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PRODESE E ACRA



VIDA QUE SEGUE...Uma
das principais bases de inspiração do PRODESE foi a Associação Crianças Raízes
do Abaeté-Acra,espaço institucional onde concebemos composições de linguagens
lúdicas e estéticas criadas para manter seu cotidiano.A Acra foi uma iniciativa
institucional criada no bairro de Itapuã no município de Salvador na Bahia, e
referência nacional como “ponto de cultura” reconhecido pelo Ministério da
Cultura. Essa Associação durante oito anos,proporcionou a crianças e jovens
descendentes de africanos e africanas,espaços socioeducativos que legitimassem
o patrimônio civilizatório dos seus antepassados.
A Acra em parceria com o Prodese
fomentou várias iniciativas institucionais,a exemplo de publicações,eventos
nacionais e internacionais,participações exitosas em
editais,concursos,oficinas,festivais,etc vinculadas a presença africana em
Itapuã e sua expansão através das formas de sociabilidade criadas pelos
pescadores,lavadeiras e ganhadeiras,que mantiveram a riqueza do patrimônio
africano e seu contínuo na Bahia e Brasil.É através desses vínculos de
comunalidade africana, que a ACRA desenvolveu suas atividades abrindo
perspectivas de valores e linguagens para que as , crianças tenham orgulho de
ser e pertencer as suas comunalidades.
Gostaríamos de registrar o nosso
agradecimento profundo a Associação Crianças Raízes do Abaeté(Acra),na pessoa
do seu Diretor Presidente professor Narciso José do Patrocínio e toda a sua
equipe de educadores, pela oportunidade de vivenciarmos uma duradoura e valiosa
parceria durante o período de 2005 a 2012,culminando com premiações de destaque
nacional e a composição de várias iniciativas de linguagens, que influenciaram
sobremaneira a alegria de viver e ser, de crianças e jovens do bairro de
Itapuã em Salvador na Bahia,Brasil.


sábado, 25 de janeiro de 2014

AMARILDO E A BOLA DE OURO
 Por Marco Aurélio Luz





Garrincha desmonta o ¨english team¨ na copa de 1962    
Imagem disponível no Google   Imagens

Contam nos meios intelectuais cariocas, que já gostam de uma piada, que o psicanalista francês J. Lacan, uma vez esgotado o tempo de espera de uma sessão, foi apagando as luzes do setting, quando o cliente esbaforido adentrou-se e tomou um susto com a silhueta sombria do doutor já em retirada e então exclamou:
- C`est un fantôme !!??
Ao que Lacan respondeu dando por encerrada a sessão:
- Non , pas de tout, cèst un symptôme.
A piada só tem graça com o diálogo em francês por isso vão me desculpando. Tradução:
- É um fantasma!?
 – Não absolutamente, é um sintoma.



Seleção campeã do mundo em 1962
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Aproveito para fazer uma digressão sobre a presença do Amarildo na entrega da Bola de Ouro da FIFA. Ele jogou com Garrincha no Botafogo e na famosa copa do mundo de 1962, quando substituiu a Pelé contundido, e que já tinha então o apelido dado por Nelson Rodrigues de  “Possesso”, por sua maneira de jogar, invadindo a área adversária , intrépido, sem medo de nada e de ninguém. Nelson vaticinara que  “Possesso” aconteceria na copa.




Garrincha e Amarildo
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Naquela copa do mundo quando Pelé distendeu o músculo adutor, nos primeiros jogos, poucos acreditaram na vitória do Brasil. Garrincha um dos melhores na copa de 1958 contra tudo e contra todos, assumiu a responsabilidade de levar o Brasil para a grande vitória, só faltou fazer chover, como todos sabem. Amarildo então substituiu Pelé, sem problemas sabia que ao lado de Garrincha tudo era mais fácil, e foi.




Amarildo substituto de Pelé na copa de 1962
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Há pouco tempo num programa de TV perguntaram ao grande Eusébio que há pouco nos deixou,


Pelé e Eusébio
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- O que você acha de Pelé?
- “Gênio, mas o melhor do que ele vocês não sabem, sabe quem? O Garrincha! O Garrincha, vocês perguntem ao Pelé na minha frente, e eu respondo logo. Oh Pelé? Tu e eu. Agora aquele,aquele... Aquele não há quem possa. O Garrincha é o melhor de nós todos.”
A diferença nessa avaliação está no paradigma das referências. As que comtemplam Pelé se baseiam na produtividade contábil, que ele sempre fez questão de destacar e atuou em função de metas e records que lhe outorgassem o mérito de artilheiro incontestável. É nos limites desse paradigma que se tornou um personagem do marketing e da propaganda que em função disso, sempre destacaram seu valor indiscutível. Também em função disso, sempre cuidou de sua imagem, sempre procurando atender aos limites dos valores da ética produtivista que regem o mundo do espetáculo e a mídia.
Já Garrincha, sempre preso ao seu solo de origem, Pau Grande cidadezinha encravada nas matas da serra de Petrópolis, não se interessou absolutamente pelos valores das metrópoles. Para ele futebol mais do que profissão, era alegria poesia e diversão, não só para ele, mas também para quem o assistia e o admirava.
Por essa atitude, sem querer, ele contrariava quem vivia na órbita dos valores neocoloniais positivistas da ordem e progresso.
Garrincha levou o povo a superar o “complexo de vira lata”, conforme Nelson Rodrigues, pelas sendas da autenticidade do povo brasileiro. Com isso, muito sofreu por parte das críticas e pressões do establishment, inclusive de bases racistas, quando atacaram, com veemência o seu casamento com Elza Soares.
E então, ironias da história está ali no palco ao lado de Pelé, o Amarildo seu substituto na copa de 1962 para testemunhar um recorde.
 Pelé foi o único jogador que ganhou três copas 1958, 1962 e 1970. Logo ele Amarildo, companheiro, admirador e que é grato a Garrincha por tudo e mesmo pelo fato de ser um campeão do mundo.


Amarildo na cerimônia da Bola de Ouro
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A organização do evento preparava o terreno para reparar uma injustiça, dar uma bola de ouro para Pelé, pois que o prêmio era restrito só a jogadores que atuavam na Europa, coisas que a trajetória colonial explica.
Pois bem, Amarildo o “Possesso”, revela que ficou numa situação difícil na copa de 1962, ter que substituir o “rei”, mas não era culpa dele, e aí desandou, falou,falou e nada disse, se referiu a copa no Brasil, problemas de disciplina na torcida... Procurou se sair da situação difícil naquele momento desviando do assunto.




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O deslocamento é uma defesa psicológica provocada pela censura. A censura à memória do Garrincha e a tudo que ele representa.  
  

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A RELIGIÃO AFRO-BRASILEIRA


Por Sandra Maria Bispo


A elaboração deste trabalho encontra sua plena concretude no comportamento, comentário ou mesmo pesquisa em uma casa de tradição religiosa, cuja relação maior se reflete na integração de seus participantes à vida da grande sociedade.
Portanto, partindo da perspectiva de preservação, tentamos traçar um perfil vivencial cotidiano em uma comunidade de “candomblé”, como núcleo catalisador do espírito de insurgência, da transferência do saber e de diferentes modos de sobrevivência.

Nessa mesma linha, refletimos sobre o resgate, através da oralidade, e compreensão da identidade cultural religiosa das pessoas negras participantes dos terreiros de candomblé na Bahia.
Ao elaborar um trabalho escrito, enfocando algumas reflexões sobre a história de um terreiro, nossa intenção é que seja uma contribuição educativa para melhor compreensão de um espaço-axé, considerando sua vinculação com a sociedade como um todo.


   Ilê Nla  ni Ilê Axé Oxumarê
Foto disponível no Google


A sedimentação histórica de um terreiro mostra a estrutura transparente e fixada como marco de força vital há vários séculos. A força do axé é a referência existente que denota a relação com as verdadeiras raízes culturais africanas na Bahia.

Isso significa que encontramos os valores culturais não apenas na arquitetura da casa como em todas as formas de comunicação das pessoas que convivem e vivenciam o espaço sagrado. E, mais ainda, na identificação das formas de expressão e símbolos com que, em particular, a comunidade modela a identidade dos seus membros.

Ressalto que o termo “terreiro” inclui, por força de sua extensão, o lugar onde vive o povo de orixá e seus parentes, bem como outras pessoas, se for o caso.
Como participante do terreiro, que é lugar sagrado, considero todos os elementos que o compõem: o chão, o ar, as árvore, a comunidade religiosa etc.
É inegável que a ampliação da força da comunidade em um terreiro tem sua fonte de energia no todo que o compõe, partindo daí inicialmente como núcleo de insurgência onde se materializa o axé através do culto religioso.

Salão do Ile Nla
Foto disponível no Google
A ampliação do culto insere a comunidade num conjunto de relações vitais de educação, cujo desenvolvimento caracteriza a personalidade dos indivíduos que convivem com a transmissão e preservação dos valores religiosos. Nesse processo de convivência e transmissão de valores, preparam-se os indivíduos para o desempenho condigno de papéis sociais e isso ocorre tanto no solo do culto quanto na organização social da sobrevivência.

O “candomblé”, os Ilê Axé, tem raízes profundas e ancestrais. Portanto, qualquer mudança referente deverá ser comedida, observando-se esse aspecto. É uma religião concreta, herança africana, com base no real, na relação com a natureza. É uma religião viva, cheia de energia. É força que emana da própria terra e conduz a vida e o destino dos seus filhos.

Possivelmente se fosse feita uma pesquisa de opinião pública sobre a vida de um terreiro, certamente não faltariam indagações, dúvidas ou talvez até medo quanto ao assunto. Essas dúvidas, indagações ou medo, por certo, estariam vinculados ao desconhecimento ou folclorização a que tem sido exposta a religião afro-brasileira durante todo tempo, gerando uma visão preconceituosa diante do seu processo de recriação.

A religião dos orixás não é solta no tempo e no espaço. Ela é expressão concreta da força de um povo, particularmente do “povo de santo” que, através da crença e resistência, não se deixa dominar nem pelo medo, nem pelo folclore; ou até mesmo pelas formas repressoras ao culto afro-brasileiro, considerando sua contextualização histórica.


Foto disponível no Google
Lembrando um pouco a origem histórica da religião afro-brasileira, revemos a função do catolicismo no Novo Mundo. O catolicismo, frente à necessidade de possuir novos adeptos.
Que, “em nome de Deus” pudessem garantir a sua soberania e poder, se implanta como religião obrigatória, proibindo o homem negro e seus descendentes de praticarem a sua religião de origem, pois o negro representava a base econômica de toda sociedade, não podendo fugir às normas de controle sociais estabelecidas.

O grupo católico tem, entre si, as mesmas ideias, encara a religião afro-brasileira como aquela em que se praticam coisas diferentes, de forma tal que não conseguem, os católicos, reconhecê-las como prática cultural. Por outro lado, o grupo de praticantes da religião afro-brasileira sobrevive à sua maneira, ocupa espaço natural e descobre formas de sobrevivência, resistindo através dos tempos.

Acreditam em deuses aos quais designam orixás e prestam todo um ritual de crença, fé e energia vinculado à natureza. Nesse processo a formação e a prática do indivíduo implicam a consciência do saber, as vantagens e formas de participação, despertando perspectivas cada vez melhores na sua interação com o meio ambiente.
 A ialorixá ou o babalorixá, em geral exerce o papel de articulador e organizador cultural de fato, pois religião é cultura e, portanto, trabalho e organização.  

A violência contra a religião afro se concretiza na necessidade da criação de irmandades negras que acomodariam uma relação onde há predominância da cultura oficial, que ainda hoje é branca. Assim, associando-se aos santos da igreja católica, a comunidade de raízes afro- brasileira era aceita porque a fé cristã constituía uma das condições mais importantes para que o negro fosse visto como um ser dotado de alma.

Em verdade cada grupo traduzia nos termos de sua própria cultura o significado dos objetos, cujo sentido original foi forjado na cultura do povo católico. Vemos assim, a religião afro-brasileira e a religião católica, oriundas de culturas diferentes, resultando, até certo ponto, em choque cultural. Vale reafirmar que não houve sincretismo, visto o não amalgamento entre essas duas religiões.

É evidente que o homem, para sobreviver, antes de mais nada, precisa utilizar-se da natureza de forma racional, pois precisa comer, beber e abrigar-se. Por outro lado, forças exteriores e, sobretudo da natureza dominam a vida cotidiana.
Nesse processo, os homens se agrupam, organizam seu universo, apreendendo e interpretando sua realidade. Particularmente, o negro africano e seus descendentes participantes de um terreiro, organizam-se não somente na sua correlação com o sagrado, como também com o ambiente natural e humano e assim com a ordem cultural e social.

Claro está que, se, por um lado, o homem incorpora a natureza para sobreviver, esse mesmo homem sente a necessidade de organizar o mundo a partir de um esquema interpretativo cultural de valores. Desse esquema emerge o conhecimento enquanto consciência.

O referencial de aprendizagem dos mais velhos dá-se a partir de sua relação constante com o real, com elementos naturais, como o ferro, as pedras, ori, o mar, as árvores, a chuva, enfim tudo que emana do natural. Cada elemento natural corresponderá a um referencial de crença que, como um todo, possui mecanismos, formas, caminhos e razão, os quais para aqueles que não têm a vivência e convivência com a realidade processual religiosa, poderão passar despercebidos ou mesmo gerar toda uma gama de preconceitos decorrentes de profundas distorções que se perpetuam nas emoções, pensamentos e representações.

Essas distorções, uma vez que interferem nas emoções, poderão dar a ideia de medo daquilo que não se conhece, portanto, o medo do desconhecido o que possivelmente ocorreria em qualquer situação normal. 

Apesar de tais distorções que se perpetuam através de representações negativas e folclorizadas, a religião afro-brasileira traz em si o seu próprio discurso, isto é, desfruta de uma linguagem própria para dizer algo de si mesma. Fala por si através de todo um processo iniciático, toques, cânticos e atitudes, possuindo autonomia necessária ao traduzir-se por representações e símbolos.

Parece-nos claro que a religião dos orixás distancia-se do conceito de religião como ópio do povo, por sua natureza construtiva, que afirma a identidade do indivíduo, ao tempo que organiza o grupo como modelador dessa identidade. Considerando a possibilidade de aproveitamento da tradição oral como veículo de transmissão de fundamentos religiosos e da identidade cultural, presto-me ao testemunho de que, em geral, as comunidades religiosas afro-brasileiras vêm tentando manter, há anos, a tradição de seu axé com seriedade e zelo, por isso mesmo, têm merecido o respeito dos adeptos. Vale ressaltar que os dirigentes das casas religiosas, em geral, exercem o papel de guardiões dos nossos valores culturais, com autoridade e poder de mantenedores da religião.

Daí a necessidade de preservação e resgate da memória sacro-cultural da comunidade de um terreiro, que, além de ser um testemunho vivo de insurgência e afirmação da identidade cultural afro-brasileira, é, sobretudo, um monumento histórico e cultural brasileiro e, como tal, deve ser respeitado e preservado por todos, inclusive pelos órgãos oficiais competentes.
A própria necessidade que o homem tem de organizar-se a partir de um esquema interpretativo de valores constitui forte razão, segundo Rubem Alves, em “O Suspiro Dos Oprimidos”, para que os homens criem os universos simbólicos, a religião, e façam a história.

Na verdade, os universos simbólicos, a religião e a própria história são expressões do esforço humano no sentido de condicionar a natureza, o tempo e o espaço em função de si mesmo.






                                          Ao centro a Iya Kekere Sandra Maria Bispo
Foto do acervo de M. A. Luz


No resgate de sua história, o negro afro-brasileiro utiliza uma linguagem também simbólica, baseada na concepção do homem e do seu papel no seio do universo, isso na medida em que pleiteia fugir ao estudo contextualizado. Portanto faz sentido o nosso apoio à afirmação Marco Aurélio Luz:

A civilização negra se caracteriza por exprimir uma concepção espiritualista do mundo, onde a constituição da individualidade, as relações sociais, as relações com a natureza e o universo estão revestidas de uma dimensão sagrada, acompanham até mesmo as inúmeras atuações profanas daqueles que vivem este universo cultural, estejam eles vinculados a esferas políticas, sociais ou econômicas...(LUZ,M.A.Rio de Janeiro:Achiamé,1983,3p.8)

Zelando pela integridade do culto aos orixás, alguns babalorixás e ialorixás definem seus filhos na sociedade, mantendo a dimensão e a dinâmica própria das heranças que lhe são conferidas.

Apoiados na herança da oralidade africana funcionam como conservatório da acumulação cultural, garantindo a fiel transmissão dos fundamentos da religião, numa linguagem emocional e também reflexiva.
A memória da sociedade é a comunidade viva de gerações sucessivas, é o que anima o universo humano e religioso  na mesma medida. A religião em si, por sua própria base cultural, às vezes ajuda a explicar, ocultar ou mesmo inculcar de geração a geração a necessidade da existência de sua ordem.

No Brasil, a similaridade entre os costumes de vários grupos de nações de origem africana que aqui se encontravam, tem sido mais forte que as diferenças e esse princípio aponta uma unidade na diversidade.
Digo isso porque, através desse princípio de unidade na diversidade, tem-se conhecimento de que grupos negros se organizaram fazendo surgir novos terreiros de “candomblé” a exemplo da casa de Oxumaré, muito antiga e famosa, cujo patrono é esse orixá, conforme citação de Vasconcelos Maia em seu livro “ABC do Candomblé”.





Sandra Maria Bispo Iyá Keker nile Axé Oxumarê recebe as homenagens em cerimônia da Assembléia Legislativa.
Foto M. A. Luz




Finalizo lembrando a necessidade da continuidade e aprofundamento das discussões a respeito da religião afro-brasileira, pela sua função religiosa, social, política e econômica, reafirmando e divulgando o seu grande valor, pois: ¨A escrita é uma coisa e o saber, outra. A escrita é a fotocópia do saber, mas não o saber em si... é herança de tudo aquilo que nossos ancestrais vieram a conhecer e que se encontra latente em tudo o que nos transmitiram¨... (Tierno Bokar).

Texto publicado no livro IDENTIDADE NEGRA E EDUCAÇÃO, ed. Ianamá, 1989, Salvador







quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

WALDEMAR SANTANA,Um nome na história

Imagem disponível em
http://mundomarcial.site40.net/images/capoeira_site.jpg
Por Marco Aurélio Luz
Hélio Gracie  foi grande , mas não podemos esquecer de Waldemar Santana.
 
Num programa de TV recente o Mestre de capoeira Boa Gente, lamenta que um feito histórico não esteja devidamente registrado como merece. Segundo ele, a história permanecerá incompleta sem a presença heróica de Waldemar Santana.
Um aluno de capoeira de Mestre Bimba, meu amigo Muniz Sodré, o Americano, contou-me que em uma de suas lições o mestre perguntou aos seus alunos o que fariam se tivesse pela frente alguém os ameaçando armado com uma faca. Todos contaram suas bravatas demonstrando os golpes que dariam para livrá-los de tal situação e ainda dominar o agressor. Mestre Bimba nada disse, só ouviu. 
Mas a ansiedade do grupo fez com que ousassem a pergunta inevitável:

-E o senhor Mestre o que faria?
Ao que Bimba respondeu mais ou menos assim:
-Eu? Eu saía correndo! Se insistisse procurava uma esquina para surpreender escorando...

Imagem disponível no Google imagens Mestre Bimba, criador da Capoeira Regional

A capoeira nasce com a ginga para enfrentar um adversário melhor armado, procurando estratégias de contornar e evitar o combate de frente, para surpreender num momento mais favorável. É a inspiração da Rainha Ginga do Ndongo (Angola), a Rainha Invisível, na luta contra os portugueses escravistas, guerra de deslocamentos através dos kilombos, acampamentos militares que manteve a independência de seu território em 1.657.


Monumento em homenagem à Nzinga Bandi Kiluanji em Angola, a Rainha Ginga
Imagem disponível no Google imagens
“Pois, pois”, como dizem os outros...
No ano de 1955 Waldemar Santana um dos maiores lutadores que o mundo já viu discípulo de Mestre Bimba, morando no Rio de Janeiro estava na ambiência da academia de jiu-jítsu de Hélio Gracie, até então, tido como maior lutador do Brasil. 

Waldemar Santana
Imagem disponível no Google imagens
Vai que quis o destino que Waldemar fosse enfrentar Hélio numa luta de vale tudo, com quimono e sem rounds e tempo determinado. O público lotou o ginásio de esportes. Com toda imprensa apoiando Hélio, envolvida pelas ideologias racistas só esperavam a confirmação da "superioridade do branco descendente de inglês".
Em entrevistas em revistas e jornais Hélio Gracie se gabava de além de ser o exímio lutador de jiu-jítsu e de ter já vencido os mais temíveis lutadores do Oriente e do Brasil, era ele um Gracie, descendente de ingleses por si só superior ao negro Waldemar que inclusive desonrara a sua academia se prestando a lutar em lutas combinadas de exibição para ganhar algum dinheiro.
O jornal Última Hora abriu espaço para promover o desafio e diante das afirmações de Hélio Gracie, o “Leopardo Negro”, Waldemar Santana o desafiou. Com a ideia de dar uma lição no jovem ousado, Hélio logo aceitou.
  

Waldemar Santana também frequentava academia de capoeira no R.J.
Imagem disponível no Google imagens
A luta tornou-se uma das mais longas que o mundo já viu. Sabendo que as armas de Hélio eram as chaves do jiu-jitsu, Valdemar adotou a tática do tatu, acocorado no chão enfeixado sobre si mesmo, não permitia uma sobra de membro que pudesse favorecer as táticas do adversário. Quando esse dava uma brecha tentando catar um braço, uma perna, um dedo, um pescoço, Valdemar punha-se de pé e forçava Hélio a persegui-lo dando um e outro golpe no contra ataque, em seguida, pronto novamente enroscado como o tatu. Depois de 3 horas e 45 minutos, considerada a luta de vale- tudo mais longa do mundo, com Hélio exausto e desguarnecido Valdemar desferiu a meia lua de compasso, o pé voa na cara do oponente. O adversário caiu desfalecido.

A vitória histórica de Waldemar Santana sobre Helio Gracie
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Um verdadeiro tsunami atingiu os entulhos ideológicos racistas espalhados pela mídia em geral. Todavia Nelson Rodrigues escreveu famosa crônica enaltecendo o feito.
“Há 20 e tantos anos que os Gracie mantinham uma invencibilidade que parecia definitiva. Por isso há tanta gente querendo dar rádio, televisão, e até ferro elétrico a Waldemar. E não há dúvida de que ele bem o merece.
No dia de sua vitória, houve alegria universal, sim. O fraco sentiu-se menos fraco, o humilhado menos humilhado, e o marido que não pia em casa levantou, por 24horas
 a crista abatida. Todos nós somos cúmplice de Waldemar.”[1]
Waldemar Santana, filho da Bahia, a Roma Negra, como disse Mãe Aninha, Iyalorixa Oba Biyi, entra para nossa história, para nossa honra.




[1] http://oglobo.globo.com/esportes/o-centenario-do-pai-do-jiu-jitsu-10218847

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

MESTRE DIDI EDUCADOR CONTEMPORÂNEO PARTE 2


Por Narcimária Correia do Patrocínio Luz

 É no âmago do desejo de Mãe Aninha de ver no futuro as crianças da comunidade de anel no dedo e aos pés de Xangô, que Mestre Didi  ,implanta  no Brasil, particularmente na Bahia, a primeira experiência de educação pluricultural, Mini Comunidade Oba Biyi, que se desenvolveu de 1976 à 1986 ancorada nos princípios e valores do patrimônio milenar africano reposto e recriado no Brasil. Aqui se inscreve a proposta de educação da Mini Comunidade Oba Biyi, que pode ratificar, e de certa forma atender o desejo de Mãe Aninha. Esse nome em sua homenagem caracterizou, uma pequena comunidade (mini) que reuniu crianças dos 3 meses de idade aos quatorze anos. Oba Biyi, era uma forma de homenagear o nome sacerdotal nagô de Eugênia Anna dos Santos.

                          Mestre Didi inspirador e criador da Mini Comunidade Oba Biyi
Foto M.A.Luz               
 A proposição de uma educação no contexto desse desafio é promover uma linguagem pedagógica que estabeleça uma relação dinâmica entre os valores sociocomunitários da tradição, e os códigos da sociedade oficial, exigindo e assegurando nesta relação o direito à identidade própria. Assim,se instala no âmbito da Mini Comunidade Oba Biyi, uma estratégia  para  no contexto da modernidade, formar pessoas capacitadas para  interagir com os códigos da sociedade industrial  e reforçar ao mesmo tempo os valores da comunalidade africano-brasileira.De anel no dedo e aos pés de Xangô,  é procurar superar os obstáculos, que se institucionalizaram na África e no Brasil, e em outros países ex-colonizados através da pedagogia eurocêntrica.
De anel no dedo aos pés de Xangô,  é a possibilidade de uma educação em que nossas crianças aprendam a lidar com o repertório de códigos da sociedade eurocêntrica, mas utilizando-os como estratégia de legitimação da alteridade civilizatória africana; no caso, conquistando espaços institucionais, e neles fincar, recriar e expandir também, o repertório de valores da tradição africano-brasileira.
Outra pessoa que conversamos sobre a concepção espaço-temporal da Mini, foi Marco Aurélio Luz que participou  também da coordenação da experiência de educação no período de 1978 à 1985.
“A forma de comunicação básica da Mini, não se assentava na escrita. A forma de comunicação dava margem aqueles códigos tradicionais de comunicação da comunidade, que se manifestavam através da dramatização, dança, música, etc. Mas, em relação a linguagem pedagógica, especialmente, esse espaço propiciava essas formas de comunicação. A Mini foi concebida com um grande salão, um pátio e uma varanda. Não se caracterizava com salas de aula, carteiras, com aquele mobiliário sobredeterminado pela escrita, com aquela prancheta, com obsessão para caderno, lápis, livro, e a criança diante do quadro-de-giz, e o professor na frente. Esse espaço dava outra dinâmica. Tinha salão de atividades por centro de interesses, onde se desenvolvia atividades com as turmas do prontidão, os professores começavam as atividades e a criança poderia circular de um centro de interesse para outro e vice-versa. No pátio e na varanda aconteciam as aulas de alfabetização. Nessa varanda tinha uma grande mesa com os bancos, mantendo a característica do mobiliário da comunidade, e um quadro-de-giz presente nas aulas de alfabetização. No pátio se desenvolvia a música, dança e dramatizações.”

Autocoreográfico Chuva dos Poderes de Mestre Didi
 Foto M.A. Luz

Projetou-se um espaço que abrigasse uma comunidade infantil, uma casa com o estilo da Bahia, com telhas, varandas, pátio, um amplo salão. A concepção de um espaço livre para as crianças explorarem e desenvolverem todos os sentidos do corpo, não havia bancos e carteiras, era um espaço permeado pela estrutura do terreiro, onde as atividades e/ou aprendizagem ocorressem ao ar livre ou no salão.  Tinha também uma cozinha grande, banheiros e vegetação na área externa.
Marco Aurélio Luz comenta ainda que
“(...) houve um “curto-circuito”, porque aí também se definiu problemas de poder, e esse discurso vinha querendo sedimentar o poder dos professores e coordenadores, que eram considerados “de fora” pelas crianças, querendo ter o poder sobre eles. E de acordo com as crianças, esses professores nada sabiam da linguagem da comunidade, , dos valores que eles achavam que sabiam mais do que aquelas pessoas. E como também na comunidade o poder está ligado a uma hierarquia religiosa e comunitária, as pessoas que chegam não sabem, não tem lugar, não tem posto, não tem poder, e aí estava a fricção de poderes.”
O saber que vinha da universidade, da academia, das Secretarias de Educação, se chocavam profundamente com o saber da comunidade, representada pelas crianças que não aceitavam a imposição de saberes “de fora”, isto porque, elas já tinham sido rejeitados pela escola oficial justamente por isso. Como elas achavam que a Mini Oba Biyi era delas, que era um espaço feito para elas, daí a fricção e ou “curto-circuito” como bem mencionou Marco Aurélio.
Se instalou então o desafio da Mini constituir uma equipe, um GTE que elaborasse o luto de não saber, abandonar os paradigmas pedagógicos vigentes, e tentar abrir caminhos para a alteridade, ouvir o outro, tentar perceber e dar espaço para que o outro se colocasse, criasse, ocupasse uma linguagem, proporcionando a aceitação das partes ou melhor na dinâmica “da porteira pra dentro da porteira pra fora”.
A comunidade infantil Oba Biyi, não era uma comunidade religiosa, e sim de desenvolvimento integrado da criança. A parte religiosa era cuidada pela família e a comunidade-terreiro.
A Mini Comunidade Oba Biyi teve o seu currículo envolvido pela linguagem pluricultural expressa nos contos milenares da tradição africana. Esses contos recriados por  Mestre Didi, promovia e afirmava as  formas e modos  de comunicação da comunidade caracterizadas pela cultura de participação.
A concepção e linguagem socioeducativa  estimulada por  Mestre Didi, estava relacionada a dinâmica civilizatória da tradição nagô, de onde ele procurava inspiração para gerar o cotidiano curricular da Mini, influenciando, determinando códigos, refletindo de tal modo que não excluísse a identidade das crianças.
Os contos legado da tradição, são os itans e fazem parte de sistemas oraculares.Alguns contos o Mestre Didi criou, e são encontrados em alguns de seus livros a exemplo de Contos Nagô, Contos Negros da Bahia e Contos de Mestre Didi.

Dramatização do conto de Mestre Didi Odé e os Orixá do Mato
     Foto M.A.Luz
Para elaborar a dinâmica curricular da Mini através dos contos, o GTE se reunia no início de cada semestre com os professores e funcionários, estabelecia a temática e procuravam com Mestre Didi um conto que atendesse, representasse e/ou ilustrasse o tema escolhido. Neste processo as crianças também participavam.
Assim foram realizadas várias dramatizações a exemplo de: Odé o Caçador e os Orixás do Mato; A Chuva dos Poderes; A Filha do Arco-íris; O Presente de Xangô a Boa Menina; A Vendedora de Acaçá; A Fuga de Tio Ajayí dentre outros.             Eram nos Festivais da Mini Comunidade Oba Biyi, que por sinal tinham muita repercussão, que se culminava o semestre. Nesta ocasião eram exibidos os trabalhos das crianças relacionados a temática do semestre, expondo-se o que elas selecionavam, apresentando as peças de teatro ou autocoreográficos, músicas, danças, figurinos, cenários.
Exposição de artes durante o Festival da Mini Comunidade Oba Biyi
Foto M.A.Luz        
Os Festivais da Mini Comunidade Oba Biyi reuniam  a comunidade-terreiro, pessoas do bairro, deixando a área cheia de gente que vinha assistir os trabalhos. Vinham convidados de instituições de fora também, proporcionando um intercâmbio. As confraternizações eram acompanhadas sempre por um lanche, momento , que proporcionava a coesão grupal, o compartilhar de emoções e sentimentos, o religare.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

MESTRE DIDI EDUCADOR CONTEMPORÂNEO - PARTE 1


 

Por Narcimária Correia do Patrocínio Luz
Dia 02 de dezembro de 1917, nasceu Deoscoredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi Asipá, Supremo Sacerdote do Culto Egungun.
Mestre Didi pertence à família Axipá,  originária de Oyó e uma das sete famílias  fundadoras da cidade de Ketu. Essa família repõe no Brasil, especificamente na Bahia, uma dinâmica sócio-política, mítico-religiosa da cultura Nagô expressa em casas tradicionais como o Ilê Axé Opô Afonjá. Mestre Didi é neto de Iyá Oba Biyi e filho de sangue de Mãe Senhora,ambas expressivas lideranças da tradição africana  nas Américas. 

 
Mãe Senhora com Zélia Gattai, Sartre, Simone de Beauvoir e Jorge Amado em  1960

É o membro mais velho da família Axipá no Brasil. Podemos afirmar que é um Omo Bibi, um bem-nascido.
“...Na tradição afro-brasileira de origem nagô, omo bibi, quer dizer, bem nascido, isto é, aquela pessoa que vem a esse mundo para dar continuidade a expansão de uma linhagem, de uma família considerada muito antiga, receptáculo de tesouros de valores espirituais e experiências históricas de grande valor para a comunalidade. Os valores  espirituais estão expressos pela continuidade e expansão das instituições religiosas, de um lado, o culto aos orixá,  forças cósmicas que constituem o universo, princípios da natureza, e de outro o culto aos ancestres e ancestrais, como aos Esa, espírito das pessoas que se destacaram na tradição religiosa ,ou aos Babá Egun, espíritos dos ojé, sacerdotes que se destacaram no culto aos ancestres masculinos.”(LUZ,Marco Aurélio. A Favor de Egun. A Tarde, Salvador, 09 de abril, 2005. Caderno Cultural).

O PRODESE retoma hoje as postagens do blog, dedicando-se a homenagear esse expoente ancestral, que durante toda a sua vida dedicou-se a fundar espaços institucionais que promovesse entre as gerações africano-brasileiras a dignidade e o direito à alteridade.
Essa singela homenagem, caracteriza-se por realçar aspectos que lidam com  infinitude das linguagens educacionais projetadas por Deoscoredes Maximiliano dos Santos,  o Mestre Didi Asipá uma das mais expressivas lideranças do contínuo africano nas Américas, e personalidade exponencial da educação contemporânea.
Mestre Didi através de suas obras,quer na literatura, escultura ou no campo da História do povo  negro nas Américas, nos permite o acesso ao riquíssimo patrimônio simbólico africano que influencia de modo significativo o nosso pensamento educacional.
O legado do Mestre Didi constitui um universo de criações estéticas singulares que carregam ancestralidade e visão de mundo  próprios da civilização africana, abrindo perspectiva de coexistência  com outros patrimônios civilizatórios.
 
 
Pertencente a importante linhagem de Ketu, Mestre Didi teve sua iniciação no culto do orixá Obaluaiyê que junto aos orixá Nanâ e Oxumarê compõem o panteão da Terra, expressões míticas que nucleiam suas obras.
Seu compromisso como Assogbá Sacerdote Supremo, título que recebeu  de Mãe Aninha Iyalorixá Oba Biyi envolve executar e  sacralizar os emblemas rituais de seu culto, e isso o torna herdeiro e continuador dessa experiência ancestral africana.

Mãe Aninha Iyalorixá Oba Biyi
 
Desde a sua infância Mestre Didi produz objetos rituais, cuja extensão são belíssimas recriações  no campo das artes escultóricas obtendo consagração nacional e internacional. Além disso, muito pequenino teve o privilégio de viver imerso ao universo mítico literário africano, que o levou a adaptar diversos contos que vêm influenciando sobremaneira a proposição curricular de iniciativas de vanguarda na área de educação.
 
Mestre Didi Axipá visita  Ojubó o assentamento de Oxossi da família Axipá em Ketu
Ainda sobre a importância da obra de Mestre Didi temos um valioso comentário do  professor da Sorbonne, Roger Bastide na década de sessenta, sobre a  História de um Terreiro Nagô ,  livro que  se tornou referência fundamental para a compreensão da dinâmica das comunalidades africano-brasileiras na contemporaneidade :
 
 
 
“...Recebo com satisfação o novo livro de  Deoscoredes Maximiliano dos Santos. Filho da prestigiosa Mãe Senhora, criado no conhecimento de todos os rituais do Opô Afonjá, o saboroso livro do autor de Contos Negros é realmente o único que nos pode oferecer uma monografia sobre este candomblé, onde tenho tantos amigos, e que é tão caro ao meu coração. Parabéns  Deoscoredes, e que seu precioso trabalho sirva de modelo para   outros. Livro de sábio,de filho da seita e de admirável narrador.”
Como previu o professor Roger Bastide, Mestre Didi prosseguiu afirmando institucionalmente  a dinâmica existencial das populações afro-brasileiras, influenciando e encorajando as gerações sucessoras a manterem erguidas os emblemas e referenciais que caracterizam e eternizam a nossa ancestralidade africana.
Mestre Didi como pessoa nascida e criada dentro dos valores da comunidade, sempre procurou desenvolver atividades que quando situadas principalmente no âmbito da sociedade oficial, afirmasse o que ele é, seus valores, seu orgulho pela tradição, como ele mesmo afirma: “...Procurarmos ser nós mesmos,nos valorizando,valorizando a tudo que adoramos, principalmente a natureza.
"É comum se dizer Kosi Ewe,Kosi Orixá; se não existissem as folhas, não existiriam os orixá, e não existiria o mundo. Já é tempo de nos unir, dar-nos as mãos, abrir os nossos corações para ir ao encontro da irmandade de justiça e da fraternidade para fortalecer e preservar cada vez mais as nossas origens e o axé de cada uma delas”.
 
Opa Osaiyn ati Oxumare Meji escultura de Mestre Didi
 
Estamos diante de um educador ,que nos permite de modo singular  a aproximação do rico e complexo patrimônio civilizatório  milenar africano indicando perspectivas  atravessadas por uma ética do futuro para a educação.
Procuraremos destacar, desse contínuo civilizatório, a primeira concepção e proposta de educação pluricultural que nasceu no Brasil protagonizada pelo Mestre Didi  -a Mini Comunidade Oba Biyi.
A experiência da Mini Comunidade Oba Biyi  demonstrou   que o legado civilizatório africano no Brasil e, especificamente, na Bahia constitui alteridades e caracteriza, em relação a outros processos civilizatórios, a nossa diversidade cultural.
 

 
Um dos exemplos expressivos dessa trajetória do  Mestre Didi  são as iniciativas  na área de Educação,   influenciado  por   Mãe Aninha, a venerável Iyá Oba Biyi com a qual ele conviveu desde menino, e sempre lhe dizia :
“Quero ver nossas crianças de hoje, no dia de amanhã de anel de anel no dedo e aos pés de Xangô"
 Mãe Aninha já tinha percebido que era impostergável a legitimação dos valores da comunalidade africano-brasileira, no âmbito do sistema oficial.
Iyá Oba Biyi, nos indicou o grande desafio que se apresenta para nós educadores. De um lado o “anel no dedo”, que significa as possibilidades de mobilidade social da população infanto-juvenil de descendência africana na sociedade oficial - , e de outro, Xangô, orixá do fogo que assegura a vida no aiyê , a expansão de linhagens, da existência concreta ininterrupta, filhos, descendência, ancestralidade, continuidade da comunalidade africano-brasileira, presença transatlântica dos valores culturais. De anel no dedo e aos pés de Xangô.”
Continua na próxima semana