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PRODESE E ACRA



VIDA QUE SEGUE...Uma
das principais bases de inspiração do PRODESE foi a Associação Crianças Raízes
do Abaeté-Acra,espaço institucional onde concebemos composições de linguagens
lúdicas e estéticas criadas para manter seu cotidiano.A Acra foi uma iniciativa
institucional criada no bairro de Itapuã no município de Salvador na Bahia, e
referência nacional como “ponto de cultura” reconhecido pelo Ministério da
Cultura. Essa Associação durante oito anos,proporcionou a crianças e jovens
descendentes de africanos e africanas,espaços socioeducativos que legitimassem
o patrimônio civilizatório dos seus antepassados.
A Acra em parceria com o Prodese
fomentou várias iniciativas institucionais,a exemplo de publicações,eventos
nacionais e internacionais,participações exitosas em
editais,concursos,oficinas,festivais,etc vinculadas a presença africana em
Itapuã e sua expansão através das formas de sociabilidade criadas pelos
pescadores,lavadeiras e ganhadeiras,que mantiveram a riqueza do patrimônio
africano e seu contínuo na Bahia e Brasil.É através desses vínculos de
comunalidade africana, que a ACRA desenvolveu suas atividades abrindo
perspectivas de valores e linguagens para que as , crianças tenham orgulho de
ser e pertencer as suas comunalidades.
Gostaríamos de registrar o nosso
agradecimento profundo a Associação Crianças Raízes do Abaeté(Acra),na pessoa
do seu Diretor Presidente professor Narciso José do Patrocínio e toda a sua
equipe de educadores, pela oportunidade de vivenciarmos uma duradoura e valiosa
parceria durante o período de 2005 a 2012,culminando com premiações de destaque
nacional e a composição de várias iniciativas de linguagens, que influenciaram
sobremaneira a alegria de viver e ser, de crianças e jovens do bairro de
Itapuã em Salvador na Bahia,Brasil.


terça-feira, 7 de abril de 2015

LITERATURA INFANTO-JUVENIL AFRO-BRASILEIRA "OBÁ NIJÔ, O REI QUE DANÇA PELA LIBERDADE"


Professora aposentada da Universidade de Bielefeld, Alemanha

Moema Parente Augel

Com muita alegria, felicito a Editora Pallas pela publicação muito oportuna deste belo livro de Narcimária Correia do Patrocínio Luz, OBÁ NIJÔ, O REI QUE DANÇA PELA LIBERDADE, valiosa contribuição para a ainda escassa literatura infanto-juvenil afro-brasileira. 

A obra é enriquecida pelas ilustrações de Ronaldo Martins, imagens com traços e símbolos atraentes e significativos, inteiramente integradas e adequadas ao texto, coerentes com uma história de luta pela dignidade do povo negro no Brasil.
Ler e ouvir histórias é um importante impulso para a formação da criança e do adolescente pois amplia seu campo de informação e seus referenciais, reportando a sentimentos e emoções individuais e coletivos que influenciam a vida psíquica e social, proporcionando novos lugares de pertencimento identitário … ou de exclusão.

Coreógrafo Clyde Alafiju Morgan
Imagem disponível em http://correionago.ning.com/profiles/blogs/a-danca-e-a-acao-social

No Brasil, com sua multiplicidade étnica e a imposição de um padrão estético branco-ocidental, a mídia, seja ela falada ou escrita, em seu papel mobilizador de opinião, as artes, aí incluindo a literatura e a música, assim como a escola podem contribuir para a construção da identidade ou sua destruição, podem fortalecer a auto-estima ou intensificar o sentimento de inferioridade nos não brancos. Por isso mesmo, é especialmente necessário haver obras em que protagonistas negros, e índios também, sejam realçados positivamente, que personagens negras sejam apresentadas de forma altiva, que seja apresentada a existência e a atuação de heróis negros, reais e não apenas ficcionais. É o que acontece em OBÁ NIJÔ, O REI QUE DANÇA PARA A LIBERDADE.


Imagem disponível em http://inesrodrigues1.tumblr.com/post/60756307928/how-to-write-about-africa-tumblr-on-we-heart-it


O reconhecimento da origem comum  do pertencimento a um determinado grupo são fatores que influenciam fundamentalmente a identidade da criança. Sendo esse reconhecimento marcado por estímulos construtivos, a auto-estima e, com ela, a auto-afirmação, são reforçadas. Cimentar esse processo através da literatura é um dos recursos mais proveitosos e habilidosos para tal fim.


Imagem disponível em http://www.blahcultural.com/livro-conta-historia-da-cultura-africana-para-criancas/

Este livro não se direciona apenas a um público leitor afro-descendente, mas a todo brasileiro, independente de sua etnia ou origem, pois é de suma importância tanto o conhecimento e a divulgação de episódios de nosso passado histórico relativos à vida, ao labor e à resistência de nossos antepassados africanos, o que em geral ainda é silenciado, como a valorização da convivência na diversidade.
O herói Obá Nijô vai cativar de imediato não só as crianças e jovens que travarem conhecimento com ele, ao acompanhar sua vida em sua trajetória desde o nascimento, sua infância, as etapas de sua formação como dançarino da comunidade a que pertencia, empolgando mais adiante com a liderança que exerceu em sua comunidade e o papel libertário que representou.
Imagem disponível em http://veratabach.blogspot.com.br/2011_02_20_archive.html

A recriação da oralidade de origem africana no Brasil se mostra aqui pela narração da lenda da pedra que ronca, que deu o nome à localidade praiana Itapuã, hoje um conhecido bairro em Salvador, e onde se desenrola a trama. A realidade histórica apresenta, nas passagens discursivas do livro, personagens que realmente existiram e fatos que aconteceram durante o sistema escravista do Brasil colonial, como também correspondem à realidade histórica a referência a uma das fontes da economia da época, a caça às baleias, e a exploração impiedosa da mão de obra escrava nas armações espalhadas  no literal baiano.
Narcimária parte de um episódio concreto e real do passado brasileiro, para contar a vida e a singular trajetória de Obá Nijô, entrelaçando-a com informações factuais e de caráter histórico. A autora fascina os leitores com a singela história do menino que aprendeu a manifestar seus sentimentos e esperanças através da dança, descrevendo com vivacidade o aprendizado dos saberes de seus ancestrais e seus protetores espirituais a partir das tradições religiosas do povo negro, para abordar com sensibilidade pedagógica a questão mais ampla da opressão sofrida pelos africanos nas propriedades e empresas senhoriais e o papel de liderança exercido por Obá Nijô na resistência heroica contra a exploração e o roubo da liberdade.

Clyde Alafiju Morgan

Professor Associado de Dança Africana e Diretor Artístico do Dança Africana Sankofa e Ensemble Tambor na SUNY College, em Brockport.
Imagem disponível em http://www.brockport.edu/dance/people/cmorgan.html

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 Moema Parente Augel é mestre em Ciências Humanas pela Universidade Federal da Bahia e doutora em Literaturas Africanas pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Radicada na Alemanha, lecionou Português e Cultura Brasileira na Universidade de Bielefeld. Dedica-se, entre outras atividades, ao estudo da literatura afro-brasileira e da literatura guineense. Viveu na Guiné Bissau entre 1992 e 1998, tendo produzido e publicado diversos livros com ensaios analíticos tematizando a literatura daquele país.

sábado, 28 de março de 2015

ENTREVISTA:RONALDO MARTINS ILUSTRADOR DO LIVRO OBA NIJÔ


Em entrevista o professor   e pesquisador Ronaldo Martins ilustrador do livro “Obá Nijô o rei que dança pela liberdade” apresenta sua visão, desafios e alegrias ao falar da obra.


Gostaria de começar essa entrevista conversando um pouco sobre a proposta pedagógica “Agbon Arte, Beleza e Sabedoria Ancestral Africana” que você concebeu para a disciplina de Artes em escolas públicas de Salvador. Como nasceu a proposta e como ela foi desenvolvida?

Ronaldo Martins-Como artista plástico afro-brasileiro e professor de Artes, eu desejava muito transmitir a sabedoria que aprendi e desfrutei sobre os ancestrais africanos aos meus alunos e alunas. Eu queria contribuir para aumentar a autoestima deles, mostrar para eles que são possuidores de um rico e refinado patrimônio cultural, ainda vivo na cidade de Salvador. Desejava transmitir aquilo que aprendi com muitos mestres e mestras, como Deoscoredes Maximiliano dos Santos, o Mestre Didi, sacerdote do culto aos ancestrais, uma pessoa muito especial, possuidora de grande conhecimento da cultura dos nagôs na Bahia, que foi a fonte de inspiração do projeto AGBON.
A proposta foi desenvolvida quando ingressei no Programa de Descolonização e Educação – PRODESE, do Mestrado em Educação e Contemporaneidade da UNEB, programa coordenado pela Dra. Narcimária do Patrocinio Luz. No ano de 2004, quando ingressei no mestrado, apresentei a proposta AGBON: arte, beleza e sabedoria ancestral africana que foi aprovada.
O projeto AGBON era composto de uma Oficina de Artes Plásticas coordenada por mim e uma Oficina de Teatro, coordenada pela professora Nicolai Carmo de Brito. O projeto foi realizado de 2004 a 2008, no Colégio da Policia Militar, unidade Dendezeiros Envolveu em cada ano, cerca de 400 crianças e jovens, estudantes regulares do sexto ao oitavo ano do Ensino Fundamental.



O projeto Agbon cerne da dissertação de Ronaldo Martins,tornou-se um livro publicado pela EDUNEB em 2008.
No blog da ACRA você pode saber mais um pouco da publçicação fazendo o link http://blogdoacra.blogspot.com.br/2009/11/agbon-arte-beleza-e-sabedoria-ancestral.html.
Há  também uma resenha na Revista TEIAS da UERJ através do link http://www.periodicos.proped.pro.br/index.php/revistateias/article/view/374


Quais os principais desafios encontrados para desenvolver a proposta pedagógica Agbon?

Ronaldo Martins -O desafio inicial para realizar a atividade na escola que trabalho, o Colégio da Policia Militar, unidade Dendezeiros, em Salvador, foi encarar a falsa ideia propagada nas escolas, que associava, naquela época, o patrimônio africano - musica alimentação, dança, trabalho, medicina - preservado nos terreiros, como algo inferior. Para superar esse obstáculo procuramos mostrar as crianças, professores e diretores que longe de tratarmos de algo religioso, os orixás são arquétipos, símbolos vivos relacionados às atividades humanas: caça, colheita, tecnologia, medicina e as forças vitais que nos envolvem: o ar, a terra, água, as árvores e o movimento.
Nas primeiras aulas fiz questão de mostrar aos colegas professores e alunos que certas leituras equivocadas sobre a contribuição civilizatória dos nagôs são fruto do desconhecimento e do racismo. Mostrei que alguns discursos sobre as culturas ocidentais, quando se refere aos deuses retratados na arte grega clássica e na renascença, associado a algo positivo e civilizado, mas, ao tratar de cultura afro-brasileira, infelizmente, a contribuição civilizatória africana é vista como coisa de escravo. Como exemplo, quando se fala em Hermes, relacionado ao movimento, a comunicação, na cultura grega, é visto como algo erudito, mas, se fala de Exu, a força vital, o movimento, a comunicação, infelizmente, é tratado como algo negativo. Puro racismo, um ranço preconceituoso, fruto da falta de estudo e do desconhecimento do outro.



Foto disponível no blog ARTE AFROBRASILEIRA RONALDO MARTINS iniciativa do próprio artista. No blog Ronaldo destaca áreas, Arte AfroBrasileira  e Educação.  “Em Arte Afro-Brasileira de Ronaldo Martins o enfoque é dado às fotos dos quadros, esculturas, desenhos e as apreciações críticas publicadas nos catálogos das minhas exposições. Em EDUCAÇÃO o enfoque é dado a textos de minha autoria sobre Arte e Educação, Arte Afro-brasileira e Filosofia, disciplinas que leciono em uma escola publica de Salvador.” Para saber mais visite http://ronaldomartinss.blogspot.com.br/p/odara.html

Conte-nos sobre a sua aproximação com a história “Oba Nijô o rei que dança pela liberdade”?

Ronaldo Martins -Como uma pessoa comprometida com as questões do povo negro, ao ser convidado por Narcimária para ilustrar o livro “Oba Nijô o rei que dança pela liberdade” percebi que estava sendo solicitado a contribuir com minhas habilidades para que aquela semente crescesse. Interessei-me logo pela bela história e, junto com outros amigos, convidados para participarem no projeto, me dediquei a elaborar as imagens.



 É o primeiro livro seu como ilustrador para o público infanto-juvenil?

Ronaldo Martins -Não. Fiz um outro chamado a Casa dos Meninos Pássaros que trata sobre as crianças que moravam nas ruas de Salvador e fiz ilustrações para o livro História da Criação na tradição Yorubá.

Como foi o processo de criação/composição das ilustrações do livro?

Ronaldo Martins -Na verdade, a história de Obá Nijô é um pouco a trajetória de alguns de nós, pessoas que, ao perceberem a grandeza da cultura negra, encontram referenciais de dignidade para se espelhar. Uma forma de ser que busca sintonia com os outros seres humanos e com a natureza para viver melhor.
A história me encantou porque, quando jovem frequentava muito Itapuã, que para mim sempre foi um lugar especial em Salvador.



Lagoa do Abaeté em Itapuã
Foto disponível em http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Lagoa+do+Abaet%C3%A9,+Salvador,+Bahia&ltr=l&id_perso=6618

Os referenciais de memória, a experiência que tenho de mais de vinte anos trabalhando com a temática dos orixás em exposições no Brasil e no exterior, me auxiliaram a perceber o fio condutor da história e procurar ilustra-la.

Como você se sentiu quando concluiu as ilustrações?

Ronaldo Martins -Feliz, tinha consciência que estava em um processo delicado que necessitava desprendimento, consciência que se está fazendo pelo grupo, pela rica história do povo negro em Salvador.

Do conjunto de ilustrações do livro “Oba Nijô, qual a que você mais gosta”? Por quê?

Ronaldo Martins -Gosto muito da Feira. Mas a que o garoto dança para a água, me agradou mais. Eu lembro bem que eu estava trabalhando, minha irmã e meu sobrinho foram lá em casa. Ele tem quatro anos, fazendo as brincadeiras que toda crianças faz, foi para a sala, dançou e sorriu como o garotinho que desenhei.

Como professor e pesquisador da cultura africano-brasileira, quais as principais contribuições do livro “Oba Nijô o rei que dança pela liberdade” para o público infanto-juvenil?

Ronaldo Martins -Além de contribuir para o conhecimento histórico da civilização  africana na cultura nacional, o livro promove  a autoestima das crianças afro-brasileiras. Tem a questão do valorizar o seu lugar e aprender sobre ele, estamos em um momento em que se deprecia muito o Brasil, a cidade, é preciso estimular as pessoas a conhecer e valorizar o seu lugar.
O livro pode ser também um ótimo instrumento para tratar as questões contemporâneas de proteção e cuidado com a natureza.
No projeto anterior pude trabalhar com muitas crianças francesas, meninos e meninas que não sabiam nada de Brasil. Tendo como base a sabedoria afro-brasileira preservada em Salvador, pude conduzir uma oficina sobre o cuidado com a natureza. Foi ótimo. A identificação das crianças com a história dos herois africanos, foi imediata. Imagino que isso poderá acontecer também com o livro “Oba Nijô o rei que dança pela liberdade”. Agora é agradecer aos ancestrais, a todos os amigos e amigas que contribuíram com esse lindo projeto e dedicar ao Mestre Didi pela bela inspiração.

Desoscoredes Maximiliano dos Santos 
Mestre Didi 

Sobre o Ilustrador Ronaldo Martins

Licenciado em Desenho e Artes Plásticas pela Universidade Federal da Bahia- UFBA, Mestre em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB, pesquisador do PRODESE – Programa de Descolonização e Educação da CNPq/UNEB, professor de Artes, e coordenador do projeto AGBON: arte, beleza e sabedoria ancestral africana, em Salvador. Há cerca de vinte anos Ronaldo Martins vem desenvolvendo estudos e exposições sobre arte e cultura afro-brasileira ioruba/nagô. Em 1989, foi bolsista do CNPq/UFBA e realizou a sua primeira exposição individual de pinturas e esculturas através do projeto “O culto a Oxum em Salvador – Bahia e Oxogbô – Nigéria” que recebeu o Prêmio Jovem Pesquisador da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-graduação da UFBA. No período de 1995-1996, foi bolsista da Casa Internacional dos Artistas de Schieder-Schwalemberg na Alemanha, período em que residiu com artistas da China, Rússia, Inglaterra e Alemanha. Em novembro de 2005, Ronaldo Martins, juntamente com seis outros artistas brasileiros, representou o Brasil em exposições itinerantes em diversas cidades francesas no contexto do “Ano do Brasil na França”. Em fevereiro e março de 2009, convidado pelo centro cultural Ludwig-Harms-Haus em Hermannsburg na Alemanha, apresentou a exposição individual Zauber der Fremde. Afrobrasilinische Glaube in der Kunst Bilder von Ronaldo Martins - Magia do outro. O pensamento afrobrasileiro na arte de Ronaldo Martins. Os quadros de Ronaldo Martins fazem parte de acervos privados e públicos no Brasil, Estados Unidos, Suíça, França e Alemanha. Seus trabalhos gráficos ilustram capas e pôsteres de importantes publicações como a capa da Revista EXU nº29/1992 (Salvador-BA) e a Revista ILA nº 155/1993 (Bonn, Alemanha).

sábado, 14 de março de 2015

OBA NIJÔ O REI QUE DANÇA PELA LIBERDADE



Será lançado no dia 11/04 às 16 horas na Livraria Cultura do Shopping Salvador, o livro infanto-juvenil “OBA NIJÔ: o rei que dança pela liberdade” de autoria da professora e pesquisadora Narcimária Correia do Patrocínio Luz com ilustrações do artista plástico Ronaldo Martins.
Baseada em fatos que marcaram a Bahia no século XIX, a autora compõe uma história cuja linguagem lúdica estética própria para o público infanto-juvenil, conta a história da rebelião de 1814 que aconteceu nas armações de pesca no bairro de Itapuã, sob a importante liderança do africano “Francisco”, como está registrado nos arquivos da polícia da época.
Através da história de Oba Nijô, os professores encontram perspectivas pedagógicas necessárias para abordar a Lei 10.639/03 que trata do ensino da história e cultura afro-brasileira e africana e sua importância na formação da sociedade brasileira. Dessa forma, Oba Nijô contribui para elevar à autoestima das crianças, sobretudo, as crianças afro-brasileiras; valoriza a história das comunidades brasileiras, como o bairro de Itapuã, em Salvador; ajuda os professores a realizarem práticas pedagógicas que deem visibilidade a contribuição do povo negro à história do Brasil; aproxima o público infanto-juvenil da sabedoria africana nas escolas, um patrimônio de todo o povo brasileiro, além de promover o respeito e a preservação da cultura de matriz africana. 
O livro produzido pela Pallas Editora teve o apoio e incentivo do Ministério da Cultura através da Fundação Biblioteca Nacional-FBN e da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial-SEPPIR. A parceria da FBN e SEPPIR teve como objetivos: promover a democratização do acesso ao livro, à valorização da literatura brasileira e da produção cultural, artística, literária e científica de autores negros. 
Para saber mais e ir acompanhando os desdobramentos para o lançamento,visitem os links:
Editora PALLAS
http://www.pallaseditora.com.br/produto/Oba_Nijo/279/12/

sábado, 28 de fevereiro de 2015

AINDA A “NEGA DO CABELO DURO...?

Por Narcimária Correia do Patrocínio Luz

Nas sociedades tradicionais africanas, o cabelo simboliza a identidade profunda individual e coletiva de gerações. O cabelo africano é um patrimônio milenar e, como tal, constituiu uma das formas de comunicação mais radicais na dinâmica dos vínculos de sociabilidade que atravessaram o Atlântico. 
Cor, textura, cortes, tranças, penteados com adornos, tudo entrelaçado, comunicando narrativas que contam histórias de linhagens, famílias, instituições, hierarquias, papéis sociais que estruturam as relações primordiais que envolvem crianças, jovens e anciães nas comunidades.







Chamo atenção também para as formas de reterritorialização histórica das populações negras nas Américas e Caribe, que encontram na plasticidade do cabelo africano, próprio das culturas de participação, a riqueza estética que permite a expressão possível de um corpo livre em permanente movimento de afirmação identitária.

Cantor e Compositor Bob Marley

Professora e Ativista Ângela Davis nos anos de 1970
Imagem disponível em http://www.huffingtonpost.com/henry-a-giroux/angela-davis_b_3055913.html


Atriz Lupita Nyong'o 
Venceu o Oscar 2014  de melhor atriz coadjuvante no filem 12 Anos de Escravidão
Imagem disponível em http://www.cnbc.com/id/102460030
 Apesar do rico universo simbólico que constitui o cabelo como extensão do patrimônio civilizatório milenar africano, contemporaneamente ainda assistiu atônito a crianças, adolescentes, jovens e adultos submetidos a constrangimentos inaceitáveis por anunciar em suas cabeças esse vínculo ancestral com a África.Refiro-me aos discursos estéticos fixados na ideologia do recalque e racismo, que há séculos agridem as populações negras.

Gabriela Monteiro graduanda de  Design de moda da PUC-Rio ,assim como muitos descendentes de afrricanos/as no Brasil e no mundo,  esta semana foi alvo de racismo por parte de duas professoras que  fizeram piadas e comentários de cunho racista sobre o cabelo.
Imagem disponível em http://brasileirissimos.xpg.uol.com.br/caso-de-racismo-na-puc-rio-ganha-notoriedade-ao-ser-divulgado-em-perfil-de-aluna/

Já tive oportunidade de abordar aspectos do carnaval, destacando as geografias que recortam e modulam os espaços da folia momesca, agudizando tensões e conflitos entre civilizações. Aqui vou me referir a duas geografias: uma envolta no manto civilizatório neocolonial, alicerçada na política do embranquecimento, insistindo em constranger as mulheres negras por meio do estereótipo da “nega do cabelo duro que não gosta de pentear”, e o pior, o convite à agressão: “pega ela aí!”, “pra quê?”, “pra passar batom”.


 No carnaval de Salvador, essa música entra na classificação do mercado capitalista de “axé music”, aliás, essa sigla nada tem a ver com a complexidade semântica africano-brasileira. O mais triste de todo esse cenário é que, para homenagear os trinta anos desse “gênero musical”, a “nega do cabelo duro...” foi cantada em cima de um trio que trazia mulheres e homens negros vestidos com roupa e adereços da tradição africana. Muito triste!
A outra geografia está alicerçada nos valores e linguagens da civilização africano-brasileira presentes nas comunidades que singram vários bairros tradicionais de Salvador. As comunidades africano-brasileiras recusam veementemente a geografia do recalque que tenta deturpar e desmoralizar valores fundamentais do seu patrimônio civilizatório.

Vista aérea da Lagoa do Abaeté no bairro africano-brasileiro de Itapuã
Imagem disponível em http://cartografia0905.blogspot.com.br/2012_06_01_archive.html

Nessa geografia africano-brasileira nagô, axé é palavra sagrada, compõe a semântica do universo simbólico que dinamiza a atmosfera litúrgica do aiyê (mundo visível) e do orun (mundo invisível). Axé é pulsão das narrativas míticas que nos religam ao orixá e nossos ancestrais.Axé é força! Palavra pronunciada que carrega a energia vital que dá sentido ao nosso existir individual e coletivo.

Imagem disponível em http://www.jornalismo.com.br/index.php/conchinhas-do-mar-da-vida/mobile-com-conchas-do-mar1/

No discurso estético do carnaval africano-brasileiro, inclua-se aí a plasticidade dos cabelos com seus penteados e adereços interagindo com a música percussiva, vestuário, danças e dramatizações, as mulheres negras são abordadas pela imponência e integridade que as caracterizam. 

Desfile do bloco afro Bankoma 
Imagem disponível em http://www.ibahia.com/detalhe/noticia/bankoma-prepara-cd-em-comemoracao-de-15-anos-do-bloco/?cHash=d239685672e1587fb4eb3dacb3a8d36d

Mulheres negras que são lideranças expoentes nas Américas e Caribe, fundadoras de instituições, comunidades, famílias, elaboram e promovem a expansão de conhecimentos profundos que dão dignidade e asseguram a expansão comunitária. Exemplos fundamentais dessas trajetórias femininas na história do carnaval no Brasil são os ranchos de carnaval, como o Rosa Branca de Tia Ciata, as Escolas de Samba, afoxés e blocos afros que africanizam (parafraseando Marco Aurélio Luz) o carnaval brasileiro, reterritorializando-o, estabelecendo insurgências eternizadas pelas mensagens éticas e estéticas anunciadas pelos cabelos, alegorias, figurinos, danças, ritmos, músicas etc. 

A Velha Guarda da Mangueira

Imagem disponível em https://falacarioca.wordpress.com/2011/04/01/roda-de-samba-com-velha-guarda-da-mangueira/Rosa Branca de Tia Ciata

 No seu livro A Cidade das Mulheres, Ruth Landes, antropóloga americana que na década de trinta esteve no Brasil, destacou que na Bahia: “[...] as mulheres negras encontraram mais reconhecimento, do seu próprio povo [...] Uma distinta sacerdotisa chamou a sua cidade de Roma Negra, dada a sua autoridade cultural; foi aqui que as mulheres negras atingiram o auge de eminência e poder, tanto sob a escravidão como após a emancipação. Controlando os mercados públicos, as sociedades religiosas e também suas famílias.” (LANDES, 1961:112)
A sacerdotisa que usou a expressão Roma Negra a qual se referiu Ruth Landes foi Mãe Aninha, a Iyá Oba Biyi, fundadora da comunidade-terreiro Ilê Axé Opô Afonjá e que acolheu e orientou a iniciativa do Mestre Didi, em 1935, de criar o de afoxé Pae Burokô.


Mãe Aninha 
Imagem disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Eug%C3%AAnia_Anna_Santos

Mestre Didi Asipá
Imagem disponível em http://www.jornalopcao.com.br/posts/ultimas-noticias/morre-o-artista-plastico-mestre-didi

Subvertendo os espaços do carnaval, saturado pela estética da política do embranquecimento e seu discurso perverso da “nega do cabelo duro que não gosta de pentear”, dois exemplos aqui são bem-vindos: bloco Didá que levou para as ruas no carnaval as linguagens estéticas das mulheres negras que vivem a identidade profunda das comunidades africano-brasileiras. 


Bloco Didá carnaval 2015





Bloco Didá carnaval 2015


As componentes do bloco desfilaram de modo imponente, apresentando a dinâmica plástica dos cabelos e com vestes e adereços fazendo alusão ao princípio feminino das águas doces, representadas por Oxum, orixá patrono da fecundação e da gestação.
Bloco Didá carnaval 2015




 Outro momento singular foi a saída majestosa do bloco afro Ilê Aiyê adornado pelos rituais da tradição presididos pelas lideranças femininas que dão continuidade aos ensinamentos de Mãe Hilda. 


Saída do Ilê do Curuzú Carnaval 2015
A emoção atravessa a avenida, com o Ilê arrastando uma multidão cantando com força e muita vibração músicas que marcam a identidade do bloco afro, como os refrãos das músicas:
DEUSA DO ÉBANO de Geraldo Lima
 “[...] Minha crioula/ Eu vou contar para você/ Que esta tão linda/ No meu bloco Ilê-Aiyê/ Com suas trancas muitas originalidade/ Pela avenida cheia de felicidade/ Minha deusa do ébano [...]”
Mulheres que integram o bloco afro Ilê Aiyê



NEGRUME DA NOITE de Paulinho do Reco
“Constituiu um universo de beleza/ Explorando pela raça negra/ Por isso o negro lutou/ e acabou invejado/ E se consagrou/ Ilê, Ilê Aiyê/ Tu és o senhor/ Dessa grande nação (Dessa grande nação meu irmão) / E hoje os negros clamam/ A benção, a benção a benção.”.
Refrãos que afirmam a imponência das linguagens africano-brasileiras que persistem, recriam, subvertem e continuam surpreendendo e expandindo os valores de civilização.


Imagem disponível em http://vibedoamor.com/tag/criancas/

Muito orgulho!

A seguir temos o prazer de compartilhar os vídeos que apresentam as músicas DEUSA DO ÉBANO de Geraldo Lima interpretada por Lazzo Matumbi e NEGRUME DA NOITE de Paulinho do Reco.

DEUSA DO ÉBANO ILE AIYE

Negrume Da Noite - Ilê Aiyê

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

TREM MALUCO

                             Por Marco Aurélio Luz

Na festa de premiação do MTV EMA de 2014 em Glasgow, o roqueiro Ozzy Osbourne foi contemplado com o prêmio Ícone Global por uma carreira de destaque já de muitos anos com a banda Black Sabbath.




Ozzy Osbourne recebe troféu MTV das mãos de Slash.

 Foto disponível na intrnet

Os roqueiros Simon Neil, Miles Kennedy, e Slash prestaram uma homenagem apresentando o sucesso marcante de Osbourne Crazy Train.
O que chama atenção de mais uma interpretação dessa música famosa foi o aparato pirotécnico que revestiu a apresentação. O fogaréu engolfou a música e se tornou a estrela do show.



 Apresentação Crazy Train pelos  roqueiros Simon Neil, Miles Kennedy, e Slash.
Foto diponível na internet. 

Há algum tempo a tecnologia envolvida numa apresentação musical é a atração principal.
Essa predominância do valor da técnica é um ideal da sociedade burguesa desde os tempos de Leonardo Da Vinci, do tempo das ¨Grandes Descobertas¨ que iniciam a modernidade, até as ¨Guerras Mundiais¨ e a ¨Guerra Fria¨. A indústria armamentista sempre lidera a corrida da técnica que depois se desdobra na ideologia do conforto, e na indústria cultural. Tudo isso regido pelo valor atribuído a acumulação de capital.



Avião bombardeando o Vietnã
Foto disponível na internet

Numa cena do filme Macunaíma quando o herói sai do sertão e chega à grande cidade fica sarapantado de ver e tantos automóveis passando na noite com suas luzes feéricas. Então encabulado e encafifado fica pensando pensando até que sentenciou: a cidade era para as máquinas e não para gente.




Filme Macunaíma de 1969 escrito e dirigido por Joaquim Pedro de Andrade baseado na obra homônima de Mário de Andrade.
Macunaíma e seus irmãos chegam na cidade grande.
Foto disponível na internet

Há pouco tempo o cantor Joe Cocker nos deixou. Sua atuação no famoso encontro da contra cultura em Woodstock o tornou um ícone global. Era um momento histórico que a juventude se rebelava contra a guerra do Vietnã.




Símbolo Paz e Amor da Contra Cultura.

Foto disponível na internet

Com uma interpretação única com pouco acompanhamento de guitarra e percussão, um leve back vocal, num contexto do clímax da ideologia de PAZ E AMOR ele marcou sua presença na história da música.





Joe Cocker em Woodstock.

Foto disponível na internet

 Naquela ocasião o trem estava desenfreado porém caminhava nos trilhos. Todos sabiam o que queriam, ¨with a little help from my friends¨ (com uma pequena ajuda de meus amigos) . Sua interpretação da música dos Beatles ganhou o mundo.




Yoko e John em famoso ato de protesto contra a guerra.
Foto disponível na internet.

O rock como música afro-americana sempre se destacou por se distanciar dos cânones estéticos puritanos que procuravam reger o contexto da música. Se o jazz revolucionou pelas novas formas de composição musical, todavia manteve-se numa forma e atmosfera bem comportada de concerto erudito para poder existir.





Conjunto de Jazz em 1925.
Foto disponível na internet

 Com James Brown e outros ele inclui novos elementos estéticos a nova musicalidade. Figurinos fulgurantes e dança rítmica compõem as apresentações com gritos e sincopas. O swing transborda dos instrumentos.



James Brown foi figura estelar na divulgação do rock.
Foto disponível na internet.


Com Michael Jackson o curso desse rio se alarga inundando de criatividade a indústria cultural.
Como na capoeira, surpresa dos golpes, esquivas e negaças, disfarces e metamorfoses regem um caminho, do penteado black power nos inicios do Jackson Five, a transformação em uma pantera negra no clip Black or White; quando então já era o rei do pop superando a tudo e a todos. Inclusive começa a aceitar a maximização da tecnologia para percorrer o caminho da indústria cultural para implodi-la com valores de encantamento e beleza.




Michael Jackson o rei do pop. 

Foto disponível na internet

Noutro ramal do rock desde Elvis Presley, passando pelos Beatles chegamos ao TREM MALUCO.
Como disse John Lennon aqui o sonho acabou e em seu lugar a perda de sentido dos valores da contra cultura, caracteriza o descarrilamento do trem. Em seu lugar a indústria cultural propõe o endeusamento da técnica, os efeitos especiais, que exigem complexa equipe de especialistas e dinheiro...
O contexto de Ozzy Osbourne depois da guerra fria é de espanto e angústia em meio a novas explosões. O trem descarrila e deixa todos atônitos.