*

*

PRODESE E ACRA



VIDA QUE SEGUE...Uma
das principais bases de inspiração do PRODESE foi a Associação Crianças Raízes
do Abaeté-Acra,espaço institucional onde concebemos composições de linguagens
lúdicas e estéticas criadas para manter seu cotidiano.A Acra foi uma iniciativa
institucional criada no bairro de Itapuã no município de Salvador na Bahia, e
referência nacional como “ponto de cultura” reconhecido pelo Ministério da
Cultura. Essa Associação durante oito anos,proporcionou a crianças e jovens
descendentes de africanos e africanas,espaços socioeducativos que legitimassem
o patrimônio civilizatório dos seus antepassados.
A Acra em parceria com o Prodese
fomentou várias iniciativas institucionais,a exemplo de publicações,eventos
nacionais e internacionais,participações exitosas em
editais,concursos,oficinas,festivais,etc vinculadas a presença africana em
Itapuã e sua expansão através das formas de sociabilidade criadas pelos
pescadores,lavadeiras e ganhadeiras,que mantiveram a riqueza do patrimônio
africano e seu contínuo na Bahia e Brasil.É através desses vínculos de
comunalidade africana, que a ACRA desenvolveu suas atividades abrindo
perspectivas de valores e linguagens para que as , crianças tenham orgulho de
ser e pertencer as suas comunalidades.
Gostaríamos de registrar o nosso
agradecimento profundo a Associação Crianças Raízes do Abaeté(Acra),na pessoa
do seu Diretor Presidente professor Narciso José do Patrocínio e toda a sua
equipe de educadores, pela oportunidade de vivenciarmos uma duradoura e valiosa
parceria durante o período de 2005 a 2012,culminando com premiações de destaque
nacional e a composição de várias iniciativas de linguagens, que influenciaram
sobremaneira a alegria de viver e ser, de crianças e jovens do bairro de
Itapuã em Salvador na Bahia,Brasil.


sexta-feira, 30 de agosto de 2019

CARTA DA AMAZÔNIA





Por Ronaldo Martins


Amigos europeus, norte americano, chineses e irmãos das outras nações do planeta.
Infelizmente, para salvação da floresta amazônica, com o atual governo brasileiro não existe diálogo. O que pode funcionar é uma efetiva comoção mundial e ação política, econômica, religiosa e educacional contra a devastação da floresta e pela sua proteção. Imagino que só assim, a base de sustentação desse governo: pecuaristas, religiosos evangélicos, banqueiros, extrativistas, militares e todo o agronegócio, mudará a atitude de conivência ou indiferença aos horrores praticados por esse governo contra a floresta e os povos tradicionais da Amazônia.
Com esse governo não funciona conversa, só ação. Pois é assim que ele atua, diz uma coisa depois diz outra, polemiza e depois joga a culpa nos outros... Mas, no fundo, está atuando, desmontando a estrutura de proteção da floresta e suas organizações. Ele faz primeiro e depois engana, leva tudo na enrolação, diz que não fez. Com o atual presidente e sua equipe não tem negociação é agir em todas as frentes e proteger a floresta e seu povo.
Para muitos moradores das várias regiões brasileiras a Amazônia ainda é um lugar distante e estranho e, a questão das queimadas na floresta amazônica só esta sendo percebida de forma mais efetiva, porque em São Paulo, mais importante cidade brasileira e maior colégio eleitoral brasileiro, região que o atual presidente teve muitos votos, a poucos dias, essa cidade foi afetada pelas nuvens de poluição gerada pelas queimadas na Amazônia. Infelizmente, nós brasileiros, estamos colhendo o que plantamos.
O que fazer nesse momento de destruição do planeta? Aí a briga é de peixe grande. Para uma ação de um Estado autoritário e irresponsável, uma reação efetiva de outros Estados. Boicote aos produtos brasileiros até que ele mude suas ações. O jogo é pesado.
E nós, como força efetiva, sofremos, protestamos, oramos pela floresta e, eu acredito, que após a reação efetiva dos chefes de Estado do mundo, as coisas melhorarão.
A questão da preservação da floresta amazônica e proteção dos povos tradicionais, entretanto, não estarão resolvidas após a pressão internacional e as ações emergenciais de combate aos focos de incêndio na floresta. O problema é que, o atual governo e sua equipe estão esperando os ânimos se acalmarem para continuarem sua ação de desmonte e massacre da floresta e seu povo. Por isso a atuação de combate feita por líderes internacionais, jornalistas, professores, religiosos, militares e todos os povos do mundo contra as ações erradas do governo brasileiro, tem que ser constante e contundente.
O positivo nesse momento difícil no mundo, é que boa parcela das pessoas já percebeu como o atual governante brasileiro age, e não acredita em nada que ele diz.
Obrigado aos amigos e aos povos do mundo por agir. Atuar em um momento que nós brasileiros, infelizmente, ainda estamos indiferentes à destruição da Amazônia.  Estamos envoltos em uma nuvem densa de disputa política entre governo e oposição. Escondemos nas nossas atitudes de disputa vazia e boba entre oposição e governo, o grave erro de termos posto no poder um governante que destrói o que possuímos de mais precioso, a floresta Amazônica e seu povo.
Salvador, 25 de agosto de 2019. RONALDO MARTINS – professor e artista afro-brasileiro.




segunda-feira, 8 de julho de 2019

MUNIZ SODRÉ, IMORTAL DA ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA




Muniz Sodré no II Sinbaianidade UNEB 2015
Imagem acervo M.A. Luz


Por Gildeci de Oliveira Leite



Indubitavelmente, o currículo do Obá de Xangô do Ilê Axé Opô Afonjá, Muniz Sodré, o credencia a ocupar uma das cadeiras da Academia de Letras da Bahia (ALB), da Academia Brasileira de Letras ou de outras academias, que assim desejem. Professor universitário, jornalista, sociólogo, tradutor, escritor, pesquisador, candomblecista o baiano da cidade de São Gonçalo dos Campos é o mais novo imortal da ALB. Eleito no dia de Santo Antônio, 13 de junho deste ano, o também filho de Xangô irá ocupar a cadeira de número 33, sucedendo a escritora Mãe Stela de Oxóssi, sua Mãe de Santo.
O ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional possui graduação em Direito pela Universidade Federal da Bahia (1964), mestrado em Sociologia da Informação e Comunicação – Université de Paris IV (Paris-Sorbonne) (1967) e doutorado em Letras (Ciência da Literatura) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1978), além de ser Livre-Docente em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Como se não bastasse os diversos títulos acadêmicos, o Obá Muniz Sodré, portanto ministro de Xangô, é leitura obrigatória em discussões sobre afro-brasilidades e comunicação, por exemplo. 

Muniz Sodré, Marco Aurélio Luz e Jaime Sodré .

Imagem : acervo M. A. Luz


Sodré, que em 2015 participou pela segunda vez do Simpósio Internacional de Baianidade (SINBAIANIDADE), na oportunidade ao lado de Marco Aurélio Luz (UFBA), Jaime Sodré e Raimundo Sodré, é autor de dezenas de livros e artigos científicos, também possui produção literária com romances e contos, notabilizando-se cientista e artista da palavra. Ainda entre as diversas expertises de nosso mais novo escolhido da ALB, deve-se lembrar seu domínio de idiomas como o alemão, inglês, espanhol, francês, italiano, russo e iorubá. Declinar, aqui, todo o currículo do Pai Muniz Sodré, como é chamado pela comunidade Afonjá, ocuparia boa parte de todo nosso prestigiado jornal.

Certamente, tão importante quanto reafirmar as credenciais de um dos comendadores do SINBAIANIDADE, é festejar a escolha e parabenizar a ALB por entender a necessidade da permanência da energia de Xangô Afonjá entre seus membros. Xangô, como anunciado por Édison Carneiro, é o patrono dos intelectuais, exercendo patronato em todos os territórios do saber. Toda a comunidade negra brasileira festeja o reconhecimento a Muniz Sodré. Todas e todos que entendem o valor dos trabalhos intelectual e artístico festejam a escolha do, agora, duplamente imortal. Primeiro imortal por ser um ministro do Rei Xangô, em seguida conduzido por Xangô à imortalidade da ALB. É bem provável, que acima dos presentes na posse de Muniz Sodré, os orixás e a ancestralidade ocupem as cadeiras para verem um dos seus sendo condecorado. Batas e anáguas estarão sobre nossas cabeças!


****************
Gildeci de Oliveira Leite
Escritor, professor da UNEB, sócio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia
Artigo publicado em 07.07.2019 no A Tarde

segunda-feira, 1 de julho de 2019

2 DE JULHO DIA DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL NA BAHIA



Os caboclos  os donos da terra simbolo da independência.
Imagens disponíveis na internet

HOMENAGEM AO REI DO POP


 O artista brasileiro Eduardo Kobra presta homenagem a Michael Jackson com essa linda obra em Nova York.
Imagem disponível na internet

domingo, 12 de maio de 2019

13 DE MAIO DIA DO PRETO VELHO





Representação da rainha Ginga. Nzinga Ngola Nbandi Kiluanji, rainha do Ndongo, Angola , no século XVII. Manteve seu território independente frente aos escravistas portugueses através da tática dos Kilombos, acapamentos militares, guerra de movimento. Personagem das Congadas e tem seu nome na base da capoeira Angola.
Imagem disponível na internet

Dia do Preto Velho Homenagem  ao Tata Tancredo
“Reunidos numa grande praça cercada com palha de palmeira, mais de 200 candongueiros soavam seus instrumentos para anunciar a presença do Tata Tancredo que caminhava em direção ao trono sob um pálio comandando um séquito de lideranças religiosas e diante de centenas de iniciados na Umbanda e Omoloko. Após essa cerimônia cada terreiro se dirigia ao seu espaço onde a curimba acontecia noite adentro em Inhoaíba.
Na praça estava um busto de Mãe Senhora, Iyalorixá do Ilê Axé Opo Afonja lembrando a homenagem acontecida no Maracanã.”
Marco Aurélio Luz


Tata ti Inkice Folketu Olorofe, Tancredo da Silva Pinto

Tata Tancredo da Silva Pinto: pequena biografia do incentivador da Umbanda Omolokô

por Mário Filho·

 Esse texto foi escrito em 2010 e reescrito agora, tendo por base os Estatutos da "Sociedade Instituto Sanatório Espiritual do Brasil" e de várias outras fontes.
Tancredo da Silva Pinto, escritor, compositor, sambista e umbandista brasileiro, nasceu em 10 de agosto de 1905 no município de Cantagalo, então Estado da Guanabara. Ainda na adolescência veio para o município do Rio de Janeiro.
Tancredo da Silva Pinto, Tata Ti Inkice, é considerado o organizador do culto Omoloko no Brasil e o responsável direto pela reunião dos adeptos dos cultos afro-brasileiros em Federações Umbandistas para defender o seu direito de ter e cultuar uma religião afro-brasileira. Seu nome religioso (Sunna[1]) era Fọ̀lkétu Olóròfẹ̀. Foi chamado, muitas vezes, de o “Papa Negro da Umbanda”.
Tancredo, apesar de ter ficado famoso pelo grau sacerdotal “Tata” (pai), utilizado nos Candomblés Angola para designar o Sacerdote, Tancredo da Silva Pinto, na hierarquia da Umbanda Omolokô, era tratado por Babalaô (do Yorùbá, Babaláwo).
Era filho de Belmiro da Silva Pinto e de Edwirges de Miranda Pinto, sendo seus avós maternos Manoel Luis de Miranda e Henriqueta Miranda. Sua árvore genealógica remonta a grandes estudiosos e praticantes de Religiões Tradicionais Africanas.
Seu avô foi fundador dos primeiros blocos carnavalescos, tendo fundado os blocos "Avança" e "Treme-Terra", bem como o "Cordão Místico", uma mistura de samba de caboclo com o ritual africano, em que sua tia, Olga, saía vestida de "Rainha Jinga".
Seu pai, Belmiro, era considerado o melhor tocador de violão de sua época e tinha em seu histórico o título de excelente ferrador, bem como de exímio tratador de animais, sendo ainda criador de pássaros de diversas qualidades.
Em 1950, devido a grandes perseguições aos umbandistas nos mais diversos Estados da União, assim como no antigo Distrito Federal, fundou a Federação Espírita de Umbanda, com a qual rompe em 1952. Viajou por quase todo o país, fundando filiais da Federação com o objetivo de organizar e dar personalidade à Umbanda. Fundou as Federações dos seguintes Estados: Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Pernambuco e outros. Criou, para melhor mostrar seu culto de Umbanda ao povo em geral, as seguintes Festas Religiosas: Festa de Yemanjá, no Rio de Janeiro; Yaloxá, na Pampulha - Belo Horizonte; Cruzambê, em Betim - Minas Gerais; Festa de Preto Velho, em Inhoaíba - Rio de Janeiro; Festa de Xangô, em Pernambuco; "Você sabe o que é Umbanda" no Estádio do Maracanã, RJ, e finalmente a Festa da Fusão, realizada no centro da Ponte Rio-Niterói.


Oferenda à Iemanja´no Rio de Janeiro.
Imagem disponível na internet.


Segundo Tancredo da Silva Pinto, a primeira sociedade umbandista criada para defender os direitos dos umbandistas no Rio de Janeiro e no Brasil foi a "União", fundada em 1941. Segundo ele, naquela época, devido às perseguições policiais, os cultos eram acompanhados por bandolim, cavaquinho e órgão, porque não era permitido tocar tambores (atabaques). No Rio de Janeiro, os cultos afro-brasileiros foram professados dessa maneira até 1950.
O motivo que levou Tancredo a criar federações umbandistas para defender os direitos dos cultos afro-brasileiros desenrolou-se na casa de santo de sua tia, Olga da Mata, a qual foi narrada por ele:
Esse episódio passou-se na casa da minha tia Olga da Mata. Lá arriou Xangô, no terreiro São Manuel da Luz, na Avenida Nilo Peçanha, 2.153, em Duque de Caxias. Xangô falou: – Você deve fundar uma sociedade para proteger os umbandistas, a exemplo da que você fundou para os sambistas, pois eu irei auxiliá-lo nesta tarefa. Imediatamente tomei a iniciativa de fazer a Confederação Umbandista do Brasil, sem dinheiro e sem coisa alguma. Tive uma inspiração e compus o samba General da banda, gravado por Blecaute, que me deu algum dinheiro para dar os primeiros passos em favor da Confederação Umbandista do Brasil.[2]
Depois desse fato, Tancredo fundou a Confederação Umbandista do Brasil, usando parte do pagamento recebido pelo direito autoral do samba "General da Banda" (fazendo uma alusão ao Orixá Ogun), gravado por Bleckaute, e ajudou a fundar, em outros Estados, novas federações umbandistas, a fim de defender os direitos dos cultos afro-brasileiros. Ele afirmava que a Confederação Umbandista do Brasil, fundada em 1952, foi criada “com a finalidade de restabelecer a tradição antiga, em toda sua força e pureza primitiva”[3], ou seja, a origem africana da Umbanda.
Foi significativa a posição de Tancredo da Silva Pinto contra as propostas de desafricanização da Umbanda, divulgadas nas palestras do 1º Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda (1941). Tancredo dizia que achava graça quando ouvia os “líderes da Umbanda Branca” dizendo que a religião sofre influência das tradições africanas. Para ele “a Umbanda é africana (gn), é um patrimônio da raça negra” (FREITAS e PINTO, 1957, p. 58). Esse viés africanista da Umbanda pode ser visto em uma de suas afirmações: “Terreiro de Umbanda que não usar tambores e outros instrumentos rituais, que não cantar pontos em linguagem africana, que não oferecer sacrifício de preceito e nem preparar comida de santo, pode ser tudo, menos Terreiro de Umbanda.”[4] 


Vovó Rainha Maria Conga, terreiro de Umbanda de D. Maria Batuque no morro D. Marta em 1972.
Foto: Roberto Moura

Para afirmar a característica africana da Umbanda e dar uma formação intelectual aos praticantes do Omolokô, organiza no Rio de Janeiro o primeiro curso de língua e cultura Iorubá.
A pesquisadora Stefani Capone nos fala sobre essa dicotomia Umbanda-Branca e Umbanda-Africana e o papel de Tata Tancredo:
A partir dos anos 1950, várias outras federaçôes de Umbanda foram criadas no Rio de Janeiro. Três delas reuniam os centros que se reconheciam na umbanda branca como o de Zélio de Moraes ou a Tenda Mirim de Benjamim Figueiredo.  Esses centros não aceitavam o uso de atabaques, os sacrifícios de animais, nem qualquer mistura com o Candomblé. As três outras federações defendiam uma forma de Umbanda de orientação africana. A mais importante delas foi a Federação Espírita Umbandista, fundada em 1952 por Tancredo da Silva Pinto, que logo se tornou o porta voz dos praticantes da umbanda "africana", alcançando rapidamente grande popularidade. Ele defendia uma umbanda "popular" que reivindacasse suas origens nas tradições africanas. Tratava-se, pois, do primeiro movimento de volta às origens no meio dos cultos do Rio de Janeiro.

Tata ti Inkice.
Imagem disponível na internet.

Tancredo da Silva Pinto publicou muitos livros em que apresentou a Umbanda como parte da herança africana. A Umbanda, portanto, começou a se organizar em torno de dois pólos opostos: um formado pela umbanda "branca", influenciada pelo kardecisrno e pelo desejo de criar uma imagem socialmente respeitável e, logo, não-africana; e o outro, pela Umbanda “africana” que reinvindicava seus laços com os cultos afro-brasileiros, tendo os terreiros de Umbanda se distribuído ao longo desse continuum, que ia de uma forma branca a uma forma africana.[5]
Tata Tancredo sempre foi muito polêmico, como podemos ver nessa afirmação:
Hoje, uma vasta onda de mistificação invadiu a Umbanda. Criaram, os intrusos, uma Umbanda branca, uma Umbanda mista, modificaram o ritual sagrado, e, pior, sob o ponto de vista espiritual, introduziram o comercialismo na seita. Escritores improvisados publicaram livros cheios de erros e fantasias, servindo a Umbanda de capa a atividades inteiramente comerciais. Para completar a mistificação, pessoas que nada conhecem dos mistérios de Umbanda, que nunca foram Sacerdotes, que nunca fizeram ‘cabeça’, abriram centros e tendas, montaram consultórios luxuosos, onde os clientes são atendidos mediante fichas numeradas.[6]
Tancredo instituiu as festividades à Iemanjá no Rio de Janeiro - RJ, à exemplo das festividades que aconteciam em Salvador – BA. As primeiras aconteceram na mesma data que na Bahia, 02 de fevereiro, mas com o tempo elas passaram a ser feitas no dia 31 de dezembro.
Foi um dos fundadores da União de Escolas de Samba em 1935 que organizaria os desfiles sob o patrocínio de Pedro Ernesto. Em 1936 se torna sócio-fundador da União Brasileira de Compositores. Torna-se, também, sócio da Ordem dos Músicos do Brasil. Criou o samba de breque com Moreira da Silva e ideou a lei que instituiu o enredo exclusivamente nacional. Ator de cinema na antiga Cinédia e jornalista fundou a revista “Mironga”. Gravou muitos pontos cantados de Umbanda, que ficaram famosos nacionalmente. Além do célebre samba “General da Banda”, compôs vários outros, inclusive em parceria com Zé Kéti.
Tata Tancredo tinha uma coluna semanal no jornal “O Dia”, de maior circulação no Rio de Janeiro, na qual desenvolvia um trabalho de divulgação da Umbanda, recomendando que sua prática deveria sempre estar atrelada às origens africanas. Escreveu durante 25 anos essa coluna.
A pesquisadora Diana Brown, que pesquisou a Umbanda no Rio de Janeiro, surpreendeu-se com a fama e popularidade que possuía Tancredo nas classes mais baixas das populações cariocas. Muitas pessoas, segundo a autora, mencionavam o nome de Tata Tancredo e muitos Terreiros de Umbanda que existiam nas periferias cariocas eram filiados à Confederação de Umbanda do Brasil. Segundo a pesquisadora, ainda, Tancredo mantinha alianças com outros líderes umbandistas, “com os quais articulava uma posição africanista para a Umbanda, demonstrando forte antagonismo para com os líderes da chamada Umbanda Branca.”[7]
 Sempre contou com o apoio e compreensão das autoridades civis, militares e eclesiásticas nos seus empreendimentos. Dentre os seus contatos e estreitos relacionamentos políticos destacam-se o Governador Chagas Freitas, Negrão de Lima, Deputado Átila Nunes, o Chefe da Casa Civil Golbery do Couto e Silva, Deputado Marcelo Medeiros e Deputado Miro Teixeira, etc. Mantinha proximidade muito grande com Mãe Senhora (Ọ̀ṣun Mìwà), terceira Ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá (a segunda Casa de Candomblé Ketu do Brasil).
O antropólogo Marco Aurélio Luz nos conta que Tata Tancredo prestou homenagem a Mãe Senhora, em uma festividade no Maracanã, em 1965, escolhendo-a como a “Mãe Preta do Brasil”, erigindo-lhe estátua numa Praça em Campo Grande (Rio de Janeiro). Nessa praça, segundo o autor, Tata Tancredo “realizava o encontro de centenas de terreiros em homenagem aos ancestrais, conhecidos na Umbanda como Preto Velho”.[8]
Em vida ainda recebeu diversas comendas e homenagens pelos serviços prestados às religiões afro-brasileiras. Especialmente como fiel defensor da prática africanista no culto de Umbanda: o Omolokô. Recebeu em Sessão solene da Câmara Estadual do antigo Estado da Guanabara, o título de Cidadão Carioca, pelos serviços prestados em favor do povo. Teve publicada mais de 30 obras literárias, divulgando a Umbanda e o Omolokô. Foi fundador e colaborador de diversos jornais e revistas destinadas a esclarecer e orientar os adeptos da religião afro-brasileira. O humilde e analfabeto estafeta dos correios “escreveu” diversas obras de cunho umbandista e manteve colunas diárias, algo impensável!
Protagonizou uma série de debates com outro intelectual umbandista W.W. da Matta e Silva (o fundador da Umbanda Esotérica). Para Tancredo a Umbanda tem raízes na África, que teria se desenvolvido, à exemplo do Candomblé, nos quilombos e nas senzalas. Matta e Silva não concordava com isso e preferia o embranquecimento da Umbanda, tirando, em grande parte, a influência da África na Umbanda. A Umbanda Esotérica (ou Iniciática) propugna as mesmas conclusões do 1º Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, que a Umbanda é um fenômeno que não possui ligações com a África, mas sim com Lemúria, Atlântida, Índia, ou seja, com qualquer coisa menos com a África. Percebe-se, assim, o grande preconceito que há contra a influência africana na Umbanda. Uma análise melhor sobre isso pode ser visto em nosso texto no endereço: http://sites.google.com/site/caboclopanteranegra/textos-doutrinarios-e-informativos/importancia-do-estudo-da-mitologia-africana.
O que nos chama a atenção é que nas Umbandas que são refratárias às influências africanas os Sacerdotes se utilizam de nomenclaturas africanas para designarem seus cargos e postos, tais como Babalaô, Babalorixá, Babá, Cambono, Ogã etc.
Tata Tancredo faleceu em 01 de Setembro de 1979, sendo sepultado no dia seguinte às 15:00hs, na quadra 70, carneiro 3810 do Cemitério de São Francisco Xavier, à Rua Pereira de Araújo, nº. 44, Rio de Janeiro. As despedidas ao seu corpo foram realizadas no Ilê de Umbanda Babá Oxalufan, situado a Avenida dos Italianos nº.1120, em Coelho Neto, onde seu corpo foi velado. No livro de registro de filhos de santo estão registrados mais de 3.566 filhos de santos que foram iniciados por Tata Tancredo.
O Sirum (Axexê), cerimônia de encomenda do corpo de pessoa falecida, foi realizado por José Catarino da Costa, conhecido como Zé Crioulo, filho de Xapanam[9] e confirmado como Ogã no Terreiro de Tio Paulino da Mata e Tia Olga da Mata.
Uma das curiosidades de Tancredo, segundo o pesquisador, escritor, músico e compositor Nei Lopes é que ele teria sido Pai de Santo do “bispo” Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus.[10] Nei Lopes publica um artigo, que aborda a biografia de Tata Tancredo e seu envolvimento com o samba. Em seguido eu o coloco na íntegra:

TANCREDO, O GENERAL DA BANDA
No carnaval de 1950, um samba diferente ganhava as ruas, na voz do saudoso cantor Blecaute. Constava quase que só de um refrão (Chegou general da banda ê ê! Chegou general da banda ê á!) tirado talvez de uma cantiga de umbanda ou do repertório das batucadas que animavam o antigo jogo da pernada carioca, primo-irmão da capoeira. Levava as assinaturas de Sátiro de Melo, Tancredo Silva e José Alcides. E fez tanto sucesso que seu intérprete passou, a partir daí, a apresentar-se, nos shows carnavalescos, envergando uma vistosa fantasia de talhe militar. Mas “general” mesmo foi o co-autor Tancredo. General do samba, da umbanda e das causas populares.


Blackout intérprete do famoso samba de autoria de Tancredo "General da Banda" que fez sucesso nas festas de carnaval.
Imagem disponível na internet

Arte e Música

Tancredo da Silva Pinto nasceu em Cantagalo, RJ, em 1904. “Tata de inquice”, ou seja, pai-de-santo, da linha do Congo e do rito omolocô, em 1949 fundou a Confederação Umbandista do Brasil e durante sua existência publicou vários livros sobre a doutrina umbandista. Em música, Tancredo é também co-autor, com Davi Silva e Ribeiro Cunha, de outro clássico: o samba Jogo Proibido, gravado em 1937 por Moreira da Silva e tido, quase unanimemente, como o primeiro samba de breque. Dez anos depois, destacando-se como líder, ajudava a fundar a Federação Brasileira das Escolas de Samba.
Em janeiro de 1950, o jornal Quilombo, dirigido por Abdias do Nascimento e voltado para a comunidade negra, publicava matéria intitulada ‘Os compositores populares defendem os seus interesses’. E nela dava conta da fundação da ‘Escola de Samba Arte e Música’, por iniciativa de Tancredo e seu parceiro José Alcides.
A ‘Arte e Música’, segundo seus fundadores, era uma sociedade de âmbito nacional e suas realizações deveriam repercutir até no estrangeiro. Seu objetivo era divulgar a música popular tipicamente brasileira. E, para tanto, ela pretendia criar departamentos autônomos e especializados para cada setor, nomeando representantes estaduais, e estabelecendo núcleos de ‘arte e música’ pelas principais cidades brasileiras, com vistas a intenso intercâmbio de experiências artísticas.
A escola de Tancredo pretendia também divulgar, a partir do Rio e através do rádio, do disco, do teatro musicado e de partituras impressas, as criações de autores desconhecidos do interior do Brasil. E se dispunha a, mediante contrato, colaborar com as firmas produtoras de ‘películas cinematográficas, fornecendo-lhes artistas, extras e compondo música popular’ – conforme declaração de Tancredo Silva.


 Tancredo compositor de samba e autor de inúmeros livros
Imagem disponível na internet.

Firme em seus objetivos, a instituição pretendia tão somente atuar no mercado de trabalho e não fazer benemerência: ‘É preciso não esquecer que constituímos uma entidade de arte e cultura e não de assistência social.’ – afirmava um de seus dirigentes ao jornal Quilombo. ‘Contudo não podemos fechar os olhos aos problemas de caráter grave e urgente. Mantemos um socorro social com a finalidade de atender às necessidades básicas e às situações aflitivas dos nossos associados’.
Tancredo Silva Pinto faleceu no Rio em 1979. Três anos antes recebia honrarias da câmara de vereadores do município de Itaguaí. E, em 1974, realizava na ponte Rio-Niterói, na condição de sacerdote da umbanda e com respaldo governamental, ritual propiciatório da fusão entre os antigos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro. E dois anos antes da passagem do líder para a Outra Dimensão, era fundada, no bairro da Abolição, na antiga Avenida Suburbana, numa loja onde antes funcionava uma funerária, a chamada ‘Igreja Universal do Reino de Deus’, criada, segundo consta, por um dos filhos-de-santo do respeitado tata (e bamba).
Líder do samba, dos cultos afro e de parte do segmento autoral musical, foi de fato um comandante. Sobre sua inusitada escola de samba, pouco se sabe. Mas seu ideário, antecipando muita coisa boa que efetivamente veio, anos depois – como o Projeto Pixinguinha, as gravadoras independentes e até mesmo alguns princípios defendidos pela SOMBRÁS e pela nossa AMAR – fez dele um legítimo estrategista.
Saravá sua banda![11]

ALGUNS LIVROS DE TANCREDO DA SILVA PINTO
- Negro e Branco na Cultura Religiosa Afro Brasileira – Os Egbás – Editora Espiritualista – em parceria com Gerson Ignes de Souza
- Tecnologia Ocultista da Umbanda no Brasil – Editora Espiritualista
- A Volta dos Orixás – Editora Espiritualista
- Doutrina e Ritual de Umbanda – Editora Espiritualista
- Primado de Umbanda – Editora Espiritualista
- Guia e Ritual para Organização dos Terreiros de Umbanda – Editora Eco – em parceria e Byron Torres de Freitas
- Doutrina e Ritual de Umbanda – Tancredo da Silva Pinto e Byron Torres de Freitas
- As Mirongas de Umbanda – Tancredo da Silva Pinto e Byron Torres de Freitas
- Tecnologia Ocultista da Umbanda Brasil
- Origens da Umbanda
- O Eró
- Cabala Umbandista
- Iaô
- Camba de Umbanda
- Impressionantes Cerimônias da Umbanda
- Fundamentos da Umbanda


· Sacerdote afro-religioso. É dirigente do Templo Espiritual Caboclo Pantera Negra (Terreiro de Umbanda Omolokô) e do Ilé Ifá Ajàgùnmàlè Olóòtọ́ Aiyé. É Erìnmì Awo da cidade de Ìjágbó, Estado de Kwárà, Nigéria e o Líder (Olórí Ẹbí) da família de Ifá do Àràbà Olúsọjí Oyékàlẹ̀ para o Brasil. Especialista e Mestre em Ciência da Religião (ambas pela PUC/SP), Especialista em História da África e do Negro no Brasil pela UCAM/RJ; Bacharel e Mestre em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública,  pelo Centro de Altos Estudos de Segurança; Especialista em Políticas Públicas de Gestão em Segurança Pública (PUC/SP). Endereço eletrônico: ezezide@gmail.com

[1] Termo que vem do árabe e quer dizer tradição. A utilização de termos árabes na Umbanda Omolokô demonstra a influência que os costumes malês (negros muçulmanos) tiveram na implementação dos cultos afro-brasileiros. Sunna é um étimo utilizado com a mesma significação de Orúkọ (nome iniciático) para o Candomblé Ketu.
[2] LOPES, Nei. A presença africana na música popular brasileira. Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/050/50clopes.htm. Acesso em 10/08/2010.
[3] KLOPPENBURG, Boaventura. Espiritismo: orientação para os católicos. São Paulo: Loyola, 2005, p. 40.
[4] KLOPPENBURG. Op. Cit., p. 41.
[5] CAPONE, Stefania. A busca da África no Candomblé: Tradição e Poder no Brasil. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria/Pallas, 2004, p. 134.
[6] FREITAS, Byron Torres de & PINTO, Tancredo da Silva. Fundamentos da Umbanda. Rio de Janeiro: Editora Souza, 1956, p. 19,
[7] BROWN, Diana. Uma historia da Umbanda no Rio. In: Umbanda e Política. Cadernos do ISER, n. 18, Rio de Janeiro, Marco Zero-ISER, 1985, p. 9-42.
[8] LUZ, Marco Aurélio. Cultura negra em tempos pós-modernos. Salvador: EDUFBA, 2008, p. 126.
[9] Nome de um das divindades do panteão Jeje, que se assemelha a Omolu.
[10] LOPES, Nei. A república “evangélica” do Brasil. Disponível em: http://www.neilopes.blogger.com.br/2008_09_01_archive.html. Acesso em 19/08/2010.
[11] LOPES, Nei. Tancredo, o General da Banda. Disponível em: http://www.neilopes.blogger.com.br/2008_08_01_archive.html. Acesso em 10/08/2010.

Nota: texto publicado em https://cefeco.wordpress.com/2013/08/14/tancredo-da-silva-pinto/

domingo, 14 de abril de 2019

KALÉ BOKUN RIQUEZAS DA NAÇÃO IJEXÁ

Por Jaime Sodré


Líder sacerdotal a Iyalorixá do Ile Ase Kalé Bokun
Imagem disponível na Internet

                                                  A compreensão da composição da nossa civilidade passa por conhecimento dos elementos componentes da nossa formação. O “elemento afro” é fundamental para saber o que somos. A venerável ialorixá Estelita Lima Calmon, no espaço de Olorum, está radiante, chegara a ela, em junho de 2016, o documento que deu início ao tombamento do Terreiro Ilê Axé Kalè Bokùn – “terras das riquezas profundas”, raro templo da nação ijexá.

 O Ojá indica a árvore sagrada
Imagem disponível na Internet

Segundo a Ialorixá Vânia Amaral, “ela assinou a notificação e no dia seguinte descansou”. O templo localiza-se a 85 anos, em Plataforma. Ao receber a notificação, cantara para Ogum, nos informa Leonel Monteiro, presidente da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia - AFA.
A Fundação Gregório de Mattos (Fernando Guerreiro) considerara o terreiro como Patrimônio Cultural da Cidade do Salvador, o primeiro ijexá com esta honraria, Evidenciando aspectos histórico, cultural, religioso e afetivo, o tombamento possibilita a preservação do patrimônio físico e os saberes ancestrais como um potencial instrumento de proteção.
Para efetivação deste reconhecimento atuou  o professor e pesquisador da Universidade Federal da Bahia, Vilson Caetano, louvamos a sua apurada pesquisa sobre os ijexás, que tem como raízes a região da Costa Oeste, próximo a Nigéria, povo de língua iorubá, guerreiros e intensa participação feminina. Em Salvador, instalaram-se no Dique do Tororó, Mata Escura e Vasco da Gama. No século XIX, foram para a Península Itapagipana.

Espaço público sagrado
Imagem disponível na Internet

Expressamos nossas reverências ao ilustre fundador e primeiro babalorixá do Kalè Bokùn, Severiano de Logun Edé. Os ijexás nunca se esqueceram de Oxum, considerando a água como elemento primordial do culto afro-brasileiro. A expressão ijexá, leva-nos ao ritmo homônimo, vinculado amplamente com o carnaval de Salvador, saiam à rua levando o seu tambor, percutido por mulheres.

Ilu ijexa
Imagem disponível na Internet

Para Milena Tavares, competente diretora de Patrimônio e Humanidades, da Fundação Gregório de Mattos, “o terreiro preserva aspectos construtivos de época e mobiliário antigo, além de elementos singulares ao culto ijexá”. Levando em conta o seu conjunto de divindades tem Logun Edé e Oxum como orixás principais, Oxalá (Benção) é o patrono da casa, porque a ialorixá de Severiano era filha deste orixá.
Dentre as atividades do terreiro, destacamos o Geledé, somente  de mulheres, a ebomi Marcia afirma que por ser interno e sigiloso, não pode revelar detalhes do culto,  é a sociedade das Iyàmìs, entidades femininas.
Jubilosos estamos todos e em coro com a ebomi Tânia Bispo, dizemos: o terreiro Ilê Axé Kalè Bokùn  é “um útero que acolhe. O ijexá é a terra da água, do colo e do amor”.



Oxum

terça-feira, 9 de abril de 2019

Narcimária Luz é entrevistada da EDUFBA.





Entrevista concedida no a  Lorena Reis para o Espaço do Autor da Editora da Universidade Federal da Bahia a propósito do livro Itapuã da Ancestralidade  Africano-Brasileira (01/07/2012)




Narcimária Correia do Patrocínio Luz, autora do livro Itapuã da ancestralidade africano-brasileira, no bate-papo com a Edufba,  fala sobre esta obra, uma pesquisa sócio-histórica atrelada à arqueologia envolvendo o bairro de Itapuã. Além disso, nos conta sobre sua relação com o bairro em que viveu durante sua infância e adolescência e os motivos que a levaram a realizar este trabalho.
Narcimária Correia do Patrocínio Luz é doutora em Educação, pesquisadora no campo da Educação Comunicação e Comunalidade Africano-Brasileira, além de coordenadora do Programa Descolonização e Educação – PRODESE, grupo de pesquisa que vem se destacando pelas iniciativas junto às comunidades tradicionais na Bahia.

*************************
Edufba – No mês passado, você lançou o livro Itapuã da ancestralidade africano-brasileira. Como foi o processo de concepção desta obra?

No período de 2006 a 2008, fiz um estágio pós-doutoral na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, intercambiando com o professor Muniz Sodré. É no âmbito desse intercâmbio com Muniz que me dediquei a estudar e desenvolver uma arqueologia sócio-histórica de Itapuã. A principal motivação no processo de concepção do livro foi perceber que a Itapuã apresentada por mim aos meus filhos ou jovens que nasceram no final dos anos 1980 e  anos 1990 soa como um lugar que não existe mais. Isso me impressionou muito, porque realmente a Itapuã a qual me refiro está no meu coração, no que aprendi a sentir e identificar desde menina. Eu sei onde está a pedra ancestral-Itapuã. Mas se perguntar para  alguma criança ou jovem que moram no bairro hoje, eles identificam o farol de Itapuã que simboliza a expansão mercantil escravista, sabe até onde está a Plakafor, representando o processo de “americanização urbanística” refletida na construção, da Estrada Velha do Aeroporto, a Avenida Otávio Mangabeira, referência dos valores urbano-industriais do pós-guerra que infelizmente tornaram-se hegemônicos; mas não sabem onde está a “pedra que ronca” e nem o valor simbólico milenar que ela carrega. Conversando sobre isso com meus pais que são educadores e vivem em Itapuã desde os anos 1960, nos demos conta de que realmente quem conheceu aquela Itapuã dos vínculos de sociabilidade africano-brasileira adornada pelas dunas, lagoas, matas, o mar e o Mercado de Peixe não a reconhece no contexto frenético urbano-industrial que  restringiu a vida desse lugar tão especial. Então,como educadora, fui motivada a desenvolver ensaios que aproximassem crianças e jovens da ancestralidade africana que rega  os vínculos de  sociabilidade em Itapuã, herança dos povos que constituem a formação social das Américas.
Durante todo o processo da escrita, motivações institucionais deram-me ânimo para prosseguir os estudos. Fui contemplada na época com uma bolsa de Pós-Doutorado Sênior pelo Conselho de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Bolsa para Autores com obra em fase de conclusão, concurso promovido pelo Ministério da Cultura (MinC) através da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), que reconheceu excelência da abordagem literária e técnica apresentada. Ressalto a atenção da Fundação Pierre Verger, que me deu acesso ao rico acervo de fotos sobre o cotidiano dos pescadores em Itapuã dos anos de 1940. O Arquivo Nacional no Rio de Janeiro também foi uma fonte importante no acesso a documentos sobre Educação.Vale mencionar também o apoio e incentivo da EDUFBA ao acolher o livro, acreditando no valor e importância da abordagem que apresentei trazendo a História da Bahia através do universo simbólico da ancestralidade africano-brasileira representado por ITAPUÃ.

Edufba – No prefácio desta obra, escrito por Marco Aurélio Luz, é possível perceber a sua intimidade com o bairro de Itapuã. Como você descreveria a sua relação com o bairro?

Marco Aurélio foi um grande incentivador no processo da escrita do livro e o primeiro a ler meus escritos.Vivo e respiro Itapuã desde  os seis anos de idade, envolta do legado de  saberes e valores dos nossos ancestrais africanos. Daí foi saboroso escrever (re)visitando lembranças e lugares da minha infância e juventude. Não posso deixar de registrar que também tive que pesquisar muito em arquivos, registros iconográficos, entrevistas com personalidades antigas e lideranças expressivas no bairro. A casa onde morei nos anos de 1970, em frente à Lagoa do Abaeté (Parque Metropolitano do Abaeté), transformou-se na Associação Crianças Raízes do Abaeté (ACRA), uma iniciativa socioeducacional que visa à implantação de condições infraestruturais que otimizem a legitimação dos valores comunais do bairro de Itapuã e, através dessa ação, promover o desenvolvimento físico-emocional de crianças, jovens e suas famílias base das projeções de futuro dessa territorialidade. A ACRA é um dos Pontos de Cultura reconhecidos pelo MinC. Na ACRA, encontrei um espaço importante para fazer repercutir os resultados das pesquisas que venho realizando sobre Itapuã, envolvendo a equipe de pesquisadores do Prodese, grupo de pesquisa que coordeno e que integra o Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq. Foi assim que nasceu o projeto de extensão “Dayó: afirmando a alegria socioexistencial em comunalidades africano-brasileiras”, indicado como semifinalista entre os vinte melhores da 8ª Edição do Prêmio ITAÚ UNICEF 2009. O Dayó dedica-se a regar o cotidiano da ACRA, com os valores e linguagens que venho apresentando sobre Itapuã, envolvendo atividades a exemplo da capoeira, arte do grafite, teatro, exibição de vídeos, excursões, exposições de artes plásticas, publicações, palestras, oficinas com crianças, jovens e professores das escolas públicas através da Biblioteca Viva e o blog que os pesquisadores do PRODESE criaram, alimentando aspectos da sociabilidade africano-brasileira que caracteriza a história e o viver cotidiano de Itapuã.

Edufba– Um dos capítulos de Itapuã da ancestralidade africano-brasileira aborda aspectos do sistema educacional, destacando referências sobre as políticas implementadas no Brasil. Como elas repercutiram em Itapuã?

O conjunto de entrevistas nos permitiu obter uma narrativa sócio-histórica, envolvendo descendentes das famílias fundadoras de Itapuã, os mais velhos que nasceram nos anos 1910, que nos ajudaram a obter algumas impressões conhecendo aspectos sobre as Casas de Mestres organizadas para abrigar meninas e meninos e ensiná-los as primeiras letras, aritmética… Professores que participaram da implantação das primeiras escolas públicas em Itapuã na década de 1950 e 1960. Através de entrevistas que permitiram uma análise particular sobre a educação no Brasil e a Bahia nesse cenário, aderindo ao projeto de implantação da ordem capitalista e, com ela, a institucionalização de políticas na área de Educação voltadas para as relações imperialistas de mundo. Itapuã sofre o impacto desses valores do mundo tecnocapitalista e as escolas públicas do bairro vão fundamentar seus currículos em narrativas etnocêntricas que calam sobre a alteridade civilizatória africana característica do lugar. Lembrando que nas escolas públicas de Itapuã nos anos 1950 e 1960 (décadas de implantação das escolas vinculadas a iniciativas do Rotary Clube e Base Aérea), a população de crianças e jovens que as frequentavam (e ainda frequentam) eram filhos de pescadores, lavadeiras, ganhadeiras descendentes de africanos.

Edufba – Diante do universo simbólico que permeia o bairro de Itapuã, quais aspectos da cultura africana se mantêm mais fortes?

Há todo um universo simbólico que organiza o viver cotidiano através de formas de comunicação, dando forma às narrativas de elaboração de mundo. É um patrimônio milenar africano riquíssimo! Chamo atenção para a religião tradicional africana, re-ligare, uma forma de estar no mundo se desdobrando nas celebrações referentes à visão sagrada de mundo expressas na entrega de oferendas à Yemanjá no mar e outros espaços míticos como a Lagoa do Abaeté. Ainda o entrelaçamento do repertório tradicional dos pescadores, ganhadeiras e lavadeiras de Itapuã através de cantigas e contos que constituem o tecido de histórias que acumulam narrativas valiosas sobre os princípios fundadores da comunalidade; classificação dos peixes no mar de Itapuã; tecnologia da confecção de redes, o uso de canoas, saveiros e jangadas, a arquitetura e estética urbana africano-brasileira; a culinária tradicional africana. Enfim, uma infinitude de valores e linguagens que emocionam!

Edufba – Você coordena o Programa Descolonização e Educação (PRODESE/UNEB). Pode falar um pouco sobre o trabalho desenvolvido neste grupo?

O PRODESE não foi uma escolha. Foi uma precisão, um caminho necessário para exatamente transitar,caminhar por territórios outros em “casa alheia”, sem ter de perder a identidade, sufocada por uma educação neocolonial.
O Grupo desenvolve produções científico-acadêmicas que enfatizam o direito à alteridade civilizatória africano-brasileira, fomentando estudos e atividades de pesquisa, ensino e extensão. Participam do PRODESE pesquisadores do Brasil e de Universidades estrangeiras que produzem participações criativas, com vistas a superar as perspectivas ideológicas neocoloniais que tendem a estruturar as políticas de educação no Brasil, além de elaborar e difundir conhecimentos referidos ao patrimônio civilizatório africano no Brasil. O Grupo tem na sua base de dados cerca de 50 (cinquenta) pesquisas desenvolvidas pelos seus membros, tornando-se referência nacional, através de publicações de livros, capítulos de livros e enciclopédia, artigos em revistas, participação em programas de TV e rádio, dissertações e teses. Vale destacar que muitos conceitos produzidos no âmbito do grupo são referências semânticas consolidadas na área de Educação e Comunicação, contribuindo de modo significativo para a afirmação das tradições e valores das comunalidades africano-brasileira. Um dos canais de divulgação da produção do grupo tem sido o blog da ACRA – Associação Crianças Raízes do Abaeté. Convido todos a conhecerem o blog que apresenta muito das nossas produções.

Edufba– Para quem você recomendaria a leitura do livro Itapuã da ancestralidade africano-brasileira?

É um livro que conta um pouco da História do Brasil, da Bahia e do Nordeste. Gostaria que  gerações de brasileiros, nordestinos, principalmente  baianos, conhecessem sua história através do valor da ancestralidade africana que atravessa as nossas vidas. Há um grande equívoco pensar ancestralidade apenas como uma carga genética! Ancestralidade não é apenas uma sucessão genética. Meu livro procura demonstrar que a  ancestralidade se caracteriza sobretudo por representar as lideranças comunitárias que se dedicaram em vida ao bem estar da família, linhagem, comunalidade através da manutenção e preservação dos valores e linguagens que sustentam o bem estar e destino individual e coletivo. Ancestral é, portanto aquele ou aquela que em vida deu continuidade e garantiu a expansão da memória da sua comunalidade. Itapuã é considerada um ancestral fundador de comunalidades africanas.
Itapuã é uma ilustração, um exemplo do que aconteceu e acontece no nosso país desde o século XVI. No livro procuro contar o impacto das relações de prolongação colonial e neocolonial que vem tragando a vida do nosso povo. Em artigo recente publicado no Jornal A Tarde (15/06/2012), refiro-me à teia dos valores que tendem a transformar a Bahia numa metrópole, extensão geopolítica e expansionista de alguns Estados Nacionais com suas supremacias étnicas e territoriais. Estamos assistindo a imposição de um mercado global, que cria cenários alegóricos forjando um novo sujeito social: o produtor, consumidor, refém das leis do capital. O livro Itapuã aborda a riqueza de valores da civilização africano-brasileira através da “pedra que ronca” demonstrando a recusa permanente à geografia civilizatória racista europocêntrica.
Com a exigência da Lei 10.639/03 do ensino da História da África e Afro-brasileira nas escolas, o livro constitui um canal importante para educar professores, contribuindo com abordagens teóricas e epistemológicas que fundamentem suas práticas.

Edufba – Deixe uma mensagem para os leitores da EDUFBA.

Para os povos que têm o seu viver cotidiano atravessado por tragédias, desdobramentos das relações de prolongação colonial e neocolonial que tendem a sugar sua dignidade, direito à existência e a exercer a sua alteridade civilizatória, e de manter erguidas as dinâmicas territoriais que os organizam, as questões apresentadas no livro Itapuã da ancestralidade africano-brasileira assumem um significado extraordinário. O que está em jogo é a continuidade, a descendência que constitui perspectivas de futuro do patrimônio civilizatório característicos de muitos povos. A Bahia, de modo especial Itapuã, carrega a identidade profunda das civilizações milenares das Américas e África.
Aproveito esse espaço para repetir o que sempre digo nas minhas aulas na graduação e pós-graduação: continuemos a cultuar nossas origens, nossos ancestrais, envolvendo nossas crianças e jovens, animando-os a erguerem a cabeça e terem orgulho de ser e pertencer as suas comunidades, que ao longo dos séculos se dedicam a manter a pulsão de vida para que a Bahia não acabe.
Itapuã é uma territorialidade que faz transbordar esse orgulho de ser, e ainda há tempo para que nós educadores identifiquemos essa força de sociabilidade africano-brasileira que atravessa Itapuã.



sábado, 6 de abril de 2019

Homenagem à Makota Valdina

           Homenagem de grafiteiros à líder religiosa Makota Valdina Pinto

quarta-feira, 27 de março de 2019

MASCULINIDADE E FEMINICÍDIO

Por Marco Aurélio Luz                                      
Para Lélia de Almeida eterna lembrança

Escultura em bronze representando o casal unido por elos, corrente de ancestralidade. 
Símbolo da sociedade secreta Ogboni que reune líderes de instituições de poder feminino e de poder masculino no universo civilizatório nagô.
Imagem disponível na Internet

                         
 Acompanhando os ensinamentos de Sigmund Freud, tentaremos explicar algumas razões do inconsciente da masculinidade e feminicídio.
Uma lógica do inconsciente se baseia no par de oposição DA(aí) e FORT(lá) ou  presença e ausência. Trata-se da situação do nascituro nos inícios de sua vinda ao mundo integrado ao corpo da mãe, e totalmente dependente dela para viver. Trata-se do mistério da transformação do corpo da mulher na gestação e em fonte de alimentação amor e proteção.
A presença da mãe (DA) gera satisfação e plenitude ao recém-nascido ao contrário da ausência (FORT), causa desprazer carência e desespero. Essa é a dinâmica de uma simbiose prolongada.
Poderíamos intuir que estamos diante da tomada de consciência do mistério do existir, vida e morte. Na mitologia grega, Eros Deus do amor e Thanatos Deus da morte, conceitos usados na psicanálise.
Os seres humanos têm consciência desse ciclo natural, mas tentam retardar ou ludibriar a morte. Eros x Thanatos, pulsão de vida contra a pulsão de morte.
Uma das maneiras é a onipotência, como se o poder frente aos outros, garantisse a ausência da morte. É a situação apresentada no célebre escrito de Freud “Totem e Tabu”, que apresenta a “horda primitiva” presente no solo imaginário do inconsciente. Trata-se da luta instalada no grupo para erigir o macho vencedor como aquele que terá o direito a procriação com todas as fêmeas, o que gera tensões e disputas constantes, até que o mais potente atinja a impotência, Eros dá a vez a Thanatos dando início a um novo ciclo e assim sucessivamente.
Toda essa demonstração de violência física das disputas, têm a finalidade de aterrorizar as fêmeas, isto porque essas detêm o formidável poder da procriação que constitui a inexorável complementação sem a qual a masculinidade perderia sentido.


Egito negro faraônico. O casal Miquerinos e Kamerernebti II . 
Imagem disponível na internet 
No caso das sociedades humanas atualmente em geral, vemos a tentativa de os grupos masculinos deterem os poderes políticos da organização social alijando desse comando os grupos femininos. Como disse Mao Tse Tung “o poder está na ponta dos fuzis”.
Mais do que isso, procuram subjugar e colocar as mulheres ao seu dispor para aplacar sua angústia de dependência desde o nascimento. Para isso, tentam colocar ao seu dispor o corpo da mulher.
O patriarcado que predomina no mundo vem sofrendo questionamentos. Movimento de mulheres e novas atitudes de empoderamento feminino tem causado diversas reações. A masculinidade despreparada e desesperada, tenta apelar para tentativas de submeter as mulheres pela força física e a covardia. Consequência da neurose de abandono.
As estatísticas de feminicídio aumentam a cada dia, muito triste.
A superação da simbiose agora neurótica, “homem infantil” e “mulher mãe” é que poderá engendrar através da elaboração de luto dessa situação a constatação da alteridade homem e mulher. 


Tradição nagô; escultura dos Ibeji, Tayo, Keinde e Dou.
Imagem e escultura de M.A. Luz
Cada qual revestidos da riqueza da complementação asseguram a continuidade do existir da espécie .



sexta-feira, 8 de março de 2019

METAMORFOSES DAS ESCOLAS DE SAMBA





                                                 Unidos da Tijuca 2014
                                                      Foto disponível na Internet

Por Marco Aurélio Luz Oju Oba

As Escolas de Samba do Rio de Janeiro surgiram na ambiência da casa de Tia Ciata, Omo Oxum e Iya Kekere, em meio aos desfiles de Ranchos.


Tia Ciata Iya Kekere do terreiro de João Alaba fundado por Bangbose Obitiko.
                         Foto disponível na Internet
Hilário Jovino Ferreira, Lalu de Ouro, Ogã da casa de João Alaba, transferiu a data de saída de seu rancho, o Rei de Ouro, de 6 de janeiro para os dias de carnaval, com   transformações e adaptações a exemplo das novas figurações de Mestre Sala, Porta Bandeira, porta machado e batedores.
                                         Hilário Jovino Ferreira, Lalu de ouro, Ogan
                                           Foto disponível na Internet
Além disso, a formação dos ranchos, tinha comissão de frente, mestre de harmonia, canto e coreografia. Estava lançada então, a semente das Escolas de Samba.
Quando Ismael Silva e outros acrescentaram a percussão, estava instalado os pilares desse processo criativo. 
 

  Ismael Silva que fundou  a Deixa Falar, primeira Escola de Samba
                         Foto disponível na Internet
Novas agremiações se formaram e desfilavam na legendária Praça XI num grande congraçamento que Heitor dos Prazeres classificou de “Pequena África”.
Com o “bota abaixo” do prefeito Pereira Passos e o fim da Praça XI, os desfiles se deslocaram principalmente para a Av. Rio Branco onde estava o Jornal do Brasil.  
Toniquinho um funcionário do Teatro Municipal, resolveu encenar na Escola de Samba a ópera Aída. Conseguiu potentes faróis da Marinha e postou-se em frente ao Jornal do Brasil. O jornalista Mário Filho impressionado, idealizou e deu início aos concursos e premiações dos desfiles. Estava postado o “ovo da serpente”: a combinação da linguagem teatral com a linguagem da mídia.
Mestre Cartola mais adiante sentenciou: “as Escolas de Samba se transformaram em teatro ambulante".


             Angenor de Oliveira, o Mestre Cartola líder da Mangueira
                        Foto disponível na Internet
A entrada da TV nos desfiles, vai alterar bastante a dimensão da linguagem estética comunitária fundadora das Escolas de Samba. O valor realçado pela televisão aos desfiles, ficou vinculado as dimensões visuais espetaculares em detrimento da estética original, impondo a linguagem do espetáculo criando “especialistas” que irão referendá-la nos concursos.
É neste caudal que se afirmam os carnavalescos mais próximos de Escolas de Samba de menos tradição. Fantásticos carros alegóricos, números circenses e personagens do mundo da indústria cultural ganham espaço e poder nos desfiles, diminuindo a presença da comunidade.
Transformam a ala das baianas e a comissão de frente criação da Portela, originalmente formada pelos dignitários da Escola, espaços fundamentais em homenagem à tradição. O samba sofre transformações na música e na dança.
As agremiações mais tradicionais tentam manter uma referência da identidade original escolhendo temas que constituam uma “ópera negra”.
                  Nesse ano o Salgueiro se aproximou com o tema Sango seu orixá patrono, inclusive recebendo uma carta do Alaafin rei de Oyó.
IMAGEM DISPONÍVEL NA   INTERNET
Todavia, apesar da excelência do samba enredo e da bateria, o cortejo foi envolvido pela ideologia do “sincretismo” que comprometeu e prejudicou a apresentação.