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PRODESE E ACRA



VIDA QUE SEGUE...Uma
das principais bases de inspiração do PRODESE foi a Associação Crianças Raízes
do Abaeté-Acra,espaço institucional onde concebemos composições de linguagens
lúdicas e estéticas criadas para manter seu cotidiano.A Acra foi uma iniciativa
institucional criada no bairro de Itapuã no município de Salvador na Bahia, e
referência nacional como “ponto de cultura” reconhecido pelo Ministério da
Cultura. Essa Associação durante oito anos,proporcionou a crianças e jovens
descendentes de africanos e africanas,espaços socioeducativos que legitimassem
o patrimônio civilizatório dos seus antepassados.
A Acra em parceria com o Prodese
fomentou várias iniciativas institucionais,a exemplo de publicações,eventos
nacionais e internacionais,participações exitosas em
editais,concursos,oficinas,festivais,etc vinculadas a presença africana em
Itapuã e sua expansão através das formas de sociabilidade criadas pelos
pescadores,lavadeiras e ganhadeiras,que mantiveram a riqueza do patrimônio
africano e seu contínuo na Bahia e Brasil.É através desses vínculos de
comunalidade africana, que a ACRA desenvolveu suas atividades abrindo
perspectivas de valores e linguagens para que as , crianças tenham orgulho de
ser e pertencer as suas comunalidades.
Gostaríamos de registrar o nosso
agradecimento profundo a Associação Crianças Raízes do Abaeté(Acra),na pessoa
do seu Diretor Presidente professor Narciso José do Patrocínio e toda a sua
equipe de educadores, pela oportunidade de vivenciarmos uma duradoura e valiosa
parceria durante o período de 2005 a 2012,culminando com premiações de destaque
nacional e a composição de várias iniciativas de linguagens, que influenciaram
sobremaneira a alegria de viver e ser, de crianças e jovens do bairro de
Itapuã em Salvador na Bahia,Brasil.


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

VAMOS CHAMAR O VENTO?




Imagem disponível na Internet


Por Narcimária C.P. Luz
A descolonização nos obriga a pensar radicalmente o lugar em que estamos, pensar a partir das nossas raízes, das histórias que envolvem os nossos antepassados. Só podemos nos fortalecer e compor projeções de futuro que deem dignidade as gerações sucessoras, se imprimirmos atitudes e iniciativas que estabelecem novas fronteiras de pensamento para além do déjà vu da ditadura midiática ou, parafraseando Muniz Sodré, para além do “monopólio da fala”.
Uma propaganda de perfume recente, tem a música “O Vento” (1949) de autoria de Dorival Caymmi como fundo. Dois personagens solitários ilustram a narrativa:  uma mulher caminhando pelas dunas com uma roupa esvoaçante solta ao vento, e um rapaz no mar fazendo manobras de windsurfe.
Para além do exótico, folclórico e turístico é necessário alertar as gerações que não tiveram a oportunidade de verem florescer a obra de Caymmi ao longo das décadas, que “O Vento” perde a sua significância, pois é retirado do contexto simbólico africano-brasileiro que ele carrega. “O vento” que integra as canções praieiras de Caymmi, assim como as demais canções, nos permite conhecer narrativas que contam as histórias do viver cotidiano das populações negras, que têm o mar como referência essencial para organizar seus vínculos comunitários.

Foto de Narcimária Luz
“Vamos chamar o vento/ Vento que dá na vela/ Vela que leva o barco/ Barco que leva a gente/ Gente que leva o peixe/ Peixe que dá dinheiro/Curimã ê, curimã lambaio ...”

Imagem disponível na Internet
O vento entoado por Caymmi, soa como uma oração que apela para as forças cósmicas que regem o universo, imprimindo movimento na vela do barco construído num esforço coletivo de pescadores, que entram no mar para extrair o alimento que vai prover a comunidade. 

Caymmi com pescadores em Itapuã
Imagem disponível na Internet
O mar e seu entrelaçamento com a correnteza dos rios, repercute na organização da pesca através dos princípios femininos do panteão nagô: Iemanjá e Oxum.

Foto Narcimária Luz


O que queremos chamar atenção, é que “O Vento” que Caymmi chama e nos ensina a escutar, carrega o  riquíssimo repertório que os pescadores utilizam para classificar os peixes, observando seu comportamento e/ou natureza, seus habitats, os ciclos de migração e reprodução, a teia alimentar, informações sobre temperatura e luminosidade na água que podem interferir na pesca, as fases da lua, a tábua das marés, além da culinária, da presença e poder  feminino no contexto da pesca, etc. – que são descritas com a propriedade de quem herdou o legado dos mais velhos africanos na lida com o mar.

Imagem disponível na Internet


Estamos nos referindo as formas e códigos da comunicação milenares, cujas relações simbólicas riquíssimas são carregadas de elaborações emocionais, transcendentais, primordiais à experiência humana com seu meio ético, social e cósmica.

Imagem disponível na Internet


A seguir vídeo que apresenta Caymmi interpretando "O vento"








Dorival Caymmi - O Vento - Heineken Concerts - 1996


domingo, 4 de fevereiro de 2018

CANÇÕES QUE ROMPEM FRONTEIRAS



Foto disponível na internet

Por Narcimária C. P. Luz
Algumas questões que vêm afligindo as sociedades contemporâneas submetidas as relações de prolongação neocolonial que geram violências de toda ordem: guerras, fome, perdas territoriais, destruição da natureza, pobreza crônica, mortalidade infantil, institucionalização de políticas genocidas, e a desigualdade social que mapeia o planeta.

Contemporaneamente, distintas comunalidades tradicionais de vários países têm tomado para si, a iniciativa de aplacar as angústias que têm comprometido o direito à existência das suas crianças e jovens, gerações que representam o futuro dos povos. Mas não é fácil erguer espaços institucionais que assumam tais condutas políticas, porque essas iniciativas têm que lidar, frequentemente, com a falta de recursos e incentivos de toda sorte.

Aqui, cabe mencionar os artigos 19 e 20 da Carta Africana de 1976, elaborada em Argel, no âmbito de um Congresso voltado para aprofundar questões sobre o direito dos povos: “Todos os povos são iguais; eles devem gozar do mesmo respeito e ter os mesmos direitos. Nada justifica a dominação de um povo sobre outro; Todos os povos têm direito ‘a existência”

No documento que trata do “Novo Contrato entre Cultura e Sociedade”, apresentado no IIº Congresso Internacional Cultura e Desenvolvimento, realizado em Havana, em junho de 2001, a UNESCO  afirma que  “o desenvolvimento supõe a capacidade de cada povo para informar-se, aprender e comunicar suas experiências um número cada vez maior de mulheres e homens deseja um mundo melhor, perseguindo não apenas a satisfação das necessidades fundamentais, mas a possibilidade de convivência solidária com todos os povos. Seu objetivo não é a produção, a ganância, o consumo, mas a plena realização individual, coletiva e a preservação da natureza”

Foto disponível na internet
Assim, não ter como passar incólume face a experiência de assistir os vídeos de músicas do Playing for Change (Tocando para a mudança). Gratificante!
O Playing for Change Foundation é um movimento criado em 2002, através de um projeto multimídia que se alimenta da música, como um canal poderoso de diálogos em prol da paz e o respeito entre as nações.

Foto disponível na internet
As músicas selecionadas e a capacidade de reunir excelentes músicos de distintas civilizações, imprimem nas canções, interpretações primorosas que emocionam e comunicam mensagens de paz, amor, solidariedade, respeito e dignidade. Para isso, são consideradas as histórias e as dinâmicas territoriais que   caracterizam o viver cotidiano das populações da África, Américas, Caribe, Oceania, Ásia e Europa.
Foto disponível na internet
A estrutura, forma e conteúdo do projeto multimídia Playing for Change, apela para uma estética original convidando-nos a lidar com músicas que envolvem as simbologias características do imaginário de distintos povos.  Impressiona também, o encontro entre gerações de músicos de vários países, cantando valores que comunicam de forma admirável a transcendência do viver. É possível sentir o afeto e criatividade que envolvem todos os vídeos, através das vozes daqueles/as que assumem as interpretação das canções que constituem a identidade profunda de muitas sociedades. A música “La Tierra Del Olvido” (2015) por exemplo, é uma bela ilustração da cultura do povo colombiano contando com a participação de palenques, extensão do contínuo africano nas Américas.
"La Tierra Del Olvido"
Foto disponível na internet
Outras interpretações excepcionais recriadas a partir dos valores de comunidades tradicionais, e constituem convites valiosos que nos levam a viajar no tempo: “Guantanamera” (1963) e “Pata Pata” (1967). Essas são canções que lembram uma época marcada pela atmosfera de transformações políticas e socioculturais fundamentais nos anos 1960. 

Canção Guantanamera
Foto disponível na internet

Miriam Makeba em  "Pata Pata"
Foto disponível na Internet

Arrogância, prepotência, ganância, ignorância, narcisismos e preconceitos, encontram em várias canções, o apelo para a superação do ódio que oprime e mata gerações.  Assim é War (1976) de Boby Marley, com músicos e intérpretes do Congo, Israel, Irlanda, África do Sul, Estados Unidos, Índia que cantam de forma uníssona, comunicando a urgência de uma ética que favoreça o direito a existência dos povos que sofrem o genocídio institucionalizado.
Foto disponível na internet
Como disse John Lennon em Imagine(1971): “Você pode dizer que sou um sonhador, mas não sou o único. Tenho a esperança de que um dia você se juntará a nós e o mundo será como um só... Imagine todas as pessoas compartilhando todo o mundo.”
Foto disponível na internet
Apesar da mediocridade que tende a reger as sociedades contemporâneas, o sonho continua nas canções que incentivam uma ética do futuro baseada na paz e no direito coletivo dos povos.
A seguir vídeos que ilustram as "canções que rompem fronteiras"

La Tierra Del Olvido | Playing For Change | Song Around The World


Guantanamera | Playing For Change | Song Around The World


Pata Pata Recording Session at Apogee Studios | Playing For Change


War/No More Trouble | Playing for Change | Song Around The World


Imagine - Playing for Change_Song Around the World© | Legenda em Portugu...


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O ÂMAGO DO RACISMO


Por Oju Oba Marco Aurélio Luz

Independência do Haiti 1804.
Imagem disponível na Internet
O presidente Trump revelou sua índole racista ofendendo os povos africanos e citando primordialmente o Haiti nas Américas.
Durante o período de luta de libertação os aldeões comandados por Dessalines, derrotaram as tropas francesas de Leclerc e em 1804, sedimentaram a independência do Haiti.
Já no exílio Napoleão revelou sobre sua intervenção no Haiti:
“...tenho de me censurar pela tentativa junto à colônia durante meu consulado. A intenção de fazê-la render-se pela força foi um grande erro. Devia ter ficado contente em governá-la por intermédio de Toussaint.”

Derrota das tropas francesas comandadas por Leclerc cunhado de Napoleão
Imagem disponível na Internet
Os ingleses que já tinham perdido metade da Jamaica libertada,  gritaram aos quatro cantos do mundo: fim do tráfico escravista!!! Abolição da escravatura!!!
A estratégia foi de estabelecer uma política de colônias não só de exploração, mas também de povoamento de europeus, e é assim que tem início a política de branqueamento.
Com Portugal submetido aos interesses do Reino Unido, logo D. João VI abre os portos da colônia para a imigração de brancos especialmente nas regiões sudeste e sul, onde ocorrem a “caça aos bugres” os massacres dos povos Kaigang e Xokleng. Logo transformariam o “inferno verde” a Mata Atlântica”, em “campos ridentes”.
Povo Kaigang
Imagem disponível na Internet
No Império, diante dos protestos da oligarquia agrária escravista, José Bonifácio acalma o cônsul inglês Chamberlain:
“gostaria que os ingleses capturassem todo navio negreiro...Não quero vê-los nunca mais... são a gangrena da nossa prosperidade. A população que queremos é branca”...
A preparação para a abolição consiste numa mudança de status da população negra; será a transformação da classificação pelo aparelho jurídico de Estado de “peça”, e “semovente” propriedade do senhor, em cidadão livre, ou “livre  de tudo” sem acesso aos meios de produção como disse Marx.
Agora caberá ao aparelho ideológico tentar manter uma formação social eurocêntrica. Tem início com o convite de D. Pedro II aos ideólogos do racismo o higienista conde Gobinau e o socialista arianista Lapouge.  
A Razão de Estado se alimentará das teorias científicas “psi” para estabelecer padrões de “superioridade e inferioridade racial”, para erguer o edifício racista que justificará na República, genocídios como o de Canudos, perseguições policiais às instituições do povo negro e a constituição de um imaginário de estereótipos e preconceitos que percorrem as instituições oficiais e a sociedade em geral.
O professor e psiquiatra Nina Rodrigues com a falsa “ciência da psiquiatria da época”, relacionou a doença mental da histeria à manifestação de orixá da tradição religiosa africano brasileira. Com isso, ele atacou a religião fonte da civilização e também a população negra em geral, colocando-a numa escala evolutiva patológica e inferior.
Importante também é a influência da ideologia do filósofo francês Augusto Conte, constituindo uma escala evolutiva baseada nas "etapas" da humanidade. Primeiro estágio o religioso com predominância do mito, depois o metafísico com predominância da filosofia e finalmente a etapa superior, o científico com a presença da ciência. Seu pensamento chamado de positivista muito influenciou a formatação do Estado Republicano no Brasil, e é de onde deriva o lema  "ordem e progresso", ordem eurocêntrica e progresso acima de quaisquer limites ecológicos.

Espaço sagrado das águas na religião africano brasileira
Foto Hans Olu Obi
Apesar disso a transposição pujante da civilização africana se realiza no Brasil e nas Américas, e o povo negro mantém-se íntegro na luta pelos direitos de cidadania plena.

Congraçamento em Palmares no dia da Consciência Negra, Homenagem ao herói Zumbi.
Imagem disponível na Internet


sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Fiat Lux: Salve o Ano Novo


                                                                                Por Chico Alencar


Foto: disponível na internet

🌈: FIAT LUX!
Fogos vão cortar a noite na virada do ano. Costumamos simbolizar nossa eterna busca de felicidade com o que ilumina. Parte dessa ânsia de luz talvez venha da nossa ancestralidade: bichinhos frágeis, a escuridão da noite nos deixava ainda mais desamparados. Domesticar o fogo garantiu nossa sobrevivência de sapiens.🔥



Foto: disponível na internet

Em todas as tradições religiosas a luz tem centralidade. Nossa existência é uma constante batalha entre as sombras e a claridade. Quando nascemos há o júbilo por quem “veio à luz”.🐣

Na religiosidade de matriz africana o fogo congrega e comunica com o transcendente. No candomblé e na umbanda, os espíritos superiores são “de luz” e os trajes brancos favorecem a abertura de caminhos. Os judeus celebram sua “festa das luzes”, o Hanuká, relembrando a vitória do pequeno grupo dos macabeus sobre o poderoso exército do rei da Síria. A Menorah, seu símbolo maior, é um candelabro de sete hastes (grato, Arnaldo Bloch).  No Corão, “Alá é a Luz dos céus e da terra” e um candeeiro com o óleo da oliveira, “árvore bendita”, faz o fogo brilhar ainda mais.💥



Foto:M.A.Luz

O central no budismo é o exercício da elevação na direção da sabedoria, da iluminação. A luz da estrela de Belém conduziu os magos ao lugar perdido onde nasceu Jesus. Sua ressurreição é celebrada com a “benção do fogo novo” e o círio pascal. A bebida em rituais indígenas, vindo das plantas da floresta, ajuda a ver o invisível, alcançar a plena lucidez.☀




Foto: Narcimária Luz

Por isso, o desafio sempre atual é buscarmos a luz. “Luz, quero luz!”, clama o poeta, mesmo sabendo que “além das cortinas são palcos azuis e infinitas cortinas com palcos atrás”.                               
 Morte mesmo é a imersão na escuridão do não ser. O anúncio do profeta falando do nascimento de Cristo sempre me comove: “e o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz!”. 🌈

Há luz no nosso caminho quando nos abrimos ao outro, combatendo a sombra do egoísmo. Há luz na nossa estrada quando, na contramão do sistema de consumo e do mercado total, valorizamos mais o ser do que o ter. Há luz no nosso dia a dia quando deixamos de lado as mesquinharias e nos convertemos a valores como a solidariedade e a justiça, traduzindo-os em atitudes concretas. Há luz em nossa existência quando, mesmo diante da perda e da dor, encontramos força para seguir viagem, alimentados pela fé – que é sempre um face-a-face no escuro. 🎇🙏🏾




Foto: Família Luz

                 A luz do amor brilha em nós quando nos colocamos, uns com os outros💗, em marcha para superar preconceitos e todas as opressões.    Mais um ano chegou: lúmen!🌄 Que seu 2018 seja um ano-luz!🌈 E para nós de reencontro, amor intenso, entusiasmo...💑




    quarta-feira, 29 de novembro de 2017

    ESCULTURAS DE UM MUNDO SAGRADO

                                                      Por Marco Aurélio Luz



    Mestre Didi Asipá Alapini, sacerdote artista
    Foto disponível na Internet
    Um pouco do que aprendi dos ensinamentos de Mestre Didi...
    Mestre Didi Assogbá, o consertador de cabaça, o reparador da vida, sacerdote supremo do templo dos orixá ninu ilé, entidades do interior da terra, Nanan, Obaluaiye e Oxumare, era responsável pelos paramentos e emblemas desses orixá, portanto elementos de um mundo sagrado.

    Fila de Iko, paramento do orixá Obaluaiye
    Foto disponível na internet
    Dos paramentos destacamos a cobertura, ou capuz, fila de iko, palha da costa em forma de cone em franjas que encobrem o orixá Obaluaiye, simbolizando o mistério de seus poderes capazes de controlar o fluxo de doenças, vida e morte.
    Outro paramento é o brajá, feito de sequência de búzios, representação de ancestralidade contínua. Na forma de “escamas de peixe” sucessão de ancestrais é usado a tiracolo cruzado abrangendo dimensões simbólicas do existir, centro presente, frente porvir, costas passado, lado direito princípio masculino, lado esquerdo princípio feminino.

    Ibiri, emblema do orixá Nanan Buroko
    O ibiri, meu descendente retornou trazendo de volta, é o emblema de Nanan feito de nervuras da folha de igi ope, dendezeiro, enfeixados de forma ventral representa os mortos contidos no ventre ressarcido, que proporcionará novos nascimentos.
     Mistério do orixá Iku,  Morte e renascimento. “Nanan Iku re” Nanan é Morte diz a cantiga. Outra cantiga diz  “Ibiri o to/Salare Nanan Olu Odo/ Olowo se in se in; Ibiri é precioso/ Orixa da justiça dona das fontes/ Dona dos búzios (indicado pelo som se in se in).
    Detentora desse poder e mistério Nanan é orixá do interior da terra que proporciona a agricultura. Frutos que recolhidos na terra dando sementes que brotarão.

    Xaxará emblema do orixá Obaluaiye
    Foto e acervo de M. A. Luz
    O xaxará, emblema do orixá Obaluaiye, rei dos espíritos do mundo, é o instrumento que representa o poder de varrer, de cessar as doenças. Composto de nervuras ou taliscas das folhas de igi ope desfiadas, mariwo, são enfeixados de forma cilíndrica e aberto na ponta. Contas, com as cores do orixá, couro que une o feixe de taliscas e búzios adornam o emblema. Esses elementos estéticos representam a materialidade do orixá e os ancestrais que realizam a ação dos poderes do orixá. Obaluaiye é considerado filho de Nanan. 
    O kumon por outro lado é o emblema com que mata. Kopanijé, seu ritmo característico ilustra, “ele mata ele come”. Ele realiza a justiça de Nanan de reparação de matéria que proporcionará novos nascimentos. “Vai-se para dar vez a outros” diz o ditado.
    Ejo Meji emblema de duas serpentes é o cetro de Oxumare outro filho de Nanan. Ejo Meji representa o fluxo dos destinos também representado pelo arco íris, saindo da terra e retornando com sua variedade de cores, diversidade do existir.
    A noção de restituição representado pelo orixá Iku, Morte, e os orixá ninu ilé, está representado no itan, na história que se refere a constituição dos ara aiye, os habitantes desse mundo por Oxalá.
    Conta-se que Oxalá pediu aos orixá para que o ajudassem em achar a melhor matéria para realizar sua missão. Foi então que encontraram a lama, o barro. Quando retiraram os pedaços, a lama verteu água, pôs-se a chorar. Um orixá porém, Iku, não teve dó e levou o pedaço a Oxalá, que ficou muito deslumbrado e agradecido por ser aquela matéria a conveniente. Os demais orixá entretanto, narraram o episódio do choro da lama. Oxalá então delegou a Iku ir fazendo as restituições ao longo da existência do aiye. Iku é um orixá que está no aiye cumprindo essa missão.
    É dessa visão sagrada de mundo que se desdobra a obra de esculturas de Mestre Didi Assogbá e Alapini, um sacerdote artista.

    Xaxará, Ibiri ati Oxumare
    Foto e acervo de M. A. Luz
    Uma das recriações estéticas fundamental é “Xaxará, Ibiri ati Oxumare ” que concentra e combina os emblemas dos orixá do panteão da terra.
    Sua composição harmoniosa dos três emblemas combina com formas geométricas que utilizam o vazado, que também representa o vazio, o mundo dos invisíveis orun, o além complementando  o aiye visível, esse mundo.
    No mundo nagô a noção de odara, o bom e o belo, o técnico e o estético são dimensões indissociáveis do fazer.

    Opa Ossãiyn ati Oxumare
    Foto disponível na internet
    Outra importante recriação estética é a presença do Opa Ossãyin, cetro do orixá Ossãiyn, patrono da vegetação que garante a existência, “kosi ewe kosi orixá” sem folha não há orixá. Os rituais religiosos exigem a participação da cerimônia de “cantar folhas”, os emblemas dos orixá portanto também são consagrados. Por outro lado as recriações estéticas apenas derivam do sagrado.


    Monumento que reproduz a peça O Cetro de Obaluaiye no Museu de Arte Moderna da Bahia.
    Foto disponível na internet
    O cetro de Obaluaiye recria elementos do ojubo como o cuscuzeiro e o opa Ossãiyn.

    O Sentinela, ao centro ladeado por outras recriações de Mestre Didi no Museu Afro Brasil São Paulo.
    Foto: disponível na internet
    Elemento importante são as lanças, esin, que defendem a continuidade da tradição religiosa que proporciona e garante a circulação de axé. Obaluaiye é sentinela guardião dos valores da tradição.
    O Opa Esin ati Eiye o cetro de lança com dois pássaros, homenageando a ancestralidade masculina e feminina, guardiãs da continuidade da tradição religiosa que garante a circulação de axé se desdobra em monumento.

    Monumento que reproduz a peça Opa Esin ati Eiye Meji no Pelourinho Sa. Ba.
    Foto: M. A. Luz
     Primeiramente numa recriação do artista Oscar Ramos, então coordenador do carnaval, decorou com exuberância o Pelourinho, simbolizando a trajetória histórica do tronco dos castigos a imponência do Opa Exin.   

    Monumento Opo Baba Nla, que reproduz definitivamente o Opa Exin ati Eiye Meji. 
    Foto: M. A. Luz
     Depois a Prefeitura criou o monumento Opo Baba Nla na praia da Paciência no Rio Vermelho em Salvador. Homenagem a ancestralidade africano brasileira que introduziu a civilização africana no Brasil.   

    Igi Iwin
    Foto disponível na Internet

    Igi iwin o espírito das árvores representa a relação dos seres humanos com as árvores. Contam que a cada ser humano que fazia, Oxalá criava uma árvore. Há uma relação estreita do culto aos Egungun, ancestrais masculinos com as árvores especialmente Opa Akoko e Igi Ope dentre outras. As varas de Atori são elementos fundamentais no sacerdócio do culto aos Baba Egun, manejados pelos Ojé e Amuixan. Os sacerdotes são chamados de Mariwo nome das frondes consagradas do igi Ope, dendezeiro.
    Importante paramento do orixá Obaluaiye é o lagdiba, eleke colar feito de casca de árvore.
    O Igi Iwin brota do chão para o alto em feixe de taliscas de igi ope representações do coletivo dos ancestrais até um arco circular que fecha a formatação cilíndrica. Na metade do lado direito e do lado esquerdo dois ramos de onde pendem nas pontas franjas de iko, palha da costa símbolo de mistério e poder ancestral.
    A constelação dos orixá expressos na mitologia caracteriza uma visão de mundo que estabelece suas relações e complementação. A sinergia entre princípios e aspectos das forças que regem a natureza, o existir, está presente nas recriações estéticas do sacerdote artista.
    Inumeráveis recriações odara, de harmonia e beleza, de simbologia transcendente constituem as relações dos orixá Oxalá, Xango, Oxóssi e outros com o panteão da terra.

    Exu Amuniwa
    Foto: M. A. Luz
    Por fim não podemos esquecer do orixá patrono do movimento que permite a circulação de axé, trata-se de Exú que permite que esse mundo não se acabe. Mestre Didi compôs sua representação em barro, proto matéria dos seres.



    domingo, 12 de novembro de 2017

    CELEBRAÇÃO DO CENTENÁRIO DE MESTRE DIDI NA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DA BAHIA E COMUNICAÇÃO APRESENTADA POR MARCO AURÉLIO LUZ ,ELEBOGI NO CONTEXTO DA HOMENAGEM NA ALBA





    Composição da mesa que realizou as homenagens ao Centenário de Mestre Didi


     A sessão especial realizada nesta segunda-feira, 6, no plenário da Assembleia Legislativa, sob a responsabilidade da Deputada Fabíola Mansur, ela abriu os trabalhos da série de homenagens ao centenário de Deoscoredes Maximiliano dos Santos:
    " Mais conhecido como Mestre Didi, ele nasceu em 2 de dezembro de 1917 e foi sacerdote, escultor e escritor, com grandes contribuições nas três faces de sua vida religiosa e intelectual.
    Com exposições no Brasil e no exterior, ganhou diversos prêmios e foi um dos mais importantes sacerdotes do culto aos egunguns no mundo. Mestre Didi morreu em 6 de outubro de 2013 e deixou como viúva a antropóloga Juana Elbein dos Santos que, presente à sessão, foi agraciada com uma placa, assim como a filha dele, a professora da Unicamp e cantora lírica Inaicyra Falcão dos Santos, que brindou a plateia com uma belíssima interpretação à capela de uma música composta para o pai.

    Nidia dos Santos Badabarawo e Inaicyra Falcão dos Santos To Kun Bo filhas de Mestre Didi recebem a placa de homenagem das mãos da deputada Fabiola Mansur
    Juana Elbein dos Santos Elefunde Egide recebe placa de homenagem entregue pela  Deputada Fabíola Mansur

    “Novembro é mês da Cultura, e também o mês da Consciência Negra e por isso resolvemos antecipar esta homenagem para reverenciar a arte e ética do grande sacerdote e do extraordinário artista plástico que dedicou a vida e o trabalho à valorização da ancestralidade africana para a cultura do Brasil”, destacou Fabíola.
    Genaldo Novaes Alagba nile Asipa e Balbino Daniel de Paula Alagba nile Agboula prestam homenagens a Mestre Didi

    A deputada socialista aproveitou a ocasião para apelar à sensibilidade dos colegas parlamentares a darem celeridade à aprovação de projeto de sua autoria que cria a Comenda da Liberdade Revolta dos Búzios, dedicada aos defensores da igualdade e da fraternidade humana, e cujo primeiro agraciado será,  segundo ela, o próprio Mestre Didi, in memoriam.

    Fonte: informativo digital de divulgação das atividades do mandato parlamentar da deputada estadual Fabíola Mansur (PSB).

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    MESTRE DIDI ASIPA ALAPINI

    Por Marco Aurélio Luz


     
    Marco Aurélio Luz Oju Oba e Elebogi realiza comunicação enaltecendo os valores de Mestre Didi

    Muitos líderes se destacaram no panorama mundial por lutarem pela liberdade, pelo fim do apartheid, pelo fim do racismo, pelos direitos civis, Mestre Didi se destaca pela reposição da religião africano brasileira fonte de civilização que irriga a alma brasileira.

    O destino fez de Mestre Didi um Omo Bibi, um bem-nascido, pertencente a linhagem Asipa originária da nobreza de Oyo capital do antigo império nagô/yoruba e uma das sete famílias fundadoras da cidade de Ketú.
    Sua ascendência no Brasil inclui as fundadoras da primeira casa de axé de culto aos orixá, o Ilê Ase Aira Intile, (Casa Branca); Iyaluso Odana Dana, Iya Naso Oyo, Iyalorixá Oba Tosi Sra. Marcelina da Silva todas da linhagem Asipa.
    A Iyalorixá Oba Tosi foi quem fez a iniciação dentre muitas outras, de Maria Julia da Conceição Nazaré, fundadora e primeira Iyalorixá do Ile Iya Omi Ase Iyamase (Gantuá), e de Eugenia Anna dos Santos Iyalorixá Oba Biyi e fundadora do Ile Ase Opo Afonja .
    A mãe de Mestre Didi, Maria Bibiana do Espírito Santo Oxun Muiwa, foi iyalorixá do Ile Ase Opo Afonja. Descendente da linhagem Asipa recebeu o título de Iya Naso Oyo Akala Mabo Olodumare Ase Da Ade Ta, outorgado pelo Alafin Oyo, rei de Oyo.
    Ela deu grande projeção ao terreiro adotando uma estratégia de procurar inserir a tradição nagô na sociedade “oficial”. Da porteira para dentro, da porteira para fora, deu prosseguimento as ações de Mãe Aninha Iyalorixá Oba Biyi.
    Por essas e outras que Mestre Didi declarou um dia: “A história da tradição de culto aos orixá se confunde com a história de minha família”.
    Ele mesmo ampliou a história da reposição da tradição religiosa nagô em nossa terra.
    O legado de sua ancestralidade trouxe desde cedo os compromissos de um sacerdote de obter os conhecimentos necessários a manutenção, a circulação e a expansão de axé.
    O destino o levou a ilha de Itaparica e foi iniciado no culto aos egungun aos 8 anos de idade por Marcos Alapini, que era zelador de Baba Olukotun Olori Egun, um dos mais antigos ancestrais que viera da África trazido por ele e seu pai Marcos O Velho, durante  o tempo que lá permaneceu aprofundando seus conhecimentos.
    Mestre Didi participou dessa “corrente” de Baba Egun com o posto de Ojé Korikowe Olukotun o escriba de Baba Olukotun.
    Com 15 anos de idade recebeu de Mãe Aninha o posto de Asogba supremo sacerdote do templo de Obaluaiye.
    É nessa função que se tornará escultor e responsável pelos paramentos do ritual dos orixá ninu ile, Nanan, Obaluaiye e Oxumare.
    Desde aí nasce o sacerdote artista quando brota o talento na realização de suas famosas recriações que o projetam internacionalmente.
    Como escritor revelará a escritura da tradição dos contos, literatura original que estabelecerá um gênero literário.
    Realizou o encontro histórico com sua família Asipa em Ketu no encontro com o Alaaketu em 1967.
    Responsável pelo legado da corrente de Olukotun e Alapala recebeu o título de Alapini Ipekun Oiye e fundou em 1980 o Ile Asipa.
    Participou de inúmeras instituições de promoção da cultura, valores e linguagem africano-brasileira concorrendo para a legitimação desse contínuo civilizatório.
    Promoveu as Conferência Mundial da Tradição dos Orixá, e em 1983 no Centro de Convenções deparou-se com o Elejibo, rei de Ejibo. Depois de ele ser saudado respeitosamente por quem ia passando com dodobale indagou de Mestre Didi se não faria o mesmo. O Mestre respondeu dizendo que não se tratava de querer mas que não podia por ter o título de Alapini sacerdote acima de rei.



    sábado, 4 de novembro de 2017

    “NA FÉ E NA PAZ!"À Saudosa Lembrança do Otun Alagbá, José Félix dos Santos



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    ” Kó si ewé, kó sí Òrìsà”
    Sem folhas não há orixá


    Por Narcimária C. P. Luz Otun Omi L´Ayó



    A Comunidade Ilê Asipá, vive um momento de elaboração de luto profundo...

    Dia 15 de setembro, faleceu José Félix dos Santos o Otun Alagbá a   segunda liderança na hierarquia da comunidade terreiro.

    José Félix dos Santos nasceu no dia 19 de julho de 1965 em Salvador.Era filho de Nídia Maria Santos Iyá Babadarawô, e integrava a linhagem dos Asipá originária de Oyó, uma das sete famílias fundadoras da cidade de Ketu.




    José Félix Otun Alagbá e Mestre Didi Alapini
    Acervo Marco Aurélio Luz Elebogi
    Otun Alagbá era neto primogênito de Deoscoredes Maximiliano dos Santos, o Mestre Didi, Alapini Supremo Sacerdote do Culto Egungun, e bisneto de Maria Bibiana do Espírito Santos, Mãe Senhora, uma expoente Iyalorixá do Ilê Opô Afonjá.

    Maria Bibiana do Espírito Santos, Mãe Senhora
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    Teve  três filhas suas  alegrias e orgulho.

    Otun Alagbá com as filhas Adiles Ade L'Okê ,Madalena Logum Muiwa e Micaela Ogum Dafu  .
    Acervo da Otun Iyá Egbé



    Os primórdios do Ilê Asipá nos anos de 1980. Otun Alagbá, Alapini, Omo Oba Kini e o Alagbá.
    Foto Marco Aurélio Luz Elebogi


    Elefundê, Ojé Toimbô, João Jorge do Olodum, Otun Alagbá.  Início dos anos de 1980 no Ilê Asipá
    Foto Marco Aurélio Luz Elebogi

    Sim! José Félix era descendente dessas expressivas lideranças da tradição africana nas Américas, e na sua trajetória como Otun Alagbá, foi responsável por manter os valores da tradição nagô e promover espaços institucionais valiosos para a expansão do legado africano-brasileiro. No Ilê Axé Opô Afonjá, José Félix era Ogã de Yansã, com o título de Ogã Toyadé, que significa “chegou o representante de Yansã”.



    Momentos de descontração no Ilê Asipá com a apresentação da Troça Carnavalesca  Pae Burokô.Na foto, Otun Alagbá é convidado pelos personagens que conduzem a dramatização do Pae Burokô  a entrar na brincadeira.Os atores são Jeferson ojé Ade Niji e Roni ojé Otun Itunlá.


     Foto Marco Aurélio Luz Elebogi

    O título e função de Otun Alagbá, dava a José Félix muitas responsabilidades e atribuições que ele exercia com muito zelo e devoção no âmbito da comunidade terreiro.



    Baba Alapalá e Baba Alojapiu
    O Ilê Asipá  cultua os ancestrais masculinos Egunguns. Fundada em 1980 por Deoscoredes Maximiliano dos Santos o Mestre Didi, Alapini, o Ilê Asipá se caracteriza pela preservação e expansão dos valores africano-brasileiros “com absoluto respeito à liturgia deixada como legado pelos antepassados da família Asipá, de Marcos Teodoro Pimentel, Arsênio Ferreira dos Santos, Miguel Santana e tantos outros importantes representantes das mais dignas e responsáveis correntes da cultura afro-brasileira concorrendo para a divulgação consequente e responsável dos valores éticos que fizeram da ancestralidade seu patrimônio”(LUZ, Marco Aurélio. Agadá, dinâmica da Civilização Africano-Brasileira.Salvador:Edufba,3ª Edição,2017).


    Os Ojé Maxodi,Jobi, Oloxedê, Alapini Ipekun Ojé, Labi, Otun Alagba,Alagba, e Osi Alagba durante a cerimônia de entrega do Título de Doutor Honoris Causa pela Ufba ao Mestre Didi.
    Foto Marco Aurélio Luz Elebogi

    Desde muito cedo José Félix aprendeu que, para legitimar e dar continuidade aos valores civilizatórios dos nossos ancestrais, seria necessário exercer a sabedoria de estabelecer uma relação dinâmica entre os valores sócio comunitários da tradição, e os códigos da sociedade eurocêntrica que tende a tragar o direito à alteridade civilizatória africano-brasileira. Vale lembrar que essa estratégia de afirmação, foi muito utilizada pelo seu avô Mestre Didi e sua bisavó Mãe Senhora.
    Iyalorixá Oxun Muiwá Asipá Iyá Nassô e o artista plástico Carybé o Oba Onansokun
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    Comprometido com esse aprendizado, ao qual Mãe Senhora utilizava a legenda “da porteira pra dentro, da porteira pra fora”, José Félix o nosso querido e saudoso Otun Alagbá, concebeu iniciativas especiais que celebravam a memória e legado dos nossos antepassados.
    Participou do grupo de jovens da Mini Comunidade Oba Biyi, experiência pedagógica pioneira em Educação Pluricultural no Brasil, iniciativa do Mestre Didi(1976-1986).
    Em 1983 José Félix foi responsável por retomar a organização da Troça Carnavalesca Pae Burokô, fundada por Mestre Didi em 1935.Nessa ocasião, o afoxé desfilou no entorno do Ilê Axé Opô Afonjá e no circuito da avenida do carnaval de Salvador.



    José Félix e Mestre Didi na Troça Carnavalesca Pae Buroko em 1983

    Foto: Antonio Jorge Mendes dos Santos Ojé Toinbo

     Acervo Marco Aurélio Luz Elebogi




    Desfile no entorno do Ilê Ase Opo Afonjá

    Foto Antônio Jorge Mendes dos Santos Ojé Toinbo
    Acervo Marco Aurélio Luz Elebogi


     
    Em 2000 teve a iniciativa primorosa de criar atividades culturais em comemoração do Centenário  de Mãe Senhora. Dessa iniciativa organizou com Cida Nóbrega, o livro “Mãe Senhora, Saudade e Memória” pela editora Corrupio.



    Livro dedicado a Mãe Senhora

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     Promoveu a gravação do CD Okan Awa, reunindo cantos para homenagear Mãe Senhora com belíssimas interpretações de Inaycira Falcão dos Santos, e também um selo comemorativo dos 100 Anos de Mãe Senhora.



    Importante realização  do CD de Inaicyra Falcão dos Santos To Kun Bó

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    No livro dedicado a Mãe Senhora, Otun Alagbá comentou:
    “Sempre que' penso nela, a imagem que me vem é de uma mulher negra, cuja fé e coragem, determinação e dignidade sobrepujaram o preconceito, a discriminação e a pobreza, construindo uma personalidade marcante na história da comunidade religiosa afro-brasileira(...) Apesar das resistências religiosas, políticas e sociais, nas décadas em que viveu, conseguiu manter vivo e fazer crescer o Ilê Axé Opô Afonjá, de São Gonçalo do  Retiro com a sua força espiritual, inteligência, sensibilidade política e profundo conhecimento da tradição, tornando-se um exemplo vivo de fé aos Orixás e aos Ancestrais ,exemplo este seguido por muitos dos seus iniciados, até os dias atuais(...) Hoje  novos tempos, onde até o ’modismo’ leva as pessoas aos terreiros, tudo fica  mais fácil. Nos tempos dela, tempos difíceis, a abertura era vital.  Aproximou-se da elite intelectual e política da época para fortalecer a sua aceitação e o seu reconhecimento como mulher, negra e religiosa, mas receava a influência dos ‘novos integrantes’ na comunidade e nunca abriu mão do seu controle, da disciplina, deixando sempre muito claro que, ‘da porteira pra dentr’, era ela que reinava e, abaixo de Xangô, era a autoridade maior.” (SANTOS , José Félix e NÓBREGA, Cida. Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, Saudade e Memória.Salvador:Corrupio,2000, p.11)
    Sempre em que era convidado a expor o seu conhecimento, apresentava-o com eloquência demonstrando ser detentor do repertório dos valores da tradição. Participou de eventos nacionais e internacionais, palestrante em escolas e Universidades, escreveu artigos e ensaios preocupados em comunicar e enaltecer aspectos sócio-históricos da nossa tradição.



    Participação de José Félix dos Santos Otun Alagbá no I Sinbaianidade no âmbito da  Universidade do Estado da Bahia no Campus de Seabra. Mesa  sobre Ancestralidade Africano-Brasileira e Baianidade compartilhada com Narcimária C. P. Luz Omi L`Ayó e Marco Aurélio Luz Elebogi .


    Acervo  Marco Aurélio Luz Elebogi

    Em 2016, Otun Alagbá idealizou o ano comemorativo dos 100 anos do Mestre Didi. As comemorações do centenário envolvem várias atividades, dentre elas uma Conferência "Mestre Didi Alapini, Origens e Originalidades" , proferida por Marco Aurélio Luz, Elebogi, abordando a profundidade e legado da obra de Mestre Didi Asipá como artista, escritor e fundador de importantes instituições.
    Outros desdobramentos do centenário Mestre Didi: homenagem no carnaval da Prefeitura de Salvador ; livro organizado por Kleiton Assis, Otun Elebogi , abordando aspectos sobre as contribuições do Mestre Didi; e homenagem na Assembleia Legislativa da Bahia.



    Foto Narcimária Luz Otun Omi L'Ayó
    Em agosto aconteceu o Festival Anual de Badagry na Nigéria, que homenageou esse ano seu avô Mestre Didi. O Festival de Badagry  costuma homenagear personalidades que foram lideranças na diáspora africana pelo mundo, a exemplo de Marcus Garvey, em 2015 Toussaint L´Ouverture, em 2016 Olaudah Equiano e esse ano, Deoscoredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi.

    O Otun Alagbá participou do Festival Anual de Badagry, integrando a delegação de lideranças religiosas do terreiro Ilê Asipá. Além disso, sua presença na Nigéria esteve envolta ao reencontro com a família Asipá percorrendo os mesmos lugares históricos e simbólicos que o Mestre Didi fez em 1967 há cinquenta anos.


    Otun Alagbá na terra yorubá acompanhado de sua mãe Iyá Badabarawô e do Alagbá Genaldo Novaes.  
                                                                          Acervo Otun Iyá Egbé
    Acompanhando o trajeto do encontro histórico de Mestre Didi Asipá há 50 anos atrás, visita e reencontro à idile a linhagem Asipa em Ketu. Otun Alagbá, Alagbá e Iyá Badabarawô recebidos com muito esmero, honra e emoção pelos primos Asipá.



    Acervo Otun Iyá Egbé

    Outro momento significativo na vida de Otun Alagbá esse ano de 2017, foi os seus trinta anos de iniciado como Ojé no Ilê Agboulá na Ilha de Itaparica.
    O Otun Alagbá, tinha no seu destino a natureza de filho de Ossãyn, e por isso mesmo, recebeu o nome de Ewé Tolú que significa “a folha é senhora do espírito” permitindo-lhe a aproximação do conhecimento que envolve o mistério,segredos da floresta e a riquíssima constelação de folhas que a constitui.



    Opa Ossãiyin


    Acervo do Elebogi

    Como se diz na tradição nagô:” Kó si ewé, kó sí Òrìsà”, que significa sem folhas não há orixá. As folhas são fundamentais para assegurar a pulsão de vida, a dinâmica cósmica que atravessa o Aiyê e Orum. As folhas carregam o “sangue verde” responsável pela circulação de axé.

    A floresta é o espaço sagrado de Ossãiyn!

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    Ossãiyn, detém o repertório dos mistérios das plantas, as quais ele recorre transformando-as em remédios medicinais que asseguram a saúde e bem estar das nossas comunalidades.
     “Na cultura nagô, há uma relação intrínseca entre a medicina e a religião(...) As folhas concentram o poder resultante desta interação de princípios masculinos, caracterizados pela chuva, com os princípios femininos, caracterizados pelo interior da terra, que gera nascimento e proporciona alimentos. (...) As folhas têm importante função ritual, participam de praticamente todos os preceitos que mobilizam e promovem a circulação de axé.(LUZ, Marco Aurélio.Agadá, dinâmica da Civilização Africano-Brasileira.Salvador:Edufba,3ª Edição,2017, p.51)
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    São esses valores que compuseram a trajetória de vida desse filho de Ossãiyn .Sempre presente e muito comprometido com as questões e obrigações necessárias ao ritmo ininterrupto da vida comunitária.

    Certa vez, conversando com Muniz Sodré Oba Aresá nilê  Opô Afonjá, José Félix expressou a responsabilidade que assumiu como Otun Alagbá :

     "Quando recebi a incumbência de me tornar Otun Alagbá n'ilê Axipá, assumi o compromisso de zelar por este terreiro(...). Diariamente, renovamos, através do Ilê Axipá, a nossa identidade como indivíduos e como grupo, levando adiante o nome e a presença de uma das famílias fundadoras de Ketu(...). A palavra que cantamos em nosso culto é a mesma palavra que cantam os Axipá de Ketu, lá na África. Ecoa por lá o mesmo toque dos atabaques que batem por aqui. Continuamos, continuaremos."(SODRÉ, Muniz. Pensar Nagô.Petrópolis:2017, p.90)

    Acervo Marco Aurélio Luz Elebogi
    Otun Alagbá manteve após a ida do Mestre Didi para o Orum, a harmonia e serenidade que estabilizavam a conduta do terreiro.




    Otun Alagbá, Ojé Sarê Toyá, Ojé Omole, Ojé Labi, Osi Alagbá, Alagbá no Ilê Asipá.


    Acervo Marco Aurélio Luz Elebogi
    Numa exposição como palestrante no Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia em 2013, José Félix expressou o valor inestimável da civilização africana através do culto Egungun:
    “Como o culto de Babá Egun é menos conhecido do público em geral do que o culto de Orixá, cabe responder à pergunta: o que são os Eguns? Bom, em resumo os Eguns são ilustres ancestrais: fundadores ou líderes comunitários da tradição yorubá, com vínculos familiares ou afinidades religiosas com as famílias fundadoras ou pertencentes àquela comunidade-terreiro específica.(...) Os Eguns ou Egungun são, assim, ancestrais guardiões de costumes, tradições e valores herdados, respeitados e temidos, que zelam pela comunidade, por sua ética e seu bem estar neste mundo.(...) É neste contexto que se renovam as alianças comunitárias, os vínculos de irmandade, os valores rígidos e estruturantes da hierarquia e respeito, a linguagem e os valores da tradição.”
    Agora José Félix dos Santos nosso querido e saudoso Otun Alagbá, integra a corrente mítica dos nossos ancestrais.
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    Na nossa tradição nagô, se torna ancestral, aquele/a que dedicou a sua vida para fortalecer a identidade profunda da comunidade, promovendo os vínculos de sociabilidade necessários à sua legitimação. Essa conduta permeou toda a vida do Otun Alagbá.   
    Ao ser abordado no dia a dia do terreiro pelas pessoas que lhe procuravam para receber orientações espirituais, ou não, ele costumava dizer:
     “NA FÉ E NA PAZ!”
     Era o suficiente para acalmar e dar uma certa leveza as angústias e aflições.
    Apenas duas palavras, que emanavam seu temperamento equilibrado, tranquilo, generoso, atencioso e solidário...
    Sempre com bons pensamentos!
    Um diplomata!
    Daí essa singela homenagem à sua memória.
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    Aqui é pertinente destacar um pensamento da Iyalorixá Mãe Stella de Oxóssi do Ilê Axé Opô Afonjá : 
     "O que o destino disser que é, não há quem tenha força pra dizer que não é."

    Seguiremos lembrando, reverenciando a memória de José Félix dos Santos nosso Otun Alagbá...
    Acervo Marco Aurélio Luz
    Seguiremos sim, vivenciando o ciclo de elaboração de luto, por essa ausência tão valiosa e harmoniosa do dia a dia da comunidade Ilê Asipá.
    Saudades eternas!
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    Olorum Kosi Purê!
    NOTAS:
    Acervo Iyà Egbé

    Agradecemos a Aparecida dos Santos a Otun Iyá Egbé, irmã do Otun Alagbá, pelas fotos gentilmente cedidas.



    Acervo Marco Aurélio Luz Elebogi
    Agradecemos a Cátia dos Santos a Otun Babadarawô,irmã do Otun Alagbá,  pela colaboração informando sobre alguns títulos para compor as epígrafes das fotos.
    A seguir vídeo com Maria Bethânia cantando a oração às folhas.