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PRODESE E ACRA



VIDA QUE SEGUE...Uma
das principais bases de inspiração do PRODESE foi a Associação Crianças Raízes
do Abaeté-Acra,espaço institucional onde concebemos composições de linguagens
lúdicas e estéticas criadas para manter seu cotidiano.A Acra foi uma iniciativa
institucional criada no bairro de Itapuã no município de Salvador na Bahia, e
referência nacional como “ponto de cultura” reconhecido pelo Ministério da
Cultura. Essa Associação durante oito anos,proporcionou a crianças e jovens
descendentes de africanos e africanas,espaços socioeducativos que legitimassem
o patrimônio civilizatório dos seus antepassados.
A Acra em parceria com o Prodese
fomentou várias iniciativas institucionais,a exemplo de publicações,eventos
nacionais e internacionais,participações exitosas em
editais,concursos,oficinas,festivais,etc vinculadas a presença africana em
Itapuã e sua expansão através das formas de sociabilidade criadas pelos
pescadores,lavadeiras e ganhadeiras,que mantiveram a riqueza do patrimônio
africano e seu contínuo na Bahia e Brasil.É através desses vínculos de
comunalidade africana, que a ACRA desenvolveu suas atividades abrindo
perspectivas de valores e linguagens para que as , crianças tenham orgulho de
ser e pertencer as suas comunalidades.
Gostaríamos de registrar o nosso
agradecimento profundo a Associação Crianças Raízes do Abaeté(Acra),na pessoa
do seu Diretor Presidente professor Narciso José do Patrocínio e toda a sua
equipe de educadores, pela oportunidade de vivenciarmos uma duradoura e valiosa
parceria durante o período de 2005 a 2012,culminando com premiações de destaque
nacional e a composição de várias iniciativas de linguagens, que influenciaram
sobremaneira a alegria de viver e ser, de crianças e jovens do bairro de
Itapuã em Salvador na Bahia,Brasil.


sábado, 14 de junho de 2014

O JOGO A FÁBRICA E O FUTEBOL ARTE

                             Por Marco Aurélio Luz

Falar de futebol é falar de lúdico e simulacro. O lúdico se refere à aprendizagem de forma prazerosa através do jogo, que se expressa através do simulacro, uma imitação de outra realidade.
 A competição é o caminho das emoções que envolvem vencer ou perder para o adversário. Vida e morte estão sublimadas pelo prazer lúdico do jogo.
O futebol atual foi criado na sociedade industrial. Ele se caracteriza pela simulação da produção fabril.
Surgindo na Inglaterra no bojo do neocolonialismo ele se espalhou por diversos países.



Fábrica Bangu e o campo de futebol

O jogo começa como o turno fabril pelo apito, que expressa a autoridade que regerá o espaço e o tempo de duração e o cumprimento das regras que restringindo as ações culminam com o produto final, ¨ goal¨. As equipes lutam entre si para fazer mais gol, para acabado o tempo resultar a vencedora.
A equipe ou ¨team¨ se caracteriza por onze jogadores com características e funções complementares, como a divisão do trabalho por setores. A passagem da manufatura para a indústria se revela, sobretudo, por essa forma de organização. Assim como na indústria, cabe ao técnico elaborar as táticas de organização mais produtivas durante o tempo e o espaço delimitado.
O campo de jogo é esquadrinhado, e a atuação no estilo do ¨nobre esporte bretão¨, se faz por linhas retas, acrescentado de cruzamentos pelo alto. Dois valores do imaginário europeu se projetam, o golpe de cabeça que guarda o cérebro expressando a abstração e o mundo científico e, o celestial desdobrado da religião.
 O mundo científico procurará nortear a prática do futebol, como de resto toda sociedade industrial. As chamadas comissões técnicas ocupando mais espaço.
Tanto as elites dirigentes do Estado, quanto os trabalhadores, praticarão o futebol em suas origens em fins do século XIX.

                           
Garrincha na equipe da Fábrica da América Fabril em Pau Grande

Na várzea ou em espaços nas fábricas foi tomando conta do Brasil.
Com a presença de jogadores negros, os melhores, uma filosofia, uma nova linguagem transformará o¨nobre esporte bretão. ¨
No Rio de Janeiro, com a imigração baiana nos inicios do século XX, o conceito de odara emerge da religião para se desdobrar por outras instituições. Lembremos que o núcleo original do samba na casa de Tia Ciata de Oxun, Iya Kekere do terreiro de João Alagba, se espraiou levando beleza, alegria e encantamento aos desfiles dos ranchos até as escolas de samba.
Odara significa bom e bonito, técnico e estético simultaneamente. Em toda comunicação institucional, odara sobredetermina as ações através de diversos códigos, dos itans, contos da literatura de Ifá à culinária litúrgica, das festas de largo ao carnaval.
Não podia ser diferente com a participação da comunidade negra no futebol.


Equipe do Bangu, com Domingos da Guia à direita da foto

Nomes gravados na história, como Friedenreich, Manteiga, Domingos da Guia o Divino Mestre, Fausto a Maravilha Negra, Leônidas o Diamante Negro, e tantos outros foram os pioneiros na criação do Futebol Arte.


Leônidas da Silva, Friedenreich e Pelé


O tempo e o espaço do jogo tomaram outra dimensão para se adaptar à beleza e singularidade da ginga emergente da roda de capoeira, permitindo se tornar invisível para o adversário como o inimaginável


 





Didi e Garrincha


Garrincha, acrescentando ludicidade, alegria e eficiência desestruturando as defesas do adversário. A maestria do toque na bola envolvendo a mágica na sua trajetória como a folha seca de Didi, que afirma:"quem corre é a bola" respondendo aos "idiotas da obviedade" conforme Nelson Rodrigues.
 Ele apreciava a cadência elegante das  passadas de Didi, numa postura ereta levando-o então denomina-lo de Príncipe Etíope de Rancho. O imponderável Pelé que aos 17 anos já rei, tratava a bola de chulinha embelezando gols imortais e que com seus companheiros na copa de 1958 acabava com o que Nelson denominou de "complexo de vira lata". 


Mario Filho relata que numa excursão a Europa em 1956 assim se referiam à seleção brasileira: "Nas folhas londrinas, o futebol brasileiro tinha tudo de um circo: o comedor de fogo, o engolidor de faca, os acrobatas, os trapezistas, até os palhaços. Só não tinha essa coisa elementar que era um time."




Ataque da seleção de 1956, Sabará, Didi, Zizinho Valter e Escurinho

 Como dizem:sabe de nada inocente...



Seleção Campeã do Mundo em 1958


SOBRE A TRANSMISSÃONO YOUTUBE DO JOGO DA FINAL QUE TORNOU A SELEÇÃO BRASILEIRA CAMPEÃ DE 1958. BRASIL X SUÉCIA!

Por Carlos Augusto Marconi


Seleção Brasileira campeã de 1958 - Em pé a partir da esquerda:  Vicente Feola, Djalma Santos, Zito, Belini, Nilton Santos, Orlando Peçanha e Gilmar. Agachados: Garrincha, Didi, Pelé, Vavá, Zagallo e o preparador físico Paulo Amaral.

Colocado no Youtube por mim por solicitação da Revista "SÃOPAULO", da Folha de São Paulo e da jornalista Vanessa Correa.
Jogo completo com narração das Rádios Bandeirantes e Nacional do Rio de Janeiro. Narradores: Jorge Curi e Oswaldo Moreira (Nacional), Pedro Luiz e Edson Leite (Bandeirantes). Apenas um trecho de alguns minutos não foi possível recuperar a narração original, mas o som do estádio está perfeito.
Como curiosidade os narradores cariocas narravam cada um em uma metade do campo, quando a bola atravessava o meio campo o outro assumia o microfone. Os narradores paulistas fizeram diferente: Pedro Luiz narrou o primeiro tempo e Edson Leite o segundo.
Existe uma lacuna de áudio entre os 15 e 30 minutos do primeiro tempo porque os originais da Radio Nacional foram perdidos e o disco lançado na época pela Radio Bandeirantes não tem a narração completa.


Brasil x Suécia - Final da Copa de 1958 - Completo

domingo, 8 de junho de 2014

ESPAÇO DO AUTOR EDUFBA ENTREVISTA MARCO AURÉLIO LUZ

Por Camila Fiuza


                   Oxê Xangô, escultura de Marco Aurélio Luz

Movido por profundas questões existenciais, Marco Aurélio Luz, aborda, em Agadá: dinâmica da civilização africano-brasileira, o processo civilizatório que sofreram os africanos no Brasil, e mostra a importância da presença histórica, social e cultural do negro na constituição da identidade nacional brasileira.
O livro é dividido em quatro partes, nas quais o autor: demonstra os valores e a linguagem da civilização e cultura da África pré-colonial; caracteriza os valores do colonialismo, do mercantilismo e do escravismo e seus desdobramentos na atualidade; aborda o real significado histórico da insurgência negra na África e no Brasil, caracterizado como uma luta pela afirmação existencial própria, e procura demonstrar a dinâmica da reposição dos valores e linguagem do processo civilizatório negro africano na formação social brasileira.
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1-   CONTE-NOS A SUA TRAJETÓRIA ACADÊMICA.


Marco Aurélio no lançamento do seu livro Cultura Negra e Ideologia do Recalque em 1983

No início dos anos 70, participei da fundação da ECO Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ e do IACS Instituto de Arte e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense UFF.  Na UFRJ fiz a pós-graduação, Mestre e Doutor em Comunicação. Na década de 80 vim transferido para a FACED Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia UFBA. Em 1990 realizei o pós-doutorado na Université de Paris V, a Sorbonne no CEAQ Centre D`Etudes de L`Actuel e du Quotidien dirigido pelo professor Michel Maffesoli. Publiquei vários artigos ensaios e livros nesse período e desde sempre colaborei com diversas entidades não governamentais sem fins lucrativos de promoção científica, cultural e religiosa.

Marco Aurélio na Escola de Comunicação-ECO da UFRJ entre seus colegas Muniz Sodré,Márcio Tavares do Amaral que juntos fundaram a ECO
Da esquerda para a direita Narcimária Luz,Muniz Sodré,Márcio Amaral e Marco Aurélio

Marco Aurélio com Michel Maffesoli em Paris Sorbonne

2-   COMO E QUANDO SURGIU O INTERESSE EM ESTUDAR SOBRE A CULTURA AFRO-BRASILEIRA?

Por volta de 1970, tentando aprender sobre a real identidade do povo brasileiro, uma demanda política na época, vivendo no Rio de janeiro, cujo tecido social é dividido entre “o morro e o asfalto” subi alguns morros de favelas, especialmente o D. Marta em Botafogo. Lá fiz amizades e frequentei o terreiro de Umbanda Vovó Maria Conga dirigido por D. Maria Batuque.
Dona Maria Batuque 
Foi então que estimulado pelo professor da Sorbonne, Georges Lapassade em passagens pelo Brasil, publicamos pela editora Paz e Terra o livro O Segredo da Macumba (1972) que teve muita repercussão na época.


No início do ano seguinte a convite do professor Muniz Sodré visitei o terreiro Ilê Agboula no Bela Vista em Ponta de Areia na ilha de Itaparica.
Foi para mim um enorme deslumbramento, como se do alto do Bela Vista eu avistasse, através do culto de Baba Egun os ancestres da tradição nagô, um imenso panorama histórico da presença da África no Brasil. Uma linguagem ritual estética de rara beleza me encantou para sempre.


Ainda nesse ano no Rio de Janeiro fui apresentado ao Mestre Didi, renomado sacerdote e artista, retornando de um périplo cultural por países da África, Europa e América, por onde realizou a exposição de Arte Sacra Negra, acompanhado de sua esposa a etnóloga Juana Elbein dos Santos.
Mais tarde fui convidado a participar das tentativas e tratativas de realizar a exposição no Rio. Durante os meses de maio e junho de 1974 elas aconteceram no MAM, Museu de Arte Moderna com grande sucesso  e repercussão.
Desde então minha vida é dedicada a promover os valores de civilização africano- brasileiro.



 Marco Aurélio Elebogi com  Mestre Didi Alapini no Ilê Axipa 

3-   O LIVRO É O PRIMEIRO A INSCREVER A PRESENÇA DO NEGRO BRASILEIRO NUMA DINÂMICA “CIVILIZATÓRIA”. COMO FOI O DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA E O PROCESSO DE ESCRITA E CONCEPÇÃO DA OBRA?

Durante a trajetória de estudos, me situando na ambiência das comunidades terreiro, e outras instituições de cultura negra, pude perceber o entulho ideológico (possessão, histerismo, animismo, fetichismo, sincretismo, culto popular, pré logismo, inferioridade racial, inferioridade cultural, alienação etc.) característico das teorias constituintes das ideologias do racismo e que acompanham a política de embranquecimento e que alimentam a Razão de Estado pós-abolição da escravatura. Disso resultou o livro Cultura Negra e Ideologia do Recalque agora em 3ª edição pela EDUFBA/Pallas.


Frequentando e participando da comunalidade africano-brasileira pude então tomar conhecimento do fluxo civilizatório que caracteriza a reposição das tradições culturais desde África para as Américas especificamente para o Brasil e especialmente para a Bahia.
Tendo como referência os valores e a linguagem da riquíssima tradição cultural da comunalidade, ela irá sobredeterminar a escrita e a composição da obra que todavia, por outro lado, é adaptada criticamente à linguagem acadêmica.
Resumidamente como se referiu a memorável Iyalorixá Mãe Senhora; “da porteira para dentro, da porteira para fora”.
Mãe Senhora no Ilê Axé Opô Afonjá, arrodeada por Zélia Gattai,Jean Paul Sartre,Simone  Bevoir e Jorge Amado

4-NO LIVRO AGADÁ: DINÂMICA DA CIVILIZAÇÃO AFRICANO-BRASILEIRA, O SENHOR ABORDA A IMPORTÂNCIA DA PRESENÇA HISTÓRICA, SOCIAL E CULTURAL DO NEGRO NA CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE NACIONAL BRASILEIRA. FALE UM POUCO SOBRE A DINÂMICA DA REPOSIÇÃO DOS VALORES E LINGUAGEM DO PROCESSO CIVILIZATÓRIO NEGRO AFRICANO NA FORMAÇÃO SOCIAL BRASILEIRA

Para se entender essa importância há que se levar em conta que na civilização africana é a religião a fonte de irradiação de valores e linguagens culturais.
A religião se constitui sumariamente de duas vertentes transcendentes, o culto aos ancestres e ancestrais e o culto as forças do universo que governam a natureza.
É dessa fonte de valores e linguagens transcendentes que se desdobram inúmeras outras instituições culturais.

Mestre Didi fundador da Troça Carnavalesca Pae Buroko em 1935 no carnaval de 1983

                                                                   
                                Integrantes  da Troça Carnavalesca Pae Buroko no Carnaval de 2012                                              
Assim sendo a reposição da religião por um lado, foi o esteio capaz de gerar uma forte presença na constituição da nacionalidade, por outro lado sofreu e vem sofrendo os maiores ataques da política do establishment neocolonial, tanto ao nível da repressão da força publica, principalmente nos inícios do século passado, quanto nas elaborações e divulgação da ideologia do preconceito e do racismo.
No culto aos ancestres e ancestrais, em determinadas liturgias, são sempre louvados e cultuados os espíritos das pessoas que em vida se destacaram na determinação e na entrega para a manutenção e expansão da tradição concorrendo para a continuidade da civilização africano brasileira que concretiza os desejos de afirmação existencial própria e de liberdade.

5-QUAL A CONTRIBUIÇÃO DA OBRA PARA A VALORIZAÇÃO E LEGITIMAÇÃO DA CULTURA AFRICANO-BRASILEIRA NO PAÍS?


Desde que comecei a me dedicar a escrever sobre o assunto fui muito incentivado por lideranças da comunidade. A escrita acadêmica sem dúvida possui um poder de Estado e aí acontece a luta ideológica. Com a preocupação de valorizar a tradição era muito pouca a bibliografia existente.
Certa feita viajando com o líder político sindical Olímpio Marques depois dele ter assistido minha participação numa mesa redonda num seminário, ele ficou um tempo repetindo: “civilização africano brasileira” ”processo civilizatório afro brasileiro” e depois desabafou: – no partido nunca pudemos vislumbrar esses temas que eram vistos como divisionistas. Perguntavam se eu sofria racismo no partido e me acalmavam dizendo que com o fim da luta de classes, automaticamente não haveria racismo…
Então a intelligentsia em geral no âmbito acadêmico e político silenciava.
AGADÁ quebrou com esse silêncio. Tanto mais que revisando a história abriu novos horizontes de compreensão do negro como sujeito da história com sua luta cotidiana pela liberdade contra a escravidão, realçando os fatos históricos que mudaram a face do mundo como as lutas da rainha Ginga em Angola, o quilombo dos Palmares no Brasil e a independência do Haiti.


Independência do Haiti
Imagem disponível em http://www.etno.com.br/tags/independencia-do-haiti/

E a maior contribuição, acredito, foi ter estabelecido um continente teórico em que está instalada a vertente civilizatória africano brasileira que enriquece indubitavelmente nossa identidade nacional.

6-O SENHOR TEM ALGUM NOVO PROJETO DE PESQUISA EM ANDAMENTO? PRETENDE ESCREVER OUTRO LIVRO?

Da importância e do porte do AGADÁ, acho difícil. Estou sempre escrevendo e publicando e talvez dessa atividade possa surgir um novo livro. Em 2008 foi publicada pela EDUFBA a 3ª edição aumentada do livro Cultura Negra em Tempos Pós Modernos, que aborda a crise da chamada Modernidade e a atualidade dos valores da civilização africano brasileira em relação a preservação da natureza e à formas de sociabilidade. 


Também publiquei em 2007 um livro compartilhado com meu saudoso pai e Mestre Didi sobre educação, com o nome da experiência educacional: Oba Biyi, O Rei Nasce Aqui, que procurou responder ao desejo da memorável Iyalorixá Oba Biyi, Mãe Aninha de “ver as crianças de hoje de anel no dedo e aos pés de Xangô”.
Mãe Aninha Iyá Oba Biyi

7-DEIXE UMA MENSAGEM PARA OS LEITORES DA EDUFBA.

Respeitar a herança sagrada do contínuo civilizatório africano brasileiro é superar complexos e recalques de uma identidade fracionada pelas ideologias neocoloniais e é assumir a nossa identidade na íntegra que só nos qualificam mais como povo, enriquecendo o cabedal de linguagens e valores que enriquecem nossa nacionalidade.

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Para saber mais visite a página da EDUFBA  http://www.edufba.ufba.br/2014/06/marco-aurelio-luz/

sábado, 24 de maio de 2014

II MAIO NEGRO PARTICIPAÇÃO DO PRODESE


Decoração da sala Mestre Didi no Centro de Formação de Professores da UFRB

O PRODESE participou do Seminário  II MAIO NEGRO,evento promovido pelo Centro de Formação de Professores  da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia- UFRB em Amargosa.A representação prodesiana, veio através da sua coordenadora  Doutora em Educação Narcimária Correia do Patrocínio Luz e do Doutor em Comunicação Marco Aurélio Luz, que  realizaram palestra na sala Mestre Didi, homenagem do Centro de Formação de Professores  da  UFRB ao saudoso Alapini,  artista, escritor e educador Deoscoredes Maximiliano dos Santos.




Mestre Didi
Grafite em homenagem ao Mestre Didi exposto na parede do Centro de Formação de Professores na UFRB

A temática proposta pela organização do evento foi: Ensino Superior Violências: Por uma Outra Epistemologia na Construção Curricular.

Plateia  
Destaque da esquerda para a direita a Professora Doutora Ana Rita Santiago Pró Reitora de Extensão da UFRB e o Professor Marcelo um dos organizadores do evento

Com o auditório lotado, a professora Rosângela Souza da Silva coordenadora da mesa, apresentou a Doutora Narcimária e  o Doutor Marco Aurélio Luz,destacando o currículo de ambos que constituem a importante trajetória desses dois  intelectuais e  escritores no cenário acadêmico.

Professora Rosângela Sousa coordenadora da mesa e uma das organizadoras do evento
Na mesa escultura Exu Odara de Marco Aurélio Luz
  
Após saudar o público, Marco Aurélio Luz  iniciou a sua apresentação com  a um trecho da série de programas de TV Negro Hoje (1981) Secneb/TVE, com o  filme de Nelson Xavier e Cecília Conde que se refere a diferença musical entre as crianças moradoras do morro de Mangueira e as propostas da escola local.
 O filme destaca a dinâmica cultural, gestual, das brincadeiras das crianças, em confronto com a apatia das crianças na escola submetidas  as ordens das professoras.

Professor Doutor Marco Aurélio Luz


Marco Aurélio  aprofundou então,as diferenças de formas de comunicação presentes na cultura africano-brasileira e a escola, um sistema de ensino da cultura européia.
Demonstrou que a primeira, se vale da tatilidade isto é, da combinação de todos os sentidos para constituir o acesso ao saber, ao sistema simbólico. Também a expressão corporal, se vale das danças e dramatizações, corpo em movimento estético promovendo beleza encantamento e alegria. A presença da variedade das cores constituindo códigos e repertórios. Odara, palavra nagô que quer dizer bom e bonito simultaneamente, a busca de estar bem neste mundo.
Nesse universo, a religião é fonte e desdobramento do saber, incluindo a relação entre esse mundo e o além, aiyê e orun respectivamente. As entidades do mundo dos ancestrais e das que governam a natureza. Nesse contexto onde o ser é, e o não ser também é,  acontece a interação com o mundo invisível e dos acontecimentos imponderáveis.
O mito é o discurso da sabedoria por excelência, da revelação oracular, do curso das oferendas, a restituição, a mobilização do ciclo vital do axé,  força e energia do universo, da existência.
Desde a religião se desdobram inúmeras instituições que convencionamos chamar de cultura negra.
Já na cultura europeia, predomina a hiper valoração da relação de um só sentido: a visão com o cérebro,
 um desdobramento da escrita como forma predominante de comunicação. Desde a religião que se sustenta no livro sagrado, até a escola religiosa ou laica derivada da estrutura dos mosteiros e conventos.
O solipsismo, o individualismo solitário, o sujeito e o livro impresso, o silêncio das bibliotecas, as aulas do professor como extensão da escrita e dos livros. A arquitetura encapsulando todos nas salas de aula, o exercício do corpo inerte nas carteiras em silêncio. Cores neutras, cinzas, visando afastar as emoções predomínio absoluto da razão, terreno do cartesianismo, da matemática, pura abstração "rainha das ciências", positivismo conteano.
 Aprofundando ainda esses entulhos ideológicos,  Marco Aurélio destacou a ideologia da superioridade dos discursos, o científico acima de todos, evolucionismo eurocêntrico onde brotam as discriminações os preconceitos e o racismo.
Todo edifício escolar voltado para atender aos comportamentos necessários a suprir as relações de produção industriais, atender aos valores do produtivismo, da incessante acumulação de capital.

Em 1804 foi proclamada a independência do Haiti com a derrota das tropas de Napoleão Bonaparte comandadas por seu cunhado Leclerc, frente as aguerridas forças militares dos quilombolas comandados por Dessalines. A França perdia a principal colônia, a mais lucrativa da Companhia das Índias Ocidentais.
Anteriormente dois fatos históricos relevantes da luta de libertação da escravidão aconteceram: a manutenção da independência do Ndongo (Angola) da rainha Ginga, frente aos portugueses e o quilombo-reino dos Palmares em Pernambuco. Esses fatores desestruturaram o tráfico triangular Europa-Angola-Pernambuco. Essa situação fez também com que os holandeses já instalados em Pernambuco, contivessem a sua cobiça.


Monumento em Angola, homenagem a rainha Nzinga Nbandi Kiluanji soberana do Ndongo e Matamba

Diante disso, os ingleses que já tinham perdido metade da Jamaica e percebiam a pujante presença de africanos e seus descendentes nas Américas,preocupados em não  "perderem os anéis" e "manterem os dedos" já controlando a política do mercantilismo, implementaram uma nova estratégia colonial. A primeira medida, visava cessar a vinda de africanos, fim do tráfico escravista; a segunda, o incentivo da imigração de europeus assentando colônias não só de exploração, mas também de povoamento como foi  o Brasil e a África do Sul. Veio a independência formal da colônia, dependência real para a Inglaterra, e então, a abolição da escravatura acompanhada da proclamação da República.
Durante o período escravista, a Inglaterra se sobressaiu também pela manufatura de bens necessários ao tráfico triangular, principalmente navios e armamentos. Ela continua como principal fornecedora de bens manufaturados, detentora do capital financeiro mantém as ex-colônias sob o jugo do capital. É o neocolnialismo
Depois da abolição da escravatura no Brasil, inicia-se a construção do edifício ideológico do racismo.
A Europa fornece os subsídios ideológicos para ¨cientistas¨ como Nina Rodrigues e Arthur Ramos, os mais famosos, elaborarem e divulgarem as  falsidades "científicas".
O primeiro, "um gênio do mal", médico psiquiatra, no início do século passado elaborou uma ideologia teórica em que aproximava a manifestação de entidades da religião africano-brasileira pelas sacerdotisas, à histeria, patologia que acometia o gênero feminino (hister significa útero).
A manifestação de entidades, um aspecto culminante da liturgia que realiza a aproximação desse mundo com o além e proporciona a comunicação do sagrado, constitui o âmago das religiões tradicionais.
Desqualificadas pelo ideólogo Nina Rodrigues, essa falsidade teórica ideológica, promove e alimenta a Razão de Estado na realização da política de embranquecimento . Mas não só tenta desqualificar a religião, mas também toda população negra.
Adiante em meados do século XX, o psicanalista Arthur Ramos reformula o preconceito, agora não mais o negro que possui uma tendência patológica,"mente fraca", mas sim, sua cultura especialmente  a religião que se assenta em "mitos neurotizados".
Ele cria programas de eugenia educacionais, juntamente com o educador Anísio Teixeira para retirar as crianças negras dessas religiões e tradições,na tentativa de fazê-las   renunciar a civilização de seus ancestrais, ou sofrerão a rejeição do establishment.
Uma vez superado esse entulho ideológico porém, é possível vislumbrar a riqueza cultural de nossa civilização africano-brasileira.

Após  abordagem do professor Marco Aurélio Luz, a professora Rosângela coordenadora da mesa, passou a palavra para a Doutora Narcimária.
Ela retomou a crítica da ideologia do recalque, porém focalizando diretamente no sistema oficial de ensino e sua política de embranquecimento  e suas  classificações racistas, em que a criança negra era destituída da sua alteridade civilizatória,para ser tratada na sociedade colonial como  " ingênuo".


Professora Narcimária C.P. Luz
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Professora Narcimária.se referiu à fundação da Escola Normal da Bahia, sintomaticamente criada em 1835 logo após a chamada Revolta Malê ocorrida em Salvador e Recôncavo, com participação significativa dos nagô.
A Escola Normal que se propõe a formar as professoras, se constitui nos moldes da École Normal de Paris desde a arquitetura, aos métodos e conteúdos do ensino.
Essa instituição visava a formação de professores que contribuiriam para a construção de uma nova sociedade cujo caminho, já estava  traçado pelas elites coloniais da França e sobretudo da Inglaterra.
A Escola Normal então, é um esboço do papel da educação no neocolonialismo nascente. Livre da escravatura, a população negra e aborígine estaria "livre de tudo",longe dos direitos da cidadania emergente das revoluções burguesas. Esses direitos estarão apenas contemplando a elite neocolonial, que detém a propriedade dos meios de produção, o capital financeiro, produtivo e comercial e a burocracia que sustenta o bloco no poder de Estado garantidos pela força pública.
A epopeia de Canudos é um exemplo da sociedade em transformação com a proclamação da República.
Ilustrando com  textos e discursos de educadores como Isaías Alves e Anísio Teixeira, a professora Narcimária demonstrou  o alijamento do sistema oficial de ensino ao contínuo civilizatório africano-brasileiro, que sofre a rejeição das falsidades ideológicas produzidas pela academia, e que se espalham pelos órgãos de comunicação, Aparelhos Ideológicos de Estado, como diria Althusser em seus períodos de lucidez, e espalham pela sociedade estruturada pela política de  embranquecimento, estereótipos e preconceitos, enfim a malha do racismo.
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O público então acompanhou a ilustração de  uma entrevista de Mãe Hilda Jitolú, fundadora do Ilê Aiyê e da escola que leva o seu nome, sua indignação e altivez ao enfrentar a discriminação sofrida por sua filha pela professora Carmem Teixeira(diretora da Escola Parque e irmã de Anísio Teixeira), quando pediu explicações sobre as avaliações do final do ano letivo e  em certo momento da conversa, a professora Carmem expressou:
"- É. Agora a gente não acha mais  empregada doméstica..."
Após  ilustrar a pedagogia do embranquecimento e as angústias que provoca entre gerações de descendentes de africanos, Narcimária se referiu a forma espiralada de estruturação do pensamento africano tradicional. Dá como exemplo a arquitetura urbana de Ilé Ifé cidade sagrada original do povo nagô yoruba. No centro o mercado  local das trocas de bens e de sociabilidade. Em frente o palácio do Oni. Depois em ordem de antiguidade as moradias das primeiras famílias e linhagens em forma sequencial de espiral.
Após ela cita algumas experiências educacionais pioneiras na constituição de , uma educação pluricultural que acolha as linguagens e os valores do contínuo civilizatório africano-brasileiro. 
Destacou primeiramente a Mini Comunidade Oba Biyi, experiência pioneira de Educação Pluricultural (1976-1986) realizada pela então SECNEB Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil no Ilê Axé Opô Afonjá.
A Mini Comunidade possuía o nome de Oba Biyi em homenagem a fundadora do terreiro Mãe Aninha. Seu nome sacerdotal do seu Xangô Afonjá, Oba Biyi significa o rei nasce aqui.


Mãe Aninha  Iyalorixá Oba Biyi

A experiência nasceu inspirada numa frase de criança,quando foi indagada  sobre o porquê de não frequentar a escola do bairro:
- Não gostam da gente lá .
Também no desejo expresso por Mãe Aninha de "ver as crianças de hoje, no dia de amanhã de anel no dedo e aos pés de Xangô..."
Quer dizer:o anel símbolo da formatura universitária e mantendo-se inserida na sua tradição.
Priorizando os valores e a linguagem comunitária, o curriculum da Mini Comunidade Oba Biyi, se estruturou a partir dos  contos dramatizáveis de Mestre Didi, que inspirava a  prática pedagógica. As formas estéticas e o conhecimento da cultura da comunidade, sobredeterminavam os planejamentos docentes e eram   assuntos de inúmeras reuniões pedagógicas onde se realizava formas de desrecalcar as professoras envolvidas na Mini. Em 2007 Deoscoredes M. Dos Santos e Marco Aurélio Luz publicaram o livro "O Rei Nasce Aqui OBA BIYI" que apresenta com detalhes essa primeira experiência de educação pluricultural no Brasil.



Mestre Didi no Festival de Arte Integrada da Mini Comunidade Oba Biyi




Auto coreográfico A Chuva dos Poderes de Mestre Didi

A experiência alcançou muito sucesso e inspirou várias outras, como o Odemodé Egbé Axipá(1999/2000-2002-2003) e a ACRA, Associação Crianças Raízes do Abaeté(2005-2012).
O Odemodé Egbé Axipá, atendeu  jovens das comunidades terreiro proporcionando a formação novas tecnologias através da parceria entre  o PRODESE, a Escola Técnica atual CEFET e o  Núcleo de Tecnologias-NETI do Departamento de Educação do Campus I da UNEB.
Sediada no Parque Metropolitano do Abaeté, a Associação Crianças Raízes do Abaeté na direção do ilustre educador Narciso José do Patrocínio, estruturou suas práticas socioeducativas envolvendo as linguagens da  capoeira, dança, teatro, grafite, música, inglês, biblioteca etc.


Iº Festival Afrobrasileiro  da ACRA 
Apresentação d o autocoreográfico "Itapuã a Canção do Infinito" de Narcimária Luz.
 Participantes com o professor Sidnei Argolo

Convém ressaltar as viagens de intercâmbio entre os integrantes da ACRA, e o grupo de capoeira ABOLIÇÃO em Oxford na Inglaterra se estendendo a um núcleo na cidade de Hamburg na  África do Sul, sob a coordenação do Contra Mestre Luís Negão idealizador da ACRA.
Por fim, a professora Narcimária ressaltou o impacto da experiência da Mini Comunidade OBA BIYI na FACED Faculdade de Educação da UFBA e no Departamento de Educação da UNEB, onde foram realizados inúmeras dissertações de mestrado e teses de doutorado além da implantação de disciplinas na graduação,pós-graduação, linhas de pesquisas e inspirando inúmeros seminários,palestras e mesas,a exemplo da mesa proposta para o II Maio Negro/2014: Ensino Superior Violências: Por uma Outra Epistemologia na Construção Curricular.

Participação do professor Marcelo abrindo o debate sobre a abordagem da mesa



Graduanda abrindo os trabalhos do evento com um texto produzido em sala sob a coordenação da Professora Rosângela 


Ao centro Professor Kleison Assis  que incentivou a homenagem ao 
Mestre Didi no Centro de Formação de Professores da UFRB




Lançamento do livro AGADÁ




A sanfona também regou o evento

Da esquerda para a direita:Professora kiki,Graduanda,Professora Rosângela,Professora Fernanda ambas organizadoras do evento,Professor Marco Aurélio e Professora Narcimária. 

COLETIVO CULTURAL SARAU DA ONÇA.

Por Sérgio Bahialista

É com grande prazer e orgulho que compartilho com vocês uma reportagem feita pela TV Record com nossos jovens da nossa Sussuarana, do querido Coletivo Cultural Sarau da Onça. 
O vídeo a seguir, apresenta o que somos, bebendo na fonte dos nossos princípios inaugurais, nossa arkhé, sentimento de pertencimento, que é a nossa Onça Sussuarana, com muita poesia e arte de tudo que é canto.
Estamos aqui nesse momento, colhendo os frutos de uma longa caminhada de superação através da poesia e do nosso jeito de ser. 10 anos é pouco para se referir aqui.
Obrigado pelo incentivo e admiração de cada um.
E seguiremos porque, como falamos nas nossas noites culturais, “é disso que eu tô falando!”.
Aguardo vocês em uma das nossas noites culturais!
Boa sessão!

Até!