domingo, 26 de janeiro de 2014
sábado, 25 de janeiro de 2014
AMARILDO E A BOLA DE OURO
Por Marco Aurélio Luz
Garrincha desmonta o ¨english team¨ na copa de 1962
Imagem disponível no Google Imagens
Contam nos meios intelectuais cariocas, que já gostam de uma piada, que o psicanalista francês J. Lacan, uma vez esgotado o tempo de espera de uma sessão, foi apagando as luzes do setting, quando o cliente esbaforido adentrou-se e tomou um susto com a silhueta sombria do doutor já em retirada e então exclamou:
-
C`est un fantôme !!??
Ao
que Lacan respondeu dando por encerrada a sessão:
- Non , pas de tout, cèst un symptôme.
A
piada só tem graça com o diálogo em francês por isso vão me desculpando. Tradução:
-
É um fantasma!?
– Não absolutamente, é um sintoma.
Seleção campeã do mundo em 1962
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Aproveito para fazer uma digressão sobre a presença do Amarildo na entrega da Bola de Ouro da FIFA. Ele jogou com Garrincha no Botafogo e na famosa copa do mundo de 1962, quando substituiu a Pelé contundido, e que já tinha então o apelido dado por Nelson Rodrigues de “Possesso”, por sua maneira de jogar, invadindo a área adversária , intrépido, sem medo de nada e de ninguém. Nelson vaticinara que “Possesso” aconteceria na copa.
Garrincha e Amarildo
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Naquela copa do mundo quando Pelé distendeu o músculo adutor, nos primeiros jogos, poucos acreditaram na vitória do Brasil. Garrincha um dos melhores na copa de 1958 contra tudo e contra todos, assumiu a responsabilidade de levar o Brasil para a grande vitória, só faltou fazer chover, como todos sabem. Amarildo então substituiu Pelé, sem problemas sabia que ao lado de Garrincha tudo era mais fácil, e foi.
Amarildo substituto de Pelé na copa de 1962
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Há pouco tempo num programa de TV perguntaram ao grande Eusébio que há pouco nos deixou,
- “Gênio,
mas o melhor do que ele vocês não sabem, sabe quem? O Garrincha! O Garrincha,
vocês perguntem ao Pelé na minha frente, e eu respondo logo. Oh Pelé? Tu e eu.
Agora aquele,aquele... Aquele não há quem possa. O Garrincha é o melhor de nós
todos.”
A
diferença nessa avaliação está no paradigma das referências. As que comtemplam
Pelé se baseiam na produtividade contábil, que ele sempre fez questão de
destacar e atuou em função de metas e records que lhe outorgassem o mérito de
artilheiro incontestável. É nos limites desse paradigma que se tornou um
personagem do marketing e da propaganda que em função disso, sempre destacaram
seu valor indiscutível. Também em função disso, sempre cuidou de sua imagem,
sempre procurando atender aos limites dos valores da ética produtivista que
regem o mundo do espetáculo e a mídia.
Já
Garrincha, sempre preso ao seu solo de origem, Pau Grande cidadezinha encravada
nas matas da serra de Petrópolis, não se interessou absolutamente pelos valores
das metrópoles. Para ele futebol mais do que profissão, era alegria poesia e
diversão, não só para ele, mas também para quem o assistia e o admirava.
Por
essa atitude, sem querer, ele contrariava quem vivia na órbita dos valores neocoloniais
positivistas da ordem e progresso.
Garrincha
levou o povo a superar o “complexo de vira lata”, conforme Nelson Rodrigues,
pelas sendas da autenticidade do povo brasileiro. Com isso, muito sofreu por
parte das críticas e pressões do establishment, inclusive de bases racistas,
quando atacaram, com veemência o seu casamento com Elza Soares.
E
então, ironias da história está ali no palco ao lado de Pelé, o Amarildo seu
substituto na copa de 1962 para testemunhar um recorde.
Pelé foi o único jogador
que ganhou três copas 1958, 1962 e 1970. Logo ele Amarildo, companheiro,
admirador e que é grato a Garrincha por tudo e mesmo pelo fato de ser um
campeão do mundo.
Amarildo na cerimônia da Bola de Ouro
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A organização do evento preparava o terreno para reparar uma injustiça, dar uma bola de ouro para Pelé, pois que o prêmio era restrito só a jogadores que atuavam na Europa, coisas que a trajetória colonial explica.
Pois
bem, Amarildo o “Possesso”, revela que ficou numa situação difícil na copa de 1962,
ter que substituir o “rei”, mas não era culpa dele, e aí desandou, falou,falou
e nada disse, se referiu a copa no Brasil, problemas de disciplina na
torcida... Procurou se sair da situação difícil naquele momento desviando do
assunto.
Imagem disponível no Google Imagens
O deslocamento é uma defesa psicológica provocada pela censura. A censura à memória do Garrincha e a tudo que ele representa.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A RELIGIÃO AFRO-BRASILEIRA
Por Sandra Maria Bispo
A elaboração deste trabalho encontra sua plena concretude no
comportamento, comentário ou mesmo pesquisa em uma casa de tradição religiosa,
cuja relação maior se reflete na integração de seus participantes à vida da
grande sociedade.
Portanto, partindo da perspectiva de preservação, tentamos
traçar um perfil vivencial cotidiano em uma comunidade de “candomblé”, como
núcleo catalisador do espírito de insurgência, da transferência do saber e de
diferentes modos de sobrevivência.
Nessa mesma linha, refletimos sobre o resgate, através da
oralidade, e compreensão da identidade cultural religiosa das pessoas negras
participantes dos terreiros de candomblé na Bahia.
Ao elaborar um trabalho escrito, enfocando algumas reflexões
sobre a história de um terreiro, nossa intenção é que seja uma contribuição
educativa para melhor compreensão de um espaço-axé, considerando sua vinculação
com a sociedade como um todo.
Ilê Nla ni Ilê Axé Oxumarê
Foto disponível no Google
A sedimentação histórica de um terreiro mostra a estrutura
transparente e fixada como marco de força vital há vários séculos. A força do
axé é a referência existente que denota a relação com as verdadeiras raízes
culturais africanas na Bahia.
Isso significa que encontramos os valores culturais não
apenas na arquitetura da casa como em todas as formas de comunicação das
pessoas que convivem e vivenciam o espaço sagrado. E, mais ainda, na
identificação das formas de expressão e símbolos com que, em particular, a
comunidade modela a identidade dos seus membros.
Ressalto que o termo “terreiro” inclui, por força de sua
extensão, o lugar onde vive o povo de orixá e seus parentes, bem como outras
pessoas, se for o caso.
Como participante do terreiro, que é lugar sagrado,
considero todos os elementos que o compõem: o chão, o ar, as árvore, a
comunidade religiosa etc.
É inegável que a ampliação da força da comunidade em um
terreiro tem sua fonte de energia no todo que o compõe, partindo daí
inicialmente como núcleo de insurgência onde se materializa o axé através do
culto religioso.
Salão do Ile Nla
Foto disponível no Google
A ampliação do culto insere a comunidade num conjunto de
relações vitais de educação, cujo desenvolvimento caracteriza a personalidade
dos indivíduos que convivem com a transmissão e preservação dos valores
religiosos. Nesse processo de convivência e transmissão de valores, preparam-se
os indivíduos para o desempenho condigno de papéis sociais e isso ocorre tanto
no solo do culto quanto na organização social da sobrevivência.
O “candomblé”, os Ilê Axé, tem raízes profundas e
ancestrais. Portanto, qualquer mudança referente deverá ser comedida,
observando-se esse aspecto. É uma religião concreta, herança africana, com base
no real, na relação com a natureza. É uma religião viva, cheia de energia. É
força que emana da própria terra e conduz a vida e o destino dos seus filhos.
Possivelmente se fosse feita uma pesquisa de opinião pública
sobre a vida de um terreiro, certamente não faltariam indagações, dúvidas ou
talvez até medo quanto ao assunto. Essas dúvidas, indagações ou medo, por
certo, estariam vinculados ao desconhecimento ou folclorização a que tem sido
exposta a religião afro-brasileira durante todo tempo, gerando uma visão
preconceituosa diante do seu processo de recriação.
A religião dos orixás não é solta no tempo e no espaço. Ela
é expressão concreta da força de um povo, particularmente do “povo de santo”
que, através da crença e resistência, não se deixa dominar nem pelo medo, nem
pelo folclore; ou até mesmo pelas formas repressoras ao culto afro-brasileiro,
considerando sua contextualização histórica.
Foto disponível no Google
Lembrando um pouco a origem histórica da religião
afro-brasileira, revemos a função do catolicismo no Novo Mundo. O catolicismo,
frente à necessidade de possuir novos adeptos.
Que, “em nome de Deus” pudessem garantir a sua soberania e
poder, se implanta como religião obrigatória, proibindo o homem negro e seus
descendentes de praticarem a sua religião de origem, pois o negro representava
a base econômica de toda sociedade, não podendo fugir às normas de controle sociais
estabelecidas.
O grupo católico tem, entre si, as mesmas ideias, encara a
religião afro-brasileira como aquela em que se praticam coisas diferentes, de
forma tal que não conseguem, os católicos, reconhecê-las como prática cultural.
Por outro lado, o grupo de praticantes da religião afro-brasileira sobrevive à
sua maneira, ocupa espaço natural e descobre formas de sobrevivência,
resistindo através dos tempos.
Acreditam em deuses aos quais designam orixás e prestam todo
um ritual de crença, fé e energia vinculado à natureza. Nesse processo a
formação e a prática do indivíduo implicam a consciência do saber, as vantagens
e formas de participação, despertando perspectivas cada vez melhores na sua
interação com o meio ambiente.
A ialorixá ou o babalorixá, em geral exerce o papel de articulador e organizador cultural de fato, pois religião é cultura e, portanto, trabalho e organização.
A ialorixá ou o babalorixá, em geral exerce o papel de articulador e organizador cultural de fato, pois religião é cultura e, portanto, trabalho e organização.
A violência contra a religião afro se concretiza na necessidade
da criação de irmandades negras que acomodariam uma relação onde há
predominância da cultura oficial, que ainda hoje é branca. Assim, associando-se
aos santos da igreja católica, a comunidade de raízes afro- brasileira era
aceita porque a fé cristã constituía uma das condições mais importantes para
que o negro fosse visto como um ser dotado de alma.
Em verdade cada grupo traduzia nos termos de sua própria
cultura o significado dos objetos, cujo sentido original foi forjado na cultura
do povo católico. Vemos assim, a religião afro-brasileira e a religião
católica, oriundas de culturas diferentes, resultando, até certo ponto, em
choque cultural. Vale reafirmar que não houve sincretismo, visto o não
amalgamento entre essas duas religiões.
É evidente que o homem, para sobreviver, antes de mais nada,
precisa utilizar-se da natureza de forma racional, pois precisa comer, beber e
abrigar-se. Por outro lado, forças exteriores e, sobretudo da natureza dominam
a vida cotidiana.
Nesse processo, os homens se agrupam, organizam seu universo, apreendendo e interpretando sua realidade. Particularmente, o negro africano e seus descendentes participantes de um terreiro, organizam-se não somente na sua correlação com o sagrado, como também com o ambiente natural e humano e assim com a ordem cultural e social.
Nesse processo, os homens se agrupam, organizam seu universo, apreendendo e interpretando sua realidade. Particularmente, o negro africano e seus descendentes participantes de um terreiro, organizam-se não somente na sua correlação com o sagrado, como também com o ambiente natural e humano e assim com a ordem cultural e social.
Claro está que, se, por um lado, o homem incorpora a
natureza para sobreviver, esse mesmo homem sente a necessidade de organizar o
mundo a partir de um esquema interpretativo cultural de valores. Desse esquema
emerge o conhecimento enquanto consciência.
O referencial de aprendizagem dos mais velhos dá-se a partir
de sua relação constante com o real, com elementos naturais, como o ferro, as
pedras, ori, o mar, as árvores, a chuva, enfim tudo que emana do natural. Cada
elemento natural corresponderá a um referencial de crença que, como um todo,
possui mecanismos, formas, caminhos e razão, os quais para aqueles que não têm
a vivência e convivência com a realidade processual religiosa, poderão passar
despercebidos ou mesmo gerar toda uma gama de preconceitos decorrentes de
profundas distorções que se perpetuam nas emoções, pensamentos e
representações.
Essas distorções, uma vez que interferem nas emoções,
poderão dar a ideia de medo daquilo que não se conhece, portanto, o medo do
desconhecido o que possivelmente ocorreria em qualquer situação normal.
Apesar
de tais distorções que se perpetuam através de representações negativas e
folclorizadas, a religião afro-brasileira traz em si o seu próprio discurso,
isto é, desfruta de uma linguagem própria para dizer algo de si mesma. Fala por
si através de todo um processo iniciático, toques, cânticos e atitudes,
possuindo autonomia necessária ao traduzir-se por representações e símbolos.
Parece-nos claro que a religião dos orixás distancia-se do
conceito de religião como ópio do povo, por sua natureza construtiva, que
afirma a identidade do indivíduo, ao tempo que organiza o grupo como modelador
dessa identidade. Considerando a possibilidade de aproveitamento da tradição
oral como veículo de transmissão de fundamentos religiosos e da identidade
cultural, presto-me ao testemunho de que, em geral, as comunidades religiosas
afro-brasileiras vêm tentando manter, há anos, a tradição de seu axé com
seriedade e zelo, por isso mesmo, têm merecido o respeito dos adeptos. Vale
ressaltar que os dirigentes das casas religiosas, em geral, exercem o papel de
guardiões dos nossos valores culturais, com autoridade e poder de mantenedores
da religião.
Daí a necessidade de preservação e resgate da memória
sacro-cultural da comunidade de um terreiro, que, além de ser um testemunho
vivo de insurgência e afirmação da identidade cultural afro-brasileira, é,
sobretudo, um monumento histórico e cultural brasileiro e, como tal, deve ser
respeitado e preservado por todos, inclusive pelos órgãos oficiais competentes.
A própria necessidade que o homem tem de organizar-se a
partir de um esquema interpretativo de valores constitui forte razão, segundo
Rubem Alves, em “O Suspiro Dos Oprimidos”, para que os homens criem os
universos simbólicos, a religião, e façam a história.
Na verdade, os universos simbólicos, a religião e a própria
história são expressões do esforço humano no sentido de condicionar a natureza,
o tempo e o espaço em função de si mesmo.
Ao centro a Iya Kekere Sandra Maria Bispo
Foto do acervo de M. A. Luz
No resgate de sua história, o negro afro-brasileiro utiliza
uma linguagem também simbólica, baseada na concepção do homem e do seu papel no
seio do universo, isso na medida em que pleiteia fugir ao estudo
contextualizado. Portanto faz sentido o nosso apoio à afirmação Marco Aurélio
Luz:
A civilização negra se
caracteriza por exprimir uma concepção espiritualista do mundo, onde a
constituição da individualidade, as relações sociais, as relações com a
natureza e o universo estão revestidas de uma dimensão sagrada, acompanham até
mesmo as inúmeras atuações profanas daqueles que vivem este universo cultural,
estejam eles vinculados a esferas políticas, sociais ou econômicas...(LUZ,M.A.Rio de Janeiro:Achiamé,1983,3p.8)
Zelando pela integridade do culto aos orixás, alguns
babalorixás e ialorixás definem seus filhos na sociedade, mantendo a dimensão e
a dinâmica própria das heranças que lhe são conferidas.
Apoiados na herança da oralidade africana funcionam como
conservatório da acumulação cultural, garantindo a fiel transmissão dos fundamentos
da religião, numa linguagem emocional e também reflexiva.
A memória da sociedade é a comunidade viva de gerações
sucessivas, é o que anima o universo humano e religioso na mesma medida. A religião em si, por sua
própria base cultural, às vezes ajuda a explicar, ocultar ou mesmo inculcar de
geração a geração a necessidade da existência de sua ordem.
No Brasil, a similaridade entre os costumes de vários grupos
de nações de origem africana que aqui se encontravam, tem sido mais forte que
as diferenças e esse princípio aponta uma unidade na diversidade.
Digo isso porque, através desse princípio de unidade na
diversidade, tem-se conhecimento de que grupos negros se organizaram fazendo
surgir novos terreiros de “candomblé” a exemplo da casa de Oxumaré, muito
antiga e famosa, cujo patrono é esse orixá, conforme citação de Vasconcelos
Maia em seu livro “ABC do Candomblé”.
Sandra Maria Bispo Iyá Keker nile Axé Oxumarê recebe as homenagens em cerimônia da Assembléia Legislativa.
Foto M. A. Luz
Finalizo lembrando a necessidade da continuidade e
aprofundamento das discussões a respeito da religião afro-brasileira, pela sua
função religiosa, social, política e econômica, reafirmando e divulgando o seu
grande valor, pois: ¨A escrita é uma coisa e o saber, outra. A escrita é a
fotocópia do saber, mas não o saber em si... é herança de tudo aquilo que
nossos ancestrais vieram a conhecer e que se encontra latente em tudo o que nos
transmitiram¨... (Tierno Bokar).
Texto publicado no livro IDENTIDADE NEGRA E EDUCAÇÃO, ed. Ianamá, 1989, Salvador
Texto publicado no livro IDENTIDADE NEGRA E EDUCAÇÃO, ed. Ianamá, 1989, Salvador
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
WALDEMAR SANTANA,Um nome na história
Imagem disponível em
http://mundomarcial.site40.net/images/capoeira_site.jpg
Por Marco Aurélio Luz
Hélio Gracie foi grande , mas não podemos esquecer de Waldemar Santana.
Num programa
de TV recente o Mestre de capoeira Boa Gente, lamenta que um feito histórico
não esteja devidamente registrado como merece. Segundo ele, a história
permanecerá incompleta sem a presença heróica de Waldemar Santana.
Um aluno de capoeira de Mestre Bimba,
meu amigo Muniz Sodré, o Americano, contou-me que em uma de suas lições o
mestre perguntou aos seus alunos o que fariam se tivesse pela frente alguém os
ameaçando armado com uma faca. Todos contaram suas bravatas demonstrando os
golpes que dariam para livrá-los de tal situação e ainda dominar o agressor.
Mestre Bimba nada disse, só ouviu.
Mas a ansiedade do grupo fez com que
ousassem a pergunta inevitável:
-E o senhor Mestre o que faria?
Ao que Bimba respondeu mais ou menos
assim:
-Eu? Eu saía correndo! Se insistisse
procurava uma esquina para surpreender escorando...
Imagem disponível no Google imagens Mestre Bimba, criador da Capoeira Regional
A capoeira nasce com a ginga para enfrentar um adversário melhor armado, procurando estratégias de contornar e evitar o combate de frente, para surpreender num momento mais favorável. É a inspiração da Rainha Ginga do Ndongo (Angola), a Rainha Invisível, na luta contra os portugueses escravistas, guerra de deslocamentos através dos kilombos, acampamentos militares que manteve a independência de seu território em 1.657.
Monumento em homenagem à Nzinga Bandi Kiluanji em Angola, a Rainha Ginga
Imagem disponível no Google imagens
“Pois, pois”, como dizem os outros...
No ano de 1955 Waldemar Santana um dos
maiores lutadores que o mundo já viu discípulo de Mestre Bimba, morando no Rio
de Janeiro estava na ambiência da academia de jiu-jítsu de Hélio Gracie, até
então, tido como maior lutador do Brasil.
Waldemar Santana
Imagem disponível no Google imagens
Vai que quis o destino que Waldemar
fosse enfrentar Hélio numa luta de vale tudo, com quimono e sem rounds e tempo determinado.
O público lotou o ginásio de esportes. Com toda imprensa apoiando Hélio,
envolvida pelas ideologias racistas só esperavam a confirmação da
"superioridade do branco descendente de inglês".
Em entrevistas em revistas e jornais
Hélio Gracie se gabava de além de ser o exímio lutador de jiu-jítsu e de ter já
vencido os mais temíveis lutadores do Oriente e do Brasil, era ele um Gracie,
descendente de ingleses por si só superior ao negro Waldemar que inclusive desonrara
a sua academia se prestando a lutar em lutas combinadas de exibição para ganhar
algum dinheiro.
O jornal Última Hora abriu espaço para
promover o desafio e diante das afirmações de Hélio Gracie, o “Leopardo Negro”,
Waldemar Santana o desafiou. Com a ideia de dar uma lição no jovem ousado,
Hélio logo aceitou.
Waldemar Santana também frequentava academia de capoeira no R.J.
Imagem disponível no Google imagens
A luta tornou-se uma das mais longas que o mundo já viu. Sabendo que as
armas de Hélio eram as chaves do jiu-jitsu, Valdemar adotou a tática do tatu,
acocorado no chão enfeixado sobre si mesmo, não permitia uma sobra de membro
que pudesse favorecer as táticas do adversário. Quando esse dava uma brecha
tentando catar um braço, uma perna, um dedo, um pescoço, Valdemar punha-se de
pé e forçava Hélio a persegui-lo dando um e outro golpe no contra ataque, em
seguida, pronto novamente enroscado como o tatu. Depois de 3 horas e 45
minutos, considerada a luta de vale- tudo mais longa do mundo, com Hélio
exausto e desguarnecido Valdemar desferiu a meia lua de compasso, o pé voa na
cara do oponente. O adversário caiu desfalecido.
A vitória histórica de Waldemar Santana sobre Helio Gracie
Imagem disponível no Google imagens
Um verdadeiro tsunami atingiu os entulhos ideológicos racistas espalhados pela mídia em geral. Todavia Nelson Rodrigues escreveu famosa crônica enaltecendo o feito.
“Há 20 e tantos anos que os Gracie
mantinham uma invencibilidade que parecia definitiva. Por isso há tanta gente
querendo dar rádio, televisão, e até ferro elétrico a Waldemar. E não há dúvida
de que ele bem o merece.
No dia de sua vitória, houve alegria universal,
sim. O fraco sentiu-se menos fraco, o humilhado menos humilhado, e o marido que
não pia em casa levantou, por 24horas
a
crista abatida. Todos nós somos cúmplice de Waldemar.”[1]
Waldemar Santana, filho da Bahia, a
Roma Negra, como disse Mãe Aninha, Iyalorixa Oba Biyi, entra para nossa
história, para nossa honra.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
MESTRE DIDI EDUCADOR CONTEMPORÂNEO PARTE 2
Por Narcimária Correia do
Patrocínio Luz
É
no âmago do desejo de Mãe Aninha de ver no futuro as crianças da comunidade “de anel no dedo e aos pés de Xangô” , que Mestre Didi ,implanta
no Brasil, particularmente na Bahia, a primeira experiência de educação
pluricultural, Mini Comunidade Oba Biyi, que se desenvolveu de 1976 à 1986
ancorada nos princípios e valores do patrimônio milenar africano reposto e
recriado no Brasil. Aqui se inscreve a proposta de educação da Mini Comunidade
Oba Biyi, que pode ratificar, e de certa forma atender o desejo de Mãe Aninha.
Esse nome em sua homenagem caracterizou, uma pequena comunidade (mini) que
reuniu crianças dos 3 meses de idade aos quatorze anos. Oba Biyi, era uma forma
de homenagear o nome sacerdotal nagô de Eugênia Anna dos Santos.
Mestre Didi inspirador e criador da Mini Comunidade Oba Biyi
Foto M.A.Luz
A proposição de uma educação no contexto desse
desafio é promover uma linguagem pedagógica que estabeleça uma relação dinâmica
entre os valores sociocomunitários da tradição, e os códigos da sociedade
oficial, exigindo e assegurando nesta relação o direito à identidade própria. Assim,se
instala no âmbito da Mini Comunidade Oba Biyi, uma estratégia para
no contexto da modernidade, formar pessoas capacitadas para interagir com os códigos da sociedade
industrial e reforçar ao mesmo tempo os
valores da comunalidade africano-brasileira.De anel no dedo e aos pés de Xangô, é procurar superar os obstáculos, que se institucionalizaram na África e no Brasil, e em outros países ex-colonizados através da pedagogia eurocêntrica.
De
anel no dedo aos pés de Xangô, é a
possibilidade de uma educação em que nossas crianças aprendam a lidar com o
repertório de códigos da sociedade eurocêntrica, mas utilizando-os como estratégia
de legitimação da alteridade civilizatória africana; no caso, conquistando
espaços institucionais, e neles fincar, recriar e expandir também, o repertório
de valores da tradição africano-brasileira.
Outra
pessoa que conversamos sobre a concepção espaço-temporal da Mini, foi Marco
Aurélio Luz que participou também da
coordenação da experiência de educação no período de 1978 à 1985.
“A
forma de comunicação básica da Mini, não se assentava na escrita. A forma de
comunicação dava margem aqueles códigos tradicionais de comunicação da
comunidade, que se manifestavam através da dramatização, dança, música, etc.
Mas, em relação a linguagem pedagógica, especialmente, esse espaço propiciava
essas formas de comunicação. A Mini foi concebida com um grande salão, um pátio
e uma varanda. Não se caracterizava com salas de aula, carteiras, com aquele
mobiliário sobredeterminado pela escrita, com aquela prancheta, com obsessão
para caderno, lápis, livro, e a criança diante do quadro-de-giz, e o professor
na frente. Esse espaço dava outra dinâmica. Tinha salão de atividades por
centro de interesses, onde se desenvolvia atividades com as turmas do
prontidão, os professores começavam as atividades e a criança poderia circular
de um centro de interesse para outro e vice-versa. No pátio e na varanda
aconteciam as aulas de alfabetização. Nessa varanda tinha uma grande mesa com
os bancos, mantendo a característica do mobiliário da comunidade, e um
quadro-de-giz presente nas aulas de alfabetização. No pátio se desenvolvia a música,
dança e dramatizações.”
Autocoreográfico Chuva dos Poderes de Mestre Didi
Foto M.A. Luz
Foto M.A. Luz
Projetou-se
um espaço que abrigasse uma comunidade infantil, uma casa com o estilo da
Bahia, com telhas, varandas, pátio, um amplo salão. A concepção de um espaço
livre para as crianças explorarem e desenvolverem todos os sentidos do corpo,
não havia bancos e carteiras, era um espaço permeado pela estrutura do
terreiro, onde as atividades e/ou aprendizagem ocorressem ao ar livre ou no
salão. Tinha também uma cozinha grande,
banheiros e vegetação na área externa.
Marco
Aurélio Luz comenta ainda que
“(...)
houve um “curto-circuito”, porque aí também se definiu problemas de poder, e
esse discurso vinha querendo sedimentar o poder dos professores e
coordenadores, que eram considerados “de fora” pelas crianças, querendo ter o
poder sobre eles. E de acordo com as crianças, esses professores nada sabiam da
linguagem da comunidade, , dos valores que eles achavam que sabiam mais do que
aquelas pessoas. E como também na comunidade o poder está ligado a uma
hierarquia religiosa e comunitária, as pessoas que chegam não sabem, não tem
lugar, não tem posto, não tem poder, e aí estava a fricção de poderes.”
O
saber que vinha da universidade, da academia, das Secretarias de Educação, se
chocavam profundamente com o saber da comunidade, representada pelas crianças
que não aceitavam a imposição de saberes “de fora”, isto porque, elas já tinham
sido rejeitados pela escola oficial justamente por isso. Como elas achavam que
a Mini Oba Biyi era delas, que era um espaço feito para elas, daí a fricção e
ou “curto-circuito” como bem mencionou Marco Aurélio.
Se
instalou então o desafio da Mini constituir uma equipe, um GTE que elaborasse o
luto de não saber, abandonar os paradigmas pedagógicos vigentes, e tentar abrir
caminhos para a alteridade, ouvir o outro, tentar perceber e dar espaço para
que o outro se colocasse, criasse, ocupasse uma linguagem, proporcionando a
aceitação das partes ou melhor na dinâmica “da porteira pra dentro da porteira
pra fora”.
A
comunidade infantil Oba Biyi, não era uma comunidade religiosa, e sim de
desenvolvimento integrado da criança. A parte religiosa era cuidada pela
família e a comunidade-terreiro.
A
Mini Comunidade Oba Biyi teve o seu currículo envolvido pela linguagem
pluricultural expressa nos contos milenares da tradição africana. Esses contos
recriados por Mestre Didi, promovia e
afirmava as formas e modos de comunicação da comunidade caracterizadas
pela cultura de participação.
A
concepção e linguagem socioeducativa
estimulada por Mestre Didi,
estava relacionada a dinâmica civilizatória da tradição nagô, de onde ele
procurava inspiração para gerar o cotidiano curricular da Mini, influenciando,
determinando códigos, refletindo de tal modo que não excluísse a identidade das
crianças.
Os
contos legado da tradição, são os itans e fazem parte de sistemas
oraculares.Alguns contos o Mestre Didi criou, e são encontrados em alguns de
seus livros a exemplo de Contos Nagô, Contos Negros da Bahia e Contos de Mestre
Didi.
Dramatização do conto de Mestre Didi Odé e os Orixá do Mato
Foto M.A.Luz
Para
elaborar a dinâmica curricular da Mini através dos contos, o GTE se reunia no
início de cada semestre com os professores e funcionários, estabelecia a
temática e procuravam com Mestre Didi um conto que atendesse, representasse
e/ou ilustrasse o tema escolhido. Neste processo as crianças também
participavam.
Assim
foram realizadas várias dramatizações a exemplo de: Odé o Caçador e os Orixás
do Mato; A Chuva dos Poderes; A Filha do Arco-íris; O Presente de Xangô a Boa
Menina; A Vendedora de Acaçá; A Fuga de Tio Ajayí dentre outros. Eram nos Festivais da Mini Comunidade
Oba Biyi, que por sinal tinham muita repercussão, que se culminava o semestre.
Nesta ocasião eram exibidos os trabalhos das crianças relacionados a temática
do semestre, expondo-se o que elas selecionavam, apresentando as peças de
teatro ou autocoreográficos, músicas, danças, figurinos, cenários.
Exposição de artes durante o Festival da Mini Comunidade Oba Biyi
Foto M.A.Luz
Os
Festivais da Mini Comunidade Oba Biyi reuniam
a comunidade-terreiro, pessoas do bairro, deixando a área cheia de gente
que vinha assistir os trabalhos. Vinham convidados de instituições de fora
também, proporcionando um intercâmbio. As confraternizações eram acompanhadas
sempre por um lanche, momento , que proporcionava a coesão grupal, o
compartilhar de emoções e sentimentos, o religare.
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
MESTRE DIDI EDUCADOR CONTEMPORÂNEO - PARTE 1
Imagem disponível em http://guiadoocio.com/literatura/reinauguracao-da-secneb-nos-94-anos-de-mestre-didi/attachment/mestre-didi-artur-ikishima
Por Narcimária Correia do Patrocínio Luz
Dia 02 de dezembro de 1917, nasceu Deoscoredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi Asipá, Supremo Sacerdote do Culto Egungun.
Mestre Didi pertence à família Axipá, originária de Oyó e uma das sete famílias fundadoras da cidade de Ketu. Essa família repõe no Brasil, especificamente na Bahia, uma dinâmica sócio-política, mítico-religiosa da cultura Nagô expressa em casas tradicionais como o Ilê Axé Opô Afonjá. Mestre Didi é neto de Iyá Oba Biyi e filho de sangue de Mãe Senhora,ambas expressivas lideranças da tradição africana nas Américas.
É o membro mais velho da família Axipá no Brasil. Podemos afirmar que é um Omo Bibi, um bem-nascido.
“...Na tradição afro-brasileira de origem nagô, omo bibi, quer dizer, bem nascido, isto é, aquela pessoa que vem a esse mundo para dar continuidade a expansão de uma linhagem, de uma família considerada muito antiga, receptáculo de tesouros de valores espirituais e experiências históricas de grande valor para a comunalidade. Os valores espirituais estão expressos pela continuidade e expansão das instituições religiosas, de um lado, o culto aos orixá, forças cósmicas que constituem o universo, princípios da natureza, e de outro o culto aos ancestres e ancestrais, como aos Esa, espírito das pessoas que se destacaram na tradição religiosa ,ou aos Babá Egun, espíritos dos ojé, sacerdotes que se destacaram no culto aos ancestres masculinos.”(LUZ,Marco Aurélio. A Favor de Egun. A Tarde, Salvador, 09 de abril, 2005. Caderno Cultural).
O PRODESE retoma hoje as postagens do blog, dedicando-se a homenagear esse expoente ancestral, que durante toda a sua vida dedicou-se a fundar espaços institucionais que promovesse entre as gerações africano-brasileiras a dignidade e o direito à alteridade.
Essa singela homenagem, caracteriza-se por realçar aspectos que lidam com infinitude das linguagens educacionais projetadas por Deoscoredes Maximiliano dos Santos, o Mestre Didi Asipá uma das mais expressivas lideranças do contínuo africano nas Américas, e personalidade exponencial da educação contemporânea.
Mestre Didi pertence à família Axipá, originária de Oyó e uma das sete famílias fundadoras da cidade de Ketu. Essa família repõe no Brasil, especificamente na Bahia, uma dinâmica sócio-política, mítico-religiosa da cultura Nagô expressa em casas tradicionais como o Ilê Axé Opô Afonjá. Mestre Didi é neto de Iyá Oba Biyi e filho de sangue de Mãe Senhora,ambas expressivas lideranças da tradição africana nas Américas.
Mãe Senhora com Zélia Gattai, Sartre, Simone de
Beauvoir e Jorge Amado em 1960
Imagem disponível em http://www.ibahia.com/a/blogs/literatura/2013/03/08/que-mulher-foi-zelia-gattai/
É o membro mais velho da família Axipá no Brasil. Podemos afirmar que é um Omo Bibi, um bem-nascido.
“...Na tradição afro-brasileira de origem nagô, omo bibi, quer dizer, bem nascido, isto é, aquela pessoa que vem a esse mundo para dar continuidade a expansão de uma linhagem, de uma família considerada muito antiga, receptáculo de tesouros de valores espirituais e experiências históricas de grande valor para a comunalidade. Os valores espirituais estão expressos pela continuidade e expansão das instituições religiosas, de um lado, o culto aos orixá, forças cósmicas que constituem o universo, princípios da natureza, e de outro o culto aos ancestres e ancestrais, como aos Esa, espírito das pessoas que se destacaram na tradição religiosa ,ou aos Babá Egun, espíritos dos ojé, sacerdotes que se destacaram no culto aos ancestres masculinos.”(LUZ,Marco Aurélio. A Favor de Egun. A Tarde, Salvador, 09 de abril, 2005. Caderno Cultural).
O PRODESE retoma hoje as postagens do blog, dedicando-se a homenagear esse expoente ancestral, que durante toda a sua vida dedicou-se a fundar espaços institucionais que promovesse entre as gerações africano-brasileiras a dignidade e o direito à alteridade.
Essa singela homenagem, caracteriza-se por realçar aspectos que lidam com infinitude das linguagens educacionais projetadas por Deoscoredes Maximiliano dos Santos, o Mestre Didi Asipá uma das mais expressivas lideranças do contínuo africano nas Américas, e personalidade exponencial da educação contemporânea.
Mestre Didi através de suas
obras,quer na literatura, escultura ou no campo da História do povo negro nas Américas, nos permite o acesso ao
riquíssimo patrimônio simbólico africano que influencia de modo significativo o
nosso pensamento educacional.
O legado do Mestre Didi constitui
um universo de criações estéticas singulares que carregam ancestralidade e
visão de mundo próprios da civilização
africana, abrindo perspectiva de coexistência
com outros patrimônios civilizatórios.
Imagem disponível em http://www.flogao.com.br/czeiger/64298724
Pertencente
a importante linhagem de Ketu, Mestre Didi teve sua iniciação no culto do orixá
Obaluaiyê que junto aos orixá Nanâ e Oxumarê compõem o
panteão da Terra, expressões míticas que nucleiam suas obras.
Seu
compromisso como Assogbá Sacerdote Supremo, título que recebeu de Mãe Aninha Iyalorixá Oba Biyi envolve executar e sacralizar os emblemas
rituais de seu culto, e isso o torna herdeiro e continuador dessa experiência
ancestral africana.
Mãe Aninha Iyalorixá Oba Biyi
Imagem disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Eug%C3%AAnia_Anna_Santos
Mestre Didi Axipá visita Ojubó o assentamento de Oxossi da família
Axipá em Ketu
Ainda sobre a importância da obra
de Mestre Didi temos um valioso comentário do
professor da Sorbonne, Roger Bastide na década de sessenta, sobre a História de um Terreiro Nagô , livro que
se tornou referência fundamental para a compreensão da dinâmica das
comunalidades africano-brasileiras na contemporaneidade :
Imagem disponível em http://educador.brasilescola.com/estrategias-ensino/arte-mestre-didi-cultura-africana.htm
“...Recebo com satisfação o novo
livro de Deoscoredes Maximiliano dos
Santos. Filho da prestigiosa Mãe Senhora, criado no conhecimento de todos os rituais
do Opô Afonjá, o saboroso livro do autor de Contos Negros é realmente o único que nos
pode oferecer uma monografia sobre este candomblé, onde tenho tantos amigos, e
que é tão caro ao meu coração. Parabéns
Deoscoredes, e que seu precioso trabalho sirva de modelo para outros. Livro de sábio,de filho da seita e de
admirável narrador.”
Como previu o professor Roger
Bastide, Mestre Didi prosseguiu afirmando institucionalmente a dinâmica existencial das populações
afro-brasileiras, influenciando e encorajando as gerações sucessoras a manterem
erguidas os emblemas e referenciais que caracterizam e eternizam a nossa
ancestralidade africana.
Mestre Didi como pessoa nascida e
criada dentro dos valores da comunidade, sempre procurou desenvolver atividades
que quando situadas principalmente no âmbito da sociedade oficial, afirmasse o
que ele é, seus valores, seu orgulho pela tradição, como ele mesmo afirma:
“...Procurarmos ser nós mesmos,nos valorizando,valorizando a tudo que
adoramos, principalmente a natureza.
"É comum se dizer Kosi Ewe,Kosi
Orixá; se não existissem as folhas, não existiriam os orixá, e não existiria o
mundo. Já é tempo de nos unir, dar-nos as mãos, abrir os nossos corações
para ir ao encontro da irmandade de justiça e da fraternidade para fortalecer e
preservar cada vez mais as nossas origens e o axé de cada uma delas”.
Opa Osaiyn ati Oxumare Meji escultura de Mestre Didi
Imagem disponível em http://www.fgs.org.br/blog/parque-escultorico-de-sao-sebastiao
Estamos diante de um educador
,que nos permite de modo singular a
aproximação do rico e complexo patrimônio civilizatório milenar africano indicando perspectivas atravessadas por uma ética do futuro para a
educação.
Procuraremos destacar, desse
contínuo civilizatório, a primeira
concepção e proposta de educação pluricultural que nasceu no Brasil
protagonizada pelo Mestre Didi -a Mini
Comunidade Oba Biyi.
A experiência da Mini Comunidade
Oba Biyi demonstrou que o legado civilizatório africano no
Brasil e, especificamente, na Bahia constitui alteridades e caracteriza, em
relação a outros processos civilizatórios, a nossa diversidade cultural.
Um dos exemplos expressivos dessa
trajetória do Mestre Didi são as iniciativas na área de Educação, influenciado por
Mãe Aninha, a venerável Iyá Oba Biyi com a qual ele conviveu desde
menino, e sempre lhe dizia :
“Quero ver nossas crianças de hoje, no dia de
amanhã de anel de anel no dedo e aos pés de Xangô"
Mãe
Aninha já tinha percebido que era impostergável a legitimação dos valores da
comunalidade africano-brasileira, no âmbito do sistema oficial.
Iyá Oba Biyi, nos indicou o
grande desafio que se apresenta para nós educadores. De um lado o “anel no
dedo”, que significa as possibilidades de mobilidade social da população
infanto-juvenil de descendência africana na sociedade oficial - , e de outro,
Xangô, orixá do fogo que assegura a vida no aiyê , a expansão de linhagens, da
existência concreta ininterrupta, filhos, descendência, ancestralidade,
continuidade da comunalidade africano-brasileira, presença transatlântica dos
valores culturais. De anel no dedo e aos pés de
Xangô.”
Continua na próxima semana
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