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PRODESE E ACRA



VIDA QUE SEGUE...Uma
das principais bases de inspiração do PRODESE foi a Associação Crianças Raízes
do Abaeté-Acra,espaço institucional onde concebemos composições de linguagens
lúdicas e estéticas criadas para manter seu cotidiano.A Acra foi uma iniciativa
institucional criada no bairro de Itapuã no município de Salvador na Bahia, e
referência nacional como “ponto de cultura” reconhecido pelo Ministério da
Cultura. Essa Associação durante oito anos,proporcionou a crianças e jovens
descendentes de africanos e africanas,espaços socioeducativos que legitimassem
o patrimônio civilizatório dos seus antepassados.
A Acra em parceria com o Prodese
fomentou várias iniciativas institucionais,a exemplo de publicações,eventos
nacionais e internacionais,participações exitosas em
editais,concursos,oficinas,festivais,etc vinculadas a presença africana em
Itapuã e sua expansão através das formas de sociabilidade criadas pelos
pescadores,lavadeiras e ganhadeiras,que mantiveram a riqueza do patrimônio
africano e seu contínuo na Bahia e Brasil.É através desses vínculos de
comunalidade africana, que a ACRA desenvolveu suas atividades abrindo
perspectivas de valores e linguagens para que as , crianças tenham orgulho de
ser e pertencer as suas comunalidades.
Gostaríamos de registrar o nosso
agradecimento profundo a Associação Crianças Raízes do Abaeté(Acra),na pessoa
do seu Diretor Presidente professor Narciso José do Patrocínio e toda a sua
equipe de educadores, pela oportunidade de vivenciarmos uma duradoura e valiosa
parceria durante o período de 2005 a 2012,culminando com premiações de destaque
nacional e a composição de várias iniciativas de linguagens, que influenciaram
sobremaneira a alegria de viver e ser, de crianças e jovens do bairro de
Itapuã em Salvador na Bahia,Brasil.


sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Lançamento do livro Pensamento Insurgente


Imagem disponível na Internet

Agemó e o Pensamento Insurgente

por Marco Aurélio Luz

 O livro reúne autores celebrados por sua história intelectual cujos caminhos, resultaram na construção de uma mesma bacia semântica de afirmação de valores que visam a legitimar o contínuo civilizatório africano-brasileiro, rompendo com as ideologias do positivismo cientificista e tecnicista.
O novo território teórico,  está aberto a interdisciplinaridade e a sabedoria incluindo a adoção do mito como discurso capaz de estabelecer preciosos conhecimentos e ensinamentos.
A ilustração da capa traz o camaleão, uma criação de Marcelo Luz. Agemó o camaleão, participa de diversos itans, contos da tradição e representa a sabedoria de conseguir se adaptar às diferentes situações. Ele é um animal que acompanha Orunmila Baba  Ifá que detém a sabedoria oracular, fonte dos desígnios dos rituais, da mobilização de axé.

A literatura de Mestre Didi reúne os itans que configuram a riqueza de sabedoria  da tradição nagô. Num deles "A Chuva dos Poderes", observamos a presença de Agemó no âmago da visão de mundo que caracteriza o culto aos orixá.
No princípio do mundo, os orixá reunidos se queixaram à Orunmila por ele concentrar todos os poderes e eles serem meros mediadores das mensagens dos seres humanos. Os orixá desejavam também terem poderes para facilitar o fluxo dos pedidos e desafogar a faina de Orunmila.
Ouvindo essas justas reinvindicações, Orunmila  adentrou na floresta para pensar como poderia distribuir seus poderes com equidade e justiça sem magoar ninguém.
Então ele ouviu um chamado do alto de uma árvore,era Agemó que logo lhe perguntou sobre os motivos de tanta preocupação.  Depois de Orunmila relatar o acontecido, Agemó disse que tinha uma solução. Muito atento, Orunmila ouviu o que Agemó tinha a dizer. Ele sugeriu que num dia e hora marcada reunisse os orixá no sopé do morro e lá de cima, lançasse uma chuva de poderes. Cada qual se esforçaria para pegar o seu poder escolhido e assim todos ficariam satisfeitos com o que tinham conquistado.
Exu o mais ligeiro, pegou os poderes do movimento e da comunicação. Ogum a transformação do minério em metal o poder de  abrir os caminhos. Ossãiyn o segredo da vegetação e das folhas, Oxóssi o poder da caça e de prover as aldeias. Yansã a movimentação dos ventos, Oxum o poder da gestação feminina e o desenvolvimento dos nascituros. Xangô a organização social e a justiça, e assim por diante.
E assim no âmago da religião, os poderes dos orixá se estabeleceram com a participação de Agemó.

SER BAMBU E CUPIM, METAMORFOSES NECESSÁRIAS PARA O BEM  VIVER 

                                                Por Narcimária Luz 
Há duas legendas africano-brasileiras referências de sabedorias que inspiram gerações a afirmação de um pensamento insurgente,abrindo novos horizontes de legitimação existencial. A Iyá Oba Biyi ,Mãe Aninha fundadora do Ilê Opô Afonjá, ensinou que no caminhar da vida, face as adversidades deveríamos fazer como o bambu: “envergar para não quebrar”.
Imagem disponível em https://pxhere.com/da/photo/1394650

O outro ensinamento é do Mestre Didi, Alapini, Supremo Sacerdote do Culto Egungun, que nos alertava sobre a necessidade de “trabalhar feito cupim”.
Imagem disponível na Internet
São saberes milenares, herança dos nossos/as antepassados/as que tiveram que criar formas e estratégias para a elaboração de valores e linguagens que assegurassem espaços de afirmação,legitimação e expansão do nosso patrimônio civilizatório. Ser "bambu" ou "cupim" no contexto de sociedades estruturadas pela institucionalização de políticas de genocídio e de abandono,é  estabelecer modos de enfrentamento e de luta fundamentais  à promoção de insurgências necessárias à manutenção da altivez e dignidade tão preciosa às nossas comunalidades.
Pensamento Insurgente, Direito à Alteridade, Educação e Comunicação” carrega essa força ancestral! Os/as autores/as  compartilham outros modos/formas de comunicação e educação, transcendendo o deja vú dos discursos saturados que alimentam o flagelo institucionalizado que violentam e dizimam gerações.
Assim, o livro conta com as contribuições valiosas de Michel Maffesoli, Marco Aurélio Luz José Félix Dos Santos, Joel Rufino dos Santos,Dalmir Francisco, Pedro Benjamim Garcia, Narcimária  C. P. Luz,Elisa Larkin Nascimento, Muniz Sodré, J Raquel Paiva, Félix Ayoh’omidire, , Lúcia Fernandes Lobato, Léa Austrelina Ferreira Santos e Gildeci de Oliveira Leite.
Aqui uma homenagem a José Félix dos Santos, Dalmir Francisco e Joel Rufino dos Santos, in memoriam. Amigos que acreditaram na importância de semear pensamentos insurgentes capazes de promover o direito à alteridade civilizatória, valor inestimável para todos os povos.





Iyá Oba Terê do Ilê Ase Opo Afonjá e Iyá Dagã nilê Asipá e o Oju Obá autografando  o livro

 

Iyá Badabarawô nilê Asipá e  a autora Narcimária Luz Otun Omi L`Aiyo autografando o livro


                            Ade L´Aiyo nile Asipa e professor Julio Cezar

Ojé Oloxedê,Iyá Omo IYó IYó e o Elebogi



Otun Iya Badabarawo nile Asipa



Comunicação dos organizadores e autores Marco Aurélio Luz, Narcimária  Luz, Lúcia Lobato e a diretora da EDUFBA a professora Flávia Goulart Mota Garcia Rosa




Marcelo do Patrocínio Luz autor da criação da capa do livro



Os organizadores do livro  com o reitor da UFBA João Carlos Salles Pires da Silva,o professor Narciso José do Patrocínio e Marcos Gonçalves Pires Luz


Colaboradores e incentivadores Mauricio  Luz Ose Awo ,Professor Narciso  Patrocínio e Marcos Omo Oba Kini



Para saber mais visite os links 



quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Convite Lançamento do livro Pensamento Insurgente


É com satisfação que compartilhamos a publicação do nosso livro "Pensamento Insurgente, direito à alteridade, educação e comunicação" pela Editora da Universidade Federal da Bahia.
Depois de uma longa jornada, o lançamento será  no dia 27 de agosto (segunda feira) das 17 às 20 horas na Reitoria da Ufba no bairro do Canela.
O livro conta com as contribuições valiosas de Michel Maffesoli, Marco Aurélio Luz, Joel Rufino dos Santos, Dalmir Francisco, Pedro Benjamim Garcia, Narcimária Luz, Elisa Larkin Nascimento, Muniz Sodré, José Félix Dos Santos, Raquel Paiva, Félix Ayoh’omidire,  Gildeci de Oliveira Leite, Lúcia Fernandes Lobato e Léa Ferreira.


terça-feira, 14 de agosto de 2018

LIBERDADE RELIGIOSA, DIREITO CONSTITUCIONAL


                                                  Conselho de anciãos. Ile Ife
                                                          Foto: Marco Kalish



                                                        Por Marco Aurélio Luz


No dia 10/08 de 2018, notem bem, depois de séculos da tradição religiosa ser reposta da África para as Américas especialmente para o Brasil, o Supremo Tribunal Federal julga a pertinência legal das oferendas que incluem animais. Por razão da atualidade de mais uma expressão de preconceito e racismo republicamos o presente texto.

No ile Egungundo ile Asipa, escultura de Elexin o cavaleiro fundador de territórios.
Foto M. A. Luz 

No território sagrado da tradição africano brasileira para o animal ser oferecido a uma entidade, tem que ter condições muito específicas dentro da liturgia. Ele se apresenta com uma compreensão, de circulação de axé, ciclo vital, restituição. Uma pessoa, ou uma comunidade está atravessando determinado problema... Há na natureza substâncias que, utilizadas liturgicamente, resultam em acionar axé, promover força de existência.


Escultura de igbin o caracol no Ile Asipa.
Foto: M. A. Luz

Quando se oferece um animal é para reforçar o axé de um orixá, ou um ancestral. Refere-se ao orixá de uma pessoa, ou a um orixá ligado a uma comunidade que, vai também reforçar os vínculos espirituais. Por isso as entidades compartilham essa integração de axé das oferendas com as pessoas. 

Ile Egungun do ile Asipa, escultura de akuko 
Foto M.A. Luz

As pessoas comem a comida litúrgica. Então, há uma comunhão entre as forças da natureza e aquelas pessoas. Agora, para isso, não é preciso ser uma quantidade enorme de animal, mesmo porque não são só animais que compõem as oferendas, são folhas, vegetais e outros elementos, substâncias que participam, que vão ser transformados em alimento pela culinária litúrgica, são uma culinária de símbolos, que expressa uma visão de mundo, e vai ser repartida entre os fiéis, convidados, sacerdotisas e sacerdotes, é uma confraternização.

 Ajapa escultura no ile Asipa
    Foto: M. A. Luz

Vai haver uma elaboração muito grande em relação à vida, porque ali você está elaborando o viver e o morrer, uma elaboração muito delicada, muito sutil, muito vivenciada. Ali você não tem o frango do supermercado de que você tem um pedaço de perna e come como se nem tivesse um frango ou uma galinha ali. A ideia de galinha está muito longe encoberta pela coxinha... Muito diferente da tradição religiosa, onde você tem o animal inteiro, com quem você entra em contato... . Você vai viver a dramaticidade natural da situação do viver e do morrer e, por isso são poucos animais.
É uma hipocrisia a crítica a esse ato porque nessa sociedade industrial é que o animal é reduzido simplesmente a um animal seriado para morrer e que vai ser engordado de acordo com a necessidade do mercado econômico que exige produção em massa. Vão ser dados a eles alhos e bugalhos para ele alcançar rapidamente determinado peso.

Foto disponível na internet
Até coisas que comprometem a saúde humana de quem consome, são dadas e os deformam. Eles têm uma vida completamente voltada para isso. São presos ou confinados, uma vida como carne. Eles não vivem uma vida de animal. Eles não têm uma identificação de animal.
A eles é projetada uma identificação de carne, um produto de uma cadeia de produção. Não se cria o animal como animal, aquilo é criado como a produção de um bem unicamente para dar lucro, que vai favorecer uma atividade econômica. Então é uma hipocrisia se colocar a favor dessa sociedade que faz isso e lança no mercado diariamente uma enorme quantidade, porque são mortos industrialmente e chegam para o consumidor sem nenhum aspecto daquele bicho que foi e você nem se lembra do que ele é ou que deixa de ser.


Foto disponível na internet
Então, todas as referências de uma vida social que esteja ligada a isso estão esmaecidas ou apagadas, é simplesmente uma atividade de ir ao supermercado e consumir. Assim como se consome chiclete se consome um animal. Está tudo ali reduzido a condição de produto para o consumo. Não há nada ali que faça pensar na condição da vida animal.
Ao contrário da situação da oferenda em que a pessoa que está oferecendo se identifica com aquele animal, fala com ele dá recados e elabora a restituição que integra a dinâmica do ciclo vital, a circulação de axé. No território sagrado inclusive não é permitido maltratar ou matar qualquer animal.
Embora a função do caçador do predador acompanhe a natureza humana, algo característico da espécie, há diferentes contextos... Agora o que não podemos é aceitar a hipocrisia das críticas vindas do preconceito...

Coluna na casa dos ancestres e ancestrais no ile Asipa de culto aos Egungun
Foto M.A. Luz


NOTAS:

 DA RELIGIÃO NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL

A Constituição Federal, no artigo 5º, VI, estipula ser inviolável a liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e garantindo, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias.




IYAWO-Pixinguinha (VOZ) COM Benedito Lacerda & seu Regional
















segunda-feira, 23 de julho de 2018

NA FÉ E NA PAZ DE JOSÉ FÉLIX



Opa Ossaiyn ati Oxumare Meji, escultura de Mestre Didi



Autor: Gildeci de Oliveira Leite

Escritor, professor da UNEB, sócio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia

Dezanove de julho consolidou-se como uma data comemorativa para a família Asipà do Brasil, família biológica, família espiritual. Sempre foi comemorativa pelo nascimento de José Félix dos Santos, que depois passou a ser, também, “Ewé Tolú”, “a folha é senhora do espírito”, do Ilê Axé Opô Afonjá. Filho do Orixá Ossãe, Félix tinha consigo o segredo das folhas e o espírito da cura. Ogã Toyadé, que significa “chegou o representante de Yansã”, também compunha a casa da Oya mensan orum, Iansã a mãe dos 09 espaços do além, e trazia consigo a autoridade de empunhar o bastão sagrado do ojés, sacerdotes do culto aos ancestrais.
Para alguns pode ser difícil compreender como a partida definitiva para o mundo espiritual pode significar fortalecimento dos que aqui estão, dos que já estão por lá. Digo para alguns, como se fosse difícil somente para os outros, para aqueles, que não possuem a fé na ancestralidade. Nós, os de dentro, também choramos as lágrimas da saudade, que são enxugadas pela presença de quem se foi apenas para outra dimensão do existir, mas vive sempre ao nosso lado a nos proteger.
Morador da casa do mistério, meu compadre Félix, cumpre o seu destino de continuar nos olhando, zelando por nós como fez em seus 52 anos de existência terrena. As vezes acho que ele já sabia de sua partida. As vezes acho, que consciente do cumprimento de sua missão no mundo espiritual, nos deixou recados importantes, lições e ensinamentos materializados no segredo necessário para a individualidade de cada filho, filha, amigo, amiga, irmão, irmã.
Sim, a folha é a senhora do espírito e esse espírito, do qual lembramos e pedimos a proteção, continua senhor de muitos outros espíritos dos mundos de nossa existência. Não há necessidade de pedir, que descanse em paz. A paz, os espíritos elevados já têm. O descanso é um conceito relativo. Acredito, que na espiritualidade não há cansaço no trabalho incessante de nossa proteção. Estamos na alegria de viver “na fé e na paz” como o bisneto de Mãe Senhora ensinou.

 


quinta-feira, 12 de julho de 2018

Javalis Selvagens




Foto disponível na internet


Sabedoria da Tailândia

Por Tata Walmir França

Hoje ao procurar notícias sobre os meninos na Tailândia me deparei com um post onde falava que os pais estavam acampados na entrada da caverna e que as autoridades *não* divulgavam qual dos meninos que foram  libertos. O jornalista procurou saber porque não davam  uma informação tão importante para eles. E como os pais se mantinham ali sem procurar saber se era ou não o seu filho que fora salvo. O jornalista se deparou com um provérbio cultural na Tailândia: *“Evitarás ofender aquele que te ajuda,  pedindo mais do que aquilo que ele te dá”.*  As autoridades não divulgavam para os pais, para evitar que uns se alegrassem e os outros continuassem em sofrimento. Sem saber qual estava fora da caverna,  todos oravam uns pelos outros. E os pais não buscavam mais informações, pois sabiam que as autoridades estavam fazendo o que podiam para salvar a todos. Então, eles não queriam ofender a quem os ajudava, exigindo mais do que aquilo que podiam dar. *Que lição extraordinária!* Quantas vezes ofendemos e insultamos aqueles que nos rodeiam com nossas insatisfações pessoais. Exigindo sempre mais. Aprendamos com eles que não podemos exigir aquilo que não podem me dar e aprendamos a respeitar os nossos limites e o do próximo. Aprendamos a ser gratos, e aprendamos a dizer não quando nos ofenderem ou nos insultarem. Respeito e gratidão são as palavras chaves. Que Deus nos ajude e nos dê sabedoria para colocar em prática aquilo que Ele nos tem ensinado e os Tailandeses parecem já saberem muito bem!! 🙏🏼🙌🏼

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Homenagem ao Mestre Didi na ALBA Assembéia Legislativa da Bahia/Comunicação na íntegra de Marco Aurélio Luz


Réplica monumental da escultura "Opa Exin ati Eiye Meji" de Mestre Didi pelo artista Oscar Ramos no Pelourinho. Prefeito Mário Kertz.
Foto M.A. Luz 

Professor Marco Aurélio, Bem-vindo!
O Sr. MARCO AURÉLIO LUZ:
- Bom dia a todos e a todas. Ago awon aburo ati ebomi. Peço licença aos mais novos e aos mais antigos.
Queria registrar a minha emoção de estar aqui. Atravessei uma trajetória muito especial em minha vida, que foi compartilhada com Mestre Didi e Juana Elbein dos Santos. Fizemos coisas do arco-da-velha.
A Conferência Mundial da Tradição dos Orixás, em 1983, foi uma das realizações mais resplandecentes dessa nossa trajetória. Mestre Didi e Juanita iniciaram isso na histórica reunião em Nova York em 1980,  estiveram na Iª Conferência em Ifé, em 1981, e depois foi realizada aqui em Salvador, quando veio uma delegação africana muito importante lá da Nigéria, com babalaôs e tudo mais, inclusive um rei de Ejigbô, o Elegibô.
Vou citar um episódio dessa ocasião. O Elegibô vinha entrando pelo Centro
de Convenções e várias pessoas deram dodobale, quer dizer, o saudaram mostrando um sinal de humildade e respeito à pessoa do rei. Até que ele se deparou com Mestre Didi, que ficou na mesma posição que estava. E ele perguntou ao Mestre Didi:
- “Você não vai me dar dodobale?” Mestre Didi respondeu: “Não é que eu não queira; eu não posso, porque eu sou Alapini, e Alapini está acima de um rei, de um obá”.
Esta situação do Mestre Didi é uma obrigação, não é que ele não quisesse ou
fosse uma escolha, mas ele é um omo bibi, um bem-nascido, aquele que herda uma herança ancestral de muito compromisso, uma reposição que é a reposição da tradição religiosa nagô.
O destino levou Mestre Didi a ser o responsável pelos ancestres mais antigos da tradição nagô no Brasil e por isso recebeu o título de Alapini. Em Oyo o Alapini cuida dos ancestrais mais antigos no afin no  palácio.


Réplica Monumental da escultura Opo Baba Nla de Mestre Didi na praia da Paciência Rio Vermelho. Prefeito Imbassay
Foto M. A. Luz

Ele me disse uma vez: “Pode-se dizer que a história da tradição do Orixá na Bahia se confunde com a história da minha família”. Porque foram as ancestrais dele, 
 Iyá Nassô, Iyá Obá Tosi,  fundadoras das primeiras casas de culto aqui na Bahia. Iniciaram as pessoas que fundaram o Gantois e o Ilê Axê Opó Ofonjá.
Então esse tronco da tradição africana esteve na responsabilidade da famíliaAsipá, fundadora de cidade lá na África, como Ketu saindo de Oió e se projetando na Bahia nessa reposição.  
Eu penso que o Mestre Didi e vários líderes se destacaram na luta pelos
direitos civis, lutando contra o racismo. Mas Mestre Didi se destaca como um líder da história do negro no Brasil e no mundo de modo geral, lutando pela liberdade, de modo muito especial porque ele lutou pela reposição da tradição africana, dos valores da tradição africana, da linguagem da tradição africana, suas instituições que irriga a alma da identidade brasileira.
Isso é uma coisa fundamental. E ele se destacou por isso, não se destacou fazendo alarde.
 Ele dizia que deveríamos seguir a estratégia dele, que é a de trabalhar como cupim, sempre fazendo as coisas sem alarde, sem aparecer. Por isso que muita gente aqui não conhece o esplendor da trajetória do Mestre Didi. Vem conhecendo pouco a pouco, porque ele mesmo tinha uma estratégia que era a de fazer pouco a pouco e dessa forma, porque a situação não era para a gente estar se mostrando e se demonstrando, nem precisava disso. Ele dizia sempre que ele sabia quem ele era, não precisava estar dizendo para ninguém, nem ninguém dizendo dele, mas nós dizemos porque admiramos e convivemos com ele, temos essa obrigação de enaltece-lo.
Como Gildeci, que me antecedeu, falou nessa casualidade do dia do samba ser um dia também ligado ao 2 de dezembro – data do nascimento do Mestre Didi –, eu vou pedir licença para cantar um samba que já cantei uma vez com Alaor Macedo, que é sobrinho do Mestre Didi, fundador da Lira Imperial e também participou de movimentos das escolas de samba. Como as coisas entre nós acaba em samba, eu vou pedir licença para
cantar essa música de minha autoria.
(Canta uma música.)
No dia 2 de dezembro de 1917 nasceu aqui na Bahia um princípe real/ da África ao Brasil a continuação da família Asipa...
Muito obrigado a todos.
A Srª PRESIDENTA
 (Dra. Fabíola Mansur):- Salve essa voz, professor!

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Viaduto MESTRE DIDI/Mestre Didi é homenageado com nome em viaduto e tombamento do Ilê Asipá




O sábado (2) foi marcado pelo centenário do sacerdote afro-brasileiro e artista plástico Deoscóredes Maximiliano dos Santos, conhecido como Mestre Didi, em Salvador. Integrando a agenda de comemorações, o Governo do Estado, por meio das secretarias de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi) e de Cultura (Secult), nomeou o ‘Viaduto Mestre Didi’, na Avenida Orlando Gomes, e oficializou o tombamento do Ilê Asipá, comunidade fundada pelo religioso, no bairro Piatã. Os atos tiveram a presença de familiares, integrantes do terreiro, autoridades, artistas e acadêmicos.
“Mestre Didi não foi somente mentor do Ilê Asipá, mas de todos nós. Hoje, diariamente, seus discípulos praticam e preservam a religião afro-brasileira com o rigor que o líder sempre ensinou”, afirmou o alabá Genaldo Novaes, em nome da casa religiosa, durante o evento. Ele destacou a sapiência e humildade que sempre foram as marcas do sacerdote, falecido em 2013.
O secretário da Casa Civil, Bruno Dauster, ressaltou a importância das medidas tomadas durante as celebrações da Década Internacional Afrodescendente. “O Governo do Estado abraçou a ideia de efetivar o tombamento do Ilê Asipá e colocar o nome do Mestre Didi num viaduto, sem dúvidas, para que ele tivesse uma presença pública ainda mais marcante em Salvador. Assim, certamente será eterno na lembrança de todos nós”, destacou Dauster.

A secretária da Sepromi informou os trâmites do governo até a concretização das homenagens, segundo ela, executados de forma transversal. “Um conjunto de dirigentes, servidores e organismos foi mobilizado para a realização destas importantes entregas. Uma ação continuada que culminou no dia do aniversário deste grande líder. Marcamos na histórica os legados e contribuições de um homem de múltiplos talentos, que nos ensinou o respeito à diversidade religiosa e a preservação da cultura afro-brasileira”, disse Fabya Reis, lembrando outras iniciativas, a exemplo do apoio ao documentário ‘Alápini, A Herança Ancestral De Mestre Didi Asipá’ e exposição no Teatro Castro Alves (TCA), também neste ano.
Também estiveram presentes nos atos a titular da Secult, Arany Santana, juntamente com o diretor do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac), João Carlos Oliveira, e o presidente do Conselho Estadual de Cultura, Emílio Tapioca, que formalizaram o tombamento do Asipá; além do dirigente da Fundação Pedro Calmon (FPC), Zulu Araújo.



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Matéria publicada no Jornal do Brasil em 03/12/2017

Viaduto Mestre Didi -ACM Neto veta projeto de Edvaldo Brito que homenageia Mestre Didi




Vereador Edvaldo Brito.
Foto disponível na Internet


O prefeito ACM Neto vetou o projeto do vereador Edvaldo Brito (PSD) que dava o nome do artista plástico, escritor e sacerdote afro-brasileiro Mestre Didi, ao viaduto situado na Avenida Orlando Gomes, em frente à Rua da Gratidão. A alegação para o impedimento foi a impossibilidade de uma pessoa dar nome a dois logradouros numa mesma cidade. O veto foi confirmado pela maioria dos vereadores na sessão de 11/06/2018.


Anúncio da nomeação do Viaduto Mestre Didi
Foto disponível na Internet

“Ora, trata-se de uma filigrana jurídica, já que não propus mudar o nome da avenida, e sim nomear um equipamento que nela está. A língua portuguesa tem dessas artimanhas, pois logradouro seria o local onde se logra algo, e o viaduto faz apenas a ligação, não seria logradouro”, declarou Brito. Segundo o vereador, “é inconcebível que um prefeito eleito pelo povo, formado na sua maioria por negros, negue essa simples homenagem a um dos maiores representantes que o povo da Bahia já teve, principalmente o povo das religiões de matriz africana, pois Deoscóredes Maximiliano dos Santos, o mestre Didi, nascido em 1917 e filho da lendária Mãe Senhora, do Ilê Axé Opô Afonjá, levou o nome da Bahia para o mundo. Eu fui testemunha, em 1983, na África, do reconhecimento dos reis Ashantis ao Mestre Didi, como um dos maiores dignitários negros do planeta”.


 Ilê Asipá que cultua os antigos ancestrais do povo nagô
Foto disponível na Internet



Placa registrando o Ilê Asipa como Bem Tombado pelo Governo do Estado da Bahia
Foto disponível na Internet 

Brito, na declaração de voto, agradeceu a solidariedade da vereadora Lorena Brandão (PSC), que o acompanhou nas homenagens e defende o nome do sacerdote no viaduto. “Vou recorrer desse veto ou vou apresentar outro projeto aqui na Câmara Municipal, reiniciando todo o trâmite, para que o povo baiano tenha a satisfação de ver o nome de Mestre Didi naquele viaduto. Ou então apelarei ao Governo do Estado, já que o viaduto é estadual, para que essa homenagem seja efetivada”, concluiu Brito.      
Assessoria de Comunicação de Edvaldo Brito



Homenagem da Prefeitura de Salvador nas comemorações do Centenário de Mestre Didi
Foto Disponível na internet

domingo, 17 de junho de 2018

REI DE IFÉ, NA NIGÉRIA, É HOMENAGEADO NA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO RIO


LÍDER IORUBÁ DESTACOU A PROXIMIDADE COM O BRASIL E SUA POPULAÇÃO




Por Cristina Indio do Brasil 
Repórter da Agência Brasil  Rio de Janeiro
 Matéria publicada em 11/06/2018 

O plenário da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) se transformou hoje (11) em um local de reflexão sobre a igualdade, a luta contra o preconceito e a união dos povos. Em solenidade para a entrega da Medalha Tiradentes, a maior honraria do estado, ao rei de Ifé e líder do povo iorubá, na Nigéria, Ooni Adeyeye Enitan Ogunwusi, o Ojaja II, os parlamentares deram lugar a lideranças de religiões de matriz africana, que acompanharam a homenagem.
O presidente em exercício da Alerj, deputado André Ceciliano (PT), abriu a cerimônia e lembrou que o Brasil vive momentos de intolerância religiosa. “Espero que ele possa trazer fé e esperança para o Brasil”, pontuou.
Rei de Ifé, na Nigéria,  Ooni Adeyeye Enitan Ogunwusi, o Ojaja ll, é homenageado com a entrega da Medalha Tiradentes na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.
Rei de Ifé, na Nigéria, Ojaja ll, é homenageado com a entrega da Medalha Tiradentes (Cristina Indio do Brasil/Agencia Brasil)
O rei de Ifé destacou a proximidade entre a Nigéria e o Brasil e apontou que os povos desses países pertencem à mesma raiz e à mesma fonte. “Eu estou aqui para trazer amor a todos vocês do Brasil, em especial aos afrodescendentes brasileiros. Os afrodescendentes precisam saber. Nós não somos escravos. Nós fomos escravizados. Os brasileiros pertencem a linhagens de reis, rainhas. Nós podemos falar línguas diferentes, mas somos da mesma família. Nós temos que nos associar a vocês. Todos os dias vocês precisam acordar, porque têm que contribuir imensamente para este mundo”, afirmou.
O deputado Zaqueu Teixeira (PSD), que foi o autor da proposta de entrega da medalha, lembrou que o rei de Ifé tem feito diferença em seu país e em outras partes do mundo ao criar propostas de autonomia para mulheres e dar mais oportunidades aos jovens para o ingresso nas universidades. “Reforçou os laços dos afrodescendentes da cultura iorubá ao redor do mundo. Foi necessário que sua majestade criasse bolsas para jovens entrarem na universidade e dar dignidade às viúvas que são deixadas à margem da sociedade. Criou também programa para capacitá-las e dar a elas maior autonomia financeira. Ele tem viajado para diversos países para fortalecer a cultura iorubá entre os afrodescendentes”, afirmou.
A rainha Diambi Kabatusuila, do Congo, que também participou da homenagem, lembrou que é necessário passar a cultura africana para os mais jovens. “Nós temos que fazer o nosso trabalho para conseguir passar as informações de nossos antepassados para promover a justiça, a igualdade e equilibrar a sociedade”, disse.
Na visão da mãe Sandra de Oxaguiã, da Instituição Holística Casa de Oxalá e Oxum, de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, a visita do Ooni de Ifé é um marco para o Brasil. Ela disse que ninguém nasce racista, preconceituoso ou intolerante. Mãe Sandra fez uma comparação com uma semente que cai na terra e não se sabe se crescerá uma árvore ou se vai se perder. “A mãe natureza desconhece a mão que deixou aquela semente. Aceita a mão de todos os povos de qualquer etnia. Queremos falar de amor, de paz e união”, completou.
Depois da cerimônia, mãe Sandra estava emocionada com a presença do rei de Ifé. Para ela, é uma honraria inexplicável, porque nunca havia pensado em estar ao lado dele no Brasil. “É um divisor de águas para nós brasileiros que acreditamos na ancestralidade. Então, o nosso ancestral, Obatalá, Olorum, Orumilá, estava presente porque ele é a encarnação desses deuses para nós”, concluiu.

Para o presidente do Centro Cultural Africano no Brasil, vice-rei de Abeokuta, região da Nigéria, Otumba Adekunle Aderonmu, o rei de Ifé passou uma mensagem de valorização dos afrodescendentes. Ele acrescentou que a vinda do rei de Ifé reforçou a ideia de que todos podem programar as suas vidas para alcançar lugares melhores na sociedade, ao verem que uma pessoa como o líder do povo iorubá foi homenageada em uma casa legislativa.




Ooni Ife deixa Salvador depois de extensa programação

Depois de extensa programação que fortaleceu ainda mais os laços religiosos e culturais entre Ife´ e Salvador, considerada a capital yorubá das Américas e  cidades irmãs, o Ooni Ife se dirigiu ao Rio de Janeiro.


Sra. Aparecida Santos Otun Iya Egbe do Ile Asipa acompanha a visita do Ooni Ife


Significativa presença da delegação que reuniu sacerdotes, intelectuais, músicos e demais autoridades masculinas e femininas.
Foto disponível na Internet


Ooni Ife e seus acompanhantes
Foto disponível na Internet

Músicos acompanham a comitiva
Foto disponível na Internet
Programação na Bahia


















Pedra de Xangô em Cajazeiras
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Dia 07 (quinta-feira)
8:30 - Ritual simbólico da benção da terra baiana e apaziguamento das almas dos negros escravizados com participação das autoridades cívicas e das comunidades de candomblé, na Avenida Lafayete Coutinho - Comércio (Praia ao lado do Restaurante Amado)

10:30 - Solenidade de Declaração da Bahia como Capital Yorubá das Américas e Coletiva da imprensa, no auditório da Governadoria do Estado da Bahia (Centro Administrativo da Bahia)

15:30 – Assinatura do Memorando do Protocolo de cooperação entre as culturas iorubana e brasileira, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Salvador (Praça da Sé)

Dia 8 (sexta-feira)

14:00 - Colóquio Internacional Odùdúwà – Língua, Literatura e Epistemologias Iorubanas, no auditório da Faculdade de Medicina da UFBA (Terreiro de Jesus- Pelourinho)

Dia 09 (sábado)

10:00 às 12:00 - Visita ao Santuário Pedra de Xangô onde será erguida a estátua de Odùdúwà para povo de candomblé (CajazeiraDia 10 (Domingo)
9:00 às 12:00 - Solene do Oonide Ifépelo para Povo de Santo e comunidade baiana no “Diálogo dos Tambores com África-Bahia”, no Espaço culturalmente da Barroquinha (Fim de Linha da Barroquinha)