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PRODESE E ACRA



VIDA QUE SEGUE...Uma
das principais bases de inspiração do PRODESE foi a Associação Crianças Raízes
do Abaeté-Acra,espaço institucional onde concebemos composições de linguagens
lúdicas e estéticas criadas para manter seu cotidiano.A Acra foi uma iniciativa
institucional criada no bairro de Itapuã no município de Salvador na Bahia, e
referência nacional como “ponto de cultura” reconhecido pelo Ministério da
Cultura. Essa Associação durante oito anos,proporcionou a crianças e jovens
descendentes de africanos e africanas,espaços socioeducativos que legitimassem
o patrimônio civilizatório dos seus antepassados.
A Acra em parceria com o Prodese
fomentou várias iniciativas institucionais,a exemplo de publicações,eventos
nacionais e internacionais,participações exitosas em
editais,concursos,oficinas,festivais,etc vinculadas a presença africana em
Itapuã e sua expansão através das formas de sociabilidade criadas pelos
pescadores,lavadeiras e ganhadeiras,que mantiveram a riqueza do patrimônio
africano e seu contínuo na Bahia e Brasil.É através desses vínculos de
comunalidade africana, que a ACRA desenvolveu suas atividades abrindo
perspectivas de valores e linguagens para que as , crianças tenham orgulho de
ser e pertencer as suas comunalidades.
Gostaríamos de registrar o nosso
agradecimento profundo a Associação Crianças Raízes do Abaeté(Acra),na pessoa
do seu Diretor Presidente professor Narciso José do Patrocínio e toda a sua
equipe de educadores, pela oportunidade de vivenciarmos uma duradoura e valiosa
parceria durante o período de 2005 a 2012,culminando com premiações de destaque
nacional e a composição de várias iniciativas de linguagens, que influenciaram
sobremaneira a alegria de viver e ser, de crianças e jovens do bairro de
Itapuã em Salvador na Bahia,Brasil.


sábado, 17 de novembro de 2018

A VOZ E A VEZ DO MORRO



Morro da Mangueira pintura de Heitor dos Prazeres

A VOZ, E A VEZ DO MORRO
Por Narcimária Correia do Patrocínio Luz
  

É ao sabor do ritmo e cadência do samba adornado pela polirritmia percussiva da orquestra africano-brasileira que destaco aqui, de modo muito especial, a “Voz do Morro”, composição de Zé Kéti (1952).
Os sambas se tornaram legendas na história do Brasil por várias razões:  a primeira por contar os modos de insurgência das populações negras e sua competência para fundar territorialidades que recusam o recalque à sua alteridade civilizatória; a segunda pela poesia que nos emociona e nos leva a dramatizar por meio da dança e da ginga as situações que carregam a pulsão de sociabilidade africano-brasileira.
É preciso chamar a atenção do leitor para a necessidade de transcender o discurso geográfico, mensurável e estático que, esquadrinhando os espaços, diz o que é, e deve ser o “morro”. O morro aqui é uma metáfora! Em cena estão todas as territorialidades no Brasil imantadas pelo patrimônio de valores e linguagens africano-brasileiras.
Todos os sambas falam das tensões e conflitos entre a singularidade africano-brasileira e as políticas genocidas e de abandono que desencadeiam uma dinâmica da violência que vem ceifando a vida de milhares de homens, mulheres, crianças e jovens.
Apesar de todas essas agressões cotidianas, não esqueçamos a imponência e altivez do povo negro que não abre mão do direito de ser e viver suas instituições como as “pequenas Áfricas” no Rio de Janeiro, como se referiu Heitor dos Prazeres às comunalidades sob a liderança feminina das baianas como Tia Ciata.
Eu sou o samba/ A voz do morro sou eu mesmo sim senhor/ Quero mostrar ao mundo que tenho valor/ Eu sou o rei do terreiro/ Eu sou o samba/ Sou eu quem levo a alegria/ Para milhões de corações brasileiros/ Salve o samba, queremos samba/ Quem está pedindo é a voz do povo de um país/ Salve o samba, queremos samba/ Essa melodia de um Brasil feliz.” ( Zé Kéti)
                              Pintura de Heitor dos Prazeres

O que isso significa? A institucionalização de políticas públicas que contemplem direitos coletivos capazes de estabelecer espaços institucionais de combate ao racismo e suas engrenagens ideológicas, que tendem a tragar a vida e submeter as populações negras a situações marcadas por muita dor e humilhação.
Então, cantemos a “voz do morro” num coro uníssono, fazendo repercutir entre gerações o respeito aos valores das comunalidades africano brasileiras e o direito de ser e viver suas instituições.

“O morro não tem vez/ E o que ele fez já foi demais/ Mas olhem bem vocês/ Quando derem vez ao morro/ Toda a cidade vai cantar/ Samba pede passagem/ Morro quer se mostrar/ Abram alas pro morro/ Tamborim vai falar/ É um, é dois, é três/ É cem, é mil!”(Vinícius de Moraes e Antônio Carlos Jobim).

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Carta do Chefe Sioux Touro Sentado




 Chefe Sioux Touro  Sentado

 “O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, elas não empalidecem.

Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.
Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.
Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d’água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.




Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra.
Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.
De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua
sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência.
Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos temos que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.”

“Quando a última árvore for cortada,
quando o último rio for poluído,
quando o último peixe for pescado,
aí sim eles verão que dinheiro não se come…”

(Tatanka yatanka – Touro Sentado – Chefe Sioux)

Tatanka yatanka o"Touro Sentado" liderou a união dos povos que derrotaram o exército  dos EUA comandado pelo general Custer na batalha de Little Big  Horn.  


Batalha de Little Big  Horn.  

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

AFRICA ECHOES


Neste domingo, dia 4, 17h, no Teatro Gamboa Nova, iniciamos a temporada de lançamento do primeiro CD da DNA Urbano, "Africa Echoes - O Som da Africa na Bahia". Esperamos todos vocês lá celebrar o Novembro Negro com o nosso som afro-urbano-baiano. 
Ingressos antecipados pelo Sympla



quinta-feira, 11 de outubro de 2018

MESTRE MOA DO KATENDE fundador do afoxé BADAUE


                                                   OLORUN GBA KU FUN E

domingo, 30 de setembro de 2018

RESPEITO


Por Narcimária Luz

Imagem disponível na Internet
Nzinga Ngola Bandi Kiluanji  a rainha do Ndongo independente. Conhecida como rainha Ginga, é homenageada no Brasil nas Congadas e é o nome do movimento inicial e básico da capoeira a Ginga.  


Uma composição de Otis Redding de 1965 "Respect"(Respeito), recriada em 1967 por Aretha Franklin através de uma interpretação com uma força expressiva inigualável, imprimiu a esse clássico da música soul afro-americana, uma versão radical inspirada na efervescência dos movimentos dos direitos civis e feminista da época.

Aretha Franklin
Imagem disponível na Internet
 "Respeito” atravessa os tempos, atualiza inquietações e questões urgentes referentes a existência feminina em sociedades que se alimentam das relações machistas, sexistas e preconceituosas que   incentivam atitudes desrespeitosas e de ódio contra as mulheres.
 Sabemos que essas agressões que tendem a gerar feminicídios, infelizmente acompanham a história da humanidade. Mas é inconcebível nos acomodarmos ou mesmo aceitar de forma passiva as aberrações e atrocidades que insistem em se manterem como imutáveis. Somos da geração de mulheres que cresceram ouvindo canções como "Respect" e outras canções   que inspiraram insurgências femininas dramáticas, capazes de afirmar agendas políticas contemporâneas fundamentais no mundo e no Brasil.
No âmbito dessas agendas políticas contemporâneas, há os mapas que abordam aspectos da violência contra as mulheres e estatísticas que tentam compreender as engrenagens perversas que vêm devastando a vida de tantas gerações. Uma constatação: o conjunto dessas referências ficam frágeis se insistirem em ignorar os direitos coletivos das mulheres. 

" Xavante" foto Roberto Castro 
Imagem disponível na internet
  
Sim, direitos coletivos! A noção de direitos da mulher numa perspectiva individual, não consegue dar conta das tensões e conflitos que caracterizam os valores civilizatórios, territorialidades e comunalidades que organizam o viver cotidiano feminino considerando a diversidade dos povos.

Homenagem as orixá das águas
 Foto Hans Olubi

O direito individual é extensão de um tempo histórico e geopolítico urbano-industrial do pós-guerra, totalmente alheio às reinvindicações legítimas daquelas que são agredidas todos os dias pelo racismo institucionalizado, por exemplo.
Na realidade brasileira o ideal de identidade nacional feminina para a elite que está no poder, tende a se resumir a mulheres brancas, que vivem no centro sul, de descendência europeia e de classe média ou alta. Mas o Brasil para desespero dessa elite dirigente, é formado em sua maioria por uma população feminina descendente de povos africanos e de povos indígenas também.


Escultura símbolo da sociedade secreta Ogboni. Casal unido por sucessão de elos representando continuidade e descendência.
 Imagem disponível na internet.

Essa descendência feminina africana e indígena possuem valores civilizatórios que estabelecem elaborações de mundo muito particulares, e que por isso mesmo, são negligenciadas nos discursos saturados que orientam as políticas das instituições do Estado. Nossas antepassadas africanas na Bahia do século XIX no contexto da escravidão, identificavam as falácias desses discursos e costumavam se referir a eles como: “conversa de branco” ou “para inglês ver”. Já percebiam o quão distantes e totalmente opostos eles eram, em se tratando das distintas realidades das mulheres das comunalidades africano-brasileiras.
É comum os relatos de mulheres negras submetidas a laqueaduras sem serem consultadas, violentando um direito ancestral: gerar filhos é PODER! Poder que assegura a descendência e continuidade da existência civilizatória através dos filhos. Num país que institucionaliza políticas genocidas e de abandono, as mães negras têm esse direito negado. Outro problema ignorado pelo Estado: lideranças religiosas que zelam pelo patrimônio da tradição africana terem seus espaços sagrados violentados  e  sofrerem agressões e ameaças; mães em luto e arrasadas pela violência institucionalizada pelos aparelhos do Estado que ceifam a vida de seus filhos; ausência de políticas públicas de  saneamento básico visando a prevenção de doenças que acometem a maioria das mulheres negras e suas famílias, considerando também o comportamento racista no âmbito dos serviços  públicos  de saúde que pela displicência, tem  condenado muitas mulheres a morte. Não podemos esquecer também o direito ao território necessário que estrutura os vínculos de sociabilidades das mulheres indígenas e quilombolas, direito que tem sido usurpado por decretos arbitrários no Brasil. Outro aspecto importante é a noção de “empoderamento feminino”, que precisa também acolher a perspectiva dos direitos coletivos como falamos anteriormente e transcender a órbita urbano-industrial eurocêntrica. Para além da desigualdade nas relações entre homens e mulheres no que se refere ao poder, acesso a igualdade de salários no mercado de trabalho, ascensão em cargos eletivos no poder de Estado, temos que considerar a trajetória de empoderamento feminino das nossas antepassadas, que nos deixaram um legado de vanguarda.

Mãe Aninha Iyalorixá Oba Biyi
Imagem disponível na Internet


Sempre insisto em apresentar uma legenda que ilustra a força inesgotável do empoderamento feminino das mulheres negras, protagonizando a expansão e continuidade dos valores civilizatórios dos povos africanos no Brasil no âmbito do contexto escravista e neocolonial.
Mãe Aninha a Iyá Oba Biyi fundadora da comunidade-terreiro Ilê Axé Opô Afonjá referência importante nas Américas anunciava com altivez no início do século XX “A Bahia é uma Roma Negra”.


Ruth  Landes
 Imagem disponível na Internet

Ruth Landes ,antropóloga americana que na década de trinta esteve no Brasil no seu livro A Cidade das Mulheres, destacou que na Bahia:”... as mulheres negras encontraram mais reconhecimento, do seu próprio povo... Uma distinta sacerdotisa chamou a sua cidade de Roma Negra, dada a sua autoridade cultural; foi aqui que as mulheres negras atingiram o auge de eminência e poder, tanto sob a escravidão como após a emancipação. Controlando os mercados públicos, as sociedades religiosas e também suas famílias”. (LANDES,1961:112)
Outra legenda no contexto do empoderamento feminino na perspectiva africano-brasileira, em do aprendizado que tivemos com o Mestre Didi. Na sua convivência com Mãe Aninha, Mestre Didi, a ouviu dizer: “Quero ver nossas crianças de hoje, no dia de amanhã de anel no dedo e aos pés de Xangô.” Naquela época, Mãe Aninha já tinha percebido a importância de fomentar estratégias de legitimação dos princípios e valores civilizatórios africano-brasileiros, no âmbito das instituições do Estado, exigindo e assegurando nesta relação o direito à alteridade civilizatória.
Esse pensamento da Iyá Oba Biyi, é um manancial de altivez que mantermo-nos firmes face ao desafio de tornar possível para as gerações sucessoras o acesso a direitos coletivos que possam dar dignidade ao que somos como descendentes de africanas e africanos. O “anel no dedo”, significa as possibilidades de mobilidade social da população infanto-juvenil de descendência africana na sociedade oficial -, e de outro, Xangô, orixá do fogo que assegura a vida no Aiyê, a expansão de linhagens, da existência concreta ininterrupta, filhos, descendência, ancestralidade, continuidade da comunalidade africano-brasileira, presença transatlântica dos valores culturais.
Mãe Aninha é um exemplo ímpar de empoderamento feminino, hoje ela integra a corrente mítica das nossas mães ancestrais fontes de inspiração no que se refere a atualização e revitalização dos valores que caracterizam a sociabilidade que vêm dinamizando as lutas de afirmação do patrimônio africano no Brasil.


Tia Ciata Iyá Kekere
 Imagem disponível na Internet

Não esqueçamos nossas ancestrais investiram toda a sua vida, sua existência na continuidade do processo civilizatório africano. Não foram heroínas dentro do enquadramento da historiografia neocolonial; não exerceram lideranças sindicais se nos determos ao recorte limitado das lutas de classe; mas, podemos afirmar que no âmbito de um contexto hostil colonial, investiram sua vida com sabedoria e dedicação de forma visceral e comprometida com a expansão da pujança do continuo africano-brasileiro.

Mãe Hilda Iyalorixá Igi Tolu 
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Festa da Beleza Negra do Ilê Aiyê 
Imagem  disponível na Internet

Então empoderamento feminino é sobretudo a afirmação do direito às formas de elaboração de mundo, valores e singularidades histórico-políticas que caracterizam a vida das mulheres brasileiras que se alimentam do poder feminino ancestral. É preciso fomentar leis que sejam instrumentos que rompam com os discursos saturados que invocam uma humanidade exógena ao que somos como nação.

Salgueiro Porta bandeira e Mestre Sala. 
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É preciso reconhecer que só através do reconhecimento e legitimação de direitos coletivos que carregam também a história das nossas antepassadas, fundadoras de comunalidades, instituições, hierarquias, linguagens e valores ao longo dos séculos submetidas a tantas adversidades, teremos a plenitude do empoderamento feminino.


Salgueiro  Ala das Baianas. 
Imagem disponível na Internet


Como afirmou a memorável Mãe Beata de Yemanjá:
”Não basta tolerância, queremos  respeito!”
R-E-S-P-E-I-T-O é o que pedimos!

  

Respect - Aretha Franklin

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Lançamento do livro Pensamento Insurgente


Imagem disponível na Internet

Agemó e o Pensamento Insurgente

por Marco Aurélio Luz

 O livro reúne autores celebrados por sua história intelectual cujos caminhos, resultaram na construção de uma mesma bacia semântica de afirmação de valores que visam a legitimar o contínuo civilizatório africano-brasileiro, rompendo com as ideologias do positivismo cientificista e tecnicista.
O novo território teórico,  está aberto a interdisciplinaridade e a sabedoria incluindo a adoção do mito como discurso capaz de estabelecer preciosos conhecimentos e ensinamentos.
A ilustração da capa traz o camaleão, uma criação de Marcelo Luz. Agemó o camaleão, participa de diversos itans, contos da tradição e representa a sabedoria de conseguir se adaptar às diferentes situações. Ele é um animal que acompanha Orunmila Baba  Ifá que detém a sabedoria oracular, fonte dos desígnios dos rituais, da mobilização de axé.

A literatura de Mestre Didi reúne os itans que configuram a riqueza de sabedoria  da tradição nagô. Num deles "A Chuva dos Poderes", observamos a presença de Agemó no âmago da visão de mundo que caracteriza o culto aos orixá.
No princípio do mundo, os orixá reunidos se queixaram à Orunmila por ele concentrar todos os poderes e eles serem meros mediadores das mensagens dos seres humanos. Os orixá desejavam também terem poderes para facilitar o fluxo dos pedidos e desafogar a faina de Orunmila.
Ouvindo essas justas reinvindicações, Orunmila  adentrou na floresta para pensar como poderia distribuir seus poderes com equidade e justiça sem magoar ninguém.
Então ele ouviu um chamado do alto de uma árvore,era Agemó que logo lhe perguntou sobre os motivos de tanta preocupação.  Depois de Orunmila relatar o acontecido, Agemó disse que tinha uma solução. Muito atento, Orunmila ouviu o que Agemó tinha a dizer. Ele sugeriu que num dia e hora marcada reunisse os orixá no sopé do morro e lá de cima, lançasse uma chuva de poderes. Cada qual se esforçaria para pegar o seu poder escolhido e assim todos ficariam satisfeitos com o que tinham conquistado.
Exu o mais ligeiro, pegou os poderes do movimento e da comunicação. Ogum a transformação do minério em metal o poder de  abrir os caminhos. Ossãiyn o segredo da vegetação e das folhas, Oxóssi o poder da caça e de prover as aldeias. Yansã a movimentação dos ventos, Oxum o poder da gestação feminina e o desenvolvimento dos nascituros. Xangô a organização social e a justiça, e assim por diante.
E assim no âmago da religião, os poderes dos orixá se estabeleceram com a participação de Agemó.

SER BAMBU E CUPIM, METAMORFOSES NECESSÁRIAS PARA O BEM  VIVER 

                                                Por Narcimária Luz 
Há duas legendas africano-brasileiras referências de sabedorias que inspiram gerações a afirmação de um pensamento insurgente,abrindo novos horizontes de legitimação existencial. A Iyá Oba Biyi ,Mãe Aninha fundadora do Ilê Opô Afonjá, ensinou que no caminhar da vida, face as adversidades deveríamos fazer como o bambu: “envergar para não quebrar”.
Imagem disponível em https://pxhere.com/da/photo/1394650

O outro ensinamento é do Mestre Didi, Alapini, Supremo Sacerdote do Culto Egungun, que nos alertava sobre a necessidade de “trabalhar feito cupim”.
Imagem disponível na Internet
São saberes milenares, herança dos nossos/as antepassados/as que tiveram que criar formas e estratégias para a elaboração de valores e linguagens que assegurassem espaços de afirmação,legitimação e expansão do nosso patrimônio civilizatório. Ser "bambu" ou "cupim" no contexto de sociedades estruturadas pela institucionalização de políticas de genocídio e de abandono,é  estabelecer modos de enfrentamento e de luta fundamentais  à promoção de insurgências necessárias à manutenção da altivez e dignidade tão preciosa às nossas comunalidades.
Pensamento Insurgente, Direito à Alteridade, Educação e Comunicação” carrega essa força ancestral! Os/as autores/as  compartilham outros modos/formas de comunicação e educação, transcendendo o deja vú dos discursos saturados que alimentam o flagelo institucionalizado que violentam e dizimam gerações.
Assim, o livro conta com as contribuições valiosas de Michel Maffesoli, Marco Aurélio Luz José Félix Dos Santos, Joel Rufino dos Santos,Dalmir Francisco, Pedro Benjamim Garcia, Narcimária  C. P. Luz,Elisa Larkin Nascimento, Muniz Sodré, J Raquel Paiva, Félix Ayoh’omidire, , Lúcia Fernandes Lobato, Léa Austrelina Ferreira Santos e Gildeci de Oliveira Leite.
Aqui uma homenagem a José Félix dos Santos, Dalmir Francisco e Joel Rufino dos Santos, in memoriam. Amigos que acreditaram na importância de semear pensamentos insurgentes capazes de promover o direito à alteridade civilizatória, valor inestimável para todos os povos.





Iyá Oba Terê do Ilê Ase Opo Afonjá e Iyá Dagã nilê Asipá e o Oju Obá autografando  o livro

 

Iyá Badabarawô nilê Asipá e  a autora Narcimária Luz Otun Omi L`Aiyo autografando o livro


                            Ade L´Aiyo nile Asipa e professor Julio Cezar

Ojé Oloxedê,Iyá Omo IYó IYó e o Elebogi



Otun Iya Badabarawo nile Asipa



Comunicação dos organizadores e autores Marco Aurélio Luz, Narcimária  Luz, Lúcia Lobato e a diretora da EDUFBA a professora Flávia Goulart Mota Garcia Rosa




Marcelo do Patrocínio Luz autor da criação da capa do livro



Os organizadores do livro  com o reitor da UFBA João Carlos Salles Pires da Silva,o professor Narciso José do Patrocínio e Marcos Gonçalves Pires Luz


Colaboradores e incentivadores Mauricio  Luz Ose Awo ,Professor Narciso  Patrocínio e Marcos Omo Oba Kini



Para saber mais visite os links 



quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Convite Lançamento do livro Pensamento Insurgente


É com satisfação que compartilhamos a publicação do nosso livro "Pensamento Insurgente, direito à alteridade, educação e comunicação" pela Editora da Universidade Federal da Bahia.
Depois de uma longa jornada, o lançamento será  no dia 27 de agosto (segunda feira) das 17 às 20 horas na Reitoria da Ufba no bairro do Canela.
O livro conta com as contribuições valiosas de Michel Maffesoli, Marco Aurélio Luz, Joel Rufino dos Santos, Dalmir Francisco, Pedro Benjamim Garcia, Narcimária Luz, Elisa Larkin Nascimento, Muniz Sodré, José Félix Dos Santos, Raquel Paiva, Félix Ayoh’omidire,  Gildeci de Oliveira Leite, Lúcia Fernandes Lobato e Léa Ferreira.


terça-feira, 14 de agosto de 2018

LIBERDADE RELIGIOSA, DIREITO CONSTITUCIONAL


                                                  Conselho de anciãos. Ile Ife
                                                          Foto: Marco Kalish



                                                        Por Marco Aurélio Luz


No dia 10/08 de 2018, notem bem, depois de séculos da tradição religiosa ser reposta da África para as Américas especialmente para o Brasil, o Supremo Tribunal Federal julga a pertinência legal das oferendas que incluem animais. Por razão da atualidade de mais uma expressão de preconceito e racismo republicamos o presente texto.

No ile Egungundo ile Asipa, escultura de Elexin o cavaleiro fundador de territórios.
Foto M. A. Luz 

No território sagrado da tradição africano brasileira para o animal ser oferecido a uma entidade, tem que ter condições muito específicas dentro da liturgia. Ele se apresenta com uma compreensão, de circulação de axé, ciclo vital, restituição. Uma pessoa, ou uma comunidade está atravessando determinado problema... Há na natureza substâncias que, utilizadas liturgicamente, resultam em acionar axé, promover força de existência.


Escultura de igbin o caracol no Ile Asipa.
Foto: M. A. Luz

Quando se oferece um animal é para reforçar o axé de um orixá, ou um ancestral. Refere-se ao orixá de uma pessoa, ou a um orixá ligado a uma comunidade que, vai também reforçar os vínculos espirituais. Por isso as entidades compartilham essa integração de axé das oferendas com as pessoas. 

Ile Egungun do ile Asipa, escultura de akuko 
Foto M.A. Luz

As pessoas comem a comida litúrgica. Então, há uma comunhão entre as forças da natureza e aquelas pessoas. Agora, para isso, não é preciso ser uma quantidade enorme de animal, mesmo porque não são só animais que compõem as oferendas, são folhas, vegetais e outros elementos, substâncias que participam, que vão ser transformados em alimento pela culinária litúrgica, são uma culinária de símbolos, que expressa uma visão de mundo, e vai ser repartida entre os fiéis, convidados, sacerdotisas e sacerdotes, é uma confraternização.

 Ajapa escultura no ile Asipa
    Foto: M. A. Luz

Vai haver uma elaboração muito grande em relação à vida, porque ali você está elaborando o viver e o morrer, uma elaboração muito delicada, muito sutil, muito vivenciada. Ali você não tem o frango do supermercado de que você tem um pedaço de perna e come como se nem tivesse um frango ou uma galinha ali. A ideia de galinha está muito longe encoberta pela coxinha... Muito diferente da tradição religiosa, onde você tem o animal inteiro, com quem você entra em contato... . Você vai viver a dramaticidade natural da situação do viver e do morrer e, por isso são poucos animais.
É uma hipocrisia a crítica a esse ato porque nessa sociedade industrial é que o animal é reduzido simplesmente a um animal seriado para morrer e que vai ser engordado de acordo com a necessidade do mercado econômico que exige produção em massa. Vão ser dados a eles alhos e bugalhos para ele alcançar rapidamente determinado peso.

Foto disponível na internet
Até coisas que comprometem a saúde humana de quem consome, são dadas e os deformam. Eles têm uma vida completamente voltada para isso. São presos ou confinados, uma vida como carne. Eles não vivem uma vida de animal. Eles não têm uma identificação de animal.
A eles é projetada uma identificação de carne, um produto de uma cadeia de produção. Não se cria o animal como animal, aquilo é criado como a produção de um bem unicamente para dar lucro, que vai favorecer uma atividade econômica. Então é uma hipocrisia se colocar a favor dessa sociedade que faz isso e lança no mercado diariamente uma enorme quantidade, porque são mortos industrialmente e chegam para o consumidor sem nenhum aspecto daquele bicho que foi e você nem se lembra do que ele é ou que deixa de ser.


Foto disponível na internet
Então, todas as referências de uma vida social que esteja ligada a isso estão esmaecidas ou apagadas, é simplesmente uma atividade de ir ao supermercado e consumir. Assim como se consome chiclete se consome um animal. Está tudo ali reduzido a condição de produto para o consumo. Não há nada ali que faça pensar na condição da vida animal.
Ao contrário da situação da oferenda em que a pessoa que está oferecendo se identifica com aquele animal, fala com ele dá recados e elabora a restituição que integra a dinâmica do ciclo vital, a circulação de axé. No território sagrado inclusive não é permitido maltratar ou matar qualquer animal.
Embora a função do caçador do predador acompanhe a natureza humana, algo característico da espécie, há diferentes contextos... Agora o que não podemos é aceitar a hipocrisia das críticas vindas do preconceito...

Coluna na casa dos ancestres e ancestrais no ile Asipa de culto aos Egungun
Foto M.A. Luz


NOTAS:

 DA RELIGIÃO NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL

A Constituição Federal, no artigo 5º, VI, estipula ser inviolável a liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e garantindo, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias.