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PRODESE E ACRA



VIDA QUE SEGUE...Uma
das principais bases de inspiração do PRODESE foi a Associação Crianças Raízes
do Abaeté-Acra,espaço institucional onde concebemos composições de linguagens
lúdicas e estéticas criadas para manter seu cotidiano.A Acra foi uma iniciativa
institucional criada no bairro de Itapuã no município de Salvador na Bahia, e
referência nacional como “ponto de cultura” reconhecido pelo Ministério da
Cultura. Essa Associação durante oito anos,proporcionou a crianças e jovens
descendentes de africanos e africanas,espaços socioeducativos que legitimassem
o patrimônio civilizatório dos seus antepassados.
A Acra em parceria com o Prodese
fomentou várias iniciativas institucionais,a exemplo de publicações,eventos
nacionais e internacionais,participações exitosas em
editais,concursos,oficinas,festivais,etc vinculadas a presença africana em
Itapuã e sua expansão através das formas de sociabilidade criadas pelos
pescadores,lavadeiras e ganhadeiras,que mantiveram a riqueza do patrimônio
africano e seu contínuo na Bahia e Brasil.É através desses vínculos de
comunalidade africana, que a ACRA desenvolveu suas atividades abrindo
perspectivas de valores e linguagens para que as , crianças tenham orgulho de
ser e pertencer as suas comunalidades.
Gostaríamos de registrar o nosso
agradecimento profundo a Associação Crianças Raízes do Abaeté(Acra),na pessoa
do seu Diretor Presidente professor Narciso José do Patrocínio e toda a sua
equipe de educadores, pela oportunidade de vivenciarmos uma duradoura e valiosa
parceria durante o período de 2005 a 2012,culminando com premiações de destaque
nacional e a composição de várias iniciativas de linguagens, que influenciaram
sobremaneira a alegria de viver e ser, de crianças e jovens do bairro de
Itapuã em Salvador na Bahia,Brasil.


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

ODARA A LINGUAGEM EDUCATIVA DOS CONTOS DE MESTRE DIDI



Foto: Hans Olu Obi


Por Léa Austrelina Ferreira Santos


A partir da análise sobre o conteúdo ético-estético do conto “Porque Oxalá usa Ekodidê” de Mestre Didi e das novas formas de recriação de um objeto símbolo da cultura ocidental de origem greco-romana, o livro, proponho adicionarmos mais um elemento para a concepção da Educação no nosso contexto: a necessidade de compreender as formas de comunicação de origem africana no Brasil.
Atualmente, uma série de políticas estruturam-se no nosso entorno: ensino sobre História e Cultura dos afro-brasileiros, políticas afirmativas, programa de cotas para ingresso em universidades, diretrizes curriculares para o ensino. A validade de todas essas políticas deve ser questionada caso uma reflexão profunda sobre os referenciais existenciais da população africano-brasileira não seja feita.
Proponho aos professores e demais profissionais da Educação, saírem do continente teórico-epistemológico ocidental e conhecerem outras formas de pensamento, de elaboração do mundo e da vida.
Mestre Didi, considerado um ícone da ancestralidade africano-brasileira, é um sacerdote e artista. Sua vivência comunitária e liderança religiosa lhe conferem a possibilidade de recriar diversos contos, frutos da sabedoria acumulada na convivência com diversas comunidades-terreiro e do conhecimento do patrimônio cultural e religioso africano-brasileiro. Ele também é alapini, sacerdote supremo do culto aos ancestrais masculinos, culto Egungun.
A obra de Mestre Didi é capaz de fazer mergulhar no universo cultural africano-brasileiro, sejam suas esculturas, contos, livros ou artigos.


                                                                  Imagem  disponível na internet

Odara é a linguagem de onde emerge a sua obra e, como num jogo cíclico ininterrupto, amplia a sua dimensão.

Odara significa o bom e o belo, o técnico e o estético, intercambiando a plasticidade de imagens e o repertório de conhecimentos, rico em poesia, envolvendo condutas éticas, institucionais, histórico-políticas, territoriais, sistema filosófico, enfim, formas de transmissão do patrimônio simbólico milenar através do emocional-lúcido.

                                                                Foto acervo M.A. Luz

Odara é uma noção de origem nagô/iorubá das formas de comunicação africano-brasileiras presentes nas suas dinâmicas de sociabilidade e nas formas de transmissão de conhecimento de origem africana.



     Foto Maurício Luz

Essas formas de transmissão e expansão de conhecimento envolvem aspectos que vão além dos códigos comunicativos. Estes processos são marcados por uma gama de valores transmitidos de geração a geração, revividos constantemente pela população de origem africana no Brasil.
Há, nesses processos de comunicação, uma complexidade que abarca o universo simbólico e cosmogônico recriado nas Américas. Coesão comunal, religião, ancestralidade, preservação das memórias coletivas e individuais, elaboração da cosmogonia são restabelecidas e alimentadas pelas formas de sociabilidade. Todos estes aspectos são recriados, transmitidos, revividos, aprendidos. Odara é o tecido que os interliga e dá pulsão para que esta aprendizagem ocorra. É a forma como acontece. É o que substancia os códigos de comunicação.
Conhecer a riqueza desse patrimônio cultural, acreditar que é possível criar novas perspectivas educacionais que dêem legitimidade à presença africano-brasileira no nosso contexto favorece a coexistência e a diversidade, valores tão necessários à humanidade contemporaneamente.

PORQUE OXALÁ USA EKODIDÊ: linguagem ético-estética

Foto disponível na internet

Este conto de Mestre Didi, cuja simbologia é riquíssima e também tem um significado muito especial, está publicado num livro com o mesmo nome – mas que teve uma história diferente dos outros livros publicados por Mestre Didi, sendo recriado para uma linguagem teatral.
A história do processo de elaboração desse livro ilustra como os valores da vertente civilizatória africano-brasileira foram recompostos no contexto da sociedade ocidental, criando verdadeiras estratégias para se expandir e abrir novos diálogos, sem, no entanto, perder a sua originalidade.
Uma senhora foi escolhida por Oxalá para tomar conta de seus pertences, seu nome era Omon Oxum, que quer dizer filha ou descendente de Oxum. Este fato causou muita inveja entre outras mulheres no terreiro e provocou muitas reações, muitas tramas para fazer com que Oxalá se decepcionasse com Omon Oxum. Assim começa a história que explica “Por que Oxalá usa ekodidê”.




Foto disponível na internet

As tramas criadas pelas mulheres que ficaram com inveja de Omon Oxum não foram poucas, pois elas não conseguiam lidar com o prestígio que aquele trabalho dava a Omon Oxum. Porém nada que elas faziam funcionava e a relação de Omon Oxum com Oxalá ficava cada vez melhor, e ela era muito dedicada ao cumprimento de suas tarefas para com Oxalá. Porém, certa vez, as invejosas conseguiram sumir com a coroa de Oxalá que, depois de lavada, estava secando na casa de Omon Oxum, pois no dia seguinte era a festa das Águas de Oxalá. A invejosas tinham jogado a coroa no fundo do mar. Omon Oxum ficou desesperada até que, com a ajuda de sua filha de criação, consegue, já desiludida, encontrar a coroa na barriga de um peixe.



                                                          Foto disponível na internet

 Encontrar a coroa foi motivo de muita comemoração, e o peixe serviu de pretexto para que Omon Oxum convidasse todos para almoçar com ela, comemorando em homenagem a Oxalá. Este fato deixou as invejosas furiosas e elas decidiram fazer um ebó e colocar debaixo da cadeira onde Omo Oxum sentaria na hora da festa. Durante a festa, Omon Oxum sentou-se ao lado de Oxalá, que lhe pediu sua coroa. Omon Oxum tentou por várias vezes sair da cadeira, mas estava grudada nela. Quando ela conseguiu, com muito esforço, se desprender, a cadeira estava toda manchada de sangue, e todos sabiam que Oxalá não podia ter nada vermelho por perto. Nenhum orixá, com exceção de Oxum, quis ajudá-la, fazendo com que o sangue se transformasse em pena de papagaio, Ekodidê. Todas as noites Oxum, muito bem ornamentada, fazia um xirê, uma festa, com Omon Oxum ao seu lado. Dessa forma, elas recebiam todos os Orixás em sua casa, que queriam saber por que Oxum estava fazendo aquilo todas as noites e, quando sabiam do acontecimento, eles davam dodobale – uma saudação que demonstra respeito e reconhecimento –, pegavam uma pena e deixavam uma certa quantia. Oxalá ficou sabendo desse xirê, foi ao palácio de Oxum e acabou tomado conhecimento de todo o acontecido a contragosto das invejosas, que fugiram com medo da punição que ele poderia aplicar-lhes. Assim, Oxalá, no palácio de Oxum, também a saúda dando dodobale, e Oxum pegou Omon Oxum pela mão e a entregou a Oxalá. Oxalá em agradecimento a Oxum diz: “Oxum, em agradecimento a tudo que fizeste de bem e para amenizar os sofrimentos de Omon Oxum, eu, Oxalá, prometo levá-la de volta para o meu palácio e de hoje em diante nunca hei de me separar desta pena vermelha que é o Ekodidê e que será o único sinal desta cor que carregarei sobre o meu corpo. (SANTOS, D., 1997. p. 45)


Papagaio de penas de ekodide                             
Foto disponível na internet

Oxalá, orixá que está ligado à cor branca e ao ar, é descrito como a divindade responsável pela criação dos seres humanos e de todos os seres deste mundo e do além. Também conhecido como Obatalá, seu emblema é o Alá, um grande pano branco que, em um de seus rituais, cobre as cabeças de todos os participantes simbolizando o fato de todos se colocarem sob a sua proteção.

Òrìsàlá, Òrìsànlá, Òsàlá oo Obàtálá, simboliza um elemento fundamental do começo dos começos, massa de ar e massa de água; um dos elementos que deram origem a novas formas de existência – à protoforma e à formação de todos os tipos de criaturas – no àiyé e no orun. Os funfun são entidades que manipulam e têm o domínio sobre a formação dos seres deste mundo – os ara-àiyé e também a formação dos seres no além. Os vivos e os mortos, os dois planos da existência são controlados pelo asé de Òrìsànlá. (SANTOS, J., 1976, p. 75).
Oxalá possui vastos poderes, o que requer muito respeito e cuidado para com ele.

Os poderes de Oxalá que envolvem a existência exigem grande atenção e respeito a ele. Deve ser sempre acalmado e agradado respeitosamente, posto que pode causar muitos danos, tal é seu enorme poder (LUZ, M.A., 1995, p. 91).
Oxum é um princípio feminino ligado à cor amarelo-gema, ao sangue circulante, à gestação e à capacidade de gerar filhos, a descendência. Sua simbologia a liga ao rio que possui o mesmo nome na Nigéria. Há um texto em ioruba citado por Juana Elbein dos Santos (1976, p. 85), que informa sobre a importância de Oxum:
No tempo da criação, quando Òsun estava vindo das profundezas do òrun, Olódùmare confiou-lhe o poder de zelar por cada uma das crianças criadas por Òrisá que iriam nascer na terra. Òsun seria a provedora de crianças. Ela deveria fazer com que as crianças permanecessem no ventre de suas mães assegurando-lhe medicamentos e tratamentos apropriados para evitar abortos e contratempos antes do nascimento; mesmo depois de nascida a criança, até ela não estar dotada de razão e não estar falando alguma língua, o desenvolvimento e a obtenção de sua inteligência estariam sob o cuidado de Òsun. Ela não deveria encolerizar-se com ninguém a fim de não recusar uma criança a um inimigo e dar gravidez a um amigo. A tarefa atribuída a Òsun é como declaramos. Ela foi a primeira Iyá-mi encarregada de ser a Olùtójú awon omo (aquela que vela por todas as crianças) e a Álàwòyè omo (aquela que cura as crianças). Òsun não deve vir a ser inimigo de ninguém.

Oxum é, portanto, a patrona da gestação, e sua representação emblemática a liga a grandes peixes cujas escamas simbolizam a descendência, os filhos. Sua simbologia também a relaciona com as Iyá-mi Agbá, as mães ancestrais.

                                                                             Dourado
Imagem  disponível na internet


No conto, Oxum realiza uma festa todas as noites, o xirê. Cabe, aqui, expressar o significado de xirê.

O xirê é o seguinte: Xe irê, faz felicidade, ao pé da letra, mas é um momento de regojizo, de comunicação completa entre as entidades do orun e entre os seres viventes no aiyê, então se festejam e este festejo de encontro traz felicidade. Os orixás estão fortalecidos porque receberam oferenda, tem muitos filhos que cuidam deles, zelam por eles, e eles, estando fortalecidos, poderão fortalecer os membros da comunidade. Os integrantes da comunidade vão ter a proteção deles, o fortalecimento deles. Eles vão se sentir fortes e felizes porque vão ter essa proteção, vão sentir as coisas ruins da vida afastadas deles e as coisas boas virão, acontecerão e estão acontecendo naquele momento ali que já estão alegres, já estão felizes, já estão contentes por estarem usufruindo daquele momento de comunalidade, religare, para as entidades com os seres humanos. Foi feita uma série de preceitos e as tradições se realizaram e estão ali se realizando, é xirê, a felicidade.[2]
O conto “Por que Oxalá usa ekodidê”, tangenciando o sagrado, refere-se à simbologia de Oxum, ao seu poder de gerar e cuidar dos filhos. Outro aspecto é a sua relação com Oxalá, revelando que até mesmo o grande orixá do princípio masculino reverencia o poder de gestação, representado pelo princípio feminino contido em Oxum. Oxalá, no conto, fica agradecido pelos cuidados de Oxum com a zeladora de seus pertences e reverencia respeitosamente Oxum.



Iya Ibeji, a Mãe dos Gêmeos, escultura de Marco Aurélio Luz
Foto: M. A. Luz

Esse agradecimento se mostra também em virtude da ação de Oxalá em dar o dodobale. Este é uma saudação de muito respeito e de admiração de Oxalá pelo poder e sabedoria de Oxum naquele momento. Marco Aurélio Luz explica o significado do dodobale:

As pessoas se prostram assim no chão, os homens... Que é ficar numa posição reta, demonstrando assim, de bruços, demonstrando total incapacidade de realizar qualquer ato que possa agredir o outro, uma vez que estão com as mãos para trás, deitado no chão, eu estou, como se dizendo assim “Estou entregue, completamente entregue, pode fazer de mim o que quiser, porque eu vejo que você tem um poder tão grande que eu me coloco assim, e deve ser reverenciado”. A reverência se faz dessa forma, para mostrar que você está completamente aceitando o poder e admirando o poder do outro que vem em sua proteção.[3]
O poder de Oxum de gerar e cuidar da descendência, de multiplicar e expandir a existência e, conseqüentemente, os valores civilizatórios reflete aqui um parâmetro para a compreensão de como os contos foram veiculados, expandidos de diversas formas, para diversos espaços na sociedade oficial, caracterizando a dinâmica “da porteira para dentro, da porteira para fora” – expressão já mencionada –, sendo as publicações dos livros e dramatizações mais um aspecto que concretiza a expansão dos valores civilizatórios.


Awon Abebe, cetro de Oxun
Foto e acervo M.A. Luz


Entre 1966 e 1967, Mestre Didi teria a oportunidade de realizar sua primeira viagem para a África, através de uma bolsa concedida pela UNESCO, por intermédio do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia, para realizar uma pesquisa comparada sobre arte sacra na África ocidental (Nigéria e Benim), mas a bolsa somente seria integralizada após a apresentação, em Paris, de um trabalho escrito com os resultados de suas pesquisas já realizadas.              

Juntos, Mestre Didi e Juana Elbein dos Santos, procuraram formas de obter dinheiro para a viagem, assim a própria Juana descreve a idéia que tiveram junto com Lenio Braga, ilustrador, de fazer um livro que ao mesmo tempo fosse um objeto de arte:
Assim, com o nosso inesquecível Lenio Braga, artista polivalente, tomamos a decisão de fazermos um livro, um objeto de arte, que reunisse a prodigiosa memória de Didi, sabedoria e arquivo vivo, à criatividade de Lenio. Não seria um livro no sentido comum. Seria um mito ilustrado, uma edição para bibliófilos, amantes de peças únicas. Foi criado um “invólucro”, uma caixa de peças de madeira nobre, com títulos pirografados em baixo-relevo e fecho de contas e búzios. O miolo, o mito, as 13 páginas em “pele de cabra” e as 10 ilustrações foram todas xilografadas. A caligrafia especialmente criada para as ilustrações foi gravada diretamente em chapas de zinco. (SANTOS, J., 1997, p. 10).
O empreendimento foi realizado, o livro foi escrito e quase todo vendido no seu lançamento. Em 6 de janeiro de 1967, Mestre Didi realizaria a sua primeira viagem à África.

Foto disponível na internet


Este fato torna o conto mais especial ainda, pois ele concorreu, de uma forma ou de outra, para a expansão dos valores do patrimônio civilizatório africano-brasileiro porque foi-se alimentando da sua ancestralidade que Mestre Didi, juntamente com Lenio Braga, projetou e consolidou a afirmação dos valores culturais africano-brasileiros em um espaço consagrado da sociedade oficial, branca e ocidental, um espaço acadêmico-científico de uma instituição de financiamento de pesquisas.

Mestre Didi conseguiu imprimir, num determinado contexto, a alma da tradição africano-brasileira. O livro, símbolo da “cultura letrada” de origem greco-romana, teve a sua função totalmente modificada. Em vez de servir como um veículo com um conteúdo meramente informativo, que exige do leitor a mobilização apenas da relação olho x cérebro, um corpo dócil, silente, estático, essa recriação de Mestre Didi e Lenio Braga trouxe em si a própria noção de odara, o elemento estético intercambiando o tempo inteiro com o ético. Ler esse livro não é apenas decodificar os signos verbais, as letras, o sentido das palavras. É necessário contemplá-lo, cada imagem que ele remete, desde a capa até as letras especialmente desenhadas.
Infelizmente, a versão que o público geral pode ter acesso é uma versão publicada em 1997, pela editora Pallas, que conserva apenas a forma das letras e as ilustrações. Mas tive a oportunidade de conhecer uma das versões originais do livro-objeto-de-arte.
A impressão que se tem, primeiro, é que se trata de um objeto muito especial, porque essa edição é única de fato, mas, depois que acontece a familiarização com o material, é que se consegue perceber e refletir sobre a simbologia daquele “objeto”.
A capa de madeira, com as inscrições gravadas, tem uma forma de fechar completamente diferente de um livro convencional; as folhas soltas, a grafia e as ilustrações reelaboram a concepção de livro e do ato de ler que se materializou no mundo ocidental, ligada ao exercício de silêncio, concentração, corpo parado. Ler uma das versões originais do livro Por que Oxalá usa ekodidê exige um certo movimento, pois abrir a capa não é muito fácil para mãos acostumadas a apenas folhear livros; exigem também um esforço de compreensão das letras que não são no formato convencional do mercado editorial, também algo difícil para olhos acostumados a buscar nas palavras as idéias do autor e dissecá-las até a última idéia.
As páginas de Por que Oxalá usa ekodidê são bonitas, no sentido mais amplo do termo, no sentido que se pode associar à linguagem odara: é agradável não somente aos olhos, mas também tem um valor, uma função, agrada ao espírito, possui princípios éticos, influencia nas formas de pensar a própria função do livro.
As formas de comunicação africano-brasileiras não podem ser aprisionadas pelas formas de transmissão de conhecimento das sociedades ocidentais, os contos de Mestre Didi ultrapassam as fronteiras das publicações de livros em massa. A publicação surge, a meu ver, como conseqüência de suas atividades. Antes mesmo, este conhecimento foi acumulado pela sua convivência com pessoas cuja sabedoria e experiência proporcionaram um aprendizado.




Auto coreográfico com direção de Clyde Morgan, estudantes da Ufba e participação especial de Sinsinha e assessoria de Mestre Didi.
Foto: acervo M.A. Luz



Nessa extrapolação de limites do mundo ocidental, os contos de Mestre Didi foram recriados numa linguagem teatral, dramatizados, por diversas vezes e em espaços diferentes. “Por que Oxalá usa ekodidê” foi também dramatizado. Suas apresentações ocorreram no início de década de 70 (entre 1970 e 1973) na Bahia, no Solar do Unhão – atual Museu de Arte Moderna – e no Rio de Janeiro, em 1974, em um evento chamado “Semanas Afro-brasileiras” do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro onde foram realizadas exposições de arte sacra, realizado em parceria com a SECNEB – Sociedade de Estudos das Culturas e da Cultura Negra no Brasil.(4)
Dentre esses desdobramentos, houve a apresentação do texto Por que Oxalá usa ekodidê, de Mestre Didi, coreografado por Clyde Morgan, assessorado por membros do Ilê Axé Opô Afonjá, dentre esses Sinsinha, que fez uma apresentação das danças rituais à parte, acompanhada por um grupo de alabês componentes também do Grupo Bahiafro. Neste grupo destacavam-se Vadinho e Dudu de saudosa memória. (LUZ, 1995, p. 649)
CONCLUSÕES
Em “Por que Oxalá usa ekodidê” Oxalá reverencia os poderes femininos da gestação representados por Oxum, aquela que é patrona da gestação e assim responsável pela continuidade da existência e dos valores civilizatórios africano-brasileiros. A representação simbólica de Oxum, o grande peixe mítico, com suas escamas que representam a descendência, é um parâmetro para a compreensão das elaborações existenciais africano-brasileiras.
A forma como os contos de Mestre Didi se expandem, recriando espaços e formas estéticas inovadoras, tem a ver com a dinâmica de continuidade, de preservação e de ampliação do patrimônio cultural africano-brasileiro especialmente através das novas gerações.




Léa Austrelina é Pedagoga e Mestre em Educação pela UNEB - Universidade do Estado da Bahia, pesquisadora do PRODESE Programa Descolonização e Educação.Foi coordenadora pedagógica da rede municipal de ensino de Salvador, professora da Faculdade de Tecnologia e Ciência (FTC Ead), sub-coordenadora do projeto Diversidade e Dinâmica Cultural: SECNEB Patrimônio Material e Imaterial, da SECNEB – Sociedade de Estudos das Culturas e da Cultura Negra no Brasil. Iniciou seus estudos de Doutorado em Educação em Genebra na Suíça e atualmente é professora na rede de educação na Suíça.
[2] Entrevista realizada em março/2004.
[3] Entrevista realizada em março/2004.

[4] O principal colaborador que forneceu importantes informações sobre essa dramatização foi o coreógrafo norte-americano Clyde Morgan que não soube precisar exatamente a data das apresentações, em entrevista realizada em junho/2005.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

HOMENAGENS A MESTRE DIDI NO FESTIVAL DE BADAGRY


Por Marco Aurélio Luz


No mês de agosto a cidade de Badagry na Nigéria, realiza um grandioso Festival que celebra a sua importância para a tradição cultural e preservação da memória histórica referente à diáspora.

Badagry foi um porto de embarque de africanos escravizados para as Américas, daí a sua importância histórica.


Foto disponível na internet

A memória do momento de transformação da população de prisioneiros em escravizados, se mantém preservando aspectos físicos do sítio e os instrumentos escravistas, e a atmosfera que envolveu essa viagem sem retorno.
O Festival de Badagry reúne inúmeros eventos, a exemplo da apresentação de vários grupos culturais; competição de barcos enfeitados;aparição dos Zangbeto espíritos ancestrais cobertos de palha da costa; competição de barcos enfeitados e torneio de futebol que disputam a taça do Oba o rei.


Grupo Cultural
Foto disponível na internet


Grupo Cultural
Foto disponível na internet

Aparição dos Zangbeto espíritos ancestrais cobertos de palha da costa.
Foto disponível na internet


 Competição de barcos enfeitados. Foto disponível na internet

 O mais importante porém, são as homenagens aos líderes da diáspora que se destacaram no processo de libertação, de afirmação da identidade e reposição da civilização africana nas Américas. Em 2013 foi Marcus Garvey, em 2015 Toussaint L´Ouverture, em 2016 Olaudah Equiano e agora em 2017, Deoscoredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi.
Uma delegação de lideranças religiosas do terreiro Ilê Asipá fundado por Mestre Didi Asipá Alapini, está presente.


 O Alagba nilé Asipá presente no Festival

A presença da linhagem Asipá no Brasil é um fato histórico fundamental para se entender a continuidade da tradição religiosa e cultural de origem nagô/yorubá. Desde a atuação marcante na fundação das primeiras casas de culto aos orixás, nas primeiras viagens e intercâmbios com a África, e na presença nos tradicionais cultos aos Egungun. Mestre Didi foi consagrado Alapini Ipekun Ojé, sacerdote supremo do culto aos Egungun. O Ilê Asipá concentra importante constelação de Egun Agba.
Em 1965 Mestre Didi acolheu em Salvador o poeta do movimento da Negritude Leon Damas, que impressionado com o seu valor para a continuidade da civilização africana na diáspora, reuniu esforços e conseguiu uma bolsa da UNESCO para ele na Nigéria.
Mestre Didi viajou em 1967 com sua esposa Juana E. Dos Santos. Com a participação de Verger, aconteceu o encontro histórico com a família Asipá em Ketú. Ele narrou o episódio desse elo transcendente em “Um Negro Baiano em Ketu”:
“O Rei, todos os seus ministros e as demais pessoas que lá se encontravam na ocasião ficaram surpresos e me escutavam emocionados, pois eles nunca tinham imaginado que, do outro lado do Oceano, pudesse ainda existir pessoas como eu, capaz de cantar os cânticos tradicionais que eram cantados pelos nossos antepassados.”
Mestre Didi é sem dúvida um ponto de convergência de todos que participaram e participam na reconstituição da tradição africana com suas linguagens, valores e instituições nas Américas.













UM NEGRO BAIANO EM KETÚ

 Por Deoscoredes M. dos Santos, Mestre Didi Axipá


Mestre Didi no Opa Oraniyan,

 monumento em Ile Ifé em homenagem ao orixá que expandiu o povo nagô /yoruba

Ouvia sempre minha mãe e várias pessoas mais velhas descendentes de africanos dizerem que nós descenderíamos de uma das famílias reais do reino de Ketú. Porém, eu nunca dei importância e achava até ridículo comentar o assunto com outras pessoas. Eu pensava que tudo aquilo que ouvia com referência a minha família real e levando em consideração as dificuldades que os negros sempre tiveram para manter e preservar a tradição afro do Brasil e, principalmente da Bahia, fosse um pretexto para  afirmar-se, fazendo o culto e a nossa religião afro-baiana mais respeitada no meio social. Até quando me foi concedida pela UNESCO uma bolsa, por intermédio do CEAO da UFBA, para fazer uma pesquisa comparada sobre arte sacra da África Ocidental no Brasil, na Nigéria, em Dahomey, atual república de Benin, durante um período de três meses.
Assim, foi no dia 6 de janeiro de 1967 que embarcamos, eu e minha mulher Juana Elbein dos Santos, Research Fellow do Institute for Study of Man the New York, que também obteve uma bolsa na ocasião para colaborar na pesquisa. Chegamos a Lagos no dia 7. Três dias depois viajamos para Ibadan onde, depois de nos termos apresentado ao Prof. Hebert G. Armstrong, Diretor do Institute African Studies da Universidade de Ibadan, armamos o nosso quartel general. No dia seguinte, ou seja, no dia 11, nos encontramos com Pierre Verger. Com sua ajuda e do seu pequeno carro Citroen de 2 cavalos, começamos a fazer viagens curtas para manter os primeiros contatos. No dia 21, atravessamos a fronteira e viajamos para Daomey, ficando hospedados em Porto Novo no hotel dos Deputés. Partimos no dia 23, um dia depois do falecimento de minha mãe, acontecimento do qual só vim a tomar conhecimento ao regressar para Ibadan, 11 dias depois.
Partimos para o reino do Ketú, acompanhado de um intérprete funcionário da I.R.A.D. a fim de continuar nossas pesquisas e fazer uma visita ao Rei em meu nome e em nome de todos os irmãos descendentes de Ketú residentes na Bahia. Longe estava eu de imaginar que poderia encontrar alguma pessoa descendente daquela família real de que tanto falavam. Por mais incrível que pareça, até esse momento nenhum comentário tinha sido feito a respeito dessa possibilidade. Na passagem por Cotonu, fomos a Nonoprik e compramos um bom vinho francês para dar de presente ao Rei, procurando dessa maneira seguir os costumes tradicionais e, em seguida, retomamos o caminho. O Citroenzinho guiado pelo seu dono, Pierre Verger, avançava pela estrada a fora parecendo uma besta com os freios tomados nos dentes, passando por vários povoados, espantando porquinhos, cabritos e galinhas, descendo e subindo ladeiras empinadas, cheias de curvas,  de campos e lindas passagens.
Depois de muito tempo, começamos a percorrer um caminho de terras vermelhas, a poeira tingindo de vermelho a paisagem, até chegar à entrada do reinado de Ketú. Na cidade, depois de 4 horas e meia de viagem, paramos no armazém de um simpático senhor por nome Exu, nome de um dos Orixás que, erradamente, é sincretizado como o Diabo no Brasil, para fazer uma breve refeição com sardinhas, pão e mocacola, um delicioso refrigerante feito à base de café. Meia hora depois, chegamos ao palácio do Rei. Como eu me sentia bem! Com todos e tudo o que eu via e ouvia, apesar de andar brigando com o meu Yorubá, que devido a eu não estar habituado a falar cotidianamente, ainda não podia seguir diretamente as conversações muito prolongadas. Além disso, os dialetos Yorubá variam muito de um lugar para outro.
Pierre Verger, a quem todos conhecem em toda região por Babalawô Fatunbí e que já conhecia o Rei, fez a nossa apresentação. Entreguei o presente. Logo o rei mandou abrir a garrafa e servir a todos o presente, ficando ele, como é de costume, para se servir por último. Conversa vai, conversa vem, eu disse ao Rei que era descendente da terra de Ketú. Ele, muito espantado com o meu Nagô Yorubá, mandou que eu desse prova do que tinha dito. E assim foi que cantei algumas cantigas enaltecendo a terra, o Rei e a riqueza do seu povo.
O Rei, todos os seus ministros e as demais pessoas que lá se encontravam na ocasião ficaram surpresos e me escutavam emocionados, pois eles nunca tinham imaginado que, do outro lado do Oceano, pudesse ainda existir pessoas como eu, capaz de cantar os cânticos tradicionais que eram cantados pelos nossos antepassados.
Quando terminei de cantar, o Rei, bastante emocionado, passou a mostrar a coroa que estava usando e traduzindo uma das cantigas nos disse que não era aquela coroa a que a cantiga se referia e sim a outra com a qual são consagrados os Reis.
Existia a maior alegria no recinto e todos me admiravam com muito carinho e uma certa ternura se lhes estampava nas faces.
Enquanto isso, a minha mulher se lembrou do caso da família real e me perguntou por que eu não recitava o Orilé de minha família, o que eu chamo de brasão oral. Não dei atenção a pergunta. Ela e Verger, porém, insistiram tanto, que fui forçado a recitar o Orikí, mesmo porque o Rei observou quando Juana falou em francês para Verger e ficou muito interessado.
Tive que dizer as seguintes palavras em Nagô: Asipá Borogum Elesé Kan Gon Goo. Quando terminei, só vimos o Rei de repente exclamar, Ah! Asipá! E levantando-se da cadeira onde estava sentado apontou para um dos lados do palácio, dizendo: sua família mora ali.
Todos nós ficamos parados, era uma coisa inacreditável. Em seguida, o Rei chamou uma pessoa das mais velhas, a Iya Nana, e nos mandou levar à casa dos Asipá.
Quando chegamos ao lugar, descobrimos que era todo um bairro, em vez de uma casa. Fomos levados à casa principal. Por ser um dia de semana, a maior parte dos homens estava trabalhando na roça da família denominada Kosikú (não há morte). Mesmo assim, fui apresentado a todos os que estavam presentes e, quando recitei o Orikí, foi uma alegria geral, todos bateram palmas, vieram apertar minhas mãos, queriam estabelecer conversações comigo e eu estava tão emocionado que não entendia e não sabia de nada.

Mestre Didi com a família Asipa em Ketú.
Fotografia propriedade do acervo de D.M. dos Santos

 Só via alegria, alegria no semblante de todos que se acercavam para me cumprimentar.  Logo nos levaram ao Ojubó Ode, lugar de adoração a Oxóssi, nos mostrando onde estava o Axé da casa e foram chamar uma das pessoas mais velhas pertencentes à família, a fim de nos fornecer as informações precisas.


Mestre Didi no Ojubo Osoosi da família Asipa em Ketú.
Foto acervo M.A.Luz e na internet.

Assim foi que ficamos sabendo de que tudo que minha mãe Senhora e as pessoas mais velhas falavam na Bahia, era verdade. Independente de minha linguagem real, a nossa família foi uma das sete principais famílias que fundaram o Reino de Ketú.





Deoscoredes Maximiliano dos Santos,Mestre Didi é herdeiro do Axé de Xangô, da tradicional família Asipá da Bahia, Assogbá Sumo Sacerdote do culto do Orixá Obaluaiyê, Balé Xangô, Babá Mobá Oni Xangô, Alapini, sumo sacerdote do culto de adoração aos Ancestrais, Egun.
A importância de Mestre Didi, como é conhecido, se expressa na abertura de canais para as inter-relações das comunidades negras com a sociedade global. Escritor e escultor, um dos expoentes da cultura afro-brasileira, é o inspirador e impulsionador da Sociedade de Estudos da Cultura Negra  no Brasil – SECNEB, do setor afro-baiano do Museu de Arte Moderna da Bahia, do projeto da educação pluricultural – Mini Comunidade Oba-Biyi do Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro-Brasileira – INTECAB e de outras instituições de atividades voltadas para a reflexão e expansão dos valores afro-brasileiros.
Os filmes Egungun, Orixá Ninu Ilé e Iya-mi Agbá foram realizados com a sua assessoria direta. Reformulador, nas artes contemporâneas, das técnicas tradicionais africanas, realiza exposições regulares no Brasil, África Ocidental, Estados Unidos, Europa e, em uma sala especial no Centro Georges Pompidou, em Paris, 1989, durante a Exposição Internacional “Magiciens de la Terre”. A última, na Feira do Livro em Frankfurt em 1994 e na Pinacoteca de São Paulo.
Publicou os livros Contos Negros da Bahia, Contos Nagô, Contos Crioulos da Bahia, a monografia História de um Terreiro Nagô, e diversos ensaios em parceria com Juana Elbein dos Santos; com Lenio Braga, o livro-objeto Porque Oxalá Usa Ekodidé, Autor das peças teatrais Ode o Caçador do Mato, O Presente de Xangô, Boa Menina, A Fuga de Tio Ajaí; com Adão Pinheiro, publicou  História da Criação do Mundo, em parceria com Juana Elbein dos Santos, Orlando Sena, o auto mítico Ajaká. Sendo um Sacerdote, Mestre Didi posiciona suas atividades e sua liderança no sentido da continuidade histórica, reforçando e enriquecendo a identidade cultural de seu povo.

Nota:Artigo publicado no SEMENTES Caderno de Pesquisa, Ética da Coexistência, vol. 5, nº 7 jan/dez 2004






quarta-feira, 16 de agosto de 2017

AYAN POÉTICA INTERTEXTUAL


Por Inaicyra Falcão dos Santos


Ayán é a entidade sagrada do tambor Bata consagrado a Xangô.
Foto: disponível na internet

INTRODUÇÃO

O argumento que pretendo desenvolver neste estudo, é que, para se pensar na tradição africano-brasileira, como forma verdadeiramente expressiva na criação artística, torna-se necessário levar em consideração, os valores da cultura em questão. Considerando-a como agente de integração que pode estabelecer uma coerência, uma organicidade entre a tradição de um povo, e o conhecimento da arte teorizado, possibilitando o enriquecimento da nossa cultura.



Tambores Bata do terreiro de Pai Adão de Recife ressurgem no Congresso da Tradição dos Orixá na Bahia.
Foto: Acervo M. A. Luz

Trata-se da busca na criação artística, e consequentemente a origem de uma proposta pluricultural na dança-arte-educação brasileira, através da história do indivíduo e da mitologia. Examinando também nesta experiência, a possibilidade de uma base de expressão, dentro de uma perspectiva histórica, religiosa, artística e intuitiva.


Foi fundamental compreender o processo, esta busca de espaço, a fim de torná-lo mais significativo aos artistas e educadores brasileiros, os quais se comunicam com a sociedade, no decurso de uma identidade cultural, ou aqueles que buscam uma educação pluricultural.



Ojé e Alabe do Ilê Axipa ensinam noções de ritmos percussivos na experiência Atabaque Entre as Folhas.
Foto: Acervo M. A. Luz

"Transformar a educação atual, defendendo uma educação para todos, que respeite a diversidade, as minorias étnicas, a pluralidade de doutrinas, os direitos humanos, eliminando estereótipos, ampliando o horizonte de conhecimentos e de visões de mundo." (GADOTTI, 1993, p.1)

Pondero, entre outros atributos, a performance como vivência pessoal, aquela que tem me proporcionado a consciência corporal do meu ser, e a histórica do que sou. Foi sempre na tradição africano-brasileira que busquei inspiração, informação, tanto no aspecto profissional quanto na filosofia de vida. Esta expressão estabeleceu a origem da hipótese de criação, de uma expressão artística no cenário da dança-educação brasileira.



Doutora Inaicyra Falcão dos Santos
Foto: disponível na internet

Percebo a importância da contribuição, e ao mesmo tempo, o desafio e complexidade de fazer-me compreendida, como uma artista-educadora, nos parâmetros do universo acadêmico. O aspecto fundamental seria, ter todo o processo consciente e informado. Foi necessário para elaborar e divulgar o trabalho, conhecer, investigar a realidade do universo ao qual tinha experienciado. Nesta aventura criativa, procurei respeitar os espaços, ou seja, refletindo sobre a função do dançar nos rituais dos terreiros de orixás, e sobre o que seja dançar, nas composições coreográficas teatrais. Discernindo a vivência intuitivo-criativa da vivência religiosa neste universo. Embora nos dois contextos as suas compreensões sejam realizadas pelo seu próprio conteúdo, na arte, a criação e na religião a razão do mito. Todavia, na criação, o artista une-se à ciência através da sua capacidade intelectual, abstrai da forma real um novo conceito estético-simbólico, dominando seu instrumento através da técnica, experiências acumuladas, emoção, sensibilidade e profunda consciência do seu ser. Enquanto que no contexto religioso, os mitos transmitem os valores, os princípios, as crenças, os ritos reforçam, moldam a vida da comunidade, onde a função da arte é de presentificar a força da natureza ou a de um ancestral. O mito é compreendido, na atividade ritual na tradição Yorubá, para reconstruir a vida no terreiro, arrebanhando um sistema de valores míticos e que influenciam os pensamentos, a natureza e a forma da cultura africano-brasileira.


O vínculo com o tema escolhido, um dos mitos de origem do tambor bàtá, poderia parafrasear Joseph Campbell, fui capturada por este, e então o que ele pode fazer por mim de fato! (CAMPBELL, 1992, p. 3)

PASSOS DA CRIAÇÃO POÉTICA

"... O artista se vê, naturalmente a sem quaisquer dúvidas como algo mais que um narrador ou intérprete: acima de tudo, ele é um indivíduo que decidiu formular para os outros, com absoluta sinceridade, sua verdade sobre o mundo..." (TARKOVSKI, 1990, p. 119)



Maestro Neguinho do Samba criador do Samba Reggae
Foto disponível na internet

Embora, que no sentido de tornar claro o discurso, estou expondo o processo como forma direta, mas é impossível afirmar os momentos específicos nos quais muitas idéias iam surgindo enriquecendo a experiência e os momentos que outras eram removidas por falta de consistência do argumento corporal e intelectual. Ou seja, houve, toda uma "ginga" um "negaceio", "vai-mas-não-vai". Um jogo de cintura, para dar origem à "esperteza" do trabalho.


Primeiro Passo: Saturação

Para se pensar na criação cênica dessa matéria cultural, procurei assimilar de forma teórica e prática, o modo que os fenômenos se configuravam, ou seja, as relações dentro do conteúdo significativo do universo bàtá. Procurando trabalhar o sentido prático da vivência como protagonista da ação.



Grupo da tradição yoruba Batá-Lèbé.
Foto: disponível na internet

O bàtá é dança dramática religiosa, pertencente a um dos numerosos e mais antigos grupos étnicos do sudoeste da Nigéria, no continente Africano. Os Yorubás possuem movimentos vigorosos, espasmódicos, percussivos, vibratórios produzindo sensações de tensão e suspense, representa no seu aspecto mítico o relâmpago, o trovão, natureza simbólica do orixá Xangô.


Na cidade de Oyó, Nigéria; é onde se encntra seu grande templo, mas ele é cultuado em todo o estado Yorubá, no Brasil, Cuba e em outros países das Américas.

A dança bàtá, é a representação corporal do ritmo produzido pela orquestra composta dos tambores bàtá que a nomeia.

Folabo Ajayí comenta sobre o bàtá na Nigéria.

"Bàtá é rápido, dança energética raramente interpretada por mulheres. É caracterizada por movimentos bem marcados, definidos, rápidos, torções e de intrincados passos... A forma dessa dança está relacionada à dança de possessão que acontece durante o ritual de Xangô e do ritual Egungun. É essencialmente uma forma de dança do norte da região Yorubá. As revisões do alarinjó, grupo teatral, geralmente dançam o bàtá como forma de representação através de temas satíricos." (AJAYI, 1989, p.2)



Tiras de pano abala que compõem as vestes sagradas dos Egungun
Foto: disponível na internet

A dança é revelada precisamente através da expressão do ritmo produzido pelos tambores bàtá, no contexto nigeriano, e pelos atabaques no contexto brasileiro.


Segundo Passo: Incubação

"O subconsciente é o depósito de tudo que você aprendeu e experimentou na vida... O relaxamento é a chave do funcionamento do subconsciente." (PETERSON, 1991, p.22)

Nesta perspectiva, a idéia principal surgiu no transformar o conto mítico em poema. O poder da palavra na constituição do sistema nagô mostra que:

"A palavra proferida tem um poder de ação. A transmissão simbólica, a mensagem, se realiza conjuntamente com gestos, com movimentos corporais, a palavra é vivida, pronunciada, está carregada com modulações, com emoção, com a história pessoal, o poder e a experiência de quem profere." (SANTOS, 1976, p.12)

Estas palavras na cultura Yorubá, e por extensão, na afro-brasileira estão nos mitos, nos contos, nos "Orikís" (poemas originados do sistema divinatório oracular do Ifá, que por sua vez se combinam em sub-conjuntos dos Odu). Nos festivais dos orixás; os mitos são revividos através da experiência religiosa. O orixá homenageado, é evocado, e com sua presença ele vive no presente o tempo primordial, na época em que o evento teve lugar pela primeira vez. Mircea Eliade argumenta que se pode falar: "... no tempo do mito, e o tempo prodigioso "sagrado", em que algo novo, de forte e de significativo se manifestou plenamente, e reviver esse tempo, reintegrá-lo ... é reaprender sua lição criadora." (ELÍADE, 1972, p.22)

Terceiro Passo: Iluminação

Surgiu assim a personagem Ayán, princípio de vida do tambor bàtá, que trouxe de forma intrínseca os elementos corporais, rítmicos, vocais e visuais.

Ayán

Princípio vibrante

Divaga

Iyó-orun, ewó-orun.

Nascente, poente

Vida e morte,

Meditação intermitente

Crente

Odu traçado

Destino amarrado

Entranhas emaranhadas

Degusta afazeres, lazeres

Verte amores, desamores

Atenta

Orixirixi

Expelindo desejos latentes

Emerge a dinâmica

Exú

Interage, intercede

Ayán

Expande pele espessa

Repercute, curtida

Nutrida batida

Ayán

Espasmódica

Impetuosa, intensa

Breve e seca

Ayán

Transcende, transfigurada

No fundamento

simbólico

Do fogo.

Quarto Passo: Verificação

"É perfeitamente lógico que a verificação venha no final do processo criativo, pois aplicá-la antes causaria uma interrupção no fluxo de idéias." (PETERSON, 1991, p.26)

Era imperativo para a realização deste trabalho, a união da teoria e da prática. Que este refletisse aspecto fundamental da pesquisa, na performance artística como um meio de comunicação-expressão.

Obtidas as informações do vocabulário pesquisado, da identificação daqueles movimentos e gestos pertinentes, ou seja, aqueles que recorriam com maior freqüência nas danças produzidas pelo ritmo bàtá. A organização sistemática desses dados, visava a possibilidade da reflexão permanente. Vai, portanto, resultar na elaboração de uma linguagem específica, dentro de um conteúdo ainda não figurado concretamente pelo corpo, encontrando-se oculto, esperando justamente a realização.

Assim, procurei construir com base concreta no ritmo, nas suas implicações no corpo, no espaço, na qualidade dos movimentos, nos gestos, nas palavras. Fazendo com que a influência desses, ocorressem nos planos objetivo e subjetivo.

Durante os exercícios de laboratório, o conhecimento adquirido tornava-se verdadeiro, incorporado a minha pessoa, a percepção se transfigurava. Fui adquirindo consciência, e aos poucos, ia formando um vocabulário com movimentos que se repetiam com freqüência nas improvisações. Estes movimentos, então, vão ser experienciados com variações estruturais diferentes, na elaboração da configuração cênica.

A linguagem cenográfica, espaço, tempo, música, ritmo, figurino, interagindo dialeticamente. Na originalidade, da apreensão de síntese da forma, decodificando a experiência vivenciada incorporada, em uma experiência artística, num processo de justaposição, deixando sempre um espaço, para o voluntário.

Portanto, a realidade temática estava no exterior, mas a sua realização transformava no meu subjetivo, no inconsciente, e voltava à superfície concretizando o espaço interior.

"A linguagem narrativa segmenta um evento em partes e vai roteirizando no tempo a compleição do todo. Desse modo, temos ações seguidas de outras, cujas ligações obedecem à ordem proposta pelo tempo." (PLAZA, 1987, p.137) O argumento do texto, expressão estética, fundamentou-se numa narrativa sucessiva, no qual as ações entre os versos decorrem no tempo, coordenados de forma direta, cada acontecimento resulta do precedente.

CONCLUSÃO

O referencial prático-teórico-metodológico, traduziu uma poética intertextual com uma idéia de significação de movimentos corporais, de imagens, de ritmos, de palavras e de elementos cênicos. Tendo como referência pragmática, a releitura icônica significativa do tambor bàtá, através do método da tradução intertextual, com a variação semântica de transcrição, com o investimento estético, com um olhar criativo e renovador. A montagem cênica pretendeu mostrar sobretudo, a personalidade de Ayán. Teve como suporte enfático-melódico o bàtá, ritmo produzido nos terreiros nagô na cidade de Salvador (Brasil), enquanto que o vocabulário corporal teve a qualidade estilística do bàtá-corporal da cidade de Oyó (Nigéria).

Desta forma, originou-se um idioleto experimental, semântico, narrativo, cinestésico, transcrito e subjetivo, uma proposta também didática no cenário contemporâneo da arte/educação brasileira.

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Ensaio publicado no livro Pluralidade Cultural e Educação.LUZ,Narcimária(ORG.)Secretaria da Educação e Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil -SECNEB, Salvador, 1996. 

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


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