terça-feira, 7 de abril de 2015
LITERATURA INFANTO-JUVENIL AFRO-BRASILEIRA "OBÁ NIJÔ, O REI QUE DANÇA PELA LIBERDADE"
Professora aposentada da Universidade de Bielefeld, Alemanha
Moema Parente Augel
Com muita alegria, felicito a Editora Pallas pela publicação muito oportuna deste belo
livro de Narcimária Correia do Patrocínio Luz, OBÁ NIJÔ, O REI QUE DANÇA PELA LIBERDADE, valiosa contribuição para a ainda escassa literatura infanto-juvenil
afro-brasileira.
A obra é
enriquecida pelas ilustrações de
Ronaldo Martins, imagens com traços e símbolos atraentes e significativos, inteiramente integradas e
adequadas ao texto, coerentes com uma história de luta pela dignidade do povo
negro no Brasil.
Ler e ouvir histórias é um importante impulso para a
formação da criança e do adolescente pois amplia seu campo de informação e seus
referenciais, reportando a sentimentos e emoções individuais e coletivos que
influenciam a vida psíquica e social, proporcionando novos lugares de
pertencimento identitário … ou de exclusão.
Coreógrafo Clyde Alafiju Morgan
Imagem disponível em http://correionago.ning.com/profiles/blogs/a-danca-e-a-acao-social
No Brasil, com sua multiplicidade étnica e a imposição
de um padrão estético branco-ocidental, a
mídia, seja ela falada ou escrita, em seu papel mobilizador de opinião, as artes, aí incluindo a literatura e a música,
assim como a escola podem contribuir para a construção da identidade ou sua
destruição, podem fortalecer a auto-estima ou intensificar o sentimento de
inferioridade nos não brancos. Por isso mesmo, é especialmente necessário haver
obras em que protagonistas negros, e índios também, sejam realçados
positivamente, que personagens negras sejam apresentadas de forma altiva, que
seja apresentada a existência e a atuação de heróis negros, reais e não apenas ficcionais. É o
que acontece em OBÁ NIJÔ, O REI QUE DANÇA
PARA A LIBERDADE.
Imagem disponível em http://inesrodrigues1.tumblr.com/post/60756307928/how-to-write-about-africa-tumblr-on-we-heart-it
O reconhecimento da origem comum do
pertencimento a um determinado grupo são fatores que influenciam fundamentalmente a identidade da criança. Sendo
esse reconhecimento marcado por estímulos
construtivos, a auto-estima e, com ela, a auto-afirmação, são reforçadas. Cimentar esse processo através da literatura é um
dos recursos mais proveitosos e habilidosos para tal fim.
Imagem disponível em http://www.blahcultural.com/livro-conta-historia-da-cultura-africana-para-criancas/
Este livro não se direciona apenas a um público leitor
afro-descendente, mas a todo brasileiro, independente de sua etnia ou origem,
pois é de suma importância tanto o conhecimento e a divulgação de
episódios de nosso passado histórico relativos à vida, ao labor e à resistência
de nossos antepassados africanos, o que em geral ainda é silenciado, como a
valorização da
convivência na diversidade.
O herói Obá
Nijô vai cativar de imediato não só as crianças e jovens que travarem conhecimento com ele, ao
acompanhar sua vida em sua trajetória desde o nascimento, sua infância, as
etapas de sua formação como dançarino da comunidade a que
pertencia, empolgando mais adiante com a liderança
que exerceu em sua comunidade e o papel libertário que representou.
Imagem disponível em http://veratabach.blogspot.com.br/2011_02_20_archive.html
A recriação da oralidade de origem africana no Brasil se mostra aqui pela narração da lenda da pedra que ronca, que deu o nome à
localidade praiana Itapuã, hoje um conhecido bairro em Salvador, e onde se
desenrola a trama. A realidade histórica apresenta,
nas passagens discursivas do livro, personagens que realmente existiram e fatos
que aconteceram durante o sistema escravista do Brasil colonial, como também
correspondem à realidade histórica a referência a uma das fontes da economia da
época, a caça às baleias,
e a exploração
impiedosa da mão de obra escrava nas
armações espalhadas no literal baiano.
Narcimária parte de um episódio concreto e real do
passado brasileiro, para contar a vida e a singular trajetória de Obá Nijô,
entrelaçando-a com informações factuais e de caráter histórico. A autora fascina
os leitores com a singela história do menino que aprendeu a manifestar seus
sentimentos e esperanças através da dança, descrevendo com vivacidade o aprendizado dos saberes de seus ancestrais e seus
protetores espirituais a partir das tradições religiosas do povo negro, para
abordar com sensibilidade pedagógica a questão mais ampla
da opressão sofrida pelos africanos nas propriedades e empresas
senhoriais e o papel de liderança
exercido por Obá Nijô na resistência heroica contra a
exploração e o roubo da liberdade.
Professor Associado de Dança Africana
e Diretor Artístico do Dança Africana Sankofa e Ensemble Tambor na SUNY
College, em Brockport.
Imagem disponível em http://www.brockport.edu/dance/people/cmorgan.html
*************************
Moema Parente Augel é mestre em
Ciências Humanas pela Universidade Federal da Bahia e doutora em Literaturas
Africanas pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Radicada na Alemanha, lecionou Português e Cultura Brasileira na
Universidade de Bielefeld. Dedica-se, entre outras atividades, ao estudo da
literatura afro-brasileira e da literatura guineense. Viveu na Guiné Bissau
entre 1992 e 1998, tendo produzido e publicado diversos livros com ensaios
analíticos tematizando a literatura daquele país.
sábado, 28 de março de 2015
ENTREVISTA:RONALDO MARTINS ILUSTRADOR DO LIVRO OBA NIJÔ
Em entrevista o professor e pesquisador Ronaldo Martins ilustrador do livro “Obá Nijô o rei que dança pela liberdade” apresenta sua visão, desafios e alegrias ao falar da obra.
Gostaria de começar essa entrevista conversando um pouco sobre a proposta
pedagógica “Agbon Arte, Beleza e Sabedoria Ancestral Africana” que você
concebeu para a disciplina de Artes em escolas públicas de Salvador. Como
nasceu a proposta e como ela foi desenvolvida?
Ronaldo
Martins-Como
artista plástico afro-brasileiro e professor de Artes, eu desejava muito
transmitir a sabedoria que aprendi e desfrutei sobre os ancestrais africanos
aos meus alunos e alunas. Eu queria contribuir para aumentar a autoestima
deles, mostrar para eles que são possuidores de um rico e refinado patrimônio
cultural, ainda vivo na cidade de Salvador. Desejava transmitir aquilo que
aprendi com muitos mestres e mestras, como Deoscoredes Maximiliano dos Santos,
o Mestre Didi, sacerdote do culto aos ancestrais, uma pessoa muito especial,
possuidora de grande conhecimento da cultura dos nagôs na Bahia, que foi a
fonte de inspiração do projeto AGBON.
A proposta foi desenvolvida
quando ingressei no Programa de Descolonização e Educação – PRODESE, do
Mestrado em Educação e Contemporaneidade da UNEB, programa coordenado pela Dra.
Narcimária do Patrocinio Luz. No ano de 2004, quando ingressei no mestrado,
apresentei a proposta AGBON: arte, beleza e sabedoria ancestral africana que
foi aprovada.
O projeto AGBON era composto de uma Oficina de Artes Plásticas coordenada por mim e uma Oficina de Teatro, coordenada pela professora Nicolai Carmo de Brito. O projeto foi realizado de 2004 a 2008, no Colégio da Policia Militar, unidade Dendezeiros Envolveu em cada ano, cerca de 400 crianças e jovens, estudantes regulares do sexto ao oitavo ano do Ensino Fundamental.
O projeto Agbon cerne da dissertação de Ronaldo Martins,tornou-se um livro publicado pela EDUNEB em 2008.
No blog da ACRA você pode saber mais um pouco da publçicação fazendo o link http://blogdoacra.blogspot.com.br/2009/11/agbon-arte-beleza-e-sabedoria-ancestral.html.
Há também uma resenha na Revista TEIAS da UERJ através do link http://www.periodicos.proped.pro.br/index.php/revistateias/article/view/374
Quais os principais desafios encontrados para desenvolver a proposta
pedagógica Agbon?
Ronaldo
Martins -O
desafio inicial para realizar a atividade na escola que trabalho, o Colégio da
Policia Militar, unidade Dendezeiros, em Salvador, foi encarar a falsa ideia
propagada nas escolas, que associava, naquela época, o patrimônio africano -
musica alimentação, dança, trabalho, medicina - preservado nos terreiros, como
algo inferior. Para superar esse obstáculo procuramos mostrar as crianças,
professores e diretores que longe de tratarmos de algo religioso, os orixás são
arquétipos, símbolos vivos relacionados às atividades humanas: caça, colheita,
tecnologia, medicina e as forças vitais que nos envolvem: o ar, a terra, água,
as árvores e o movimento.
Nas primeiras aulas fiz questão de mostrar aos colegas professores e alunos que certas leituras equivocadas sobre a contribuição civilizatória dos nagôs são fruto do desconhecimento e do racismo. Mostrei que alguns discursos sobre as culturas ocidentais, quando se refere aos deuses retratados na arte grega clássica e na renascença, associado a algo positivo e civilizado, mas, ao tratar de cultura afro-brasileira, infelizmente, a contribuição civilizatória africana é vista como coisa de escravo. Como exemplo, quando se fala em Hermes, relacionado ao movimento, a comunicação, na cultura grega, é visto como algo erudito, mas, se fala de Exu, a força vital, o movimento, a comunicação, infelizmente, é tratado como algo negativo. Puro racismo, um ranço preconceituoso, fruto da falta de estudo e do desconhecimento do outro.
Nas primeiras aulas fiz questão de mostrar aos colegas professores e alunos que certas leituras equivocadas sobre a contribuição civilizatória dos nagôs são fruto do desconhecimento e do racismo. Mostrei que alguns discursos sobre as culturas ocidentais, quando se refere aos deuses retratados na arte grega clássica e na renascença, associado a algo positivo e civilizado, mas, ao tratar de cultura afro-brasileira, infelizmente, a contribuição civilizatória africana é vista como coisa de escravo. Como exemplo, quando se fala em Hermes, relacionado ao movimento, a comunicação, na cultura grega, é visto como algo erudito, mas, se fala de Exu, a força vital, o movimento, a comunicação, infelizmente, é tratado como algo negativo. Puro racismo, um ranço preconceituoso, fruto da falta de estudo e do desconhecimento do outro.
Foto
disponível no blog ARTE AFROBRASILEIRA RONALDO MARTINS iniciativa do próprio
artista. No blog Ronaldo destaca áreas, Arte AfroBrasileira e Educação.
“Em Arte Afro-Brasileira de Ronaldo Martins o enfoque é dado às fotos
dos quadros, esculturas, desenhos e as apreciações críticas publicadas nos
catálogos das minhas exposições. Em EDUCAÇÃO o enfoque é dado a textos de minha
autoria sobre Arte e Educação, Arte Afro-brasileira e Filosofia, disciplinas
que leciono em uma escola publica de Salvador.” Para saber mais visite
http://ronaldomartinss.blogspot.com.br/p/odara.html
Conte-nos sobre a sua aproximação com a história “Oba Nijô o rei que dança
pela liberdade”?
Ronaldo
Martins -Como
uma pessoa comprometida com as questões do povo negro, ao ser convidado por
Narcimária para ilustrar o livro “Oba Nijô o rei que dança pela liberdade”
percebi que estava sendo solicitado a contribuir com minhas habilidades para
que aquela semente crescesse. Interessei-me logo pela bela história e, junto
com outros amigos, convidados para participarem no projeto, me dediquei a elaborar
as imagens.
É o primeiro livro seu como ilustrador para o público infanto-juvenil?
Ronaldo Martins -Não. Fiz um outro chamado a Casa dos Meninos Pássaros que trata sobre as crianças que moravam nas ruas de Salvador e fiz ilustrações para o livro História da Criação na tradição Yorubá.
Como foi o processo de criação/composição das ilustrações do livro?
Ronaldo
Martins -Na
verdade, a história de Obá Nijô é um pouco a trajetória de alguns de nós,
pessoas que, ao perceberem a grandeza da cultura negra, encontram referenciais
de dignidade para se espelhar. Uma forma de ser que busca sintonia com os
outros seres humanos e com a natureza para viver melhor.
A história me encantou porque,
quando jovem frequentava muito Itapuã, que para mim sempre foi um lugar
especial em Salvador.
Lagoa do Abaeté em Itapuã
Foto disponível em http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Lagoa+do+Abaet%C3%A9,+Salvador,+Bahia<r=l&id_perso=6618
Os referenciais de memória, a
experiência que tenho de mais de vinte anos trabalhando com a temática dos
orixás em exposições no Brasil e no exterior, me auxiliaram a perceber o fio
condutor da história e procurar ilustra-la.
Como você se sentiu quando concluiu as ilustrações?
Ronaldo
Martins -Feliz,
tinha consciência que estava em um processo delicado que necessitava
desprendimento, consciência que se está fazendo pelo grupo, pela rica história
do povo negro em Salvador.
Do conjunto de ilustrações do livro “Oba Nijô, qual a que você mais
gosta”? Por quê?
Ronaldo
Martins -Gosto
muito da Feira. Mas a que o garoto dança para a água, me agradou mais. Eu
lembro bem que eu estava trabalhando, minha irmã e meu sobrinho foram lá em
casa. Ele tem quatro anos, fazendo as brincadeiras que toda crianças faz, foi
para a sala, dançou e sorriu como o garotinho que desenhei.
Como professor e pesquisador da cultura africano-brasileira, quais as
principais contribuições do livro “Oba Nijô o rei que dança pela liberdade”
para o público infanto-juvenil?
Ronaldo
Martins -Além de
contribuir para o conhecimento histórico da civilização africana na cultura
nacional, o livro promove a autoestima das crianças afro-brasileiras. Tem a questão do
valorizar o seu lugar e aprender sobre ele, estamos em um momento em que se
deprecia muito o Brasil, a cidade, é preciso estimular as pessoas a conhecer e
valorizar o seu lugar.
O livro pode ser também um ótimo
instrumento para tratar as questões contemporâneas de proteção e cuidado com a
natureza.
No projeto anterior pude
trabalhar com muitas crianças francesas, meninos e meninas que não sabiam nada
de Brasil. Tendo como base a sabedoria afro-brasileira preservada em Salvador,
pude conduzir uma oficina sobre o cuidado com a natureza. Foi ótimo. A
identificação das crianças com a história dos herois africanos, foi imediata. Imagino
que isso poderá acontecer também com o livro “Oba Nijô o rei que dança pela
liberdade”. Agora é agradecer aos ancestrais, a todos os amigos e amigas que
contribuíram com esse lindo projeto e dedicar ao Mestre Didi pela bela
inspiração.
Sobre
o Ilustrador Ronaldo Martins
Licenciado em Desenho e Artes Plásticas pela Universidade Federal da Bahia- UFBA, Mestre em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB, pesquisador do PRODESE – Programa de Descolonização e Educação da CNPq/UNEB, professor de Artes, e coordenador do projeto AGBON: arte, beleza e sabedoria ancestral africana, em Salvador. Há cerca de vinte anos Ronaldo Martins vem desenvolvendo estudos e exposições sobre arte e cultura afro-brasileira ioruba/nagô. Em 1989, foi bolsista do CNPq/UFBA e realizou a sua primeira exposição individual de pinturas e esculturas através do projeto “O culto a Oxum em Salvador – Bahia e Oxogbô – Nigéria” que recebeu o Prêmio Jovem Pesquisador da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-graduação da UFBA. No período de 1995-1996, foi bolsista da Casa Internacional dos Artistas de Schieder-Schwalemberg na Alemanha, período em que residiu com artistas da China, Rússia, Inglaterra e Alemanha. Em novembro de 2005, Ronaldo Martins, juntamente com seis outros artistas brasileiros, representou o Brasil em exposições itinerantes em diversas cidades francesas no contexto do “Ano do Brasil na França”. Em fevereiro e março de 2009, convidado pelo centro cultural Ludwig-Harms-Haus em Hermannsburg na Alemanha, apresentou a exposição individual Zauber der Fremde. Afrobrasilinische Glaube in der Kunst Bilder von Ronaldo Martins - Magia do outro. O pensamento afrobrasileiro na arte de Ronaldo Martins. Os quadros de Ronaldo Martins fazem parte de acervos privados e públicos no Brasil, Estados Unidos, Suíça, França e Alemanha. Seus trabalhos gráficos ilustram capas e pôsteres de importantes publicações como a capa da Revista EXU nº29/1992 (Salvador-BA) e a Revista ILA nº 155/1993 (Bonn, Alemanha).
Licenciado em Desenho e Artes Plásticas pela Universidade Federal da Bahia- UFBA, Mestre em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB, pesquisador do PRODESE – Programa de Descolonização e Educação da CNPq/UNEB, professor de Artes, e coordenador do projeto AGBON: arte, beleza e sabedoria ancestral africana, em Salvador. Há cerca de vinte anos Ronaldo Martins vem desenvolvendo estudos e exposições sobre arte e cultura afro-brasileira ioruba/nagô. Em 1989, foi bolsista do CNPq/UFBA e realizou a sua primeira exposição individual de pinturas e esculturas através do projeto “O culto a Oxum em Salvador – Bahia e Oxogbô – Nigéria” que recebeu o Prêmio Jovem Pesquisador da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-graduação da UFBA. No período de 1995-1996, foi bolsista da Casa Internacional dos Artistas de Schieder-Schwalemberg na Alemanha, período em que residiu com artistas da China, Rússia, Inglaterra e Alemanha. Em novembro de 2005, Ronaldo Martins, juntamente com seis outros artistas brasileiros, representou o Brasil em exposições itinerantes em diversas cidades francesas no contexto do “Ano do Brasil na França”. Em fevereiro e março de 2009, convidado pelo centro cultural Ludwig-Harms-Haus em Hermannsburg na Alemanha, apresentou a exposição individual Zauber der Fremde. Afrobrasilinische Glaube in der Kunst Bilder von Ronaldo Martins - Magia do outro. O pensamento afrobrasileiro na arte de Ronaldo Martins. Os quadros de Ronaldo Martins fazem parte de acervos privados e públicos no Brasil, Estados Unidos, Suíça, França e Alemanha. Seus trabalhos gráficos ilustram capas e pôsteres de importantes publicações como a capa da Revista EXU nº29/1992 (Salvador-BA) e a Revista ILA nº 155/1993 (Bonn, Alemanha).
domingo, 22 de março de 2015
sábado, 14 de março de 2015
OBA NIJÔ O REI QUE DANÇA PELA LIBERDADE

Será lançado no dia 11/04 às 16 horas na Livraria Cultura do Shopping Salvador, o livro infanto-juvenil “OBA NIJÔ: o rei que dança pela liberdade” de autoria da professora e pesquisadora Narcimária Correia do Patrocínio Luz com ilustrações do artista plástico Ronaldo Martins.
Baseada em fatos que marcaram a Bahia no século XIX, a autora compõe uma história cuja linguagem lúdica estética própria para o público infanto-juvenil, conta a história da rebelião de 1814 que aconteceu nas armações de pesca no bairro de Itapuã, sob a importante liderança do africano “Francisco”, como está registrado nos arquivos da polícia da época.
Através
da história de Oba Nijô, os professores encontram perspectivas pedagógicas
necessárias para abordar a Lei 10.639/03 que trata do ensino da história e
cultura afro-brasileira e africana e sua importância na formação da sociedade
brasileira. Dessa forma, Oba Nijô contribui para elevar à autoestima das
crianças, sobretudo, as crianças afro-brasileiras; valoriza a história das
comunidades brasileiras, como o bairro de Itapuã, em Salvador; ajuda os professores a
realizarem práticas pedagógicas que deem visibilidade a contribuição do povo
negro à história do Brasil; aproxima
o público infanto-juvenil da sabedoria africana nas escolas, um patrimônio de
todo o povo brasileiro, além de promover o respeito e a preservação da cultura
de matriz africana.
O
livro produzido pela Pallas Editora teve o apoio e incentivo do Ministério da
Cultura através da Fundação Biblioteca Nacional-FBN e da Secretaria de
Políticas de Promoção da Igualdade Racial-SEPPIR. A parceria da FBN e SEPPIR
teve como objetivos: promover a democratização do acesso ao livro, à
valorização da literatura brasileira e da produção cultural, artística,
literária e científica de autores negros.
Para saber mais e ir acompanhando os desdobramentos para o lançamento,visitem os links:
Editora PALLAS
http://www.pallaseditora.com.br/produto/Oba_Nijo/279/12/
http://www.pallaseditora.com.br/produto/Oba_Nijo/279/12/
sábado, 28 de fevereiro de 2015
AINDA A “NEGA DO CABELO DURO...?
Por Narcimária Correia do
Patrocínio Luz
Nas
sociedades tradicionais africanas, o cabelo simboliza a identidade profunda
individual e coletiva de gerações. O cabelo africano é um patrimônio milenar e,
como tal, constituiu uma das formas de comunicação mais radicais na dinâmica
dos vínculos de sociabilidade que atravessaram o Atlântico.
Cor, textura,
cortes, tranças, penteados com adornos, tudo entrelaçado, comunicando narrativas
que contam histórias de linhagens, famílias, instituições, hierarquias, papéis
sociais que estruturam as relações primordiais que envolvem crianças, jovens e
anciães nas comunidades.
Imagem disponível em http://trancanago.blogspot.com.br/2010/02/origem-tranca-nago.html
Chamo atenção também para as formas de
reterritorialização histórica das populações negras nas Américas e Caribe, que
encontram na plasticidade do cabelo africano, próprio das culturas de
participação, a riqueza estética que permite a expressão possível de um corpo
livre em permanente movimento de afirmação identitária.
Cantor e Compositor Bob Marley
Imagem disponível em http://www.findagrave.com/cgi-bin/fg.cgi?page=gr&GRid=1732
Professora e Ativista Ângela Davis nos anos de 1970
Atriz
Lupita Nyong'o
Venceu o Oscar 2014 de melhor atriz coadjuvante no filem 12 Anos de Escravidão
Imagem disponível em http://www.cnbc.com/id/102460030
Venceu o Oscar 2014 de melhor atriz coadjuvante no filem 12 Anos de Escravidão
Imagem disponível em http://www.cnbc.com/id/102460030
Ator Lázaro Ramos
Imagem disponível em http://www.fashionbubbles.com/homem/cabelo-masculino-dicas-de-cortes-para-cabelos-afro-ou-cacheados/
Apesar do rico universo simbólico que
constitui o cabelo como extensão do patrimônio civilizatório milenar africano,
contemporaneamente ainda assistiu atônito a crianças, adolescentes, jovens e
adultos submetidos a constrangimentos inaceitáveis por anunciar em suas cabeças
esse vínculo ancestral com a África.Refiro-me aos discursos estéticos fixados na ideologia do recalque e racismo, que há séculos agridem as populações negras.
Gabriela Monteiro graduanda de Design de moda da PUC-Rio ,assim como muitos descendentes de afrricanos/as no Brasil e no mundo, esta semana foi alvo de racismo por parte de duas
professoras que fizeram piadas e
comentários de cunho racista sobre o cabelo.
Imagem disponível em http://brasileirissimos.xpg.uol.com.br/caso-de-racismo-na-puc-rio-ganha-notoriedade-ao-ser-divulgado-em-perfil-de-aluna/
Já
tive oportunidade de abordar aspectos do carnaval, destacando as geografias que
recortam e modulam os espaços da folia momesca, agudizando tensões e conflitos
entre civilizações. Aqui vou me referir a duas geografias: uma envolta no manto
civilizatório neocolonial, alicerçada na política do embranquecimento,
insistindo em constranger as mulheres negras por meio do estereótipo da “nega
do cabelo duro que não gosta de pentear”, e o pior, o convite à agressão: “pega
ela aí!”, “pra quê?”, “pra passar batom”.
Imagem disponível em http://www.semespartilhos.com.br/tag/tratamento-para-cabelo-afro/
No carnaval de Salvador, essa música entra
na classificação do mercado capitalista de “axé music”, aliás, essa sigla nada
tem a ver com a complexidade semântica africano-brasileira. O mais triste de
todo esse cenário é que, para homenagear os trinta anos desse “gênero musical”,
a “nega do cabelo duro...” foi cantada em cima de um trio que trazia mulheres e
homens negros vestidos com roupa e adereços da tradição africana. Muito triste!
A
outra geografia está alicerçada nos valores e linguagens da civilização
africano-brasileira presentes nas comunidades que singram vários bairros
tradicionais de Salvador. As comunidades africano-brasileiras recusam
veementemente a geografia do recalque que tenta deturpar e desmoralizar valores
fundamentais do seu patrimônio civilizatório.
Vista aérea da Lagoa do Abaeté no bairro africano-brasileiro de Itapuã
Imagem disponível em http://cartografia0905.blogspot.com.br/2012_06_01_archive.html
Nessa geografia africano-brasileira
nagô, axé é palavra sagrada, compõe a semântica do universo simbólico que dinamiza
a atmosfera litúrgica do aiyê (mundo
visível) e do orun (mundo invisível). Axé é pulsão das narrativas míticas que nos religam ao orixá e nossos ancestrais.Axé é força! Palavra pronunciada que carrega a energia vital que dá sentido ao nosso existir individual e coletivo.
Imagem disponível em http://www.jornalismo.com.br/index.php/conchinhas-do-mar-da-vida/mobile-com-conchas-do-mar1/
No
discurso estético do carnaval africano-brasileiro, inclua-se aí a plasticidade
dos cabelos com seus penteados e adereços interagindo com a música percussiva,
vestuário, danças e dramatizações, as mulheres negras são abordadas pela
imponência e integridade que as caracterizam.
Desfile do bloco afro Bankoma
Imagem disponível em http://www.ibahia.com/detalhe/noticia/bankoma-prepara-cd-em-comemoracao-de-15-anos-do-bloco/?cHash=d239685672e1587fb4eb3dacb3a8d36d
Mulheres negras que são lideranças expoentes nas Américas e Caribe, fundadoras de instituições, comunidades, famílias, elaboram e promovem a expansão de conhecimentos profundos que dão dignidade e asseguram a expansão comunitária. Exemplos fundamentais dessas trajetórias femininas na história do carnaval no Brasil são os ranchos de carnaval, como o Rosa Branca de Tia Ciata, as Escolas de Samba, afoxés e blocos afros que africanizam (parafraseando Marco Aurélio Luz) o carnaval brasileiro, reterritorializando-o, estabelecendo insurgências eternizadas pelas mensagens éticas e estéticas anunciadas pelos cabelos, alegorias, figurinos, danças, ritmos, músicas etc.
A Velha Guarda da Mangueira
Imagem disponível em https://falacarioca.wordpress.com/2011/04/01/roda-de-samba-com-velha-guarda-da-mangueira/Rosa
Branca de Tia Ciata
A
sacerdotisa que usou a expressão Roma Negra a qual se referiu Ruth Landes foi
Mãe Aninha, a Iyá Oba Biyi, fundadora da comunidade-terreiro Ilê Axé Opô Afonjá
e que acolheu e orientou a iniciativa do Mestre Didi, em 1935, de criar o de
afoxé Pae Burokô.
Mãe Aninha
Imagem disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Eug%C3%AAnia_Anna_Santos
Mestre Didi Asipá
Imagem disponível em http://www.jornalopcao.com.br/posts/ultimas-noticias/morre-o-artista-plastico-mestre-didi
Subvertendo
os espaços do carnaval, saturado pela estética da política do embranquecimento
e seu discurso perverso da “nega do cabelo duro que não gosta de pentear”, dois
exemplos aqui são bem-vindos: bloco Didá que levou para as ruas no carnaval as
linguagens estéticas das mulheres negras que vivem a identidade profunda das
comunidades africano-brasileiras.
Bloco Didá carnaval 2015
Imagem disponível em http://bahianalupa.com.br/40-anos-de-blocos-afro-no-carnaval-de-salvador/
Bloco Didá carnaval 2015
Imagem disponível em http://bahianalupa.com.br/40-anos-de-blocos-afro-no-carnaval-de-salvador/
Bloco Didá carnaval 2015
Imagem disponível em http://bahianalupa.com.br/40-anos-de-blocos-afro-no-carnaval-de-salvador/
Outro momento singular foi a saída majestosa
do bloco afro Ilê Aiyê adornado pelos rituais da tradição presididos pelas
lideranças femininas que dão continuidade aos ensinamentos de Mãe Hilda.
Saída do Ilê do Curuzú Carnaval 2015
Imagem disponível em http://atarde.uol.com.br/carnaval/2015/noticias/1656186-ile-aiye-prepara-carnaval-com-tema-sobre-diaspora-africana
DEUSA
DO ÉBANO de Geraldo Lima
“[...] Minha crioula/ Eu vou contar para você/
Que esta tão linda/ No meu bloco Ilê-Aiyê/ Com suas trancas muitas
originalidade/ Pela avenida cheia de felicidade/ Minha deusa do ébano [...]”
Mulheres que integram o bloco afro Ilê Aiyê
Imagem disponível em http://atarde.uol.com.br/carnaval/2015/noticias/1656186-ile-aiye-prepara-carnaval-com-tema-sobre-diaspora-africana
NEGRUME
DA NOITE de Paulinho do Reco
“Constituiu
um universo de beleza/ Explorando pela raça negra/ Por isso o negro lutou/ e
acabou invejado/ E se consagrou/ Ilê, Ilê Aiyê/ Tu és o senhor/ Dessa grande
nação (Dessa grande nação meu irmão) / E hoje os negros clamam/ A benção, a
benção a benção.”.
Refrãos
que afirmam a imponência das linguagens africano-brasileiras que persistem,
recriam, subvertem e continuam surpreendendo e expandindo os valores de civilização.
Imagem disponível em http://vibedoamor.com/tag/criancas/
Muito
orgulho!
A
seguir temos o prazer de compartilhar os vídeos que apresentam as músicas DEUSA
DO ÉBANO de Geraldo Lima interpretada por Lazzo Matumbi e NEGRUME
DA NOITE de Paulinho do Reco.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
TREM MALUCO
Por Marco Aurélio Luz
Na festa de premiação do MTV EMA de 2014 em Glasgow, o
roqueiro Ozzy Osbourne foi contemplado com o prêmio Ícone Global por uma carreira de destaque já de muitos anos com a
banda Black Sabbath.
Apresentação Crazy Train pelos roqueiros Simon Neil, Miles Kennedy, e Slash.
Foto diponível na internet.
Há algum tempo a tecnologia envolvida numa apresentação musical é a atração principal.
Essa predominância do valor da técnica é um ideal da
sociedade burguesa desde os tempos de Leonardo Da Vinci, do tempo das ¨Grandes
Descobertas¨ que iniciam a modernidade, até as ¨Guerras Mundiais¨ e a ¨Guerra
Fria¨. A indústria armamentista sempre lidera a corrida da técnica que depois
se desdobra na ideologia do conforto, e na indústria cultural. Tudo isso regido
pelo valor atribuído a acumulação de capital.
Avião bombardeando o Vietnã
Foto disponível na internet
Numa cena do filme Macunaíma quando o herói sai do sertão e
chega à grande cidade fica sarapantado de ver e tantos automóveis passando na noite
com suas luzes feéricas. Então encabulado e encafifado fica pensando pensando
até que sentenciou: a cidade era para as máquinas e não para gente.
Filme Macunaíma de 1969 escrito e dirigido por Joaquim Pedro
de Andrade baseado na obra homônima de Mário de Andrade.
Macunaíma e seus irmãos chegam na cidade grande.
Foto disponível na internet
Com uma interpretação única com pouco acompanhamento de guitarra e percussão, um leve back vocal, num contexto do clímax da ideologia de PAZ E AMOR ele marcou sua presença na história da música.
Joe Cocker em Woodstock.
Foto disponível na internet
Naquela ocasião o trem estava desenfreado porém caminhava nos trilhos. Todos sabiam o que queriam, ¨with a little help from my friends¨ (com uma pequena ajuda de meus amigos) . Sua interpretação da música dos Beatles ganhou o mundo.
Yoko e John em famoso ato de protesto contra a guerra.
Foto disponível na internet.
O rock como música afro-americana sempre se destacou por se
distanciar dos cânones estéticos puritanos que procuravam reger o contexto da
música. Se o jazz revolucionou pelas novas formas de composição musical,
todavia manteve-se numa forma e atmosfera bem comportada de concerto erudito
para poder existir.
Com James Brown e outros ele inclui novos elementos estéticos a nova musicalidade. Figurinos fulgurantes e dança rítmica compõem as apresentações com gritos e sincopas. O swing transborda dos instrumentos.
Com Michael Jackson o curso desse rio se alarga inundando de
criatividade a indústria cultural.
Conjunto de Jazz em 1925.
Foto disponível na internet
Com James Brown e outros ele inclui novos elementos estéticos a nova musicalidade. Figurinos fulgurantes e dança rítmica compõem as apresentações com gritos e sincopas. O swing transborda dos instrumentos.
James Brown foi figura estelar na divulgação do rock.
Foto disponível na internet.
Como na capoeira, surpresa dos golpes, esquivas e negaças,
disfarces e metamorfoses regem um caminho, do penteado black power nos inicios
do Jackson Five, a transformação em uma pantera negra no clip Black or White; quando então já era o
rei do pop superando a tudo e a todos. Inclusive começa a aceitar a maximização
da tecnologia para percorrer o caminho da indústria cultural para implodi-la
com valores de encantamento e beleza.
Michael Jackson o rei do pop.
Foto disponível na internet
Noutro ramal do rock desde Elvis Presley, passando pelos Beatles chegamos ao TREM MALUCO.
Como disse John Lennon aqui o sonho acabou e em seu lugar a
perda de sentido dos valores da contra cultura, caracteriza o descarrilamento
do trem. Em seu lugar a indústria cultural propõe o endeusamento da técnica, os
efeitos especiais, que exigem complexa equipe de especialistas e dinheiro...
O contexto de Ozzy Osbourne depois da guerra fria é de
espanto e angústia em meio a novas explosões. O trem descarrila e deixa todos
atônitos.
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