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PRODESE E ACRA



VIDA QUE SEGUE...Uma
das principais bases de inspiração do PRODESE foi a Associação Crianças Raízes
do Abaeté-Acra,espaço institucional onde concebemos composições de linguagens
lúdicas e estéticas criadas para manter seu cotidiano.A Acra foi uma iniciativa
institucional criada no bairro de Itapuã no município de Salvador na Bahia, e
referência nacional como “ponto de cultura” reconhecido pelo Ministério da
Cultura. Essa Associação durante oito anos,proporcionou a crianças e jovens
descendentes de africanos e africanas,espaços socioeducativos que legitimassem
o patrimônio civilizatório dos seus antepassados.
A Acra em parceria com o Prodese
fomentou várias iniciativas institucionais,a exemplo de publicações,eventos
nacionais e internacionais,participações exitosas em
editais,concursos,oficinas,festivais,etc vinculadas a presença africana em
Itapuã e sua expansão através das formas de sociabilidade criadas pelos
pescadores,lavadeiras e ganhadeiras,que mantiveram a riqueza do patrimônio
africano e seu contínuo na Bahia e Brasil.É através desses vínculos de
comunalidade africana, que a ACRA desenvolveu suas atividades abrindo
perspectivas de valores e linguagens para que as , crianças tenham orgulho de
ser e pertencer as suas comunalidades.
Gostaríamos de registrar o nosso
agradecimento profundo a Associação Crianças Raízes do Abaeté(Acra),na pessoa
do seu Diretor Presidente professor Narciso José do Patrocínio e toda a sua
equipe de educadores, pela oportunidade de vivenciarmos uma duradoura e valiosa
parceria durante o período de 2005 a 2012,culminando com premiações de destaque
nacional e a composição de várias iniciativas de linguagens, que influenciaram
sobremaneira a alegria de viver e ser, de crianças e jovens do bairro de
Itapuã em Salvador na Bahia,Brasil.


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

sábado, 14 de setembro de 2013

FORMATURA DO CURSO DE SAMBA DE VIOLA DA ASSOCIAÇÃO DO GRUPO DA 3ª IDADE ETERNA JUVENTUDE



Ilustração do convite da formatura

No dia 06 de setembro a Associação do Grupo da Terceira Idade Eterna Juventude, realizou no Espaço Cultural da Câmera de Vereadores do município de Salvador a solenidade de formatura do Curso de Samba de Viola 2013, sob a coordenação do artista plástico e educador Joaquim Assis.


O  artista plástico e educador Joaquim Assis abrindo a cerimônia de formatura 
 Criada em 13 de janeiro 2002, a Associação do Grupo da Terceira Idade Eterna Juventude é uma instituição sem fins lucrativos dedicada a promover o bem-estar do idoso e resgatar sua autoestima, por meio da reintegração social.
A Associação surge inicialmente como uma “brincadeira” de carnaval.
Em janeiro de 2000, o artista plástico Joaquim Assis convida alguns amigos, entre os principais, Cilene Nogueira, Jairo Gomes e Leni Maria, para criar um bloco de carnaval que resgatasse as marchinhas tradicionais, lembrasse o ritmo das escolas de samba e trouxesse a inovação nas fantasias, já que estas eram confeccionadas pelos próprios membros do bloco utilizando material reciclado. O trabalho foi tão satisfatório, que o artista plástico iniciou um projeto de resgate da cultura popular aliado à arte de reciclar. Neste projeto, os idosos participam das principais festas populares do estado da Bahia sempre vestidos com roupas confeccionadas com material reciclável de embalagens de café, rótulos de refrigerantes, embalagens de polpa de frutas, entre outras.” (http://grupoeternajuventude.webnode.pt/historia/).

As roupas da formatura foram confeccionadas pelas formandas que dedicaram tempo de criatividade e competência na finalização das roupas.As batas com os bordados coloridos, foram encomendadas no Ceará.Os adereços, foram escolhidos com muito esmero e criatividade pelo artista plástico Joaquim Assis. 










 A formatura foi muito prestigiada por amigos e familiares, que viveram momentos de muita alegria e orgulho ao assistirem as performances apresentadas pelos/as idosos/as no embalo do ritmo saboroso do samba de viola.
Nomes dos/as formandos/as no convite
  

Amigos e familiares prestigiaram a formatura







Prestigiando o evento estava a Professora Arany Santana Coordenadora de Cultura do Estado da Bahia.


Arany Santana foi homenageada pela Associação do Grupo da Terceira Idade Eterna Juventude e eleita madrinha da Associação que  reconhece na sua pessoa,  o apoio e incentivo que vem dando ao grupo desde a sua fundação.

Vale destacar que uma das formandas foi a Professora Joselita Anunciação do Patrocínio Lima,Priora da Irmandade do Rosário dos Pretos e que integrou a Coordenação da Associação Crianças do Abaeté.


Professora Joselita Anunciação do Patrocínio Lima num dos momentos de culminância do evento dançando a valsa com seu esposo e padrinho de formatura Raimundo Lima


Professora Joselita Anunciação do Patrocínio Lima  ao lado do seu irmão Professor Narciso José do Patrocínio e seu colega de curso o formando Srº Luís Carlos Pinto Ribeiro


Professora Joselita Anunciação do Patrocínio Lima  dançando a falsa de formatura com seu  irmão Professor Narciso José do Patrocínio


Professora Joselita Anunciação do Patrocínio Lima ao lado da sua sobrinha Narcimária Correia do Patrocínio Luz


Prestigiando a formatura Professor Narciso José do Patrocínio e sua filha a Professora Narcimária C.P. Luz

 A seguir alguns momentos que registramos durante a solenidade.






As fotos que se seguem registram os bastidores antes da cerimônia.
Vejam a elegância e charme das formandas.


Srª Sônia Braga Rodrigues Cardoso

 
Srª Pulcheria Bonfim da Silva











A cerimônia culminou com todos/as formandos/as dançando valsa com seus padrinhos e madrinhas.
Pura felicidade!
Tudo divertido!






Casal Joselita e Raimundo

Parabéns a turma de formandos/as de 2013 da Associação do Grupo da Terceira Idade Eterna Juventude!
Vocês são referências de altivez e ânimo para viver a dinâmica do tempo,sem abrir mão da alegria que a vida carrega apesar dos pesares...



Para as gerações mais novas que censuram os caminhos do tempo, que nos tornam paulatinamente idoso/a,há uma "Oração ao Tempo" de autoria de Caetano Veloso.A bela poesia do tempo, nos ajudará a concluir esse breve registro, fazendo a síntese das emoções que vivenciamos assistindo as performances dos formandos/as na noite do dia 06 de setembro:

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
 Tempo tempo tempo tempo
 Vou te fazer um pedido
 Tempo tempo tempo tempo...

Compositor de destinos
 Tambor de todos os rítmos
 Tempo tempo tempo tempo
 Entro num acordo contigo
 Tempo tempo tempo tempo...

Por seres tão inventivo
 E pareceres contínuo
 Tempo tempo tempo tempo
 És um dos deuses mais lindos
 Tempo tempo tempo tempo...
Que sejas ainda mais vivo
 No som do meu estribilho
 Tempo tempo tempo tempo
 Ouve bem o que te digo
 Tempo tempo tempo tempo...

Peço-te o prazer legítimo
 E o movimento preciso
 Tempo tempo tempo tempo
 Quando o tempo for propício
 Tempo tempo tempo tempo...

De modo que o meu espírito
 Ganhe um brilho definido
 Tempo tempo tempo tempo
 E eu espalhe benefíciosTempo tempo tempo tempo...

O que usaremos prá isso
 Fica guardado em sigilo
 Tempo tempo tempo tempo
 Apenas contigo e comigo
 Tempo tempo tempo tempo...

E quando eu tiver saído
 Para fora do teu círculo
 Tempo tempo tempo tempo
 Não serei nem terás sido
 Tempo tempo tempo tempo...

Ainda assim acredito
 Ser possível reunirmo-nos
 Tempo tempo tempo tempo
 Num outro nível de vínculo
 Tempo tempo tempo tempo...

Portanto peço-te aquilo
 E te ofereço elogios
 Tempo tempo tempo tempo
 Nas rimas do meu estilo

 Tempo tempo tempo tempo...



E aí?
Vamos ouvir agora um disco de samba de viola legítimo?
 Crie um ambiente bem divertido na sua casa e caia no SAMBA!


COMPARTILHANDO A ALEGRIA DE VIVER ATRAVÉS DO SAMBA E VIOLA DO RECÔNCAVO DA BAHIA



domingo, 8 de setembro de 2013

SAUDADES...


 
Professora Doutora  Maria Aparecida Santos Correia Barreto Vice-Reitora da Universidade Federal do Espírito Santo 
 
Comunicamos com pesar o falecimento da nossa querida parceira e incentivadora do PRODESE,  Professora Doutora  Maria Aparecida Santos Correia Barreto Vice-Reitora da Universidade Federal do Espírito Santo  na manhã do dia  02 de setembro na cidade de  Vitória capital do Espírito Santo.
Maria Aparecida Santos Correia Barreto  era graduada em Pedagogia, com Mestrado em Educação Especial e Doutorado em Educação.
Foi diretora do Centro de Educação da Ufes, integrando a linha de pesquisa Diversidade e Práticas Educacionais Inclusivas, do Programa de Pós-Graduação em Educação. Também coordenou o Consórcio Nacional dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (Conneabs), e o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da Ufes (Neab).
No período de 11 a 14 de maio de 2010,aconteceu em Vitória no Espírito Santo o II Seminário Nacional Africanidades e Afrodescendência na Universidade Federal do Espírito Santo,sob a coordenação de Maria Aparecida e o Prof. Dr. Henrique Cunha Jr.Na ocasião da abertura do Seminário, ambos introduziram uma emocionante homenagem a Abdias do Nascimento, líder exponencial das lutas das populações negras, que dispensa maiores comentários.
 
Da esquerda para direita Elisa Larkin do Nascimento,Maria Aparecida Santos Correia Barreto e Abdias do Nascimento.
 
 
 
Abdias do Nascimento homenageado no II Seminário Nacional Africanidades e Afrodescendência na Universidade Federal do Espírito Santo
O PRODESE participou do Seminário desde a sua 1ª Edição na Universidade Federal do Ceará em 2009.Na 2ª Edição a Professora Doutora Narcimária Luz e Professor Doutor Marco Aurélio Luz colaboraram com  a Mesa Educação na Perspectiva da Ancestralidade Africana, coordenada pela Professora Doutora  Maria Aparecida,que teve também a participação de uma liderança importante da tradição africano-brasileira a Makota Valdina.
 
Da esquerda para direita Marco Aurélio Luz,Maria Aparecida Barreto,Makota Valdina e Narcimária Luz
 
 O Reitor da Universidade Federal do Espírito Santo Reinaldo Centoducatte comentou em nota:
Lamento profundamente a perda, ocorrida nesta manhã, da amiga, companheira, professora e pesquisadora, Maria Aparecida Santos Corrêa Barreto que, junto comigo, na condição de vice-reitora, vinha compartilhando o desafio de liderar a Universidade Federal do Espírito Santo. Cida marcou sua passagem pela Ufes com muita competência e firmeza nas atividades acadêmicas e administrativas, deixando inúmeras lições de solidariedade, alegria e perseverança e de luta pelos direitos humanos e pela melhoria das condições de vida, por meio da construção de uma sociedade mais humana, democrática e inclusiva. Além de uma grande saudade, Cida deixa um exemplo de dedicação e dignidade para todos nós, da comunidade universitária”.
 
 
Encontramos essa imagem na página do Teatro Universitário da Universidade Federal do Espírito Santo,onde aconteceu o velório da nossa querida Cida.
Acho que essa imagem ilustra bem esse momento de  saudade que nos toma no momento.
Que Olorum lhe abençoe Cida!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

sábado, 31 de agosto de 2013

O SONHO PERMANECE E VAI SE REALIZANDO...50 ANOS EM BUSCA DA LIBERDADE E DIGNIDADE DAS POPULAÇÕES NEGRAS


No dia 28 de agosto de 1963 mais de 250.000 pessoas de várias partes do EUA marcharam em direção a capital do país Washington, sob a liderança exponencial de Martin Luther King, manifestando pacificamente a recusa à segregação racial, a opressão, os assassinatos cruéis da juventude negra, as desigualdades e injustiças sociais que afligiam a população negra. A marcha para Washington, impressionou pela adesão de brancos e negros que investiam em atitudes e iniciativas políticas que trouxessem a dignidade e respeito à população negra.
O discurso emblemático de Martin Luther King e a marcha que ele liderou, marcaram a história da humanidade e contribuiu significativamente para que em 1964 e 1965 os EUA institucionalizarem a aprovação das leis de direitos civis e direito de voto.
Lembramos que cinquenta anos depois, essa expressiva “marcha” das populações negras dos EUA, continua repercutindo e  encorajando as populações negras de vários países a elaborar modos de caminhar com suas culturas, linguagens e instituições próprias  capazes de reunir milhares de pessoas que acreditam no sonho de dignidade, o direito à vida e a alteridade civilizatória.

Eu tenho um sonho... (parte 1)


Eu tenho um sonho... (parte 2)


IDENTIDADE NEGRA E EDUCAÇÃO.


 
Capa do livro publicado em 1989
O livro Identidade Negra e Educação surge no contexto de retomada do movimento negro na década de setenta. Ele é sem dúvida um desdobramento da experiência educacional pioneira da Mini Comunidade Oba Biyi. Marco Aurélio Luz que participou ativamente dessa experiência instala uma nova problemática teórica na Universidade. Primeiramente na UFRJ e depois na Ufba. Na Faculdade de Educação a pedido do professor José Arapiraca coordenador da coleção Cadernos de Educação Política, organiza o livro convidando professores e intelectuais de modo geral.Trata-se de um livro de vanguarda, pioneiro, que divulga uma nova problemática no cenário da Educação e que vem tendo diversos desdobramentos na atualidade.
Contra capa do livro
 
 
 
Autores/as no Lançamento do livro no Museu Afrobrasileiro da UFBA em 1989
 
 
 
 
Momentos de autógrafos no Museu Afrobrasileiro da UFBA em 1989
 
 
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APRESENTAÇÃO

Identidade Negra e Educação” reúne distintos trabalhos que procuram estabelecer uma nova percepção sobre as políticas educacionais e o sistema no Brasil, um país caracterizado pela pluralidade sociocultural.
Até onde e como um país que se caracterizou historicamente como colonizado e escravista, e que adotou uma política de embranquecimento desde a sua independência, projeta os interesses neocoloniais e imperialistas de valores eurocêntricos no sistema de ensino?
De que forma se constitui o que chamamos de pedagogia do embranquecimento e em que medida essa pedagogia é responsável pelo elevado índice de evasão escolar e do relativo fracasso da educação no Brasil?
Esses são os principais temas desenvolvidos que procuram demonstrar, de um lado, pujança do processo civilizatório negro, constituinte da identidade da maioria do povo brasileiro, e de outro, uma pedagogia assentada em paradigmas etnocêntricos, evolucionistas, eurocêntricos e racistas que têm aprofundado o descompasso entre a maioria da população e a sociedade “oficial”, entre a Nação e o Estado, concorrendo para o agravamento do genocídio causado pela política de abandono e enfraquecendo as aspirações de soberania nacional frente às correntes do cativeiro da ordem internacional neocolonial.
Procuram, ainda, demonstrar as formas como se processa a luta de afirmação da identidade no âmbito escolar e sobretudo estabelecer novos caminhos para uma educação aberta à pluralidade cultural, ao respeito à alteridade e ao direito coletivo de existência própria.
 
 
 
Narcimária Luz co-autora e Marco Aurélio Luz Oganizador e co-autor do livro
Lançamento no Instituto de Pesquisa das Culturas Negras(Ipcn) no Rio e Janeiro
 
 
Presença da Professora Helena Theodoro
Lançamento no Instituto de Pesquisa das Culturas Negras(Ipcn) no Rio e Janeiro
 
 
Presença de Januário Garcia Diretor do Ipcn
Lançamento no Instituto de Pesquisa das Culturas Negras(Ipcn) no Rio e Janeiro
 
 
Presença da Professora Beatriz Nascimento
Lançamento no Instituto de Pesquisa das Culturas Negras(Ipcn) no Rio e Janeiro
 
Salvador, 30 de janeiro de 1989.
Marco Aurélio Luz
 
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 POR UMA EDUCAÇÃO PLURICULTURAL

 Por Narcimária Correia do Patrocínio Luz
O objetivo deste trabalho está ancorado numa tentativa preliminar de discussão de algumas ideias acerca do papel da escola numa sociedade eminentemente pluricultural.
Nossa preocupação central está referida à problemática da escola, que se limita a confirmar e a reforçar um habitus da cultura oficial eurocêntrica, provocando a manifestação de um universo pseudoconcreto ou de um simulacro em volta das crianças, representado por temas ideológicos como: democracia racial, bondade da princesa Isabel, as contribuições folclóricas da "raça" negra, a África projetada como primitiva etc.
 
Tal discurso não corresponde às reais condições de vida do negro, lhe é completamente estranho e não pode, portanto, relacionar-se com os seu interesses, pois não se referem à história das civilizações africanas, aos valores civilizatórios negros, à beleza negra, aos quilombos, aos grandes heróis negros e, principalmente, à luta desencadeada pelas comunidades negras no sentido de reforçar a cultura afro-brasileira. Aliás, essa cultura foi caracteristicamente violentada, negada, oprimida e desfigurada ao longo dos anos pelo mercantilismo escravista, pelo racismo e pela política e ideologia do embranquecimento.
 
IIº Festival Afrobrasileiro da ACRA 2009
As crianças dramatizando o conto "Itapuã a Canção do Infinito" de autoria de Narcimária Luz sob a coordenação do Professor Sidney Argolo,Professoras Rosângela Accioly e Daniela Cidreira
O universo escolar parece estranho e alheio aos negros, porque repete, reforça, prolonga e valoriza as condições do mundo branco.
A constatação básica da qual parte a nossa crítica é que:
(...) a imagem da África e do africano promulgada pelas escolas anglo e latino-americanas é uma imagem grotesca, humilhante, além de falsa, que mina ou impossibilita toda aspiração da criança negra à realização humana. Na própria África ,essas distorções prevalecem nos sistemas educativos herdados do colonialismo. Contestar e banir este sistema de mitos racistas na educação da criança negra, e substituí-lo com uma afirmação autentica da identidade verdadeira e positiva do africano, é uma função orgânica e primária da organização política, porque, como um sistema, ele corrói diretamente o potencial de um povo rumo à realização do seu protagonismo histórico.[1]
 Por consequência, a escola que se proclama única e democrática constitui-se numa mistificação; não há qualquer relação entre o que ela afirma fazer e o que realmente faz;; a sua ideologia democrática é o oposto da sua existência reprodutiva. A escola consegue dissimular muito bem a função que desempenha. Trata-se de uma escola montada, maquinada para confortar e fortalecer aqueles que se submetam à visão eurocêntrica de mundo.
 
IIº Festival Afrobrasileiro da ACRA 2009
As crianças dramatizando o conto "Itapuã a Canção do Infinito" de autoria de Narcimária Luz sob a coordenação do Professor Sidney Argolo,Professoras Rosângela Accioly e Daniela Cidreira
 
Tudo isso mostra que a escola, tal como está construída, é um reflexo da política de desculturação, entendida como:
(...) processo consciente mediante o qual, com fins de exploração econômica, se procede a desagregar a cultura de um grupo, para facilitar a expropriação de riquezas naturais do território em que está estabelecido e ou para utilizá-lo como força de trabalho barata não qualificada. O processo de desculturação é inerente a toda forma de exploração colonial ou neocolonial (...) [2]
Acrescentaríamos: não só com fins de exploração econômica, mas também de dominação política, cultural e étnica.”[3]
Portanto a escola tem por função vedar a expressão direta, em relação à criança negra, do seu mundo e da sua vida. É em redor desta repressão que se organizam todas as práticas pedagógicas, aqui a destacar “de certa forma, o valor próprio da cultura negro-brasileira, a sua real dimensão, e a complexidade e riqueza do processo civilizatório negro”[4].
 
Aniversário do Programa Descolonização e Educação-PRODESE em 2005 no auditório da UNEB
Apresentação do Grupo As Ganhadeiras de Itapuã
A expressão falada da criança negra, é desencadeada muitas vezes no seio de sua família, através da tradição oral comunitária, a partir de  textos e contos que “ são transmitidos e apreendidos lentamente através da convivência e da iniciação ritualística”. Como forma pedagógica específica negra, os textos e contos das comunidades têm uma finalidade e uma função:
(...) antes de serem formas de arte, [os textos] são formas que levam a carga de significar as múltiplas relações do homem com seu meio técnico e ético. Eles ilustram uma maneira pela qual os nagô procuram promover a adaptação ou socialização de seus integrantes, através do aspecto pedagógico, assegurando, assim, uma forma própria de obter a coesão social. Os contos ilustram o acervo de textos místicos, acontecimentos históricos (inclusive os ocorridos na órbita da sociedade global com seus integrantes) que marcados por sua intemporalidade narrativa e sua característica fantástica de representações, reforçam e ensinam os padrões indicativos dos comportamentos necessários à coesão do grupo.[5]
Todo esse acervo de comunicação oral é mutilado pela escola, que lhe nega todo valor e penaliza a criança negra.
Isso significa que se corta sistematicamente apalavra a quem a quiser tomar sem obedecer às leis do texto escrito. Assim, se exige o imobilismo destas crianças, criando-lhes um sentimento de culpa, muitas vezes relacionando o fracasso escolar à própria criança e à sua família. A repressão exercitada por parte da escola sobre a linguagem comunitária e, simultaneamente, da sua representação e forma de vida, leva as crianças negras a recalcarem-se diante dos desafios  e a  viverem-nos como problemas relacionados à sua origem familiar de ancestralidade africana, inculcando um complexo de inferioridade que tende a levá-la anão acreditar em si, no seu jeito de ser e na sua história etnocultural.
 
Intercâmbio entre a Acra e o Grupo Boca em Cena
Samba de Roda envolvendo jovens e crianças
Organizada pelo Estado, esta escola possui uma linguagem que só foi criada para esse fim, configurando-se como verdadeira barreira social. Procura-se domesticar e eliminar valores civilizatórios negros através de um
(...) neologismo aparentemente simples: “civilização”, nascido, curiosamente, apenas na metade do século XVIII simultaneamente na França e Inglaterra, derivado do verbo “civilizar”,[que] se transformaria, em centúria e meia, em arma e em  instrumento ou ideologia de dominação. Dessa arma ou instrumento ou ideologia de dominação surgiria o colonialismo, as guerras colonialistas na África e Ásia, a escravidão de povos inteiros para a exploração econômica e humana. E como atua a violência instrumental da arma ou ideologia? Buscando primeiro, a obnulação da memória e, em seguida, a implantação das próprias formas culturais das potências civilizadoras nos povos submetidos. Não é outra a ação e o efeito da chamada aculturação. (...) O negro foi aculturado dentro de linhas específicas de pressão espiritual. Sua religião e sua cultura, seus valores e sua concepção do mundo foram pulverizados até sua redução a matéria de folclore e antropologia, através da deformação pitoresca do sincretismo.[6]
Através desse supremacismo ariano, que procura suprimir e silenciar a consciência negra, parece-nos que a escola,
(...) seus métodos, os locais, a arrumação do espaço reduzem o aluno à passividade, habituando-o a trabalhar sem prazer(apesar das pretensões de um “ensino vivo” e de algumas tentativas de renovação). O espaço pedagógico é regressivo, mas esta “estrutura” tem um significado mais vasto que a repressão local: o saber imposto “engolido” pelos alunos, “vomitado” nos exames corresponde à divisão do trabalho na sociedade burguesa, serve-lhe portanto de suporte.[7]
Daqui se conclui que
(...) as práticas escolares e seu ritual são um aspecto essencial do processo de inculcação ideológica; deveres, disciplina, castigos e recompensas, atrás de sua aparente função educativa técnica, asseguram a função essencial ainda que oculta de realizar na escola a ideologia burguesa, de submeter a ela todos os indivíduos e neste sentido de representar a seu modo a produção, o direito, o Estado burguês.[8]
Mas a escola é, também, e ao mesmo tempo, um local de lutas, onde emergem constantemente múltiplas forças contraditórias. Trata-se de um terreno de luta entre opressor e oprimido,  onde se defrontam forças progressistas e conservadoras, onde se refletem também a exploração e a luta contra a exploração. “(...) A escola é simultaneamente reprodução das estruturas existentes, correia de transmissão da ideologia oficial, domesticação, mas também ameaça à ordem estabelecida e possibilidade de libertação.”[9]
 Seu papel reprodutor não a aniquila, pelo contrário, indica pistas para o combate que já foi desencadeado e como continua-lo, observando as relações de força, acompanhando o momento histórico, que possibilitará uma instabilidade mais ou menos aberta à nossa ação.
Resta-nos ressaltar a viabilidade, onde a criança negra deixa de ser um corpo estranho, destinada ao fracasso escolar. O Brasil é o segundo país negro do mundo, com mis de 80 milhões de pessoas de ascendência africana. Daí a necessidade de transformar a escola em local de luta, o terreno em que se procurará desenvolver no negro uma auto consciência histórica e política, ou uma comunicação e solidariedade prática com o resto do mundo africano. O papel da escola passa a ser o de oferecer ao negro brasileiro uma fonte de informações para começar a preencher o vazio resultante do isolamento que lhe foi imposto por essas táticas de dominação.

   Nesta perspectiva
(...) Nunca é demasiado destacar o valor e o lugar que a religião ocupa no processo civilizatório negro. A religião se caracteriza como um eixo, um elemento central (...) deste processo. A religião é ponto básico, é fonte de afirmação dos valores civilizatórios negros e núcleo de resistência às variadas formas de aspirações neocolonialistas (...). Em relação ao processo cultural a religião é fonte dinamizadora de um ethos, indicadora de comportamentos e hábitos, enfim de uma maneira negra de ser. Ela estabelece e proporciona uma ética própria. Imprime formas de relações sociais, estipulando formas próprias de organização e hierarquias, estimula a vida comunal. Estabelece padrões estéticos próprios e formas específicas de comunicação e de acesso ao riquíssimo sistema simbólico, pleno de conhecimentos e sabedorias, caracterizando uma pedagogia negra iniciática (...) A religião negra constitui-se num ponto de resistência de luta do homem negro em busca de sua libertação e de real e universal integração.[10]
É importante notar que essa referência civilizatória negra, dispensada pela escola, está comprometida com a verdade e a luta por uma sociedade mais justa, em que se respeite a diversidade cultural. A cultura negra é um dos fatores que pode impedir a escola de pender para a ideologia colonial do supremacismo branco, desde que a pressão e as experiências vividas pelas crianças negras sejam um obstáculo ao disfarce democrático escolar.
Portanto, a cultura negra é o ponto de chegada e de partida, a luta real, possível e necessária no cotidiano escolar. Lutar para desmitificar os conteúdos veiculados na escola, lutar para denunciar e esmagar a segregação no interior da escola, pela conscientização dos agentes pedagógicos sobre a referência histórico-cultural afro-brasileira, pela recuperação da memória   ancestral africana, para minar a ideologia da democracia racial, enfim, para reconstruir a verdadeira história do negro, distorcida pela política de desculturação.
IIº Festival Afrobrasileiro da ACRA 2009
As crianças dramatizando o conto "Itapuã a Canção do Infinito" de autoria de Narcimária Luz sob a coordenação do Professor Sidney Argolo,Professoras Rosângela Accioly e Daniela Cidreira
 

Mas há mais coisas a serem observadas. Não se pode adotar uma postura de consciência  ingênua nessa questão, esquecendo-se de que
(...) a escola é um dos organismos da superestrutura e, como tal, é uma das instâncias onde a prática social global se processa. A prática educativa escolar é portanto, uma das modalidades dessa prática social global e não uma “entidade” à parte desta prática mais ampla, uma entidade que estaria precedendo à prática social como um todo. Se as transformações sociais se dão na prática social global, dão-se em toda e qualquer de suas modalidades, inclusive na prática educativa(...). Por outro lado, é preciso lembrar ainda que o comportamento do indivíduo é determinado pelas múltiplas circunstâncias que constituem a prática social global na qual se encontra. No entanto, não se pode esquecer que essa determinação não é absoluta na formação da consciência do indivíduo. Existe uma relativa autonomia em relação a essa determinação, levando-o a reagir sobre elas. As lutas sociais mostram bem esse fenômeno.[11]
É preciso enfatizar aqui a necessidade de compreender a prática educativa como uma atividade mediadora no seio de uma prática social global. Uma prática educativa que pretenda instrumentar o indivíduo, enquanto ser social, para atuar na circunstância histórico-geográfica na qual está inserido.
 
Espaço da ACRA com grafite feito pelas crianças sob a coordenação do Professor Tácio Vasconcelos
Considerando-se esses aspectos, podemos propor um que fazer pedagógico que proporcione uma educação em que a sistematização do conhecimento nasça da experiência pluricultural da nossa sociedade e permaneça em continuidade com ela. Onde o aluno use a sua experiência pessoal completada, enriquecida com o que aprende.
Assim a escola passará a ser a síntese do patrimônio coletivo pluricultural.
NOTAS:
1 Elisa Larkin Nascimento, Pan-africanismo na América do Sul, Petrópolis, Vozes, 1983, p. 36.
2 Manuel Fraginals apud Marco Aurélio Luz, Cultura negra e ideologia do recalque, Rio de Janeiro, Achiamé, 1983, p. 67.
3 Marco Aurélio luz, op. Cit., p. 67.
4 Idem, ibidem, p. 27.
5 Marco Aurélio Luz, op. cit. pp. 42-43.
6 Elisa Larkin Nascimento, op. cit., p. 13.
7 Henri Lefebrve, “ A Reprodução das Relações Sociais”, s/l. n/d. (mimeo), pp. 58-59.
8 Chistian Baudelot e Roger Establet, L´ecole capitaliste, Paris, Maspéro, p. 59.
9 Georges Snyders, Escola, classe e luta de classes, Morais, Rio de Janeiro, 1981, p. 106.
10 Marco Aurélio Luz, op. cit., p. 38.
11 Betty Oliveira, “A Prática Social Global como Ponto de Partida e de Chegada da Prática Educativa”, Tecnologia educacional, Rio de Janeiro, n. 66-67 nov.-dez. 1985.