosofia da cultura. São Paulo: Contexto, 2008.

LUZ, Narcimária Correira do Patrocínio. Awasojú: dinâmica Existencial das Diversas Contemporaneidades. Revista da FAEEBA, Salvador/Bahia, v. 8, n. 12, p. 45-80, 2000.

SODRÉ, Muniz. Claros e Escuros: Identidade, povo e mídia no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1999.

Magnaldo Santos é Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB; Pesquisador do Programa Descolonização e Educação – PRODESE; Especialista em História e Cultura africana e afro-brasileira pela Fundação Visconde de Cairu; Especialista em Consciência e Educação pela Fundação Ocidente - ISEO; Professor de Língua e Civilização yorùbá em cursos de extensão da UNEB (2001/2002), UFBA (1998/2002) e Fundação Gregório de Mattos (2002/2003); Consultor pela Secretaria Municipal de Educação de Salvador (SMEC) em Africanidades e Lei 10.639/03. Professor Convidado da Faculdade D. Pedro II na disciplina História e Cultura Africana no Curso de Pedagogia

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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O RIO, A FLORESTA E A CIDADE: TRANÇANDO VALORES, TECENDO CULTURA E ENTRELAÇANDO SENTIDOS RELIGIOSOS – PARTE I

Por Magnaldo Oliveira dos Santos



Nossa contribuição, de forma mais geral, pretende: evidenciar as comunidades-terreiro como territórios sagrados de elaborações e afirmações de valores culturais-civilizatórios africano-brasileiros. De modo específico destacaremos as comunidades-terreiro como instituições de preservação e reelaborações das tradições religiosas dos negros no Brasil; ressaltar as comunidades-terreiro como espaços de produção de culturas e construção de identidades dos povos negros e estabelecer um diálogo entre os valores simbolizados pelo rio, a floresta e aqueles representados pela cidade. A metodologia da pesquisa foi qualitativa com a História Oral Temática e a técnica, entrevista narrativa.     
O presente texto é um pequeno recorte dentro da grandiosidade da episteme do continuum civilizatório negro-africano, tecido, a partir da minha vivência, “da porteira para dentro” (MÃE SENHORA ÒSUN MUIWA, 1942/1967), ou seja, indivíduo pertencente às tradições religiosas de nação nàgó, parte constituinte, do universo das religiões de matrizes africanas aqui no Brasil. Ele foi elaborado com base em um dos  capítulos do trabalho de pesquisa por mim desenvolvido e intitulado "Ojó Orúko: um reencontro com a ancestralidade negra", para compor a dissertação de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade , Linha de Pesquisa Processos Civilizatórios, Educação, Memória e Pluralidade Cultural, pela Universidade do Estado da Bahia.
A abordagem metodológica da pesquisa foi qualitativa, com revisão bibliográfica e pesquisa de campo de inspiração etnográfica. A técnica escolhida foi Entrevista Narrativa, fundamentada na metodologia da História Oral Temática. A Territorialidade foi a Comunalidade Ilé Àse Òpó Àfònjá e os participantes foram os iniciados na tradição nàgó/kétu, dessa comunalidade, totalizando 06 entrevistados.
Refletindo sobre as noções de comunidades-terreiro me respaldo em Luz (1995), Sodré (1999) e Luz (2000). As noções sobre religião estão ancoradas em e Gomes (2008) e Durkheime (1970). Sobre cultura busco embasamento em Gomes (2008). Para a categoria identidade, tomo como referência Loureiro (2004). Quanto às noções de memória utilizo Worcman (2007).

ÈGBÉ ÀSA DÚDÚ (COMUNIDADES NEGRAS TRADICIONAIS): O CORDÃO UMBILICAL QUE NOS LIGA À MÃE ÁFRICA

As comunalidades negras, dentro e fora da África, são territorialidades que transcendem as localidades onde as mesmas estão inseridas, e se projetam para além dos limites impostos pela geografia, alcançando amplitudes mundiais, para anunciar seus princípios e força que dão coesão, continuidade aos legados artísticos, filosóficos, religiosos, científicos, bem como linguagens que constituem traços particulares e peculiares de culturas e identidades de seus descendestes em todo o mundo.
Comunalidade é representada nos valores de comunidade, a comunalidade é expressão lúdico-estética, estabelecendo “a referência à compreensão da arkhé que funda, estrutura, revitaliza, atualiza e expande a energia mítico-sagrada da comunalidade africano-brasileira” (LUZ, 2000, p. 47)
As Comunidades-terreiro são entendidas aqui como instituições complexas e dinâmicas, representativas dos valores civilizatórios negro-africanos em solo brasileiro. Com suas religiosidades vibrantes, mais do que desdobramentos das comunalidades africano-brasileiras, elas foram e são os núcleos, os centros agregadores e orientadores dos povos negros no Brasil, a despeito de todo o passado vergonhoso ao qual estiveram aqui submetidos.
A comunidade-terreiro é, assim, repositório e núcleo reinterpretativo de um patrimônio simbólico explicitado em mitos, ritos, valores, crenças, formas de poder, culinária, técnicas corporais, saberes, cânticos, ludismo, língua litúrgica (o iorubá) e outras práticas sempre suscetíveis de recriação histórica capazes de implementar um laço atrativo de natureza inter-cultural (negros de diferentes de etnia) e transcultural (negros e brancos) (SODRÉ, 1999, p. 171).
Então, as comunidades-terreiros foram e são as organizações mais impressionantes, as mais fortemente representativas das origens (arkhé), teogonias, cosmovisões, e religiosidades, dos povos negros no Brasil, de seus legados culturais civilizatórios, como também responsáveis pela preservação e ressignificação de suas histórias e memórias, que são diária e constantemente transmitidas, ensinadas, aprendidas, experienciadas, sentidas e vividas, retoalimentadas e perenizadas, através dos mitos e ritos no interior de seus territórios.

Religião Como Parte da Cultura
As religiões são partes essenciais das culturas humanas em quaisquer partes do mundo. Cultura, colere (l.), significa cultivar. “Cultura é o modo próprio de ser do homem em coletividade, que se realiza em parte consciente, em parte inconsciente, constituindo um sistema mais ou menos coerente de pensar, agir, fazer, relacionar-se, posicionar-se perante o Absoluto, e, enfim, reproduzir-se” (GOMES, 2008, p.36).
“A palavra religião, como lembram os teólogos, vem do latim re-ligare, que quer dizer mais ou menos o sentido de voltar a algo inerente ao homem, o qual o homem teria perdido. Talvez tenha sido sua essência primordial ou sua finalidade última” (GOMES, 2008, p. 133). Como afirma Durkheime (1970): “toda religião é verdadeira”.
As comunidades-terreiro têm relevância no sentido de “inundar” o território brasileiro das histórias, memórias, línguas, culturas e religiosidades negro-africanas, representando, dessa forma, simbolicamente o cordão umbilical que liga os descendentes dos africanos de ontem, e nós também, hoje, à África-Mãe, Ancestral e à África da contemporaneidade.

REFEREÊNCIAS:



DURKHEIME, Émile. Sociologia e Filosofia. 2. ed. Rio de Janeiro: Forence Universitária, 1970.



ESPÍRITO SANTO, Maria Bibiana do. “Da Porteira Para Dentro da Porteira Para”. Mãe Senhora Òsun Muiwa. Terceira Ìyálórìsà na ordem de Sucessão do Ilé Àse Òpó Àfònjá. Em São Gonçalo do Retiro- Salvador: 1942/1967.



GOMES, Mércio Pereira. Antropologia: ciência do homem: filosofia da cultura. São Paulo: Contexto, 2008.



LUZ, Narcimária Correira do Patrocínio. Awasojú: dinâmica Existencial das Diversas Contemporaneidades. Revista da FAEEBA, Salvador/Bahia, v. 8, n. 12, p. 45-80, 2000.



SODRÉ, Muniz. Claros e Escuros: Identidade, povo e mídia no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1999.



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Magnaldo Oliveira dos Santos é mestrando do programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB; Pesquisador do Programa Descolonização e Educação – PRODESE; Especialista em História e Cultura africana e afro-brasileira pela Fundação Visconde de Cairu; Especialista em Consciência e Educação pela Fundação Ocidemnte - ISEO; Professor de Língua e Civilização yorùbá em cursos de extensão da UNEB (2001/2002), UFBA (1998/2002) e Fundação Gregório de Mattos (2002/2003); Consultor pela Secretaria Municipal de Educação de Salvador (SMEC) em Africanidades e Lei 10.639/03. Professor Convidado da Faculdade D. Pedro II na disciplina História e Cultura Africana no Curso de Pedagogia
 


Continua na próxima semana.


 

VENTRES QUE GERAM A PAZ: ELLEN JOHNSON SIRLEAF, LEYMAH GBOWEE, TAWAKKUL KARMAN

Ellen Johnson Sirleaf

São três mulheres laureadas com o prêmio Nobel da Paz 2011 na cidade de Oslo, capital da Noruega,são elas: Ellen Johnson Sirleaf primeira mulher a assumir a presidência da Libéria;sua conterrânea a militante pelos direitos das mulheres Leymah Gbowee;e a jornalista iemenita Tawakkul Karman.
Ellen tem 72 anos e contribuiu pelo fim da luta armada que vinha ceifando milhares de vida na Libéria.A ativista Leymah,contribuiu também com o fim da luta armada na Libéria organizando e liderando uma "greve de sexo" em 2002,exigindo que os liberianos cessassem o combate e por extensão os conflitos armados que viam devastando a Libéria.Essa greve de sexo fez com que Charles Taylor que comandava as ações de guerra, reconhecesse as mulheres como importantes lideranças e abriu canais de negociação da paz incluindo-as.

Leymah Gbowee
Imagem disponível em http://www.boasnoticias.pt/noticias_Nobel-da-Paz-2011-atr%C3%ADbuido-a-tr%C3%AAs-mulheres-_8308.html



Leymah na sua autobiografia afirma:” Poderosos sejam nossos poderes: como a comunidade de mulheres, a oração e o sexo mudaram uma nação em guerra”
As mulheres do Iêmen foram representadas no Prêmio Nobel por Tawakkul Karman, ativista que contribuiu na organização e liderança do movimento de promoção da democracia no mundo árabe conhecido como “Primavera Árabe”.

Tawakkul Karman
Imagem disponível em http://www.boasnoticias.pt/noticias_Nobel-da-Paz-2011-atr%C3%ADbuido-a-tr%C3%AAs-mulheres-_8308.html

domingo, 9 de outubro de 2011

CRIANÇA:AMANHÃ,FUTURO,ESPERANÇA,VIDA...

Imagem disponível em

ERÊS

José Carlos Limeira

Batizado de Capoeira da ACRA 2010 Foto Luís Negão

São mimos



Soltos


Atrevidos


São correrias, energias, sentidos


São meigos


São troças


Falas


Sorrisos
Batizado de Capoeira da ACRA 2010 Foto Luís NegãoSão chuvas

Desapego lógico a tecnologia


Dourados


Ouro


São puros


Amor


São eles, são elas
Batizado de Capoeira da ACRA 2010 Foto Luís NegãoForças amenas

Felizes


Alegrias


São estrelinhas


São o brilho farto


São os ventos


São tudo

À direita criança da ACRA e esquerda crianças da África do Sul do grupo coordenado pelo Contra Mestre Luís Negão.
Foto Luís Negão

E a tudo atentos


Ao Orun, aos encantos, aos doces, à vida


São a eternidade em novo dia


São crianças negrinhas, mais do que lindas


São pura poesia


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José Carlo Limeira é poeta,escritor com diversos trabalhos publicados no Brasil e exterior.Sua obra literária tem sido referência para estudos em Mestrados e Doutorados


A ORIGEM DO DIA E DA NOITE/PARTE I

A ORIGEM DO DIA E DA NOITE/PARTE II

UMA ÁRVORE QUE DÁ DINHEIRO?HUM!VAMOS CONHECER ESSA HISTÓRIA.

UMA BELA CANÇÃO:"O CICLO DA VIDA"

VEJAM QUANTAS LOROTAS DA BARATA!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

sábado, 1 de outubro de 2011

A SOCIEDADE REFRATÁRIA E O ESPELHO MIDIÁTICO

Muniz Sodré

Apresentamos essa semana uma entrevista memorável concedida por Muniz Sodré ao Canal Comum,abordando questões instigantes,a exemplo:”os rumos do jornalismo hoje e, sobretudo, sobre a formação de uma sociedade em que a mídia não é apenas um mero conjunto de canais transmissores de informação, e sim um verdadeiro entorno social”.
Interessante é a revelação de Muniz ao Canal Comum,afirmando ser “...um narrador, um contador de histórias, uma extensão urbana do akpalô africano e do pajé tupinambá. Conto, tentando pensar. Pensar, diz Nietzsche, é meter o corpo. Eu digo: é arriscar-se corporalmente, como um capoeira, à consciência da paixão de existir."
Acompanhem a entrevista.

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Imagem disponível em
http://imageshack.us/photo/my-images/23/jornalismo.jpg/sr=1
Canal Comum: Muniz, você fez graduação em Direito, Mestrado em Sociologia da Informação e Comunicação e Doutorado em Letras. Como se deu essa passagem para a área da Comunicação? Você já era jornalista no período em que começou a se interessar pela Comunicação? Fale um pouco sobre essa trajetória.

Muniz Sodré: Sim, eu já era jornalista no momento em que me interessei por Comunicação. Isto se deu em 1965, pouco tempo depois de eu ter vindo da Bahia para o Rio, já tendo passado pelo Jornal do Brasil e estacionado na revista Manchete como repórter. Falaram-se de uma bolsa da Cooperação Técnica Francesa para estudar no Institut Français de Presse (atual: IFP et des Sciences de l´Information), em nível de Doctorat de 3ème cycle (aqui equivalia ao mestrado). Fiz o curso e, além disso, freqüentei o famoso CECMAS (Centre d´Études des Communications de Masse), animado por gente como Roland Barthes, Edgar Morin, Georges Friedmann e outros. Creio que meu interesse pelo campo se vinculava de alguma forma a meu interesse pela linguagem. Desde adolescente, tenho proficiência em várias línguas estrangeiras. Voltei a Paris para um pós-doutoramento em 79/80, quando conheci e me relacionei com Jean Baudrillard

Canal Comum:Vamos falar sobre jornalismo. Antes mesmo do STF votar o tema da obrigatoriedade do diploma, você publicou o texto “Viva o Diplomano Observatório da Imprensa. Mas ele se espalhou na internet de tal forma que é fácil encontrá-lo em vários endereços eletrônicos, sobretudo após a decisão do STF. Nesse texto, você diz que a nova face da informação pública pode por em crise a própria identidade do jornalismo clássico como mediação discursiva e como funcionalidade específica de um grupo profissional. Você concorda, então, que com ou sem o diploma o jornalismo já não é mais o mesmo ?
M.S.: Concordo, sim. Com ou sem diploma, o jornalismo jamais será o mesmo. A informação passou a estruturar de modo tão ampliado a sociedade contemporânea que se converteu em seu próprio “solo”.  Movemo-nos real e virtualmente num ambiente informacional, e de tal maneira que a comunicação pública deixa de ser assunto exclusivo de jornalistas. No entanto, a informação em si mesma é pura “metástese” sígnica se não for adequada e politicamente interpretada. Por isso, considero que esta tarefa ainda caiba a um grupo específico, que pode receber o nome de “jornalista”, “analista simbólico”, “logotécnico” ou qualquer outro que comporte o sentido implicado. A formação universitária é, mais do que nunca, necessária. Os detratores do diploma, em minha opinião, não têm a correta avaliação do que significa equacionar responsabilidade social com mídia.
Canal Comum: Quais são os grandes dilemas éticos colocados ao jornalista hoje, aqui no Brasil, diante desse quadro de desregulamentação, com o fim do diploma e com a mudança na lei de imprensa e, ainda, com a crise do modelo clássico de jornalismo?
M.S.: Hans Jonas vem introduzindo o conceito de “ética de futuro”. Não é uma ética projetada para os tempos futuros, e sim para agora, quando socialmente nos preocupamos com a cadeia geracional, ou seja, os filhos, as crianças, seres de mentalidade mais plástica e tendentes a serem conformados pela proliferação indiscriminada dos signos. O dilema ético de hoje é provavelmente trazido pela irresponsabilização da informação, como se esta fosse puro objeto, destinado a circular livremente no mercado, sem vinculação social. A liberdade de imprensa em que votou o STF, ao invalidar o diploma, é essa velha liberdade da ideologia liberal, que ampara secularmente as corporações de mídia. O dilema é também decidir sobre a liberdade sem ter liberdade (aquela dada pelo correto saber do fenômeno) para fazê-lo. Temo que os magistrados, entregues ao abstrato formalismo jurídico, não saibam realmente do que estavam falando


Imagem dispónível em

Canal Comum: De que maneira o ciberjornalismo repercute nas formas de sociabilidade? Ainda podemos falar do poder de socialização dos meios de comunicação e, em especial, do jornalismo?

M.S.: O jornalismo de rede (ou “ciberjornalismo”) ainda não disse realmente a que vem, na medida em que suas pautas principais costumam ser copiadas do jornalismo impresso. Quando não se copia, a informação dissolve-se em pílulas, verdadeiros átomos da factualidade, feitas de superfluidade e frivolidade. Mas claro que isto provavelmente não será sempre assim. Acredito na possibilidade de novas formas jornalísticas advindas das inúmeras possibilidades técnicas e culturais oferecidas pela rede. Facebook, twitter, orkut –– todas essas novidades têm o seu poder de mobilização, mas ainda não constituem um jornalismo novo. Até agora, o valor da informação pública na Internet é medido pela pura velocidade. Não é valor, aliás, é um dado técnico.




Canal Comum: Você é considerado um dos maiores intelectuais brasileiros. Na área da comunicação, publicou obras paradigmáticas. Em “Antropológica do Espelho – uma teoria da comunicação linear e em rede”, de 2002, você fala do surgimento de um novo bios, o virtual, em que o objeto predomina sobre o sujeito. Você pode falar um pouco sobre isso?

M.S.: Não sou de falsas modéstias, mas tenho de responder que não me considero um dos maiores intelectuais brasileiros. Reservo título para gente como Gilberto Freyre, Raymundo Faoro, Caio Prado Júnior e outros. Apenas tenho tentado refletir com vezo próprio sobre mídia e cultura nacional. O conceito de “bios virtual” é meu, mas me vali de Aristóteles (em Ética a Nicômaco), que fala de três “bioi” na Polis grega, para aventar a hipótese de um quarto bios, que a sociabilidade contemporânea, feita de tecnologia e mercado. Ou seja, a mídia não é um mero conjunto de canais transmissores de informação, e sim um verdadeiro entorno social, cimentado por informação. Acho que esta perspectiva tem conseqüências epistemológicas para os estudos de comunicação.

Canal Comum: O espelho mencionado no título “Antropológica do Espelho” significa o objeto que adquiriu vida própria, através da virtualização?


M.S.: O espelho como objeto que ganhou vida é uma interpretação possível. Mas é também uma metáfora que remonta ao início da Modernidade. Penso, por exemplo, em Comênio, o primeiro grande pedagogo europeu, que concebia o espírito como um “espelho esférico” suspenso no centro de uma sala e receptor das formas de todos os objetos circundantes. O olho, igualmente, enquanto órgão dos sentidos privilegiado pelos modernos, pode ser visto como algo que funcione ao modo desse espelho. Agora, sem dúvida nenhuma, o “espelho” abandonou o corpo e agigantou-se. Hoje, parece que só existimos se refratados no espelho da mídia.

Canal Comum: O livro “Antropológico do Espelho” se tornou uma referência bibliográfica indispensável no período em foi publicado e que continua sendo até hoje. É claro que como toda obra de relevância, apesar de ser bem aceita pela comunidade científica, provocou também muita discussão e críticas. Desde a publicação do livro citado, alguma coisa mudou na sua reflexão sobre o tema principal ali tratado?

M.S.: Claro que, como toda hipótese, a metáfora do espelho comporta dúvidas e discussões. Eu a mantenho, todavia. Acrescentei a ela com “Estratégias Sensíveis – afeto, mídia e política” um aprofundamento da natureza do “bios virtual”. A questão do afeto parece-me responder pelas dificuldades que se tinha com a bastardia cultural da televisão ou das imagens fabricadas em massa. Acabo de publicar “A Narração do Fato – notas para uma teoria do acontecimento”, que é um reexame do jornalismo sob a influência do bios.

Canal Comum: Para terminar, como está sendo a experiência na Biblioteca Nacional. Quais são seus principais projetos?

M.S.: Estou há quase cinco anos à frente da Fundação Biblioteca Nacional. Coube-me restaurar o prestígio daquela instituição bicentenária e implantar bibliotecas municipais nos municípios brasileiros carentes. No próximo ano, ao término de minha gestão, teremos implantado, sob o comando do Presidente da República e do Ministro de Estado da Cultura, 1.074 novas bibliotecas. É um número expressivo, destinado a zerar o déficit. Para você fazer idéia, Gustavo Capanema, à frente do antigo Instituto Nacional do Livro, conseguiu implantar, em vários anos, 700 bibliotecas, o que até hoje se considera um feito. Mas aparentemente, na época de Capanema, biblioteca dava mais notícia de jornal do que hoje. Com a mídia entregue à “livre” frivolidade, dará muito menos.

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Fonte:http://canalcomum.com.br/2010_entrevista_detail.php?item=220

QUEM SAMBA?FICA!E QUEM NÃO SAMBA? VAI EMBORA!

TEM QUE TER RAIZ!

A ACRA MAIS UMA VEZ CONTRIBUI PARA A COMPOSIÇÃO DE ESTUDOS ACADÊMICOS NA ÁREA DE EDUCAÇÃO

No dia 29 de setembro as graduandas do curso de Pedagogia Caroline Nepomuceno e Naiara Bittencourt, apresentaram seus trabalhos de conclusão do curso(TCC) no âmbito Departamento de Educação do Campus I da UNEB.
Caroline Nepomuceno da Silva desenvolveu o tema “Compondo Perspectivas de Linguagens Africano-Brasileiras para o Ensino da Matemática”,contribuindo com reflexões e proposições para que o ensino da matemática fique mais próximo do cotidiano e das vivências das territorialidades africano-brasileiras.O estudo foi desenvolvido envolvendo crianças e jovens da ACRA.Os/as professores/as que avaliaram o TCC de Caroline Nepomuceno da Silva foram:Narcimária Luz(orientadora),Claudia Sisan da Universidade do Estado da Bahia e Oto Figueiredo da Universidade Estadual de Feira de Santana.
A graduanda Caroline Nepomuceno apresentando seu trabalho
Foto Átila de Oliveira



Naiára Bittencourt através do tema ''Cala boca menino/a! Propondo linguagens criativas através do legado africano -brasileiro '',explorou análises sobre os principais problemas que afligem e recalcam a vida escolar de crianças e jovens africano- brasileiros.O estudo envolveu crianças da Associação Crianças Raízes do Abaeté e jovens do Instituto Cultural Steve Biko. Os/as professores/as que avaliaram o TCC foram: Narcimária Luz(orientadora), Tarry Cristina do Instituto Cultural Steve Biko e Claudia Sisan da Universidade do Estado da Bahia.
A graduanda Naiára Bittencourt apresentando o seu trabalho
Foto Átila de Oliveira

Vale destacar a satisfação demonstrada pelos/as professores /as que compuseram as respectivas bancas,através de comentários sobre a qualidade e importância dos textos monográficos. As graduandas obtiveram a nota máxima pelo conjunto do trabalho (texto monográfico e apresentação), recebendo aplausos carregados de emoção e alegria compartilhada entre todo o público presente.

As graduandas atentas a leitura do parecer da banca
Foto Átila de Oliveira


As graduandas com as amigas Alessandra Cardoso e Giselle Pires
Foto Átila de Oliveira


Naiára Bittencourt confraternizando-se  com um grupo de jovens do Instituto Cultural Steve Biko que prestigiaram a apresentação do seu trabalho.
Os jovens da Steve Biko participantes do projeto Ogumtec, foram também referências importantes no estudo desenvolvido pela graduanda.
Foto Átila de Oliveira

domingo, 25 de setembro de 2011

O PENSAMENTO UNIVERSAL E A LINGUAGEM DE ABDIAS DO NASCIMENTO:PALESTRA NA SIOBÁ

Por Marco Aurélio Luz

Confesso que hesitei em aceitar o convite da SIOBÁ-Sociedade Beneficente de Ojés,Ogãs e Tatas, devido à responsabilidade que implica falar sobre uma pessoa da grandeza do estimado e admirado Abdias. Mas como o convite partiu de Duarte Abajigan do terreiro do Bogun, amigo e irmão de longa data para falar numa sociedade da qual participa e que reúne ojés, obás, ogans e tatas, senti-me a vontade, pois o interesse deles é a presença cultural da religião africano-brasileira na obra e na trajetória de vida de Abdias, sua composição na luta contra o racismo em sua variada forma.

Everaldo Duarte ogã do Bogum e Coordenador Religioso da SIOBÁ

 O motivo do convite foi que ele leu meu artigo no blog da ACRA. Enfim acabei por aceitar. Não me arrependo tanto mais que Narcimária foi também. Um público pequeno, porém muito interessado e que por vários momentos se emocionaram e me emocionaram durante a apresentação.

Diretoria do SIOBÁ formada por ojés, ogãs,tatas

Comecei dizendo que em nossa cultura africana, espiritualidade, linguagem e identidade, se manifestam através das artes, poesia, pintura, conjuntamente com ciência, filosofia, política; e se inter-relacionam, e em Abdias essas expressões são uma coisa só, embora possam parecer separadas no tempo e no espaço.
Fiz com meus filhos uma pequena montagem de slides ilustrando a emocionante e vibrante récita da poesia Padê do Exu Libertador na voz de Abdias. Comecei por essa exibição.
Todos ouviram contritos e emocionados ao final responderam:
- Laroiê! e bateram palmas.

Público atento a palestra

Fiz algumas considerações sobre os fundamentos teológicos da poesia; Padê= reunião de entidades, invocação para Exu tornar os desejos exeqüíveis, uma vez recebidas as oferendas mobilizadoras de axé, e na poesia de Abdias os pedidos são para que se possa combater e vencer as injustiças que afligem o povo negro. Contei o itan, a história, que se refere ao Exu Yangi, de como a humanidade ficou encarregada de restituir através das oferendas o axé necessário a continuidade da existência. Ficou bom porque é uma história também de Orunmilá e era dia de sexta-feira.
Contei do episódio do filme de Antônio Olavo, em que Abdias narra, da mãe protegendo e se solidarizando com o menino carente agredido pela mulher branca em Franca, e que ficou desde a infância para sempre gravado em sua memória como um ato que influencia e impulsiona sua vocação de luta pan-africanista.
Nesse sentido contei também, o episódio narrado por Mestre Didi, em que Mãe Senhora Iyalorixá..., Iyá Nasô... Asipá.. deixa esperando o cônsul americano em visita ao ilê Afonjá e depois explica para os ogãs agoniados, que da porteira para dentro estão seus poderes absolutos,e  da porteira para fora a luta pelos direitos da gente dela, que ela bem sabia estava sendo maltratada na terra dele.
Então nessa dinâmica "da porteira para dentro/da porteira para fora" é que se dá a defesa da tradição africana e a luta pan africanista.
“-O Teatro Experimental do Negro foi criado para fortalecer os valores da cultura tradicional africana. Foi criado para combater o racismo sim, mas também para firmar nossos valores. Não queríamos apenas ter o direito de entrar numa barbearia, num cassino ou num restaurante”... (Abdias ,entrevista ao Portal Afro)
Como cientista social engajado, Abdias se destacou pela crítica fundamentada à ideologia da “democracia racial” que obnubilava a percepção da prática do racismo no Brasil enganando muita gente. Era a ideologia vigente ou dominante como querem uns e outros.
Ele demonstrou a intencionalidade genocida da criação ideológica da política do embranquecimento pelas teorias psi de Nina Rodrigues, que fez uma equivalência entre o transe ou manifestação de entidades das religiões afrobrasileiras com o surto de histeria. Duas situações completamente diferentes mas aproximadas grosseiramente para concluir que a doença mental era genética na raça negra e por isso seria uma “raça inferior”. Ora, com o apoio de Roger Bastide, Abdias demonstrou que uma manifestação está na ordem do discurso da cultura, do simbólico, é um momento da religião, do religare, a transição do aiyê para o orun de nossa dimensão profana para a sagrada compartilhada e acompanhada por sacerdotisas, sacerdotes e fiéis em determinado momento da liturgia. É um aspecto de um momento de profunda comunhão e fortalecimento dos vínculos sociais comunitários. A outra, é um acontecimento da ordem de um delírio em direção ao imaginário, de fuga das vinculações sociais. A intenção de Nina Rodrigues era desqualificar a tradição religiosa africana fonte de afirmação da identidade cultural negro brasileira.
Outra ideologia foi a da mestiçagem, incentivando a emigração de europeus para “melhorar a raça brasileira” para predizer que com o aumento dos mestiços a tendência seria o fim dos negros no Brasil. Também com isso acabaria o racismo? Abdias logo viu que aí mesmo estava o racismo, e pior o mais cruel, ou seja, o desejo genocida do fim, do extermínio de um povo. Tudo isso com farta documentação de discursos ideológicos que alimentam a Razão de Estado.
Destaco a crítica à ideologia do sincretismo, também como na teoria da mestiçagem em direção a predominância do branco, aqui é o esmaecimento da pujante tradição cultural afrobrasileira para algo misturado, amalgamado com as linguagens e valores do catolicismo. Nada mais falso. Se alguma aproximação ocorre, foi por conta da repressão feroz aos cultos de tradição africana seja pelos aparelhos da força publica seja pelas instituições ideológicas. O negro se defendeu fazendo determinadas associações simbólicas com muito alarde, mas no espaço púbico das festas de largo, nas procissões e datas comemorativas dos santos então associados a determinadas entidades do panteão africano. Todavia, no âmbito da liturgia da tradição africana nada há de católico, como acrescentei eu nas minhas obras; na verdade, ao contrário do que se faz crer, há muito mais uma africanização do catolicismo que qualquer outra coisa.

Marco Aurélio Luz palestrante no evento do SIOBÁ

Essas são de modo resumido as ideologias para manter um Estado europocêntrico que reluta em assumir a africanidade da maioria de seu povo, tanto mais que a cultura afrobrasileira é a predominante da maioria do povo.
Portanto o Brasil padece de um verdadeiro abismo entre o Estado e a Nação.
Quando saindo de S. Paulo no final dos anos 30 para o Rio de Janeiro, foi que Abdias teve suas primeiras aproximações com a religião africana, e que conheceu o terreiro do afamado Babalorixá Joãozinho da Goméia, em Caxias.
Desde então se desenvolve cada vez mais essa relação e a sabedoria de que para tudo que se pretende fazer, deve-se mobilizar o axé correspondente. Daí a invocação dos orixás, em vários momentos de seus discursos para que as ações se concretizem.
Li um trecho do texto conclusivo do livro “O Genocídio do Negro Brasileiro, processo de um racismo mascarado”:
Para mim, o mistério ontológico e as vicissitudes da raça negra no Brasil se encontram e se fundem na religião dos orixás;o Candomblé. Experiência e ciência, revelação e profecia, comunhão entre os vivos, os mortos, e os não nascidos, o Candomblé marca o ponto onde a continuidade existencial africana tem sido resgatada. Onde o homem pode olhar a si mesmo sem ver refletida a cara branca do violador físico e espiritual de sua raça. No Candomblé, o paradigma opressivo do poder branco, que há quatro séculos vem se alimentando e se enriquecendo de um país que os africanos sozinhos construíram, não tem lugar nem validez.É por isso que os Orixás são a fundação da minha pintura”. (p. 182)
Recentemente ele visitou o Ilê Axé Opô Afonjá e se confraternizou com Mãe Stela, Iyalorixá Odé Kaiodê.
Finalizei com a projeção do filme de Antônio Olavo, o trecho em que Abdias é condecorado no decorrer de um Congresso Internacional, e recebe uma medalha de comendador das mãos do presidente Lula, e depois ele sai empurrado em sua cadeira de rodas por Elisa Larkin do Nascimento(sua esposa), parando para receber os cumprimentos.A ação é acompanhada pela interpretação do cântico que saúda os alabês os tocadores de atabaques, que proporcionam a comunicação entre o aiyê e o orun. Quem canta com uma bela interpretação criativa no solo do bel canto, é Inaycira filha do Mestre Didi, neta de Mãe Senhora. Nisso no saguão ouve-se os atabaques ao vivo nos toques do samba de roda do recôncavo. Ele se aproxima, e surpreendentemente se ergue da cadeira arrebatado pelo ritmo que não deixa ninguém parado, e faz par com a senhora que já estava na roda. É tudo muito bonito, sublime e alegre.
No nosso auditório todo mundo fica tomado de emoção por essas imagens. Então vou encerrando minha modesta contribuição agradecendo por ter sido honrado com essa participação.
Mas aí,Everaldo Duarte retoma a palavra após os aplausos e relata a experiência que viveu com a visita de Abdias ao Ilê Aiyê. O mais importante além da emoção por ele vivida, inclusive por estar trabalhando na direção de um grupo de teatro da entidade, foi que Abdias comunicou a Mãe Hilda, Iyá Jitolú, que era importante fazer alguma cerimônia funerária para o glorioso líder e herói Zumbi dos Palmares. Ela concordou e no ano seguinte subiram a Serra da Barriga para as homenagens merecidas com enorme séquito do movimento negro ao som das baterias e cânticos dos blocos afros.
Acrescento agora que Abdias nessa ocasião, fez veemente discurso de esperança nas vitórias do povo negro invocando e pedindo a proteção dos orixás.
 
Everaldo Duarte Abajigã e Marco Aurélio Luz Oju Obá