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PRODESE E ACRA



VIDA QUE SEGUE...Uma
das principais bases de inspiração do PRODESE foi a Associação Crianças Raízes
do Abaeté-Acra,espaço institucional onde concebemos composições de linguagens
lúdicas e estéticas criadas para manter seu cotidiano.A Acra foi uma iniciativa
institucional criada no bairro de Itapuã no município de Salvador na Bahia, e
referência nacional como “ponto de cultura” reconhecido pelo Ministério da
Cultura. Essa Associação durante oito anos,proporcionou a crianças e jovens
descendentes de africanos e africanas,espaços socioeducativos que legitimassem
o patrimônio civilizatório dos seus antepassados.
A Acra em parceria com o Prodese
fomentou várias iniciativas institucionais,a exemplo de publicações,eventos
nacionais e internacionais,participações exitosas em
editais,concursos,oficinas,festivais,etc vinculadas a presença africana em
Itapuã e sua expansão através das formas de sociabilidade criadas pelos
pescadores,lavadeiras e ganhadeiras,que mantiveram a riqueza do patrimônio
africano e seu contínuo na Bahia e Brasil.É através desses vínculos de
comunalidade africana, que a ACRA desenvolveu suas atividades abrindo
perspectivas de valores e linguagens para que as , crianças tenham orgulho de
ser e pertencer as suas comunalidades.
Gostaríamos de registrar o nosso
agradecimento profundo a Associação Crianças Raízes do Abaeté(Acra),na pessoa
do seu Diretor Presidente professor Narciso José do Patrocínio e toda a sua
equipe de educadores, pela oportunidade de vivenciarmos uma duradoura e valiosa
parceria durante o período de 2005 a 2012,culminando com premiações de destaque
nacional e a composição de várias iniciativas de linguagens, que influenciaram
sobremaneira a alegria de viver e ser, de crianças e jovens do bairro de
Itapuã em Salvador na Bahia,Brasil.


domingo, 31 de outubro de 2010

Constituição da Bahia




CAPÍTULO XV
Da Cultura


Art. 275 - É dever do Estado preservar e garantir a integridade, a respeitabilidade e a permanência dos valores da religião afro-brasileira e especialmente:
I - inventariar, restaurar e proteger os documentos, obras e outros bens de valor artístico e cultural, os monumentos, mananciais, flora e sítios arqueológicos vinculados à religião afro-brasileira, cuja identificação caberá aos terreiros e à Federação do Culto Afro-Brasileiro;
II - proibir aos órgãos encarregados da promoção turística, vinculados ao Estado, a exposição, exploração comercial, veiculação, titulação ou procedimento prejudicial aos símbolos, expressões, músicas, danças, instrumentos, adereços, vestuário e culinária, estritamente vinculados à religião afro-brasileira;
III- assegurar a participação proporcional de representantes da religião afro-brasileira, ao lado da representação das demais religiões, em comissões, conselhos e órgãos que venham a ser criados, bem como em eventos e promoções de caráter religioso;
IV - promover a adequação dos programas de ensino das disciplinas de geografia, história, comunicação e expressão, estudos sociais e educação artística à realidade histórica afro-brasileira, nos estabelecimentos estaduais de 1º, 2º e 3º graus.[1]
[1] Onde se lê 1º,2º e 3º graus entenda-se Ensino Fundamental,Ensino Médio e Ensino Superior.

TROCANDO IDÉIAS SOBRE EDUCAÇÃO

Localização da ACRA no Parque Metropolitano do Abaeté
Imagem capturada por satélite(Google earth)

No dia 14 de outubro de 2010 a Associação Crianças Raízes do Abaeté - ACRA recebeu a visita do professor Thiago Molina, mestrando do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade de São Paulo-USP. O professor Thiago,foi recebido na ACRA pela equipe da ACRA Jackeline Divino, Naiára Bittencourt e Célia de Jesus.
Thiago desenvolve na USP, a pesquisa a “Relevância da dimensão cultural na educação de crianças negras” sob a orientação da Professora Roseli Fischmann, e sua visita foi motivada pelo interesse em conhecer as atividades que são realizadas na ACRA, principalmente aquelas relacionadas às linguagens na área de Educação que afirmam aspectos da cultura afrobrasileira e abrem espaços para o fortalecimento da identidade das crianças negras. Nosso ilustre visitante já conhecia a abordagem socioeducacional assumida pela equipe de educadores/as da ACRA, através das leituras feitas nos livros e artigos da professora Narcimária Luz, e também pelas postagens apresentadas no nosso blog.
As professoras Jackeline e Naiára explicaram ao professor Thiago a dinâmica das atividades que se realiza entre a Associação Crianças Raízes do Abaeté e sua parceira a Universidade do Estado da Bahia – UNEB através do Programa Descolonização e Educação-PRODESE destaque para: aspectos sobre o histórico da ACRA desde a iniciativa do Contra - Mestre Luis Negão de inserir a Capoeira na comunidade de Itapuã, o projeto “Dayó: compartilhando a alegria socioexistencial em comunalidades africano-brasileiras” e todas as atividades desencadeadas por ele (capoeira, grafite, espanhol, orquestra de ritmos e sons, inglês, flauta, etc).
O professor Thiago teve a oportunidade de presenciar a aula de capoeira ministrada pelo Professor Rupi, além também de conhecer o espaço da Associação e os trabalhos expostos pelos alunos e alunas.
Como Thiago já foi colaborador em uma Associação que promovia atividades semelhantes as que a ACRA, aproveitamos a presença dele para aprender e trocar idéias sobre temas relacionados a realidades das ONGs (financiamentos, parcerias, etc.), além das questões pertinentes a situação difícil que caracteriza a Educação brasileira. Ao final da visita Thiago Molina recebeu da ACRA exemplares do SEMENTES Caderno de Pesquisa e livros de Narcimária Luz e Marco Aurélio Luz.
Sobre suas impressões sobre a visita a ACRA Thiago Molina disse:
“Gostei muito da tarde de ontem!Conheci pessoas que dividem comigo pensamentos sobre educação, vi algo que pode ser feito para nossas crianças com muito pouco dinheiro e muito compromisso e, de quebra, estou levando para SP alguns presentes maravilhosos”.

Aula de Capoeira realizada no intercâmbio Brasil e Inglaterra em julho de 2010 na ACRA

sábado, 23 de outubro de 2010

PARTE III(continuação da entrevista do dia 13/10/2010)

Nesta terceira parte da entrevista,Marco Aurélio Luz responde a Márcio Nery de Almeida aspectos que tratam dos princípios masculino e feminino na dinâmica da tradição afrobrasileira.
Boa leitura!
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Márcio Nery de Almeida- - E porque existem duas qualidades de Oxalá, Oxalufan e Oxaguian? E porque existe essa diferença entre o velho e o novo?
Marco Aurélio Luz-
São aspectos do mesmo princípio. Oxalá é basicamente o princípio original da fertilidade, ou da gênese pelo lado do princípio masculino.Ele é o princípio do ar, existência genérica origem do existir. “No início do mundo era o ar”... é como principia uma das histórias da criação. Oxalá criou os seres que vieram a constituir a criação. Os seres humanos enquanto viventes estão ligados a Oxalá pela respiração, estamos todos debaixo do ALÀ o grande pano branco presente na procissão de seus rituais. Oxalá também detém o poder de gênese da criação representado pelo cetro OPA XÔRO, emblema fálico representando fertilidade masculina. No mesmo sentido em contato com o interior da terra o inhame novo possui essa simbolização relacionada à Oxaguian. Ele constitui também o poder de ação de Oxalá, que é um princípio muito antigo que se complementa de Orixá Oguian que é um princípio de possibilidade de atuação do poder de fertilidade masculina.
Opaxorô , com quadro ao fundo do pintor Ronaldo Martins durante lançamento de livros da EDUNEB
Foto Marco Aurélio Luz

Márcio Nery de Almeida-Eu peço que o senhor fale agora dos orixá dos princípios femininos.
Marco Aurélio Luz-Os orixá feminino tem haver com água e terra. São também elementos de constituição do princípio do mundo. Depois do ar ofurufu vieram as águas omi e a terra ilé. Os seres humanos conforme as histórias tradicionais são concebidas da água com a terra, o barro ou lama que será moldado por Oxalá e que é desprendido por um orixá que será o eleda , o criador da pessoa. Os orixá femininos constituem o mistério da concepção e da gestação.

Pintura de Ronaldo Martins, acervo de Narcimária Luz,
Foto Marco Aurélio Luz

A filosofia da tradição nagô é expressa por uma linguagem estética que magnífica os rituais sagrados. Os diversos repertórios dessa linguagem estética possuem uma simbologia. Assim a estética dos orixá femininos as Aiyaba, as nossas venerandas mães, seus emblemas e paramentos possuem formas ventrais, ovais, caracterizando a gestação, o mistério do ventre fecundado, a capacidade de abrigar o desenvolvimento do feto, do nascituro. Também o mistério da metamorfose de seu próprio corpo ser capaz de se transformar na gestação, e de alimentar o recém nascido. Esse princípio da fertilidade feminina que é homenageado e cultuado pela religião.
"BORBOLETAS"
Criação de Narcimária C. P.Luz.O fenômeno da metamorfose de transformação do corpo feminino está simbolizado nas borboletas.Também suas formas aludem ao obo obirin.
Foto Marco Aurélio Luz
O abebe emblema de Oxum e também de Iyemanjá tem a forma de um leque adornado com peixe ou pássaro no centro caracterizando o ventre fecundado. Iyemanjá significa Iye, mãe omo dos fihos eja peixes. Ela constitui o poder dos rios, dos estuários, do encontro com o mar, lugar de muita vida marinha. Já Oxum constitui o princípio das águas correntes, riachos, corredeiras e cachoeiras. Está relacionada com a capacidade de fertilização, com os ciclos menstruais, poder e mistério da Iya mi akoko, a mãe por excelência. Saias rodadas, gestos e movimentos de suas danças caracterizando esses atributos são outros elementos dessa simbologia.
Convém ressaltar por fim os valores característicos do culto a ancestralidade na cultura nagô. Quanto mais filhos, nascidos criados e desenvolvidos mais o ancestral será lembrado e cultuado. Então a fertilidade no sentido da expansão da vida, proporciona a preservação e circulação do axé da força vital, quando os princípios são cultuados e enaltecidos gerando a capacidade de continuação da existência.
"ABEBE"
Emblema de Oxum, recriação de Narcimária C.P.Luz
Foto Marco Aurélio Luz

Márcio Nery de Almeida - Agora eu gostaria que o senhor falasse um pouco de Iansã, sobre sua indumentária, sobre a dança...
Marco Aurélio Luz-
Iya mesan orun, mãe dos nove espaços do orun do além, Princípio do vento, ar em movimento, existência invisível ela é a rainha, quem comanda os egungun os ara orun habitantes do orun. Iyansan voa como vento e suas danças demonstram gestos que simbolizam esse poder, inclusive de movimentar o fogo e outros elementos. Um de seus emblemas o erukere, de crina de rabo de boi, da parte de trás, da parte poente do animal, simboliza o poder de atuação no comando dos ancestrais. Os espíritos ancestrais ensejam que Iyansan com o erukere limpe as situações malfazejas, com danças e música e cantos pertinentes. A cor de seus trajes suas vestes, suas jóias etc. é vermelho escarlate.
Além do culto aos orixás Iansã é venerada no culto aos Egungun, aos ancestres e ancestrais masculinos na tradição nagô um culto de primazia de poder masculino.

Márcio Nery de Almeida- E o senhor tem algum conto mítico para poder ilustrar?
Marco Aurélio Luz -É um conto que narra como ela adquiriu e perdeu esse poder... Ela adquiriu num contato com Ogun quando ainda ela comandava os homens. Porque Ogun caracteriza aspectos do princípio masculino por excelência. È o orixá que representa a agressividade masculina o poder da força física de ação de desbravamento e luta de enfrentamento do desconhecido, que o faz também conhecedor dos mistérios da floresta, e criador da tecnologia. Patrono dos ferreiros ele guarda o segredo da transformação do minério em metal. A espada agadá é seu emblema característico e o torna também impulsionador da civilização.
Então nessa época muito muito antiga, Iyansan levava os homens pelo dedo mindinho, como diz na história aterrorizando-os com um grande macaco. Ogun não estava nada satisfeito com isso. E foi ao babalawo para saber o que poderia fazer. O babalawo disse a ele que fizesse um preceito e que ele a assustasse. Depois do preceito, Ogun se veste com uma capa, uma espada, um chapéu e fica com uma fisionomia aterrorizante. Ela morre de medo e se retira e então, a partir daí o culto aos ancestrais masculinos volta para as mãos dos homens e os homens passam a ter esse poder de ter o controle dos egungun, dos ancestrais masculinos. São os homens os iniciados, são eles os sacerdotes desse culto. Todavia Iyansan é lembrada como aquela que foi a rainha e possui ainda poder sobre eles embora já não o exerça mais como levar os homens pelo dedo mindinho.

Para ler a entrevista na íntegra consultar o SEMENTES CADERNO DE PESQUISA.Salvador:EDUNEB, , Vol.03,nº 5/6 ,Jan/dez 2002

APRENDENDO ESPANHOL NA ACRA

Professora Rosângela Accioly

A ACRA desde o primeiro semestre de 2010,abriu um espaço de aprendizagem de espanhol para crianças e jovens com idades entre 9 e 16 anos.Esse espaço de aprendizagem está sob a responsabilidade da pedagoga Rosângela Accioly pesquisadora do PRODESE CNPq/UNEB, e professora do município de Lauro de Freitas.O trabalho desenvolvido pela professora Rosângela está fundamentado na perspectiva pluricultural de Educação,principal proposta do Dayó: compartilhando a Alegria socioexistencial em cumunalidades africano-brasileira projeto de extensão universitária de autoria da professora Narcimária C. P. Luz.
Rosângela Accioly,elaborou uma metodologia original para conduzir as aulas de espanhol,através da contação de histórias africano brasileiras como “Eleguá” de Carolina Cunha, “Como a lua e o sol foram morar no céu”e o autocoreográfico , “Itapuã que te viu e quem te vê”, de Narcimária Luz, dentre outros.

Um dos livros selecionados para as aulas de Espanhol.
Na contação de histórias,a professora Rosângela estimula a leitura entre as crianças e jovens dos textos selecionados , os estimula a traduzirem coletivamente para o espanhol e em seguida a composição coletiva de resumos das narrativas.A proposta é trabalhar aspectos da história da territorialidade de Itapuã,destacando o legado e tupinambá e africano,através da língua espanhola. Daí a preocupação da professora Rosângela na escolha dos textos que promovam essas referências indígenas e africanas.

As aulas promovem leituras e dramatizações de textos.

Sobre o êxito desse trabalho original a professora e pesquisadora Rosângela comenta: “Essa iniciativa prima por estabelecer repertórios metodológicos que acolham os valores civilizatórios africano-brasileiros estabelecendo um elo ancestral com Itapuã, territorialidade onde venho desenvolvendo as aulas de Espanhol. A opção é trazer para sala de aula a África (re)territorializada contemporaneamente e vivida como expressão civilizatória por meio de seus descendentes, ou seja, as novas gerações que vão contando sua própria história. A importância dessa iniciativa pedagógica se dá a partir da história da ACRA, que surge deste movimento de resistência ao esquecimento da história dos nossos ancestrais e a luta pela valorização do patrimônio civilizatório africano existente em nosso país, pois na medida em que contamos narrativas, mitos, itans, músicas, estamos destacando a relevância da presença africana como forma de amenizar o racismo e a discriminação que insistem em denegar o direito à alteridade da história dos africanos/as em nosso país.”

As aulas têm sido ministradas em um clima de descontração
Desta forma, durantes as aulas foram realizadas pesquisas pelos alunos acerca história de Itapuã como: a presença da colônia de pescadores, a lagoa do Abaeté, as dunas, o Malê de Balê, seus moradores, dente outros conteúdos que as crianças pesquisaram e depois compartilharam com o grupo, além dos textos publicados. Também recebemos a visita dos alunos de capoeira do intercâmbio Brasil X Inglaterra (Oxford) promovido pelo Contra-Mestre em capoeira Luis Negão este encontro foi marcado com um bate-papo em espanhol com nossas crianças, que aprenderam muitas palavras novas e não deixaram de fazerem perguntas e também de responderem as curiosidades que foram surgindo ao longo da conversa pelo grupo visitante que é nosso parceiro desde a fundação da Instituição e todo ano um grupo da ACRA também viaja para estar com os estudantes na Inglaterra.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

IBEJI-OS GÊMEOS E A TRADIÇÃO AFROBRASILEIRA

PARTE II(continuação da entrevista do dia 02/10/2010)

Continuamos a explorar aspectos da entrevista concedida pelo Professor Marco Aurélio Luz (M.A.) a Márcio Nery de Almeida (M.N.), Professor, Gestor da Rede Municipal de Ensino de Salvador e pesquisador do PRODESE- Programa Descolonização e Educação. Nesta segunda parte da entrevista, Marco Aurélio desenvolve reflexões que nos leva a compreender a transcendência das linguagens africano-brasileiras.
Boa leitura!

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No centro Lélia Gonzalez(quando era diretora do Planetário da Gávea no R.J),
o sobrinho Manuel e Marco Aurélio Luz.

“Dedico esse trecho desta entrevista à memória de minha querida e sempre lembrada professora de Filosofia Lélia de Almeida Gonzalez”.

(Marco Aurélio Luz)

Márcio Nery de Almeida- Fale agora um pouco sobre o orixá Oxossi, já que hoje é uma quinta- feira.

Marco Aurélio Luz-
A cultura religiosa nagô, yoruba, trabalha com princípios...

Márcio Nery de Almeida- Princípio para eu entender, no caso de Oxossi, não é uma pessoa...

Marco Aurélio Luz(M.A.)- Não... Referem-se a forças cósmicas...

Márcio Nery de Almeida(M.N.)- De energias da natureza...

Foto do peixe
Pintura a óleo de Francisco da Silva
Acervo de M.A. Luz

MA- Aspectos da natureza como, por exemplo, a necessidade de caçar. Para o homem ou para qualquer animal predador existir, ele precisa caçar. É um princípio porque faz parte de uma qualidade intrínseca de ser. Faz parte da natureza. É como a água, o ar, a vegetação... A ação de caçar é um ato da natureza. A tradição nagô trabalha com princípios. Aqui se está homenageando o princípio da caça, como há o princípio do uso dos vegetais, o uso das seivas, que são capazes de proporcionar a medicina. Não é o exercício da medicina, mas a capacidade da vegetação oferecer possibilidades de ação ou de atuação em relação à humanidade. Você pode usar a folha pra isso ou pra aquilo, desde que você saiba a capacidade de atuação de uma folha. O uso medicinal, ou o uso para uma atuação espiritual, ou para um uso doméstico, enfim, - um banho, um tempero, um chá, qualquer coisa, mas o que se está colocando, o que se está enaltecendo aqui é o princípio de os vegetais serem capazes de promover, através da seiva, um poder, uma ação uma atuação. Então isso que é comemorado no culto ao orixá Ossãiyn, não é que ele foi médico, nada disso. É um princípio.

MN- É uma realidade muito mais transcendente do que aquilo que andam divulgando...

MA-
É são princípios. Você tem que partir sempre de que sobre os orixá, quando se fala de Xangô, de Iansã... é o princípio do fogo imemorial, do controle e da domesticação do fogo pela humanidade, a possibilidade da vida social, de se reunir em volta do fogo, de viver conjuntamente. Então por mais que você volte no tempo você encontrará a humanidade vivendo em sociedade, e o fogo é o elemento de aglutinação.

MN- Daí Xangô estar ligado a expansão de linhagens...

MA- Ao fogo e ser rei, no sentido de que ele cuida para que essa socialização não seja deletéria, não seja destrutiva. É o princípio das tentativas de harmonizar esse cenário passível de tensões e conflitos. Assim como são as pessoas são as criaturas, cada um tem a sua diferença, cada um tem o seu orixá elementos de sua natureza que ora se complementam ora se chocam: o fogo e a água existem aspectos benéficos e aspectos que são agressivos. O fogo pode ser bom, prá cozinhar, fazer instrumentos, proteger, mas também pode ser umacoisa que destrua. A água, pode ser algo fundamental para existência dos seres aplacando a sede, complementando as atuações da humanidade no cozinhar, fazer instrumentos, favorecendo a agricultura, ou pode trazer uma enchente arrasadora. Todo poder tem essa ambigüidade e o papel ou função da religião é de tentar controlá-los através dos rituais. Então tudo isso também está nos seres, nas criaturas que são filhos desses orixá . Tem hora que a pessoa está muito calma, já tem hora que está mais alterada... Porque o princípio da natureza não é estático, é dinâmico. Ele oscila, é uma coisa mais complexa. São os princípios que se realizam.


Foto do Oxê Xango ati abo meji
Escultura de Marco Aurélio Luz Oju Oba

MN- Voltando a Oxossi...

MA- Sim como disse, Oxossi é o princípio da caça, seu poder proporciona a provisão da comunidade, caracteriza uma carência, não só da humanidade porque há outras espécies de seres que caçam... Tem suas táticas e estratégias, e o homem é um deles... Aliás, é o maior predador e aquele que tem mais habilidade em caçar que qualquer outro. E esse princípio da caça, como é um poder, deve ser exercido com parcimônia, porque ele tem um limite como todo poder. O poder que você tem que lhe é atribuído por seu orixá você não pode exercê-lo de modo onipotente; tem que ter seu parâmetro de equilíbrio para poder usá-lo convenientemente.

MN- E sobre o ofá, o instrumento de Oxossi?

MA- O ofá, o arco e flecha mágico instrumento característico do poder de Oxossi, que permite ser o rei dos caçadores Ode Oba Ibo, por sua eficiência de jamais errar uma flechada. Esse poder entretanto não pode ser aniquilador de todos os animais como bem assevera o conto Ode e os Orixá do Mato, narrado por Mestre Didi, que por outro lado foi o motivador da experiência de educação Mini Comunidade Oba Biyi. O provedor não pode ser envolvido sem limites por seu poder pela ganância onipotente... sob pena de sofrer adiante de perdas irreparáveis.O arco e flechas é instrumento fundamental da saga da humanidade e o ofá é símbolo também dessa trajetória. Oxossi é considerado também como fundador de novos sítios. Orixá l´odê, orixá de rua como se diz, é um orixá que emerge do meio da mata, conhece os animais, conhece a floresta seus segredos...


Foto do caçador
Acervo de Narcimária Luz

MN- Orixá de rua, como assim?

MA- Seus poderes estão mais relacionados com o “fora de casa”. Sai dos limites da comunidade vai e retorna. Ele tem essa característica de sair para a mata, como Ogum, que também vai para a mata, para a luta, vai conhecer os minerais e o segredo da transformação em metais. Como Exu que também é orixá de rua, o senhor dos caminhos. Ossãiyn o orixá da vegetação e dos preparos dos remédios de toda ordem são alguns orixá l´odê. São considerados orixá filho. Também como orixá filhos eles numa jornada são os que vão à frente, vão desbravando o caminho, vão penetrando em outros espaços como, por exemplo, na História da Criação do Mundo narrada por Mestre Didi.
Há os orixás de casa, do palácio das cidades, cultuados no interior dos templos do agrupamento comunitário, num agrupamento humano. Nesse sentido que é orixá mais para dentro de casa. Oxalá que é um orixá, o mais antigo...

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Pela importância do tema daremos continuidade a entrevista na próxima semana.
Para saber mais sobre a importância da Professora Lélia Gonzalez no processo de afirmação do povo negro no Brasil visite o site http://www.leliagonzalez.org.br/

sábado, 9 de outubro de 2010

UM POEMA PARA FAZER TRANSBORDAR A ALEGRIA DE SER CRIANÇA E VIVER A ESPERANÇA!!!

Crianças da ACRA na visita que fizeram ao Teatro Vila Velha

A ACRA convida as crianças para explorarem e saborearem o espaço divertido que criamos para homenageá-las.Brinquem,riam,compartilhem com seus pais amigos/as,irmãozinhos/as as novidades que selecionamos com muito carinho, escutando com o coração as mensagens que enaltecem a infância.Músicas,poesias,curta metragens de desenhos animados e desenhos infantis.Tudo muito divertido e cheio de encantamento!
Para começar a homenagem,apelamos para a letra e música do saudoso poeta Gonzaguinha que nos anima a não desistir dos sonhos.Leiam a letra da música “Nunca pare de Sonhar” e sintam a emoção que ela transmite. Depois fechem os olhos e escutem a interpretação na voz de Gonzaguinha e aproveitem para expandir a imaginação.
Vamos começar a brincadeira?

E ATENÇÃO!!!

"NUNCA PARE DE SONHAR"

Gonzaguinha

Ontem um menino que brincava me falou

Hoje é a semente do amanhã

Para não ter medo que este tempo vai passar

Não se desespere, nem pare de sonhar

Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs

Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar

Fé na vida, fé no homem, fé no que virá

Nós podemos tudo, nós podemos mais

Vamos lá fazer o que será


UMA CANÇÃO QUE VEM DO MAR

MARCELO

LAÇOS ENTRE MAR E CÉU
Por Narcimária C.P. Luz

MAR
Boas notícias!
São letrinhas que chegam carregadas pelas ondas do mar
Trazendo a emoção que nos faz alegrar

Mar em constante movimento

Criação e divertimento

CELO
Que torna o dia a dia tão belo

Criança cujo gesto tão singelo

Anima-nos a olhar o céu e nele a força de um grande sol AMARELO

CAROL E O SOL

Uma canção de amor para Ana Carolina, e todas as crianças que não perderam o ânimo nem a esperança, de um dia ter o direito irrestrito de (re) encontrar e compartilhar a plenitude do amor e carinho com seus familiares. Essa canção poema foi inspirada no desenho que Ana Carolina (Carol) dedicou a seu pai e avós.

Por Tia Narcinha

Tem um imenso sol

Ele brilha,brilha,brilha...

No manto azulado do céu

Cintilam trilhas de esperança

É um luzir infinito que carrega a lembrança de uma criança

O sol brilha,brilha,brilha...

Aquece a terra, o ar, a água e meu coração

Reluz amor, carinho e emoção

É uma canção que ilumina o mar

Guiando um lindo golfinho

Que livre e sozinho

Dá saltos, faz piruetas animadas no mar

Transformando a saudade e agonia

Numa rota oceânica de alegria

Que deságua na Bahia

Aproximando Carol do farol

Que exibe sublime a casa da vovó

Kiwi!

Pixar s Short Film For the Birds

Pixar - Tennis Commercial

Luxor Jr - Pixar

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Castelo Rá Tim Bum - Ratinho - Meu pé meu querido pé (Tomando Banho)

O Sapo não lava o pé - DVD Galinha Pintadinha - Desenho Infantil

Adivinha dos Peixes

FELIZ DIA DAS CRIANÇAS ACRA!

JUNTOS (TOGETHER)


Quando a ACRA em 2009, através do Projeto Dayó, recebeu o selo de Semifinalista no Prêmio Itaú-Unicef (indicação no conjunto de 1.917 projetos) como uma das 20(vinte) melhores iniciativas destacadas no Brasil, colocamos no blog um vídeo clipe visando compartilhar com nossos/as visitantes o reconhecimento institucional que conquistamos. Foi um dos vídeos mais curtidos pela garotada da ACRA estamos nos referindo a Together do DJ e produtor francês Bob Sinclar.
Um dos refrões da música:
Um dia nós estaremos juntos
Nós nunca vamos nos separar
Um coração, uma idéia yeah
Um dia nós estaremos juntos
Lembre-se que esse velho mundo é seu e meu

Trazemos mais uma vez o vídeo Together, como uma da formas de homenagear nossas crianças. No vídeo estão representadas crianças e jovens que caracterizam a diversidade de povos do planeta.
Vamos cantar dançar e nos divertir!


sábado, 2 de outubro de 2010

IBEJI OS GÊMEOS E A TRADIÇÃO AFROBRASILEIRA

Ibeji e Iyá Ibeji
Escultura de Marco Aurélio Luz Oju Oba

Setembro e outubro são meses que envolvem um riquíssimo repertório do universo simbólico da tradição afrobrasileira, que são as celebrações dos gêmeos conhecidos no catolicismo como Cosme, Damião e na tradição africana Ibejis, em que são ofertados caruru, doces, balinhas, etc. O blog da ACRA resolveu então,trazer para a chamada “blogosfera” uma importante e animada entrevista, onde são desenvolvidas reflexões em torno da tradição africana e a dinâmica da expansão de seus valores. A entrevista foi concedida pelo Professor Marco Aurélio Luz a Márcio Nery de Almeida, Professor, Gestor da Rede Municipal de Ensino de Salvador e pesquisador do PRODESE- Programa Descolonização e Educação.
A entrevista contribui muito, e certamente auxiliará a compreensão do universo simbólico que há muito organiza as comunidades africano-brasileiras, além de permitir o esclarecimento de alguns elementos próprios da liturgia africana. A entrevista foi realizada no âmbito do Seminário Ética da Coexistência e Dinâmicas Territoriais e Comunalidades organizado pelo PRODESE na Universidade do Estado da Bahia no período de 26 a 28 de setembro de 2001. Foi publicada também, no SEMENTES Caderno de Pesquisa,Vol. 3,nº5/6 de 2002 pela Editora da UNEB.Aqui os/as visitantes farão a leitura da primeira parte da entrevista.Na próxima semana apresentaremos a segunda parte.
Boa leitura!

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Márcio Nery de Almeida – Aproveitando a oportunidade de que hoje aqui na Bahia é comemorado o “dia de São Cosme e Damião”, tendo o senhor feito durante o Seminário uma colocação muito interessante sobre o conceito do gêmeo na cultura yorubá – nagô, eu gostaria que o senhor falasse sobre os Ibêjis, ou Ibejis, desse símbolo milenar dos gêmeos na polaridade masculina e feminina e esse outro, esse terceiro que vem como síntese dos dois.
Marco Aurélio Luz – Bem, primeiramente eu queria destacar que a gente tem que partir para entender esses universos simbólicos através da singularidade de cada um deles. Então, por isso, a gente procura distinguir, destacar a diferença entre o culto dos gêmeos Cosme e Damião, que é uma coisa da tradição católica referida a pessoas que existiram e foram mártires do cristianismo, por isso convertidos como santos, dos Ibejis, que é uma categoria da tradição nagô, yorubá, que procura elaborar e reforçar espiritualmente o princípio da fertilidade, o princípio feminino e outro masculino, e a gestação seguinte caracterizada, então, por três elementos: Tayewo, Keindê e Dou. Esses três elementos, um casal mais um, caracterizam esse princípio de fertilidade e constituem-se num elemento, vamos dizer assim, muito importante, porque é uma cultura que visa à expansão da vida, a expansão da existência através da expansão das linhagens, das famílias e, portanto, são muito significativos.
O seu culto envolve a presença de vários orixá. As pessoas são constituídas por orixá, por forças da natureza que constituem os seres humanos, e eles, então, (os orixá) devem se alimentar vamos dizer assim, devem reforçar seu axé, sua energia vital. Os princípios da natureza que os constituem, são revitalizados através das oferendas. E as oferendas aos gêmeos se caracterizam pela variedade da culinária litúrgica ritual, fazendo referencia às diversas qualidades de orixá. Então, o principal para nós, que aí se apresenta, é o caruru ou o amalá, representando a caracterização da fertilidade, à expansão do princípio masculino ligado à expansão; e feminino também porque o amalá compreende a presença de Xangô e Iansã. No caso de Xangô, orixá rei e patrono das dinastias reais de Oyó que cuida dos seus filhos, que cuida de sua gente, ele está presente, portanto, como uma referencia fundamental na expansão das comunidades, das linhagens e das famílias. Iansã, que também é o principio feminino do fogo, também relacionado com o amalá, está presente nessa relação culinária, principalmente pelo acarajé, também um de seus elementos.
Márcio Nery de Almeida- Então quer dizer que o caruru que as pessoas fazem é uma reinterpretação dessa culinária?!...
Marco Aurélio Luz – Não. O caruru que as pessoas fazem, quando é um caruru de preceito, como é chamado, é em razão do fato de serem pessoas que tem uma relação com os Ibeji e, por isso, eles fazem essa festa, fazem a oferenda aos orixá Ibeji que compreende a parte, vamos dizer assim, pública do ritual, que é a distribuição das oferendas caracterizadas por essa culinária litúrgica. Então, chamam as crianças que participam da redistribuição dessa culinária na forma de uma gamela rodeada por elas.
Ali, com eles sentados, são cantados cânticos, tudo mais, e uma vez alimentados esses meninos são alimentados outros, e outros, e outros, e outros, quantos se possa conseguir, alcançar nessa festividade. Quanto mais crianças, mais alimento, mais sinal de prosperidade e fertilidade, sendo uma coisa muito característica da generosidade e da necessidade de zelar uns pelos outros, que faz parte da vida em comunidade, ou da comunalidade, de tradição africana. Então, este é basicamente o caruru de preceito de uma pessoa dedicada a isso. Há varias razões pela quais as pessoas se dedicam a esse orixá. Agora, aqui na Bahia, existem esses desdobramentos, como o chamado caruru sem preceito, que é o que as pessoas fazem, só com as comidas.

Gêmeos
Escultura de Louco, artista da cidade de Cachoeira

Márcio Nery de Almeida- Na tradição africana também existe uma trindade criadora, por assim dizer: Olorum, Obatalá e Oduduá.
Marco Aurélio Luz – Na história da criação do mundo, Olorum – que a gente pode estabelecer uma relação para tentarmos entender isso – a Deus, à idéia de Deus, do criador é uma entidade bastante abstrata, quase inqualificável, porque é a fonte do existir, a origem do existir. Agora, Olorum delega aos orixá mais antigos, essa missão a de criar o mundo: um deles é Orixá – nlá, ou Oxalá, como a gente chama, que está ligado ao ar. É uma existência genérica, é um existir bem original e do qual todos os seres dependem através da respiração, todos estamos ligados a essa massa de ar, de existência, Oxalá. E outro é o orixá Odudua, que é a terra, o interior da terra, onde as coisas são elaboradas em termos de receber e repor, restituir e renascer. O ciclo de nascimentos se dá através da terra, do interior da terra, de processos que ocorrem no interior da terra. Então, é de lá que nós viemos e para lá que nós voltaremos, e assim sucessivamente. “Foi para dar vez aos outros’’. Uma pessoa morreu, faleceu ou fez a viagem, como se diz, foi restituir sua matéria a terra, de onde, uma vez restituída, vai dar ocasião para que sejam feitos novos seres, e assim sucessivamente.
Márcio Nery de Almeida- Inclusive existe um conto que fala que os deuses fizeram os corpos humanos da lama, e a lama ficou chorando, sentindo-se vazia porque as partes tiradas não lhe eram restituídas, devolvidas. Daí a necessidade do ciclo de nascimentos e de mortes...
Marco Aurélio Luz – Isso. A matéria prima, a matéria original da qual somos feitos está representada pela lama, água mais terra, que depois recebe o sopro de Obatalá e Orumilá para termos, então, a existência concreta, individual. Então, assim é elaborada miticamente a criação dos seres humanos, que têm como origem de matéria a lama, que está associada à Odudua, o interior da terra, na elaboração da gestação, e a Nanã também, porque representa o lado da restituição dessa lama. Nana Iku-rê, Nana, representa a morte. Ela é o lado da restituição que permite o novo renascimento.

Márcio Nery de Almeida-Existe verdadeiramente alguma relação entre os dias da semana e os orixá? Por exemplo, dizem que quem nasce na quinta feira é de Oxossi. Existe essa relação?
Marco Aurélio Luz – Há uma serie de indícios que podem caracterizar isso, mas, principalmente, o veredicto de pertinência é feito através do oráculo. Por sua vez, quem sabe manejá–lo e interpretá–lo, é quem pode assegurar a você qual o seu orixá. Para isso, há o sacerdócio dos babalaô, que quer dizer “pai do mistério’’: Baba l´ awô. Baba pai; awô, mistério - pai do mistério. Na África tradicional, na tradição, a formação dos babalaô leva mais de vinte anos, ou por volta de vinte anos. A pessoa passa por vários processos..., convivendo com um babalaô mais antigo. Aí ele é pouco a pouco iniciado e não só sobre a mecânica do jogo e os caminhos do destino. Enfim, é uma coisa assim como um sacerdócio. Há pessoas dedicadas a isso. Aqui no Brasil, essa tradição do babalaô não foi mantida como foi, por exemplo, em Cuba, e como é na África. Aqui, são as mulheres, principalmente as ligadas a Oxum. Miticamente, elas estão em condições de realizar essa atividade oracular, mas não através do processo oracular do Ifá, que é o que caracteriza o Babalaô, mas pelo Erindinlogun que quer dizer dezesseis e mais um, que permite o movimento do cair dos búzios. Esse jogo dos búzios é o que é mais praticado aqui. É o sistema Erindinlogun, que também é consultado para essa finalidade, para dizer qual é o orixá da pessoa. Quanto aos dias da semana, aqui no Brasil, temos uma adaptação, porque na África tradicional as semanas eram até quatro dias. Aqui, na adaptação, a quinta-feira está consagrada a Oxossi, a segunda-feira é de Exu, a terça é de Ossaiyn e Ogun, a quarta é de Xangô e Iansã, a sexta-feira é de Oxalá, o sábado é das Iabás, Oxum e Iemanjá, e o domingo é de todos os Orixá.
Elexin
Escultura de Marco Aurélio Luz

domingo, 26 de setembro de 2010

ENCONTRO REGIONAL DE FORMAÇÃO PRÊMIO ITAÚ-UNICEF

Selo conquistado pela ACRA em 2009
A ACRA participou nos dias 14 e 15 de setembro do Encontro Regional de Formação promovido pela Fundação Itaú Social e UNICEF,que teve como meta “... refletir e fortalecer o debate sobre Educação Integral como política pública no Brasil.” EM 2009 a ACRA através do "Dayó: afirmando a alegria socioexistencial em comunalidades africano-brasileiras" foi indicada como semifinalista entre os vinte melhores projetos no Brasil da 8ª Edição do Prêmio ITAÚ UNICEF no conjunto de 1.917 projetos inscritos. “O Prêmio Itaú-Unicef visa reconhecer e estimular projetos de organizações sem fins lucrativos que desenvolvam ações socioeducativas, contribuindo, em articulação com a escola pública, para a educação integral de crianças e adolescentes.” Salientamos que a ACRA é um dos Pontos de Cultura reconhecidos pelo MINC-Ministério da Cultura e tem parceria com a Fundação Cultural Gregório de Matos.
A equipe de educadores/as da ACRA foi representada no Encontro de formação da Fundação Itaú Social e UNICEF pelas professoras Rosângela Accioly Lins Correia e Caroline Nepomuceno.A seguir alguns aspectos destacados pelas professoras sobre o Encontro e encaminhadas para o blog com exclusividade.


Da esquerda para direita Rosângela Accioly Correia e Caroline Nepomuceno

O Encontro Regional de Formação organizado pela Fundação Itaú Social e UNICEF uniu estados do norte e nordeste com objetivo de disponibilizar espaços para a integração entre as diversas instituições não governamentais que concorrem ao Prêmio Itaú-Unicef. Foi uma oportunidade ímpar pois nos possibilitou estar em contato com as diferentes iniciativas,as dificuldades e desafios comuns , comparando com as políticas que estão sendo criadas em prol dessas ONG'S. O encontro de formação costuma ocorrer nos anos pares e as premiações no anos impares, assim o encontro deste ano surge com o objetivo de: visibilizar e sensibilizar a integração das ONGs com as escolas, a comunidade, valorizando essas parcerias e fortalecendo as práticas existente nas comunidades; introduzir condições para a implantação de políticas públicas mais eficazes através de redes de saberes e experiências.

Discutindo aspectos da Educação Integral

O tema central a ser discutido foi a Educação Integral,e Salvador foi escolhida para sede deste encontro por se tratar do berço da Educação Integral, com as idéias difundidas pelo educador Anisio Teixeira, que pensava numa educação voltada não só para a preparação escolar e conteudista, mas também para a formação do homem como ser integral necessitado de valores, técnicas, conteúdos, procedimentos e atitudes mais flexivéis e críticas. O Encontro teve como pontos de reflexão aspectos como:gestão,projeto socioeducativo,articulação,planejamento e avaliação. Todas as ong's presentes falaram sobre suas maiores potencialidades e maiores dificuldades, assim, foi possível conhecer o trabalho desenvolvido por cada organização participante, suas dificuldades e compartilhar com elas dúvidas e conhecimentos.O Encontro contou com a participação da Ong Sofia, Centro de Estudos(Subúrbio de Salvador);Casa do Sol Padre Luís Lintner(Cajazeiras).

Da esquerda para a direita representantes: GACC(BA), Canto das Artes(TO) e ACRA(BA).
Foi muito proveitoso pois nos mostrou outras perspectivas de trabalho e inicitiavas, nos propiciou pensar sobre a autosustentabilidade da ACRA e sobre como é bom compartilhar experiências. Esperamos nos reencontrar em espaços similares para fortalecer os laços formados.

Professoras Rosângela e Caroline apresentando no encontro contribuições baseadas no cotidiano da ACRA

AMADEU ALVES ”NADA ESTANCA ITAPUÃ, AINDA SOMOS FELIZES!!!”

Amadeu Alves no Show Trilhas Músicais

O cantor e compositor Amadeu Alves Ribeiro Filho,concedeu ao blog da ACRA uma entrevista onde vai nos apresentando histórias,paisagens,personalidades,sabores, valores,referências e memórias do bairro de Itapuã.Faz também reflexões importantes sobre a saturação urbana que tenta “calar” Itapuã e toda a poesia que dela transborda, influenciando o seu trabalho como músico e compositor inspirado nesse lugar tão precioso que faz parte da história da Bahia. Amadeu Alves Ribeiro Filho, é Coordenador da Casa da Música localizada no Parque Metropolitano do Abaeté,espaço onde vem desenvolvendo com o seu talento e sensibilidade artística momentos singulares envolvendo saraus,teatro,exposições,palestra,etc. Acompanhem esse bate papo proporcionado pelas professoras Caroline Nepomuceno e Naiára Bittencourt,ambas da equipe PRODESE/DAYÓ/ACRA.

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ACRA-Há quanto tempo o senhor mora no Bairro de Itapuã?
AMADEU-Moro no bairro há 43 anos. Desde que nasci no dia 31 de maio de 1967.
ACRA-Conte-nos um pouco da sua infância e juventude em Itapuã. Mantém contato com algum dos amigos (as) desse tempo?
AMADEU-Bom, eu nasci num lugar de natureza exuberante, num tempo que me permitiu desfrutar intensamente do ambiente que vivi. Meus sentidos foram regados, alimentados pelos sons, pelas cores e imagens, pelos cheiros e aromas, pelos sabores, pelas sensações e pela aura desse lugar tão especial. Um grau de liberdade que nós, crianças desse tempo tínhamos num vasto território repleto de dunas, lagoas, rios, praia, e bastante área verde. Eu nasci no último dia do mês de maio e já vivi meus primeiros dias de vida em pleno mês de junho, já captando os fluidos dos festejos, da devoção, do clima junino, das rezas, das fogueiras, fogos, e assim vim vivendo, experimentando as descobertas, vendo as manifestações culturais tão ricas naquela época. Tenho contato sim com vários amigos desse tempo.
ACRA-Que lembranças tem do bairro nos anos 1970 e 1980? E o que mudou hoje em Itapuã?
AMADEU-A década de 1970 foi muito marcante, com piqueniques na Lagoa de Dois-Dois, o
Abaeté, o Morro do Vigia, as caminhadas maravilhosas nas trilhas, por onde hoje é o Bairro da Paz, Alto do Coqueirinho, Km 17...
... Até Mussurunga ainda não existia, era só verde, mato, pés de manga, coco, caju, mangaba, cambuí, araçá. As festas de largo, o sambão da galera, onde participava dando meus primeiros toques em instrumentos de percussão. Via a banda marcial do Colégio Lomanto Júnior, que me encantava principalmente com o som da caixa/tarol. Assim também era quando vinham os trios elétricos, o parque de diversões, o trio paralítico de Seu Menezes, os ternos de reis, a chegança, os bailes pastoris. Tudo isso na minha infância. As puxadas de rede, a relação com o mar, os babas na praia, no Campo da Ilha, no Campinho e no Beira Rio. Os carurus de sete meninos... é muita coisa, muitas lembranças.
A década de 1980 veio com novas experiências. O início da carreira musical, ainda aos 13 anos de idade. Novas amizades, a chegada da adolescência, as namoradas. Foi uma década de grandes transformações no bairro. O desenvolvimento urbano chegou mais acelerado. As dunas se foram nas caçambas e se transformaram em prédios, o Abaeté virou uma favela, os ônibus da VIBEMSA (Viação Beira Mar) passavam superlotados, a cultura dava sinais de mudanças radicais. As relações foram se transformando e quando vimos já nos encontrávamos em outro momento.
ACRA-Com relação a sua história no espaço escolar, estudou em alguma escola de Itapuã? Fale-nos um pouco sobre as boas lembranças desde local?
AMADEU
-Sim, estudei primeiro na Escola Moderna de Itapuã (hoje Calazans Neto), com a professora Olga, que ficava na Rua do Gravatá e depois foi pro Alto da Cacimba. Na seqüência, fui para a Escola Geny Gomes fazer a terceira série, depois a quarta série no Rotary, depois o ginásio no Educandário Itapuã. Da Escola Moderna lembro-me do parquinho, das professoras, e que eu fiz a primeira e segunda série no mesmo ano, em 1974. Da Geny, lembro do caminho para ir para a escola, passando pelo Largo do Jenipapeiro. Foi quando eu comecei a ir sozinho pra escola. Do Rotary, eu lembro que a merenda escolar, muitas vezes era uma salada de bacalhau, Nescau. Era uma beleza. Também o caminho para a escola era muito interessante. Nesse tempo as dunas chegavam até a Av. Otávio Mangabeira (hoje Dorival Caymmi), até a frente da minha casa, onde moro até hoje. Então, eu atravessava a rua, subia a duna, entre os cajueiros, mangabeiras, chegava na Rua Guararapes (esta rua que hoje leva o nome de meu pai), e ia até o Rotary. Aí passei para o Educandário Itapuã, de Dona Terezinha. Fiz todo meu ginásio. Gostei muito também de estudar lá. Os colegas, uma turma muito legal. As professoras (Yoná, Evanise, Odaísa, Áurea). A kombi do transporte escolar eu não usava, que a própria Dona Terezinha dirigia. Depois do Educandário, fui para o Colégio Águia, que já era na Praça da Piedade, fora de Itapuã.
ACRA-Sabemos que seu pai Amadeu Alves foi professor em Itapuã. Qual é a maior recordação que tem dele?
AMADEU
-Eu convivi até os meus seis anos, quando ele faleceu. Além de professor, ele foi vice-diretor do Colégio Lomanto Júnior, com o Professor Narciso como diretor. Encontro até hoje pessoas que foram alunas dele. Era uma pessoa de grande erudição. Lembro quando ele voltava do Lomanto, naquela época, as noites eram mais silenciosas, então nós ouvíamos de longe o som do DKV, o carro dele, e isso era uma alegria muito intensa, quando ele retornava para casa à noite.
ACRA-Compreendemos que a tradição oral transmitida pelos mais velhos (as) é para povos, sobretudo, de matriz africana, um forte de sua cultura. Baseado nisso o que você aprendeu com os moradores mais velhos (as) de Itapuã, tendo em vista que grande parte desses moradores e de toda Salvador, são descendentes desses povos e que de alguma forma carregam essa tradição?
Os anciãos guardam tesouros. Se todos bem soubéssemos, cada vez mais valorizaríamos e nos aproximaríamos desses detentores de tesouros. É a memória, a experiência rica de vida, que podemos captar através da convivência, de diálogos. Acho que bebi um tanto nessa fonte, o que me estimulou a trabalhar mais pela preservação desse bem que é a história de nosso povo.
ACRA-Quais são os lugares que considera especiais em Itapuã?Por quê?
AMADEU
-As duas pontas, do Farol e de Piatã, nos dão uma amplitude de horizonte que é especial. As pedras de Itapuã, principalmente a Ponta de Pedra que termina com a grande Pedra que Ronca, que especialidade!!! Quem já foi ver a lua nascer de lá, ou o pôr-do-sol, sabe quanto especial é. Ou então, sair de caiaque, remando até perto da pedra. É isso, são os lugares associados aos eventos que acontecem neles, principalmente os eventos naturais. A Lagoa do Abaeté com a lua prateando suas águas. E das fontes que existiam em Itapuã, uma ainda sobrevive em meio a tanta urbanidade. Ela fica no quintal da minha casa, e da origem a um rio que batizei de Pequenino.
ACRA-Como aconteceu sua aproximação com a música e de que forma surge o bairro de Itapuã como inspiração para as suas composições?
AMADEU-Costumo dizer que comecei a tocar com o cordão umbilical, na barriga de minha mãe. Minha infância, como já falei, foi regada pela sonoridade que permeava todo o ambiente que vivi. Agora, a partir dos meus sete anos de idade, comecei a tocar violão, aprendendo os primeiros acordes com meus irmãos. Daí foi um passo para formar um grupo musical, o SPASOM, na seqüência um outro de nome SUPORTE, que me colocou em contato com o palco e o público, ainda na infância. Itapuã sempre foi e continua sendo minha referência de identidade. Está na minha constituição afetiva, psicológica. É uma grande força para minha criatividade, que dá significado a minha trajetória artística.
ACRA-Em sua opinião, o que falta para melhorar a vida dos moradores de Itapuã?
AMADEU-Compreensão, boa vontade, conhecimento do que realmente pode fazer diferença para uma sociedade. É o que venho procurando para fazer minha parte dentro do processo coletivo. Menos competição e mais cooperação.
ACRA-Qual é a visão que possui sobre os jovens de hoje? Tem alguma expectativa sobre as ações (positivas ou negativas) que podem ser perpetuadas por eles?
AMADEU-É uma grande massa que está atuando nas escolas, nos lares, nas ruas, que tem um amplo acesso a uma gama de informações, e que acredito com códigos muito embaralhados. Precisam de boas referências para ajudar na organização desses códigos num sentido positivo. Procuro ter menos expectativas e mais atitude para auxiliar nesse processo.
ACRA-Existe algum aspecto ou curiosidade sobre Itapuã ou sobre a Lagoa do Abaeté que queria nos contar?
AMADEU-Vejo Itapuã, essa grande colcha de retalhos precisando ser revista. A Itapuã do NATIVO, hoje é também, a Itapuã de todo um povo que migrou de suas terras de origem e construiu já, uma história de vida, seja como morador de favela, que trabalha como ambulante na Dorival Caymmi, que vende queijinho na praia, que é comerciário, ou os que vieram como “mão-de-obra qualificada” para trabalhar no pólo, e tantos e tantos outros que já se enraizaram nesse território de identidade. Sobre a lagoa, é sentir a sua força, seu poder, mesmo depois de tantos maus tratos, resistindo e encantando.
ACRA-Como a Casa da Música entra na sua vida e que perspectivas de linguagens você estabeleceu na instituição?
AMADEU-Além de ser nativo, venho há um tempo trabalhando junto a outros moradores do bairro pela revitalização de Itapuã. Acompanhei ainda bem jovem a luta pela preservação do Abaeté, onde meus irmãos (Ailton e Carlos Ribeiro) tiveram uma participação importante como biólogo e jornalista, respectivamente, a AMI (Associação de Moradores de Itapuã), que funcionou durante dois anos na casa de Carlos, que era um dos dirigentes e jornalista responsável pelo Jornal de Itapuã. Fundei em 1997, também junto a outros moradores o GRITA (Grupo de Revitalização de Itapuã). Convivi de perto com Dona Francisquinha e Dona Helena, além de outras senhoras, membros do Grupo Mantendo a Tradição (o que reporta a uma pergunta anterior, pois elas me ensinaram muito). Sou fundador da Agenda 21 Itapuã, da qual fui gestor geral por quatro anos. Tive a felicidade de idealizar o Grupo Cultural As Ganhadeiras de Itapuã, do qual sou um dos fundadores e músico. Então a Casa da Música chegou naturalmente, como fruto desta caminhada. É o meu trabalho, o teto que passou a ser o teto para muitos músicos e outros artistas que encontram um espaço com uma equipe determinada a servir. Uma instituição mantida pela Fundação Cultural do Estado da Bahia, que hoje trabalha mais perto da linguagem e do contexto do povo que a rodeia e que procura manter uma relação de respeito com os turistas que a visitam. É uma perspectiva de diálogo constante com a diversidade. Com a tradição e a inovação.
ACRA-Para finalizar a nossa entrevista que mensagem você gostaria de registrar para os educadores/as e visitantes do blog ACRA sobre Itapuã e a riqueza cultural que o bairro possui?
AMADEU-Das aldeias dos índios que habitaram este lugar, passando pela vila de pescadores que foi, Itapuã guarda seus encantos, não só nas lembranças de um lugar paradisíaco, que recebia pessoas que desejavam sentir a felicidade de vivê-la. Quando cantar Itapuã em versos e prosa, era simplesmente dizer o que estava sentindo. Mas também no dia-a-dia de um lugar, onde o caos do progresso desordenado parece ter vencido a poesia. Perceber esses encantos requer uma atenção especial às pessoas nativas e agregadas que conhecem muito da história do bairro e que aos pouco estão partindo com todo esse conhecimento. E as pessoas novas que estão chegando com todo gás da juventude, e que são os principais sujeitos da construção de novas relações.
NADA ESTANCA ITAPUÃ, AINDA SOMOS FELIZES!!!
Para conhecer mais sobre o trabalho de Amadeu Alves Ribeiro Filho os contatos:
(71) 9911-8010 / 3116-1512
alves.amadeu@gmail.com
www.myspace.com/amadeualves
casadamusicabahia.wordpress.com

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

“STAND BY ME” E A Duplicidade da Internet


Por Marco Aurélio Luz

O mundo dos computadores aponta para o endeusamento da ciência desdobrada em técnica gerando o drama da escravização do homem à máquina. Tudo por dinheiro...
Todavia como ocorre com todo ser existente, mesmo o mundo dos computadores, ele traz em si sua própria contradição que aponta para direção oposta isto é, a do ser humano livre, livre da subjugação do manto de aço e do silício.
É o caso de uma bacia semântica, de um mundo de mensagens que se encaminham romanticamente para outras paisagens resultantes do “espírito do tempo”. Conforme Maffesoli ele se caracteriza pelo movimento pendular que ora oscila de um lado pela predominância do conhecimento associado à técnica representado pelo mito de Prometeu que se apoderou do fogo controlado por Zeus e foi castigado por isso, e ora de outro lado pelo conhecimento sobredeterminado pelo sentimento, emoção e arte representado pelo mito de Dionísio que se caracteriza pelo respeito e adoração aos mistérios de fertilidade da mãe terra unindo as diversidades dos componentes da cidade e do campo em seus festivais reunindo a Polis em procissões pelas dimensões do real imaginário, “in vino veritas”.
Na atmosfera pós - moderna no âmbito da indústria cultural emerge a pujante presença do que denominamos no ocidente de cultura negra especialmente da música e da dança afro- americana.
A origem dessa presença é o blues que sem ter essa intencionalidade alimentou e alimenta a criação de vários gêneros musicais dele desdobrados, encantando e proporcionando a projeção de sem números de artistas.
Aqui vamos prestar homenagem a Ben E. King um dos grandes compositores e intérpretes de nossa época autor da famosa música Stand By Me, (Fique ao meu lado) que dá nome também a uma fundação de fortalecimento comunitário, uma ação do próprio Ben.



segunda-feira, 13 de setembro de 2010

ESPAÇOS DE ENCONTRO: CORPOREIDADE E CONHECIMENTO


Itamar Silva


Apresentamos uma entrevista interessante com o jornalista Itamar Silva importante liderança na comunidade do Morro Santa Marta no Rio de Janeiro. Essa entrevista foi concedida ao Programa Salto para o Futuro em 27/4/2005 e nos aproxima de modo instigante das questões que afligem a juventude brasileira,a exemplo da perda de esperança de vida,de sonhos,do direito à alteridade...Itamar toca com intensidade nas dores que tendem a arrebatar de forma trágica a existência da nossa juventude e aponta perspectivas importantes para a superação dessa anomia característica das sociedades contemporâneas.Esta e outras entrevistas estão disponíveis no site http://www.tvbrasil.org.br/saltoparaofuturo/entrevistas.asp?PagAtual=7&buscar=
Vale a pena acompanhá-las.


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Salto – Para começar a entrevista, gostaríamos que você falasse um pouco sobre a relação entre juventude e a vida nas comunidades economicamente desfavorecidas.

Itamar Silva – Na verdade, eu posso falar da experiência que eu tenho no Morro Santa Marta e o trabalho que a gente acompanha durante muitos anos e o que a gente percebe... Primeiro que não é muito diferente o jovem de favela ou de comunidade de outros jovens, adolescentes, que moram fora de favela. Eu acho que essa faixa de idade, ela é igual, independentemente da localidade onde você está vivendo. A questão são as oportunidades. Quais são as oportunidades que esse adolescente tem, morando em uma área popular, seja favela, seja um conjunto, ou as que ele tem fazendo parte de uma classe média, por exemplo, com acesso à cultura, com acesso a equipamentos culturais diversos? Então, acho que é aí que se estabelece uma diferença: o adolescente que está na favela, acho que esse é um momento muito delicado para ele, porque ele deixa de ser criança, mas ele continua agindo, ele continua com aspirações muito infantis e, no entanto, ele é cobrado pela comunidade onde ele está morando e é cobrado também por uma sociedade que acha que pobre deve estar trabalhando muito cedo... Uma maturidade que ele não está preparado para responder. É um momento muito difícil para esse adolescente, porque ele continua com aspirações infantis, ele continua querendo brincar e ele tem o direito de errar, no entanto ele é empurrado pela necessidade da família, pela imposição da sociedade a pensar no trabalho, a já tentar enquadrar-se numa vida adulta para a qual ele não está preparado e a própria sociedade não constrói as condições para absorver esse adolescente que vai se adultizando.
Salto – O senhor poderia comentar sobre a questão da resistência de alguns jovens em participar de projetos sociais?

Itamar Silva – Eu acho essa pergunta interessante porque, na verdade, ela está colocada para quem atua na área social: por que uns e não outros? Inclusive é tema de um livro, do Jailson de Souza, que trabalha na Maré. Esse é o título Por que uns e não outros? E eu acho que tem um quadro, um quadro social em que esses jovens estão colocados, em que há um recorte: a família, as relações diretas e o próprio indivíduo é que reagem de maneira diferente às determinadas situações. Então, é difícil a gente afirmar porque determinado jovem vai para marginalidade e outro jovem não. Outro jovem segue um caminho, eu digo sempre, da subordinação, que diferentemente do que se diz, e aí é minha opinião, de que os jovens de favela estão à beira da marginalidade e que, se não tiver algum projeto social, eles vão ser marginais. Para mim há uma perversidade nessa abordagem, porque é como se todo jovem pobre fosse, em potencial, um marginal e, se não houvesse os projetos sociais, ele estaria engrossando as filas das quadrilhas, dos bandos. E não é verdade isso, por quê? Em minha opinião, infelizmente, a maioria desses jovens acaba se subordinando e aceitando uma situação muito subordinada na sociedade em que a gente vive, eles aceitam os piores empregos, eles aceitam as condições mais subalternas, e isso impede a sua evolução, isso os impede de olhar para a vida e enfrentar isso como um desafio e crescer. Acho que o número de jovens que vai para a marginalidade é pequeno, se a gente comparar com a quantidade de jovens que estão na linha da pobreza e a quantidade de jovens que realmente entram para o mundo da marginalidade. Então, os projetos sociais, é claro que eles têm méritos, eu acho que eles são importantes, eles cumprem um papel numa sociedade como a nossa que, estruturalmente, tem um débito muito grande com a população empobrecida. Os projetos sociais acabam ocupando um pouco esse espaço, tapando buraco, mas eles não resolvem questões estruturais, isso a gente precisa deixar muito claro, porque os coordenadores dos projetos sociais, eles não podem acreditar que ações pontuais, ações isoladas vão dar conta da questão fundamental e estrutural da sociedade brasileira, que é a desigualdade. Esses projetos são importantes como demonstrativos, eles são importantes como projetos-piloto. Eles são importantes, são uma forma de você trazer à tona a potencialidade dessa juventude, desses jovens, dessas crianças. Mas eles têm que estar sempre direcionados para a construção de políticas públicas que sejam capazes de, na realidade, resolver a questão da desigualdade social. Nesse sentido, eu tenho muita tranqüilidade, porque o trabalho que a gente desenvolve no Santa Marta desde 1976 é um trabalho que está voltado para a organização comunitária e olha para o jovem, olha para o adolescente como um ser pleno de direito. O que a gente faz aí não é porque ele está ameaçado de ir para a marginalidade, a gente preenche o tempo dele e oferece algumas oportunidades porque acha que ele tem direito a isso e é um direito que é negado aos mais pobres na nossa sociedade. O que a gente faz é demonstrar que ele tem direito e que ele deve buscar outros espaços, ele deve enfrentar essa realidade e tentar conquistar aquilo que ele não tem até determinado momento. Esta é a nossa atuação no Santa Marta.
Salto – E quais são os desafios colocados para quem atua nos projetos sociais?Itamar Silva – Eu acho muito importante para quem trabalha com jovens em áreas empobrecidas, favelas, conjuntos, primeiro, que não olhe o jovem, o adolescente como o "coitadinho", ou como potencial marginal. É importante olhar pra ele e ver um cidadão. Um cidadão que tem condições e que precisa de oportunidades na sociedade brasileira, primeiro isso, porque o que acontece é que muita gente vai com muita boa vontade para essas áreas, mas acaba que, ao invés de ajudar a promoção desse adolescente, ele acaba achatando a sua condição de cidadão, porque não está olhando para ele como um ser de direito, está olhando para ele como alguém que precisa de uma ajuda, de uma bengala para poder não cair no abismo. Então, acho que a primeira coisa é essa, todo trabalho que enfrenta, e acho importante que quem vai fazer um trabalho social tenha na cabeça que vai encontrar aí cidadãos, vai encontrar aí cidadãos plenos de direito e que precisam alargar a sua base de atuação na sociedade brasileira. Isso é importante. Depois, os espaços, certamente a gente hoje, e eu acho que não é só na favela, a gente precisa de espaços, que acolham de uma forma boa, prazerosa, essa juventude. Porque ela vem com as diferenças dela que são inerentes a qualquer adolescente no mundo. Adolescente é irreverente, adolescente é irresponsável, adolescente é trapalhão, o adolescente às vezes tem uma certa empáfia que é própria da juventude, que eu acho que são elementos importantes, se você olha e lida com isso, entendendo que isso é próprio desse tempo, é próprio dessa faixa etária, você vai poder lidar com isso como um elemento positivo na sua relação com o adolescente e não como elemento que você tem que cortar ou tem que reduzir a capacidade de diálogo que ele está trazendo. Acho que isso é importante, porque geralmente há muito preconceito, se olha para o jovem com muito preconceito. A gente já tem um formato ou um perfil do que se espera ou como deveria ser esse jovem. Tudo o que se diferencia dessa nossa pressuposição acaba entrando como limitador da possibilidade de diálogo. A gente precisa se abrir para isso e entender essa juventude, mesmo a juventude pobre, que não é diferente de outra juventude, a gente precisa parar de fazer essa separação, como se jovens não pobres fossem de um jeito e jovens pobres fossem de outro jeito. Na verdade, isso é um tempo, é um tempo importante na vida de qualquer ser humano.
Salto – Quais são, a seu ver, os fatores de risco que podem afetar a vida dos jovens?

Itamar Silva – Em relação aos fatores de risco é claro que a gente hoje que acompanha, que mora, que está muito próximo dessas áreas populares, favelas ou conjuntos, você percebe que há uma parte desses jovens que hoje entram para o mundo do crime, mas não é hoje, em outros momentos também, o que a gente tem, e é importante que se diga isso, é que o momento que a gente vê é um momento muito especial, talvez seja o momento, na história do mundo, que você tenha o maior número de jovens. Então, a gente vive o que a gente chama de conseqüência, a "onda jovem" que a gente vive, em que o foco são os adolescentes e jovens. E isso pressiona o mercado, um mercado que não tem alternativa pra essa juventude, como não tem para os adultos também. A gente tem uma crise hoje de empregabilidade, uma crise de mercado de trabalho, uma limitação que faz com que essa pressão dessa juventude revele ou apareça como uma questão muito grave. Mas, na verdade, ela é uma conseqüência do desenvolvimento da sociedade. Por outro lado, você tem a questão do tráfico de drogas nas favelas e a gente não pode deixar de tocar nesse ponto, ele está cada vez mais atraindo um número de jovens com menor idade, então você tem gente com 14 e 15 anos e que está vinculado hoje ao tráfico de drogas em algumas áreas. Essa população é que está muito mais afetada, ou já está dentro do risco absoluto, isso é uma questão. Agora, qual é a saída para essa população? A saída não está exatamente na saída individual, na saída particular, eu quero acreditar que o enfrentamento dessa questão ele se dá num campo mais amplo. Ele está em políticas estruturais, a gente tem que mostrar muito claro que se você não tiver uma orientação para políticas estruturais, você não diminui, você não reduz a entrada dessa porta para o mundo da marginalidade, você vai ter cada vez menos gente disponível, mais gente sem alternativa na sociedade, e aí não é alternativa só de trabalho, mas é alternativa cultural, alternativa na escola, uma escola de qualidade, alternativa de possibilidades de uma vida digna. Porque a gente não pode fugir, o jovem está num mundo marcado pelo consumo e a maioria desses jovens não tem condição de responder a essa pressão continuada desse consumo, logo cada um vai buscar suas alternativas. Alguns acham que a alternativa vai ser o mundo do crime, outros acham que vai ser trabalhando e entregando remédio, trabalhando em uma farmácia, outro acha que vai ser sendo artista, cada um tem uma coisa na cabeça, mas na verdade todos eles estão pressionados pelo mesmo mercado, pela mesma pressão do consumo. Então, o que a gente tem que apresentar para ele são alternativas, que mesmo que ele não encontre um trabalho ideal, mas ele pode ir ao cinema, ele pode ir ao teatro, ele pode tomar um sorvete, ele pode morar num lugar decente, mesmo que seja na favela. Uma favela em que o esgoto não esteja a céu aberto, que o rato não entre na sua casa, que a sua casa possa ser de tijolo. A questão não é morar na favela, que qualidade de vida você tem nessas localidades? Qual é a possibilidade que você tem de ser um cidadão, mesmo sendo um cidadão pobre? Essa que é a questão. Não dá para todo mundo ser rico, nem todos vão ser ricos, mas como é que você dá qualidade e dignidade para a vida dos pobres?
Salto – Como as exigências do consumo podem afetar os jovens?

Itamar Silva – Essa questão do consumo é um tema para a gente levar em consideração, porque ele pressiona toda sociedade e a juventude em particular. A juventude é muito mais suscetível a esse tipo de pressão. E aí tanto a juventude pobre, a juventude classe média, quanto a juventude rica. A questão é a escala, um vai estar pressionado para comprar um tênis e aí vai achar que resolve isso fazendo um pequeno roubo, outro, para comprar um carro vai cometer um assalto maior, vai cometer um ato ilícito de outra natureza, o que lhe dê mais dinheiro, mas eu acho que há uma pressão generalizada para esse mundo consumista que a gente está vivendo. Acho que isso nos remete a pensar questões de valores, então hoje lidar com juventude significa resgatar alguns valores e entender quais são os valores novos que a juventude está trazendo. O que ela revela para ela como valor? Porque muitas vezes a gente fica lidando com coisas do passado, por exemplo: você pega a questão família, para a gente é um valor muito forte, mas tem mais a ver com a nossa trajetória, é importante entender como é que a juventude hoje olha para a família, que família ela está trazendo, o que ela está valorizando dessas relações e, muitas vezes a gente está fechado para isso e não consegue entender. Então, para eu pensar em consumo significa também pensar valores, que valores que a gente está trazendo, que valores que essa sociedade coloca como ideais e que novos valores essa juventude está trazendo?