Amigos europeus, norte americano, chineses e irmãos das outras nações do planeta.
sexta-feira, 30 de agosto de 2019
CARTA DA AMAZÔNIA
Amigos europeus, norte americano, chineses e irmãos das outras nações do planeta.
Infelizmente, para salvação da floresta amazônica, com o atual governo
brasileiro não existe diálogo. O que pode funcionar é uma efetiva comoção
mundial e ação política, econômica, religiosa e educacional contra a devastação
da floresta e pela sua proteção. Imagino que só assim, a base de sustentação
desse governo: pecuaristas, religiosos evangélicos, banqueiros, extrativistas,
militares e todo o agronegócio, mudará a atitude de conivência ou indiferença
aos horrores praticados por esse governo contra a floresta e os povos
tradicionais da Amazônia.
Com esse governo não funciona conversa, só ação. Pois é assim que ele
atua, diz uma coisa depois diz outra, polemiza e depois joga a culpa nos outros...
Mas, no fundo, está atuando, desmontando a estrutura de proteção da floresta e
suas organizações. Ele faz primeiro e depois engana, leva tudo na enrolação,
diz que não fez. Com o atual presidente e sua equipe não tem negociação é agir
em todas as frentes e proteger a floresta e seu povo.
Para muitos moradores das várias regiões brasileiras a Amazônia ainda é
um lugar distante e estranho e, a questão das queimadas na floresta amazônica
só esta sendo percebida de forma mais efetiva, porque em São Paulo, mais
importante cidade brasileira e maior colégio eleitoral brasileiro, região que o
atual presidente teve muitos votos, a poucos dias, essa cidade foi afetada
pelas nuvens de poluição gerada pelas queimadas na Amazônia. Infelizmente, nós
brasileiros, estamos colhendo o que plantamos.
O que fazer nesse momento de destruição do planeta? Aí a briga é de
peixe grande. Para uma ação de um Estado autoritário e irresponsável, uma reação
efetiva de outros Estados. Boicote aos produtos brasileiros até que ele mude
suas ações. O jogo é pesado.
E nós, como força efetiva, sofremos, protestamos, oramos pela floresta
e, eu acredito, que após a reação efetiva dos chefes de Estado do mundo, as
coisas melhorarão.
A questão da preservação da floresta amazônica e proteção dos povos
tradicionais, entretanto, não estarão resolvidas após a pressão internacional e
as ações emergenciais de combate aos focos de incêndio na floresta. O problema
é que, o atual governo e sua equipe estão esperando os ânimos se acalmarem para
continuarem sua ação de desmonte e massacre da floresta e seu povo. Por isso a
atuação de combate feita por líderes internacionais, jornalistas, professores,
religiosos, militares e todos os povos do mundo contra as ações erradas do
governo brasileiro, tem que ser constante e contundente.
O positivo nesse momento difícil no mundo, é que boa parcela das
pessoas já percebeu como o atual governante brasileiro age, e não acredita em
nada que ele diz.
Obrigado aos amigos e aos povos do mundo por agir. Atuar em um momento
que nós brasileiros, infelizmente, ainda estamos indiferentes à destruição da Amazônia. Estamos envoltos em uma nuvem densa de
disputa política entre governo e oposição. Escondemos nas nossas atitudes de
disputa vazia e boba entre oposição e governo, o grave erro de termos posto no
poder um governante que destrói o que possuímos de mais precioso, a floresta
Amazônica e seu povo.
Salvador, 25 de agosto de 2019. RONALDO MARTINS – professor e artista
afro-brasileiro.
sexta-feira, 2 de agosto de 2019
quarta-feira, 17 de julho de 2019
segunda-feira, 8 de julho de 2019
MUNIZ SODRÉ, IMORTAL DA ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA
Indubitavelmente, o currículo do Obá de Xangô do Ilê Axé Opô Afonjá,
Muniz Sodré, o credencia a ocupar uma das cadeiras da Academia de Letras da
Bahia (ALB), da Academia Brasileira de Letras ou de outras academias, que assim
desejem. Professor universitário, jornalista, sociólogo, tradutor, escritor,
pesquisador, candomblecista o baiano da cidade de São Gonçalo dos Campos é o
mais novo imortal da ALB. Eleito no dia de Santo Antônio, 13 de junho deste
ano, o também filho de Xangô irá ocupar a cadeira de número 33, sucedendo a
escritora Mãe Stela de Oxóssi, sua Mãe de Santo.
O ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional possui graduação em
Direito pela Universidade Federal da Bahia (1964), mestrado em Sociologia da
Informação e Comunicação – Université de Paris IV (Paris-Sorbonne) (1967) e
doutorado em Letras (Ciência da Literatura) pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro (1978), além de ser Livre-Docente em Comunicação pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Como se não bastasse os diversos títulos
acadêmicos, o Obá Muniz Sodré, portanto ministro de Xangô, é leitura
obrigatória em discussões sobre afro-brasilidades e comunicação, por exemplo.
Muniz Sodré, Marco Aurélio Luz e Jaime Sodré .
Imagem : acervo M. A. Luz
Sodré, que em 2015 participou pela segunda vez do Simpósio Internacional
de Baianidade (SINBAIANIDADE), na oportunidade ao lado de Marco Aurélio Luz
(UFBA), Jaime Sodré e Raimundo Sodré, é autor de dezenas de livros e artigos
científicos, também possui produção literária com romances e contos,
notabilizando-se cientista e artista da palavra. Ainda entre as diversas
expertises de nosso mais novo escolhido da ALB, deve-se lembrar seu domínio de
idiomas como o alemão, inglês, espanhol, francês, italiano, russo e iorubá.
Declinar, aqui, todo o currículo do Pai Muniz Sodré, como é chamado pela
comunidade Afonjá, ocuparia boa parte de todo nosso prestigiado jornal.
Certamente, tão importante quanto reafirmar as credenciais de um dos
comendadores do SINBAIANIDADE, é festejar a escolha e parabenizar a ALB por
entender a necessidade da permanência da energia de Xangô Afonjá entre seus
membros. Xangô, como anunciado por Édison Carneiro, é o patrono dos
intelectuais, exercendo patronato em todos os territórios do saber. Toda a
comunidade negra brasileira festeja o reconhecimento a Muniz Sodré. Todas e
todos que entendem o valor dos trabalhos intelectual e artístico festejam a
escolha do, agora, duplamente imortal. Primeiro imortal por ser um ministro do
Rei Xangô, em seguida conduzido por Xangô à imortalidade da ALB. É bem
provável, que acima dos presentes na posse de Muniz Sodré, os orixás e a
ancestralidade ocupem as cadeiras para verem um dos seus sendo condecorado.
Batas e anáguas estarão sobre nossas cabeças!
****************
Gildeci de Oliveira Leite
Escritor, professor da UNEB, sócio do Instituto Geográfico e Histórico
da Bahia
Artigo publicado em 07.07.2019 no A Tardesegunda-feira, 1 de julho de 2019
HOMENAGEM AO REI DO POP
O artista brasileiro Eduardo Kobra presta homenagem a Michael Jackson com essa linda obra em Nova York.
Imagem disponível na internet
segunda-feira, 20 de maio de 2019
domingo, 12 de maio de 2019
13 DE MAIO DIA DO PRETO VELHO
Representação da rainha Ginga. Nzinga Ngola Nbandi Kiluanji, rainha do Ndongo, Angola , no século XVII. Manteve seu território independente frente aos escravistas portugueses através da tática dos Kilombos, acapamentos militares, guerra de movimento. Personagem das Congadas e tem seu nome na base da capoeira Angola.
Imagem disponível na internet
Dia do Preto Velho Homenagem ao Tata Tancredo
“Reunidos numa grande praça cercada com palha de palmeira,
mais de 200 candongueiros soavam seus instrumentos para anunciar a presença do
Tata Tancredo que caminhava em direção ao trono sob um pálio comandando um
séquito de lideranças religiosas e diante de centenas de iniciados na Umbanda e
Omoloko. Após essa cerimônia cada terreiro se dirigia ao seu espaço onde a
curimba acontecia noite adentro em Inhoaíba.
Na praça estava um busto de Mãe Senhora, Iyalorixá do Ilê
Axé Opo Afonja lembrando a homenagem acontecida no Maracanã.”
Marco Aurélio Luz
Tata ti Inkice Folketu Olorofe, Tancredo da Silva Pinto
Tata Tancredo da Silva Pinto: pequena biografia do incentivador da Umbanda Omolokô
por Mário Filho·
Esse texto foi
escrito em 2010 e reescrito agora, tendo por base os Estatutos da
"Sociedade Instituto Sanatório Espiritual do Brasil" e de várias
outras fontes.
Tancredo da Silva Pinto, escritor, compositor, sambista e
umbandista brasileiro, nasceu em 10 de agosto de 1905 no município de
Cantagalo, então Estado da Guanabara. Ainda na adolescência veio para o
município do Rio de Janeiro.
Tancredo da Silva Pinto, Tata Ti Inkice, é considerado o
organizador do culto Omoloko no Brasil e o responsável direto pela reunião dos
adeptos dos cultos afro-brasileiros em Federações Umbandistas para defender o
seu direito de ter e cultuar uma religião afro-brasileira. Seu nome religioso
(Sunna[1]) era Fọ̀lkétu Olóròfẹ̀. Foi chamado, muitas vezes, de o “Papa Negro
da Umbanda”.
Tancredo, apesar de ter ficado famoso pelo grau sacerdotal
“Tata” (pai), utilizado nos Candomblés Angola para designar o Sacerdote,
Tancredo da Silva Pinto, na hierarquia da Umbanda Omolokô, era tratado por
Babalaô (do Yorùbá, Babaláwo).
Era filho de Belmiro da Silva Pinto e de Edwirges de Miranda
Pinto, sendo seus avós maternos Manoel Luis de Miranda e Henriqueta Miranda. Sua
árvore genealógica remonta a grandes estudiosos e praticantes de Religiões
Tradicionais Africanas.
Seu avô foi fundador dos primeiros blocos carnavalescos,
tendo fundado os blocos "Avança" e "Treme-Terra", bem como
o "Cordão Místico", uma mistura de samba de caboclo com o ritual
africano, em que sua tia, Olga, saía vestida de "Rainha Jinga".
Seu pai, Belmiro, era considerado o melhor tocador de violão
de sua época e tinha em seu histórico o título de excelente ferrador, bem como
de exímio tratador de animais, sendo ainda criador de pássaros de diversas
qualidades.
Em 1950, devido a grandes perseguições aos umbandistas nos
mais diversos Estados da União, assim como no antigo Distrito Federal, fundou a
Federação Espírita de Umbanda, com a qual rompe em 1952. Viajou por quase todo
o país, fundando filiais da Federação com o objetivo de organizar e dar
personalidade à Umbanda. Fundou as Federações dos seguintes Estados: Rio de
Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Pernambuco e outros.
Criou, para melhor mostrar seu culto de Umbanda ao povo em geral, as seguintes
Festas Religiosas: Festa de Yemanjá, no Rio de Janeiro; Yaloxá, na Pampulha -
Belo Horizonte; Cruzambê, em Betim - Minas Gerais; Festa de Preto Velho, em
Inhoaíba - Rio de Janeiro; Festa de Xangô, em Pernambuco; "Você sabe o que
é Umbanda" no Estádio do Maracanã, RJ, e finalmente a Festa da Fusão,
realizada no centro da Ponte Rio-Niterói.
Oferenda à Iemanja´no Rio de Janeiro.
Imagem disponível na internet.
Oferenda à Iemanja´no Rio de Janeiro.
Imagem disponível na internet.
Segundo Tancredo da Silva Pinto, a primeira sociedade umbandista criada para defender os direitos dos umbandistas no Rio de Janeiro e no Brasil foi a "União", fundada em 1941. Segundo ele, naquela época, devido às perseguições policiais, os cultos eram acompanhados por bandolim, cavaquinho e órgão, porque não era permitido tocar tambores (atabaques). No Rio de Janeiro, os cultos afro-brasileiros foram professados dessa maneira até 1950.
O motivo que levou Tancredo a criar federações umbandistas
para defender os direitos dos cultos afro-brasileiros desenrolou-se na casa de
santo de sua tia, Olga da Mata, a qual foi narrada por ele:
Esse episódio passou-se na casa da minha tia Olga da Mata.
Lá arriou Xangô, no terreiro São Manuel da Luz, na Avenida Nilo Peçanha, 2.153,
em Duque de Caxias. Xangô falou: – Você deve fundar uma sociedade para proteger
os umbandistas, a exemplo da que você fundou para os sambistas, pois eu irei
auxiliá-lo nesta tarefa. Imediatamente tomei a iniciativa de fazer a
Confederação Umbandista do Brasil, sem dinheiro e sem coisa alguma. Tive uma
inspiração e compus o samba General da banda, gravado por Blecaute, que me deu
algum dinheiro para dar os primeiros passos em favor da Confederação Umbandista
do Brasil.[2]
Depois desse fato, Tancredo fundou a Confederação Umbandista
do Brasil, usando parte do pagamento recebido pelo direito autoral do samba
"General da Banda" (fazendo uma alusão ao Orixá Ogun), gravado por
Bleckaute, e ajudou a fundar, em outros Estados, novas federações umbandistas,
a fim de defender os direitos dos cultos afro-brasileiros. Ele afirmava que a
Confederação Umbandista do Brasil, fundada em 1952, foi criada “com a
finalidade de restabelecer a tradição antiga, em toda sua força e pureza
primitiva”[3], ou seja, a origem africana da Umbanda.
Foi significativa a posição de Tancredo da Silva Pinto
contra as propostas de desafricanização da Umbanda, divulgadas nas palestras do
1º Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda (1941). Tancredo dizia que
achava graça quando ouvia os “líderes da Umbanda Branca” dizendo que a religião
sofre influência das tradições africanas. Para ele “a Umbanda é africana (gn),
é um patrimônio da raça negra” (FREITAS e PINTO, 1957, p. 58). Esse viés
africanista da Umbanda pode ser visto em uma de suas afirmações: “Terreiro de
Umbanda que não usar tambores e outros instrumentos rituais, que não cantar
pontos em linguagem africana, que não oferecer sacrifício de preceito e nem
preparar comida de santo, pode ser tudo, menos Terreiro de Umbanda.”[4]
Vovó Rainha Maria Conga, terreiro de Umbanda de D. Maria Batuque no morro D. Marta em 1972.
Foto: Roberto Moura
Para afirmar a característica africana da Umbanda e dar uma formação intelectual aos praticantes do Omolokô, organiza no Rio de Janeiro o primeiro curso de língua e cultura Iorubá.
Vovó Rainha Maria Conga, terreiro de Umbanda de D. Maria Batuque no morro D. Marta em 1972.
Foto: Roberto Moura
Para afirmar a característica africana da Umbanda e dar uma formação intelectual aos praticantes do Omolokô, organiza no Rio de Janeiro o primeiro curso de língua e cultura Iorubá.
A pesquisadora Stefani Capone nos fala sobre essa dicotomia
Umbanda-Branca e Umbanda-Africana e o papel de Tata Tancredo:
A partir dos anos 1950, várias outras federaçôes de Umbanda
foram criadas no Rio de Janeiro. Três delas reuniam os centros que se
reconheciam na umbanda branca como o de Zélio de Moraes ou a Tenda Mirim de
Benjamim Figueiredo. Esses centros não
aceitavam o uso de atabaques, os sacrifícios de animais, nem qualquer mistura
com o Candomblé. As três outras federações defendiam uma forma de Umbanda de
orientação africana. A mais importante delas foi a Federação Espírita
Umbandista, fundada em 1952 por Tancredo da Silva Pinto, que logo se tornou o
porta voz dos praticantes da umbanda "africana", alcançando
rapidamente grande popularidade. Ele defendia uma umbanda "popular"
que reivindacasse suas origens nas tradições africanas. Tratava-se, pois, do
primeiro movimento de volta às origens no meio dos cultos do Rio de Janeiro.
Tata ti Inkice.
Imagem disponível na internet.
Tata ti Inkice.
Imagem disponível na internet.
Tancredo da Silva Pinto publicou muitos livros em que apresentou a Umbanda como parte da herança africana. A Umbanda, portanto, começou a se organizar em torno de dois pólos opostos: um formado pela umbanda "branca", influenciada pelo kardecisrno e pelo desejo de criar uma imagem socialmente respeitável e, logo, não-africana; e o outro, pela Umbanda “africana” que reinvindicava seus laços com os cultos afro-brasileiros, tendo os terreiros de Umbanda se distribuído ao longo desse continuum, que ia de uma forma branca a uma forma africana.[5]
Tata Tancredo sempre foi muito polêmico, como podemos ver
nessa afirmação:
Hoje, uma vasta onda de mistificação invadiu a Umbanda.
Criaram, os intrusos, uma Umbanda branca, uma Umbanda mista, modificaram o
ritual sagrado, e, pior, sob o ponto de vista espiritual, introduziram o
comercialismo na seita. Escritores improvisados publicaram livros cheios de
erros e fantasias, servindo a Umbanda de capa a atividades inteiramente
comerciais. Para completar a mistificação, pessoas que nada conhecem dos
mistérios de Umbanda, que nunca foram Sacerdotes, que nunca fizeram ‘cabeça’,
abriram centros e tendas, montaram consultórios luxuosos, onde os clientes são
atendidos mediante fichas numeradas.[6]
Tancredo instituiu as festividades à Iemanjá no Rio de
Janeiro - RJ, à exemplo das festividades que aconteciam em Salvador – BA. As
primeiras aconteceram na mesma data que na Bahia, 02 de fevereiro, mas com o
tempo elas passaram a ser feitas no dia 31 de dezembro.
Foi um dos fundadores da União de Escolas de Samba em 1935
que organizaria os desfiles sob o patrocínio de Pedro Ernesto. Em 1936 se torna
sócio-fundador da União Brasileira de Compositores. Torna-se, também, sócio da
Ordem dos Músicos do Brasil. Criou o samba de breque com Moreira da Silva e
ideou a lei que instituiu o enredo exclusivamente nacional. Ator de cinema na
antiga Cinédia e jornalista fundou a revista “Mironga”. Gravou muitos pontos
cantados de Umbanda, que ficaram famosos nacionalmente. Além do célebre samba
“General da Banda”, compôs vários outros, inclusive em parceria com Zé Kéti.
Tata Tancredo tinha uma coluna semanal no jornal “O Dia”, de
maior circulação no Rio de Janeiro, na qual desenvolvia um trabalho de
divulgação da Umbanda, recomendando que sua prática deveria sempre estar
atrelada às origens africanas. Escreveu durante 25 anos essa coluna.
A pesquisadora Diana Brown, que pesquisou a Umbanda no Rio
de Janeiro, surpreendeu-se com a fama e popularidade que possuía Tancredo nas
classes mais baixas das populações cariocas. Muitas pessoas, segundo a autora,
mencionavam o nome de Tata Tancredo e muitos Terreiros de Umbanda que existiam
nas periferias cariocas eram filiados à Confederação de Umbanda do Brasil.
Segundo a pesquisadora, ainda, Tancredo mantinha alianças com outros líderes
umbandistas, “com os quais articulava uma posição africanista para a Umbanda,
demonstrando forte antagonismo para com os líderes da chamada Umbanda
Branca.”[7]
Sempre contou com o
apoio e compreensão das autoridades civis, militares e eclesiásticas nos seus
empreendimentos. Dentre os seus contatos e estreitos relacionamentos políticos
destacam-se o Governador Chagas Freitas, Negrão de Lima, Deputado Átila Nunes,
o Chefe da Casa Civil Golbery do Couto e Silva, Deputado Marcelo Medeiros e
Deputado Miro Teixeira, etc. Mantinha proximidade muito grande com Mãe Senhora
(Ọ̀ṣun Mìwà), terceira Ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá (a segunda Casa de
Candomblé Ketu do Brasil).
O antropólogo Marco Aurélio Luz nos conta que Tata Tancredo
prestou homenagem a Mãe Senhora, em uma festividade no Maracanã, em 1965,
escolhendo-a como a “Mãe Preta do Brasil”, erigindo-lhe estátua numa Praça em
Campo Grande (Rio de Janeiro). Nessa praça, segundo o autor, Tata Tancredo
“realizava o encontro de centenas de terreiros em homenagem aos ancestrais,
conhecidos na Umbanda como Preto Velho”.[8]
Em vida ainda recebeu diversas comendas e homenagens pelos
serviços prestados às religiões afro-brasileiras. Especialmente como fiel
defensor da prática africanista no culto de Umbanda: o Omolokô. Recebeu em
Sessão solene da Câmara Estadual do antigo Estado da Guanabara, o título de
Cidadão Carioca, pelos serviços prestados em favor do povo. Teve publicada mais
de 30 obras literárias, divulgando a Umbanda e o Omolokô. Foi fundador e
colaborador de diversos jornais e revistas destinadas a esclarecer e orientar
os adeptos da religião afro-brasileira. O humilde e analfabeto estafeta dos
correios “escreveu” diversas obras de cunho umbandista e manteve colunas
diárias, algo impensável!
Protagonizou uma série de debates com outro intelectual
umbandista W.W. da Matta e Silva (o fundador da Umbanda Esotérica). Para
Tancredo a Umbanda tem raízes na África, que teria se desenvolvido, à exemplo
do Candomblé, nos quilombos e nas senzalas. Matta e Silva não concordava com
isso e preferia o embranquecimento da Umbanda, tirando, em grande parte, a
influência da África na Umbanda. A Umbanda Esotérica (ou Iniciática) propugna
as mesmas conclusões do 1º Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, que
a Umbanda é um fenômeno que não possui ligações com a África, mas sim com
Lemúria, Atlântida, Índia, ou seja, com qualquer coisa menos com a África.
Percebe-se, assim, o grande preconceito que há contra a influência africana na
Umbanda. Uma análise melhor sobre isso pode ser visto em nosso texto no
endereço:
http://sites.google.com/site/caboclopanteranegra/textos-doutrinarios-e-informativos/importancia-do-estudo-da-mitologia-africana.
O que nos chama a atenção é que nas Umbandas que são
refratárias às influências africanas os Sacerdotes se utilizam de nomenclaturas
africanas para designarem seus cargos e postos, tais como Babalaô, Babalorixá,
Babá, Cambono, Ogã etc.
Tata Tancredo faleceu em 01 de Setembro de 1979, sendo
sepultado no dia seguinte às 15:00hs, na quadra 70, carneiro 3810 do Cemitério
de São Francisco Xavier, à Rua Pereira de Araújo, nº. 44, Rio de Janeiro. As
despedidas ao seu corpo foram realizadas no Ilê de Umbanda Babá Oxalufan,
situado a Avenida dos Italianos nº.1120, em Coelho Neto, onde seu corpo foi
velado. No livro de registro de filhos de santo estão registrados mais de 3.566
filhos de santos que foram iniciados por Tata Tancredo.
O Sirum (Axexê), cerimônia de encomenda do corpo de pessoa
falecida, foi realizado por José Catarino da Costa, conhecido como Zé Crioulo,
filho de Xapanam[9] e confirmado como Ogã no Terreiro de Tio Paulino da Mata e
Tia Olga da Mata.
Uma das curiosidades de Tancredo, segundo o pesquisador,
escritor, músico e compositor Nei Lopes é que ele teria sido Pai de Santo do
“bispo” Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus.[10] Nei Lopes
publica um artigo, que aborda a biografia de Tata Tancredo e seu envolvimento
com o samba. Em seguido eu o coloco na íntegra:
TANCREDO, O GENERAL DA BANDA
No carnaval de 1950, um samba diferente ganhava as ruas, na
voz do saudoso cantor Blecaute. Constava quase que só de um refrão (Chegou
general da banda ê ê! Chegou general da banda ê á!) tirado talvez de uma
cantiga de umbanda ou do repertório das batucadas que animavam o antigo jogo da
pernada carioca, primo-irmão da capoeira. Levava as assinaturas de Sátiro de
Melo, Tancredo Silva e José Alcides. E fez tanto sucesso que seu intérprete
passou, a partir daí, a apresentar-se, nos shows carnavalescos, envergando uma
vistosa fantasia de talhe militar. Mas “general” mesmo foi o co-autor Tancredo.
General do samba, da umbanda e das causas populares.
Blackout intérprete do famoso samba de autoria de Tancredo "General da Banda" que fez sucesso nas festas de carnaval.
Imagem disponível na internet
Arte e Música
Imagem disponível na internet
Arte e Música
Tancredo da Silva Pinto nasceu em Cantagalo, RJ, em 1904. “Tata de inquice”, ou seja, pai-de-santo, da linha do Congo e do rito omolocô, em 1949 fundou a Confederação Umbandista do Brasil e durante sua existência publicou vários livros sobre a doutrina umbandista. Em música, Tancredo é também co-autor, com Davi Silva e Ribeiro Cunha, de outro clássico: o samba Jogo Proibido, gravado em 1937 por Moreira da Silva e tido, quase unanimemente, como o primeiro samba de breque. Dez anos depois, destacando-se como líder, ajudava a fundar a Federação Brasileira das Escolas de Samba.
Em janeiro de 1950, o jornal Quilombo, dirigido por Abdias
do Nascimento e voltado para a comunidade negra, publicava matéria intitulada
‘Os compositores populares defendem os seus interesses’. E nela dava conta da
fundação da ‘Escola de Samba Arte e Música’, por iniciativa de Tancredo e seu
parceiro José Alcides.
A ‘Arte e Música’, segundo seus fundadores, era uma
sociedade de âmbito nacional e suas realizações deveriam repercutir até no
estrangeiro. Seu objetivo era divulgar a música popular tipicamente brasileira.
E, para tanto, ela pretendia criar departamentos autônomos e especializados
para cada setor, nomeando representantes estaduais, e estabelecendo núcleos de
‘arte e música’ pelas principais cidades brasileiras, com vistas a intenso
intercâmbio de experiências artísticas.
A escola de Tancredo pretendia também divulgar, a partir do
Rio e através do rádio, do disco, do teatro musicado e de partituras impressas,
as criações de autores desconhecidos do interior do Brasil. E se dispunha a,
mediante contrato, colaborar com as firmas produtoras de ‘películas
cinematográficas, fornecendo-lhes artistas, extras e compondo música popular’ –
conforme declaração de Tancredo Silva.
Tancredo compositor de samba e autor de inúmeros livros
Imagem disponível na internet.
Firme em seus objetivos, a instituição pretendia tão somente atuar no mercado de trabalho e não fazer benemerência: ‘É preciso não esquecer que constituímos uma entidade de arte e cultura e não de assistência social.’ – afirmava um de seus dirigentes ao jornal Quilombo. ‘Contudo não podemos fechar os olhos aos problemas de caráter grave e urgente. Mantemos um socorro social com a finalidade de atender às necessidades básicas e às situações aflitivas dos nossos associados’.
Tancredo Silva Pinto faleceu no Rio em 1979. Três anos antes
recebia honrarias da câmara de vereadores do município de Itaguaí. E, em 1974,
realizava na ponte Rio-Niterói, na condição de sacerdote da umbanda e com
respaldo governamental, ritual propiciatório da fusão entre os antigos estados
da Guanabara e do Rio de Janeiro. E dois anos antes da passagem do líder para a
Outra Dimensão, era fundada, no bairro da Abolição, na antiga Avenida
Suburbana, numa loja onde antes funcionava uma funerária, a chamada ‘Igreja
Universal do Reino de Deus’, criada, segundo consta, por um dos filhos-de-santo
do respeitado tata (e bamba).
Líder do samba, dos cultos afro e de parte do segmento
autoral musical, foi de fato um comandante. Sobre sua inusitada escola de
samba, pouco se sabe. Mas seu ideário, antecipando muita coisa boa que
efetivamente veio, anos depois – como o Projeto Pixinguinha, as gravadoras
independentes e até mesmo alguns princípios defendidos pela SOMBRÁS e pela
nossa AMAR – fez dele um legítimo estrategista.
Saravá sua banda![11]
ALGUNS LIVROS DE TANCREDO DA SILVA PINTO
- Negro e Branco na Cultura Religiosa Afro Brasileira – Os
Egbás – Editora Espiritualista – em parceria com Gerson Ignes de Souza
- Tecnologia Ocultista da Umbanda no Brasil – Editora
Espiritualista
- A Volta dos Orixás – Editora Espiritualista
- Doutrina e Ritual de Umbanda – Editora Espiritualista
- Primado de Umbanda – Editora Espiritualista
- Guia e Ritual para Organização dos Terreiros de Umbanda –
Editora Eco – em parceria e Byron Torres de Freitas
- Doutrina e Ritual de Umbanda – Tancredo da Silva Pinto e
Byron Torres de Freitas
- As Mirongas de Umbanda – Tancredo da Silva Pinto e Byron
Torres de Freitas
- Tecnologia Ocultista da Umbanda Brasil
- Origens da Umbanda
- O Eró
- Cabala Umbandista
- Iaô
- Camba de Umbanda
- Impressionantes Cerimônias da Umbanda
- Fundamentos da Umbanda
· Sacerdote afro-religioso. É dirigente do Templo Espiritual
Caboclo Pantera Negra (Terreiro de Umbanda Omolokô) e do Ilé Ifá Ajàgùnmàlè
Olóòtọ́ Aiyé. É Erìnmì Awo da cidade de Ìjágbó, Estado de Kwárà, Nigéria e o
Líder (Olórí Ẹbí) da família de Ifá do Àràbà Olúsọjí Oyékàlẹ̀ para o Brasil.
Especialista e Mestre em Ciência da Religião (ambas pela PUC/SP), Especialista
em História da África e do Negro no Brasil pela UCAM/RJ; Bacharel e Mestre em
Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública, pelo Centro de Altos Estudos de Segurança;
Especialista em Políticas Públicas de Gestão em Segurança Pública (PUC/SP).
Endereço eletrônico: ezezide@gmail.com
[1] Termo que vem do árabe e quer dizer tradição. A
utilização de termos árabes na Umbanda Omolokô demonstra a influência que os
costumes malês (negros muçulmanos) tiveram na implementação dos cultos
afro-brasileiros. Sunna é um étimo utilizado com a mesma significação de Orúkọ
(nome iniciático) para o Candomblé Ketu.
[2] LOPES, Nei. A presença africana na música popular
brasileira. Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/050/50clopes.htm.
Acesso em 10/08/2010.
[3] KLOPPENBURG, Boaventura. Espiritismo: orientação para os
católicos. São Paulo: Loyola, 2005, p. 40.
[4] KLOPPENBURG. Op. Cit., p. 41.
[5] CAPONE, Stefania. A busca da África no Candomblé:
Tradição e Poder no Brasil. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria/Pallas, 2004,
p. 134.
[6] FREITAS, Byron Torres de & PINTO, Tancredo da
Silva. Fundamentos da Umbanda. Rio de Janeiro: Editora Souza, 1956, p. 19,
[7] BROWN, Diana. Uma historia da Umbanda no Rio. In: Umbanda
e Política. Cadernos do ISER, n. 18, Rio de Janeiro, Marco Zero-ISER, 1985, p.
9-42.
[8] LUZ, Marco Aurélio. Cultura negra em tempos
pós-modernos. Salvador: EDUFBA, 2008, p. 126.
[9] Nome de um das divindades do panteão Jeje, que se
assemelha a Omolu.
[10] LOPES, Nei. A república “evangélica” do Brasil.
Disponível em: http://www.neilopes.blogger.com.br/2008_09_01_archive.html.
Acesso em 19/08/2010.
[11] LOPES, Nei. Tancredo, o General da Banda. Disponível
em: http://www.neilopes.blogger.com.br/2008_08_01_archive.html. Acesso em
10/08/2010.
Nota: texto publicado em https://cefeco.wordpress.com/2013/08/14/tancredo-da-silva-pinto/
Nota: texto publicado em https://cefeco.wordpress.com/2013/08/14/tancredo-da-silva-pinto/
domingo, 28 de abril de 2019
sexta-feira, 19 de abril de 2019
domingo, 14 de abril de 2019
KALÉ BOKUN RIQUEZAS DA NAÇÃO IJEXÁ
Por Jaime Sodré
Líder sacerdotal a Iyalorixá do Ile Ase Kalé Bokun
Imagem disponível na Internet
A compreensão da composição da
nossa civilidade passa por conhecimento dos elementos componentes da nossa
formação. O “elemento afro” é fundamental para saber o que somos. A venerável
ialorixá Estelita Lima Calmon, no espaço de Olorum, está radiante, chegara a
ela, em junho de 2016, o documento que deu início ao tombamento do Terreiro Ilê
Axé Kalè Bokùn – “terras das riquezas profundas”, raro templo da nação ijexá.
Segundo a Ialorixá Vânia Amaral,
“ela assinou a notificação e no dia seguinte descansou”. O templo localiza-se a
85 anos, em Plataforma. Ao receber a notificação, cantara para Ogum, nos
informa Leonel Monteiro, presidente da Associação Brasileira de Preservação da
Cultura Afro-Ameríndia - AFA.
A Fundação Gregório de Mattos (Fernando
Guerreiro) considerara o terreiro como Patrimônio Cultural da Cidade do
Salvador, o primeiro ijexá com esta honraria, Evidenciando aspectos histórico,
cultural, religioso e afetivo, o tombamento possibilita a preservação do
patrimônio físico e os saberes ancestrais como um potencial instrumento de
proteção.
Para efetivação deste
reconhecimento atuou o professor e
pesquisador da Universidade Federal da Bahia, Vilson Caetano, louvamos a sua
apurada pesquisa sobre os ijexás, que tem como raízes a região da Costa Oeste,
próximo a Nigéria, povo de língua iorubá, guerreiros e intensa participação
feminina. Em Salvador, instalaram-se no Dique do Tororó, Mata Escura e Vasco da
Gama. No século XIX, foram para a Península Itapagipana.
Expressamos nossas reverências ao ilustre fundador e primeiro babalorixá do Kalè Bokùn, Severiano de Logun Edé. Os ijexás nunca se esqueceram de Oxum, considerando a água como elemento primordial do culto afro-brasileiro. A expressão ijexá, leva-nos ao ritmo homônimo, vinculado amplamente com o carnaval de Salvador, saiam à rua levando o seu tambor, percutido por mulheres.
Para Milena Tavares, competente diretora de Patrimônio e Humanidades, da Fundação Gregório de Mattos, “o terreiro preserva aspectos construtivos de época e mobiliário antigo, além de elementos singulares ao culto ijexá”. Levando em conta o seu conjunto de divindades tem Logun Edé e Oxum como orixás principais, Oxalá (Benção) é o patrono da casa, porque a ialorixá de Severiano era filha deste orixá.
Espaço público sagrado
Imagem disponível na Internet
Expressamos nossas reverências ao ilustre fundador e primeiro babalorixá do Kalè Bokùn, Severiano de Logun Edé. Os ijexás nunca se esqueceram de Oxum, considerando a água como elemento primordial do culto afro-brasileiro. A expressão ijexá, leva-nos ao ritmo homônimo, vinculado amplamente com o carnaval de Salvador, saiam à rua levando o seu tambor, percutido por mulheres.
Ilu ijexa
Imagem disponível na Internet
Para Milena Tavares, competente diretora de Patrimônio e Humanidades, da Fundação Gregório de Mattos, “o terreiro preserva aspectos construtivos de época e mobiliário antigo, além de elementos singulares ao culto ijexá”. Levando em conta o seu conjunto de divindades tem Logun Edé e Oxum como orixás principais, Oxalá (Benção) é o patrono da casa, porque a ialorixá de Severiano era filha deste orixá.
Dentre as atividades do terreiro,
destacamos o Geledé, somente de
mulheres, a ebomi Marcia afirma que por ser interno e sigiloso, não pode
revelar detalhes do culto, é a sociedade
das Iyàmìs, entidades femininas.
Jubilosos estamos todos e em coro
com a ebomi Tânia Bispo, dizemos: o terreiro Ilê Axé Kalè Bokùn é “um útero que acolhe. O ijexá é a terra da
água, do colo e do amor”.
terça-feira, 9 de abril de 2019
Narcimária Luz é entrevistada da EDUFBA.
Entrevista concedida no a Lorena Reis para o Espaço do Autor da Editora da Universidade Federal da Bahia a propósito do livro Itapuã da Ancestralidade Africano-Brasileira (01/07/2012)
Narcimária Correia do Patrocínio Luz, autora do livro Itapuã
da ancestralidade africano-brasileira, no bate-papo com a Edufba, fala sobre esta obra, uma pesquisa
sócio-histórica atrelada à arqueologia envolvendo o bairro de Itapuã. Além
disso, nos conta sobre sua relação com o bairro em que viveu durante sua
infância e adolescência e os motivos que a levaram a realizar este trabalho.
Narcimária Correia do Patrocínio Luz é doutora em Educação,
pesquisadora no campo da Educação Comunicação e Comunalidade
Africano-Brasileira, além de coordenadora do Programa Descolonização e Educação
– PRODESE, grupo de pesquisa que vem se destacando pelas iniciativas junto às
comunidades tradicionais na Bahia.
*************************
Edufba – No mês passado, você lançou o livro Itapuã da
ancestralidade africano-brasileira. Como foi o processo de concepção desta
obra?
No período de 2006 a 2008, fiz um estágio pós-doutoral na
Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, intercambiando
com o professor Muniz Sodré. É no âmbito desse intercâmbio com Muniz que me
dediquei a estudar e desenvolver uma arqueologia sócio-histórica de Itapuã. A
principal motivação no processo de concepção do livro foi perceber que a Itapuã
apresentada por mim aos meus filhos ou jovens que nasceram no final dos anos
1980 e anos 1990 soa como um lugar que
não existe mais. Isso me impressionou muito, porque realmente a Itapuã a qual
me refiro está no meu coração, no que aprendi a sentir e identificar desde
menina. Eu sei onde está a pedra ancestral-Itapuã. Mas se perguntar para alguma criança ou jovem que moram no bairro
hoje, eles identificam o farol de Itapuã que simboliza a expansão mercantil
escravista, sabe até onde está a Plakafor, representando o processo de
“americanização urbanística” refletida na construção, da Estrada Velha do
Aeroporto, a Avenida Otávio Mangabeira, referência dos valores
urbano-industriais do pós-guerra que infelizmente tornaram-se hegemônicos; mas
não sabem onde está a “pedra que ronca” e nem o valor simbólico milenar que ela
carrega. Conversando sobre isso com meus pais que são educadores e vivem em
Itapuã desde os anos 1960, nos demos conta de que realmente quem conheceu
aquela Itapuã dos vínculos de sociabilidade africano-brasileira adornada pelas
dunas, lagoas, matas, o mar e o Mercado de Peixe não a reconhece no contexto
frenético urbano-industrial que
restringiu a vida desse lugar tão especial. Então,como educadora, fui
motivada a desenvolver ensaios que aproximassem crianças e jovens da
ancestralidade africana que rega os
vínculos de sociabilidade em Itapuã,
herança dos povos que constituem a formação social das Américas.
Durante todo o processo da escrita, motivações
institucionais deram-me ânimo para prosseguir os estudos. Fui contemplada na
época com uma bolsa de Pós-Doutorado Sênior pelo Conselho de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq) e Bolsa para Autores com obra em fase de
conclusão, concurso promovido pelo Ministério da Cultura (MinC) através da
Fundação Biblioteca Nacional (FBN), que reconheceu excelência da abordagem
literária e técnica apresentada. Ressalto a atenção da Fundação Pierre Verger,
que me deu acesso ao rico acervo de fotos sobre o cotidiano dos pescadores em
Itapuã dos anos de 1940. O Arquivo Nacional no Rio de Janeiro também foi uma
fonte importante no acesso a documentos sobre Educação.Vale mencionar também o
apoio e incentivo da EDUFBA ao acolher o livro, acreditando no valor e
importância da abordagem que apresentei trazendo a História da Bahia através do
universo simbólico da ancestralidade africano-brasileira representado por
ITAPUÃ.
Edufba – No prefácio desta obra, escrito por Marco Aurélio Luz, é
possível perceber a sua intimidade com o bairro de Itapuã. Como você descreveria
a sua relação com o bairro?
Marco Aurélio foi um grande incentivador no processo da
escrita do livro e o primeiro a ler meus escritos.Vivo e respiro Itapuã
desde os seis anos de idade, envolta do
legado de saberes e valores dos nossos
ancestrais africanos. Daí foi saboroso escrever (re)visitando lembranças e
lugares da minha infância e juventude. Não posso deixar de registrar que também
tive que pesquisar muito em arquivos, registros iconográficos, entrevistas com
personalidades antigas e lideranças expressivas no bairro. A casa onde morei
nos anos de 1970, em frente à Lagoa do Abaeté (Parque Metropolitano do Abaeté),
transformou-se na Associação Crianças Raízes do Abaeté (ACRA), uma iniciativa
socioeducacional que visa à implantação de condições infraestruturais que
otimizem a legitimação dos valores comunais do bairro de Itapuã e, através
dessa ação, promover o desenvolvimento físico-emocional de crianças, jovens e
suas famílias base das projeções de futuro dessa territorialidade. A ACRA é um
dos Pontos de Cultura reconhecidos pelo MinC. Na ACRA, encontrei um espaço
importante para fazer repercutir os resultados das pesquisas que venho
realizando sobre Itapuã, envolvendo a equipe de pesquisadores do Prodese, grupo
de pesquisa que coordeno e que integra o Diretório de Grupos de Pesquisa do
CNPq. Foi assim que nasceu o projeto de extensão “Dayó: afirmando a alegria
socioexistencial em comunalidades africano-brasileiras”, indicado como
semifinalista entre os vinte melhores da 8ª Edição do Prêmio ITAÚ UNICEF 2009.
O Dayó dedica-se a regar o cotidiano da ACRA, com os valores e linguagens que
venho apresentando sobre Itapuã, envolvendo atividades a exemplo da capoeira,
arte do grafite, teatro, exibição de vídeos, excursões, exposições de artes
plásticas, publicações, palestras, oficinas com crianças, jovens e professores
das escolas públicas através da Biblioteca Viva e o blog que os pesquisadores
do PRODESE criaram, alimentando aspectos da sociabilidade africano-brasileira
que caracteriza a história e o viver cotidiano de Itapuã.
Edufba– Um dos capítulos de Itapuã da ancestralidade
africano-brasileira aborda aspectos do sistema educacional, destacando
referências sobre as políticas implementadas no Brasil. Como elas repercutiram
em Itapuã?
O conjunto de entrevistas nos permitiu obter uma narrativa
sócio-histórica, envolvendo descendentes das famílias fundadoras de Itapuã, os
mais velhos que nasceram nos anos 1910, que nos ajudaram a obter algumas
impressões conhecendo aspectos sobre as Casas de Mestres organizadas para
abrigar meninas e meninos e ensiná-los as primeiras letras, aritmética…
Professores que participaram da implantação das primeiras escolas públicas em
Itapuã na década de 1950 e 1960. Através de entrevistas que permitiram uma
análise particular sobre a educação no Brasil e a Bahia nesse cenário, aderindo
ao projeto de implantação da ordem capitalista e, com ela, a
institucionalização de políticas na área de Educação voltadas para as relações
imperialistas de mundo. Itapuã sofre o impacto desses valores do mundo
tecnocapitalista e as escolas públicas do bairro vão fundamentar seus
currículos em narrativas etnocêntricas que calam sobre a alteridade
civilizatória africana característica do lugar. Lembrando que nas escolas
públicas de Itapuã nos anos 1950 e 1960 (décadas de implantação das escolas
vinculadas a iniciativas do Rotary Clube e Base Aérea), a população de crianças
e jovens que as frequentavam (e ainda frequentam) eram filhos de pescadores,
lavadeiras, ganhadeiras descendentes de africanos.
Edufba – Diante do universo simbólico que permeia o bairro de
Itapuã, quais aspectos da cultura africana se mantêm mais fortes?
Há todo um universo simbólico que organiza o viver cotidiano
através de formas de comunicação, dando forma às narrativas de elaboração de
mundo. É um patrimônio milenar africano riquíssimo! Chamo atenção para a
religião tradicional africana, re-ligare, uma forma de estar no mundo se
desdobrando nas celebrações referentes à visão sagrada de mundo expressas na
entrega de oferendas à Yemanjá no mar e outros espaços míticos como a Lagoa do
Abaeté. Ainda o entrelaçamento do repertório tradicional dos pescadores,
ganhadeiras e lavadeiras de Itapuã através de cantigas e contos que constituem
o tecido de histórias que acumulam narrativas valiosas sobre os princípios
fundadores da comunalidade; classificação dos peixes no mar de Itapuã;
tecnologia da confecção de redes, o uso de canoas, saveiros e jangadas, a
arquitetura e estética urbana africano-brasileira; a culinária tradicional
africana. Enfim, uma infinitude de valores e linguagens que emocionam!
Edufba – Você coordena o Programa Descolonização e Educação
(PRODESE/UNEB). Pode falar um pouco sobre o trabalho desenvolvido neste grupo?
O PRODESE não foi uma escolha. Foi uma precisão, um caminho
necessário para exatamente transitar,caminhar por territórios outros em “casa
alheia”, sem ter de perder a identidade, sufocada por uma educação neocolonial.
O Grupo desenvolve produções científico-acadêmicas que
enfatizam o direito à alteridade civilizatória africano-brasileira, fomentando
estudos e atividades de pesquisa, ensino e extensão. Participam do PRODESE
pesquisadores do Brasil e de Universidades estrangeiras que produzem
participações criativas, com vistas a superar as perspectivas ideológicas
neocoloniais que tendem a estruturar as políticas de educação no Brasil, além
de elaborar e difundir conhecimentos referidos ao patrimônio civilizatório
africano no Brasil. O Grupo tem na sua base de dados cerca de 50 (cinquenta)
pesquisas desenvolvidas pelos seus membros, tornando-se referência nacional,
através de publicações de livros, capítulos de livros e enciclopédia, artigos
em revistas, participação em programas de TV e rádio, dissertações e teses.
Vale destacar que muitos conceitos produzidos no âmbito do grupo são
referências semânticas consolidadas na área de Educação e Comunicação,
contribuindo de modo significativo para a afirmação das tradições e valores das
comunalidades africano-brasileira. Um dos canais de divulgação da produção do
grupo tem sido o blog da ACRA – Associação Crianças Raízes do Abaeté. Convido
todos a conhecerem o blog que apresenta muito das nossas produções.
Edufba– Para quem você recomendaria a leitura do livro Itapuã da
ancestralidade africano-brasileira?
É um livro que conta um pouco da História do Brasil, da
Bahia e do Nordeste. Gostaria que
gerações de brasileiros, nordestinos, principalmente baianos, conhecessem sua história através do
valor da ancestralidade africana que atravessa as nossas vidas. Há um grande
equívoco pensar ancestralidade apenas como uma carga genética! Ancestralidade
não é apenas uma sucessão genética. Meu livro procura demonstrar que a ancestralidade se caracteriza sobretudo por
representar as lideranças comunitárias que se dedicaram em vida ao bem estar da
família, linhagem, comunalidade através da manutenção e preservação dos valores
e linguagens que sustentam o bem estar e destino individual e coletivo.
Ancestral é, portanto aquele ou aquela que em vida deu continuidade e garantiu
a expansão da memória da sua comunalidade. Itapuã é considerada um ancestral
fundador de comunalidades africanas.
Itapuã é uma ilustração, um exemplo do que aconteceu e
acontece no nosso país desde o século XVI. No livro procuro contar o impacto
das relações de prolongação colonial e neocolonial que vem tragando a vida do
nosso povo. Em artigo recente publicado no Jornal A Tarde (15/06/2012),
refiro-me à teia dos valores que tendem a transformar a Bahia numa metrópole,
extensão geopolítica e expansionista de alguns Estados Nacionais com suas
supremacias étnicas e territoriais. Estamos assistindo a imposição de um mercado
global, que cria cenários alegóricos forjando um novo sujeito social: o
produtor, consumidor, refém das leis do capital. O livro Itapuã aborda a
riqueza de valores da civilização africano-brasileira através da “pedra que
ronca” demonstrando a recusa permanente à geografia civilizatória racista
europocêntrica.
Com a exigência da Lei 10.639/03 do ensino da História da
África e Afro-brasileira nas escolas, o livro constitui um canal importante
para educar professores, contribuindo com abordagens teóricas e epistemológicas
que fundamentem suas práticas.
Edufba – Deixe uma mensagem para os leitores da EDUFBA.
Para os povos que têm o seu viver cotidiano atravessado por
tragédias, desdobramentos das relações de prolongação colonial e neocolonial
que tendem a sugar sua dignidade, direito à existência e a exercer a sua
alteridade civilizatória, e de manter erguidas as dinâmicas territoriais que os
organizam, as questões apresentadas no livro Itapuã da ancestralidade
africano-brasileira assumem um significado extraordinário. O que está em jogo é
a continuidade, a descendência que constitui perspectivas de futuro do
patrimônio civilizatório característicos de muitos povos. A Bahia, de modo
especial Itapuã, carrega a identidade profunda das civilizações milenares das
Américas e África.
Aproveito esse espaço para repetir o que sempre digo nas
minhas aulas na graduação e pós-graduação: continuemos a cultuar nossas
origens, nossos ancestrais, envolvendo nossas crianças e jovens, animando-os a
erguerem a cabeça e terem orgulho de ser e pertencer as suas comunidades, que
ao longo dos séculos se dedicam a manter a pulsão de vida para que a Bahia não
acabe.
Itapuã é uma territorialidade que faz transbordar esse
orgulho de ser, e ainda há tempo para que nós educadores identifiquemos essa
força de sociabilidade africano-brasileira que atravessa Itapuã.
sábado, 6 de abril de 2019
quarta-feira, 27 de março de 2019
MASCULINIDADE E FEMINICÍDIO
Por Marco Aurélio Luz
Para Lélia de Almeida eterna lembrança
Símbolo da sociedade secreta Ogboni que reune líderes de instituições de poder feminino e de poder masculino no universo civilizatório nagô.
Imagem disponível na Internet
Acompanhando
os ensinamentos de Sigmund Freud, tentaremos explicar algumas razões do
inconsciente da masculinidade e feminicídio.
Uma lógica do inconsciente se baseia no par de oposição DA(aí) e FORT(lá) ou presença
e ausência. Trata-se da situação do nascituro nos inícios de sua vinda ao mundo
integrado ao corpo da mãe, e totalmente dependente dela para viver. Trata-se do
mistério da transformação do corpo da mulher na gestação e em fonte de
alimentação amor e proteção.
A
presença da mãe (DA) gera satisfação e plenitude ao recém-nascido ao contrário
da ausência (FORT), causa desprazer carência e desespero. Essa é a dinâmica de
uma simbiose prolongada.
Poderíamos
intuir que estamos diante da tomada de consciência do mistério do existir, vida
e morte. Na mitologia grega, Eros Deus
do amor e Thanatos Deus da morte,
conceitos
usados na psicanálise.
Os
seres humanos têm consciência desse ciclo natural, mas tentam retardar ou
ludibriar a morte. Eros x Thanatos, pulsão de vida contra a pulsão de morte.
Uma
das maneiras é a onipotência, como se o poder frente aos outros, garantisse a
ausência da morte. É a situação apresentada no célebre escrito de Freud “Totem
e Tabu”, que apresenta a “horda primitiva”
presente no solo imaginário do inconsciente. Trata-se da luta instalada no
grupo para erigir o macho vencedor como aquele que terá o direito a procriação
com todas as fêmeas, o que gera tensões e disputas constantes, até que o mais
potente atinja a impotência, Eros dá
a vez a Thanatos dando início a um
novo ciclo e assim sucessivamente.
Toda
essa demonstração de violência física das disputas, têm a finalidade de
aterrorizar as fêmeas, isto porque essas detêm o formidável poder da procriação
que constitui a inexorável complementação sem a qual a masculinidade perderia
sentido.
Egito negro faraônico. O casal Miquerinos e Kamerernebti II .
Imagem disponível na internet
No
caso das sociedades humanas atualmente em geral, vemos a tentativa de os grupos masculinos deterem
os poderes políticos da organização social alijando desse comando os grupos
femininos. Como disse Mao Tse Tung “o poder está na ponta dos fuzis”.
Mais
do que isso, procuram subjugar e colocar as mulheres ao seu dispor para aplacar
sua angústia de dependência desde o nascimento. Para isso, tentam colocar ao
seu dispor o corpo da mulher.
O
patriarcado que predomina no mundo vem sofrendo questionamentos. Movimento de
mulheres e novas atitudes de empoderamento feminino tem causado diversas
reações. A masculinidade despreparada e desesperada, tenta apelar para
tentativas de submeter as mulheres pela força física e a covardia. Consequência da neurose de abandono.
As
estatísticas de feminicídio aumentam a cada dia, muito triste.
A
superação da simbiose agora neurótica, “homem infantil” e “mulher mãe” é que
poderá engendrar através da elaboração de luto dessa situação a constatação da alteridade homem e mulher.
Tradição nagô; escultura dos Ibeji, Tayo, Keinde e Dou.
Imagem e escultura de M.A. Luz
Cada qual revestidos da riqueza da complementação asseguram a continuidade do existir da espécie .sexta-feira, 8 de março de 2019
METAMORFOSES DAS ESCOLAS DE SAMBA
Unidos da Tijuca 2014
Foto disponível na Internet
Por
Marco Aurélio Luz Oju Oba
As
Escolas de Samba do Rio de Janeiro surgiram na ambiência da casa de Tia Ciata,
Omo Oxum e Iya Kekere, em meio aos desfiles de Ranchos.
Hilário Jovino Ferreira, Lalu de ouro, Ogan
Foto disponível na Internet
Além disso, a formação dos ranchos, tinha comissão de frente, mestre de harmonia, canto e coreografia. Estava lançada então, a semente das Escolas de Samba.
Tia Ciata Iya Kekere do terreiro de João Alaba fundado por Bangbose Obitiko.
Foto disponível na Internet
Hilário
Jovino Ferreira, Lalu de Ouro, Ogã da casa de João Alaba, transferiu a data de
saída de seu rancho, o Rei de Ouro, de 6 de janeiro para os dias de carnaval,
com transformações e adaptações a
exemplo das novas figurações de Mestre Sala, Porta Bandeira, porta machado e
batedores.Hilário Jovino Ferreira, Lalu de ouro, Ogan
Foto disponível na Internet
Além disso, a formação dos ranchos, tinha comissão de frente, mestre de harmonia, canto e coreografia. Estava lançada então, a semente das Escolas de Samba.
Quando
Ismael Silva e outros acrescentaram a percussão, estava instalado os pilares
desse processo criativo.
Ismael Silva que fundou a Deixa Falar, primeira Escola de Samba
Foto disponível na Internet
Novas
agremiações se formaram e desfilavam na legendária Praça XI num grande
congraçamento que Heitor dos Prazeres classificou de “Pequena África”.
Com
o “bota abaixo” do prefeito Pereira Passos e o fim da Praça XI, os desfiles se
deslocaram principalmente para a Av. Rio Branco onde estava o Jornal do Brasil.
Toniquinho
um funcionário do Teatro Municipal, resolveu encenar na Escola de Samba a ópera
Aída. Conseguiu potentes faróis da Marinha e postou-se em frente ao Jornal do
Brasil. O jornalista Mário Filho impressionado, idealizou e deu início aos
concursos e premiações dos desfiles. Estava postado o “ovo da serpente”: a
combinação da linguagem teatral com a linguagem da mídia.
Mestre
Cartola mais adiante sentenciou: “as Escolas de Samba se transformaram em
teatro ambulante".
Angenor de Oliveira, o Mestre Cartola líder da Mangueira
Foto disponível na Internet
A
entrada da TV nos desfiles, vai alterar bastante a dimensão da linguagem
estética comunitária fundadora das Escolas de Samba. O valor realçado pela
televisão aos desfiles, ficou vinculado as dimensões visuais espetaculares em
detrimento da estética original, impondo a linguagem do espetáculo criando “especialistas”
que irão referendá-la nos concursos.
É
neste caudal que se afirmam os carnavalescos mais próximos de Escolas de Samba
de menos tradição. Fantásticos carros alegóricos, números circenses e
personagens do mundo da indústria cultural ganham espaço e poder nos desfiles,
diminuindo a presença da comunidade.
Transformam a ala das baianas e a
comissão de frente criação da Portela, originalmente formada pelos dignitários
da Escola, espaços fundamentais em homenagem à tradição. O samba sofre
transformações na música e na dança.
As agremiações mais
tradicionais tentam manter uma referência da identidade original escolhendo
temas que constituam uma “ópera negra”.
Nesse ano o Salgueiro se aproximou com
o tema Sango seu orixá patrono, inclusive recebendo uma carta do Alaafin rei de
Oyó.
IMAGEM DISPONÍVEL NA INTERNET
Todavia, apesar da
excelência do samba enredo e da bateria, o cortejo foi envolvido pela ideologia
do “sincretismo” que comprometeu e prejudicou a apresentação.
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