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PRODESE E ACRA



VIDA QUE SEGUE...Uma
das principais bases de inspiração do PRODESE foi a Associação Crianças Raízes
do Abaeté-Acra,espaço institucional onde concebemos composições de linguagens
lúdicas e estéticas criadas para manter seu cotidiano.A Acra foi uma iniciativa
institucional criada no bairro de Itapuã no município de Salvador na Bahia, e
referência nacional como “ponto de cultura” reconhecido pelo Ministério da
Cultura. Essa Associação durante oito anos,proporcionou a crianças e jovens
descendentes de africanos e africanas,espaços socioeducativos que legitimassem
o patrimônio civilizatório dos seus antepassados.
A Acra em parceria com o Prodese
fomentou várias iniciativas institucionais,a exemplo de publicações,eventos
nacionais e internacionais,participações exitosas em
editais,concursos,oficinas,festivais,etc vinculadas a presença africana em
Itapuã e sua expansão através das formas de sociabilidade criadas pelos
pescadores,lavadeiras e ganhadeiras,que mantiveram a riqueza do patrimônio
africano e seu contínuo na Bahia e Brasil.É através desses vínculos de
comunalidade africana, que a ACRA desenvolveu suas atividades abrindo
perspectivas de valores e linguagens para que as , crianças tenham orgulho de
ser e pertencer as suas comunalidades.
Gostaríamos de registrar o nosso
agradecimento profundo a Associação Crianças Raízes do Abaeté(Acra),na pessoa
do seu Diretor Presidente professor Narciso José do Patrocínio e toda a sua
equipe de educadores, pela oportunidade de vivenciarmos uma duradoura e valiosa
parceria durante o período de 2005 a 2012,culminando com premiações de destaque
nacional e a composição de várias iniciativas de linguagens, que influenciaram
sobremaneira a alegria de viver e ser, de crianças e jovens do bairro de
Itapuã em Salvador na Bahia,Brasil.


domingo, 20 de maio de 2018

Iª COMTOC Conferência Mundial da Tradição dos Orixá e Cultura


Acervo: M. A. Luz

Em 1980 o Caribean Art Center de Nova York através de sua dirigente Martha Moreno Vega teve a iniciativa de promover um encontro entre representativas lideranças da tradição africana. A reunião tornou-se uma celebração histórica que teve como desdobramento a criação das COMTOC Conferência Mundial da Tradição dos Orixá e Cultura.  


Os líderes presentes no encontro histórico gerador das COMTOC: Max Beauvoir Ougan Haiti, Wande Abimbola Reitor da Universidade de Ifé, Julito Collazo Babalawo Cuba, Deoscoredes M. das Santos Mestre Didi Alapini Brasil.

Além de Marta Moreno Vega do Caribbean Art Center acompanharam o encontro Juana E. dos Santos da Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil-Secneb  e Moly Haye de Trinidad e Tobago.


Escultura em bronze arte tradicional de Ile Ife
Foto disponível na internet


Iª COMTOC

Saudação do Oni Ife OBA OKUNADE SIJUWADE OLUBUSE II OLUFE OONI ADIMULA OLOFIN AYE na Iª COMTOC



"Eu saúdo todos os reis presentes aqui hoje. Eu saúdo o vice-chanceller desta Universidade professor C. A. Onwumechili, e eu saúdo todos os mais antigos desta instituição. A todos meus filhos que vieram de lugares distantes eu digo boas vindas. Eu espero que tenham uma agradável estadia. Eu os saúdo porque vocês não esqueceram do lar ancestral. A todos que estão de pé e a todos que estão sentados, eu digo meus cumprimentos. Cumprimento também àqueles que vieram assistir este evento, vindo da cidades vizinhas.
É um motivo de grande alegria para mim ser hoje o responsável pela abertura da Primeira Conferência Mundial de tradição dos Orixá. hoje é um dia histórico. Minhas congratulações àqueles que planejaram esse evento de hoje. Odua; ele que desceu para a terra numa corrente, e que foi o primeiro Olofin não deixará secar nunca a fonte de vossa sabedoria.
A todos vocês estudantes desta Universidade, e todos os meus filhos de lares distantes, eu digo para nunca esquecerem o lugar de suas origens. Se nós participamos na religião de outros, se nós aprendemos a cultura dos outros, não devemos esquecer a nossa.
Portanto, nós não devemos usar nossas mãos para relegar nossa própria cultura à posições inferiores.
toda pessoa deve aprender a colocar-se a si mesmo num pedestal. Isto porque a galinha é que se abaixa quando está entrando em casa.
Meus filhos todos os tesouros do povo Yorubá estão em Ilé-Ifé. Ifé é o lar e a origem de todos nós...
Ilé-Ifé é a terra sagrada da raça negra e de todos os devotos da religião dos Orixá espalhados pelo mundo. Foi aqui em Ifé que Oduduwa primeiro criador da terra sobre a qual todos nós hoje estamos em pé e no seio da qual nós desapareceremos quando mudarmos nossa presente posição mortal!!!
Eu asseguro a todos vocês, meus filhos, aqueles que são nossas visitas de lugares distantes, que nós nunca esqueceremos de vocês. Eu saúdo a vossa coragem. Eu saúdo vossa paciência. Eu estou muito feliz por ver que vocês não esqueceram o seu lar ancestral [...]."

Disponível em Scielo:Agadá Dinâmica da Civilização Africano-Brasileira by Marco Aurélio Luz




Opon Ifa elemento do culto de Orumila Baba Ifa.
Foto disponível na internet

Wande Abimbola Reitor da Universidade de Ifé fez importante pronunciamento na ocasião da abertura:

"[...] Existe um grande hiato entre os intelectuais e os líderes da comunidade. Isto é algo muito triste. Nenhuma nação pode progredir se os líderes de sua cultura e o povo que propaga ideias não se encontram e não tenham nenhuma forma para se reunir e trocar ideias. Este é um dos problemas que nós devemos enfatizar. A África desde o colonialismo, podemos perceber, criou uma classe de povo elitista que tem sua base de origem no comércio, despossuído de cultura, e que deu nascimentos, podemos perceber em um orgulho e vaidade baseado em dissociar-se a si próprios de sua própria cultura.
Nós percebemos que esta é a razão pela qual não quisemos organizar mais uma conferência apenas com a população acadêmica. Queremos realizá-la juntando os líderes da cultura tradicional Africana com os acadêmicos, pois só assim seriamos capazes de interagir entre nós mesmos e obter os mútuos benefícios advindos desta interação.



Mestre Didi Asipa Alapini representante do Brasil faz seu pronunciamento na abertura da Iª COMTOC
Foto Marco Kalish
Acervo M. A. Luz
Em qualquer parte que vamos nas Américas e em outras partes do mundo, o povo não nos deixa esquecer nossa cultura tradicional. O povo não quer igualmente que muitos de nós separemo-nos de nossa cultura. Quando falamos isto, não estamos querendo dizer que devemos retornar a uma cultura de centenas de anos atrás. O que estamos querendo dizer é que cada geração deve aprender como organizar e revitalizar a cultura na sociedade em que deu nascimento a essa geração. Isto tem sido nossa falha com a geração atual do povo da África, que nós temos sempre e completamente virado as costas para nossa cultura tradicional, especialmente nossa religião tradicional.
[...] O sistema de ideias e religião, razão pela qual nós todos estamos reunidos aqui para falarmos, assumiu na atualidade dimensões de uma cultura internacional.
Deixe-me dar a vocês uns poucos exemplos. Falando há poucos dias atrás com um colega meu de Porto Rico, eu fui informado que o número de sacerdotes e sacerdotisas do culto aos Orixá em Porto rico é muito maior do que os sacerdotes do culto católico neste país. No Brasil, onde você tem uma nação com cem milhões de habitantes, mais da metade desta população do pais está diretamente ou indiretamente envolvida com a cultura da tradição dos Orixá. Em Cuba, especialmente há mais sacerdotes de Ifá que na Nigéria. Em trindad, até os dias de hoje é cultivada, ainda, nós temos sacerdotes e sacerdotisas de Xangô, alguns dos quais são renomados professores e acadêmicos. Por toda diáspora africana, em qualquer lugar onde você vá, seja na Guatemala, ou na Colômbia ou Peru ou Guiana ou honduras ou nos Estados Unidos da América, você encontra gente que devota suas vidas para a propagação da cultura da tradição dos Orixá. todavia, na África que é o berço desta religião, muita gente de nossa geração tem virado as costas para sua própria cultura."

Disponível em Scielo:Agadá Dinâmica da Civilização Africano-Brasileira by Marco Aurélio Luz


Iª COMTOC em Ile Ife
Foto Marco Kalish
Acervo M.A.Luz
O professor Abimbola, depois de ter chamado a atenção sobre o fato de que enquanto nas Américas a tradição dos orixá se revitaliza e se expande, infelizmente na África as novas gerações escolarizadas têm virado as costas para sua própria cultura, acentuou os pontos principais do sistema cultural e religioso tradicional que, deixado de lado, poderá ocasionar que a sociedade caminhe para um estado de anomia, isto é, completa desorganização social.
Representantes do Brasil foram Mestre Didi Asipa Alapini, Iya Bido de Iyemanja e Juana E. dos Santos Elefunde Egide.
Foi um marco histórico de grande importância na continuidade civilizatória de nossa tradição religiosa e cultural.
A cidade de Salvador foi escolhida para a realização da IIª COMTOC.















quarta-feira, 9 de maio de 2018

OBIRIN ATI IYA Mulher e Mãe




IYÁ IBEJI, Escultura de Marco Aurélio Luz
Foto: Hans Olu Obi
                                                   
                                           OBIRIN

Comecemos as nossas homenagens conversando com o Oju Obá Marco Aurélio Luz sobre o significado de mulher na tradição afro-brasileira nagô. Nessa breve entrevista a ACRA Marco Aurélio destaca que na língua yorubá a palavra OBIRIN significa MULHER e demonstra que essa semântica “mulher” aprisionada na lógica das sociedades urbano-industriais não corresponde e não dá conta da infinitude de valores e linguagens que o universo simbólico afro-brasileiro apresenta e legitima.
Marco Aurélio lançou recentemente o livro “TUN ONÁ RI RETOMANDO O CAMINHO” que aborda aspectos das culturas africano-brasileiras e a visão de mundo que se expressa através de refinados códigos estéticos e suas formas de comunicação.
Acompanhem a entrevista consultando a escultura na foto acima para identificar a riqueza da simbologia expressa.

ENTREVISTA

ACRA - Fale-nos do significado de mulher na tradição afro-brasileira nagô.

Marco Aurélio Luz - Na tradição nagô a mulher, obirin, está representada por seus mistérios e poderes imutáveis. Na tradição a linguagem e as instituições elaboraram a essência dos seres no caso o ser da mulher é uma expressão do princípio feminino da existência.

ACRA - Você recentemente fez uma exposição de suas esculturas no foyer do Teatro UNEB e entre elas estava uma escultura representando o princípio feminino da existência. Você poderia comentar a simbologia dessa escultura?

Marco Aurélio Luz -
Essa escultura de minha autoria é a IYÁ IBEJI, a Mãe dos Gêmeos, que emerge dentro dos cânones estéticos da tradição. De início devo logo dizer que a capacidade de concepção, de gestação, de formidável transformação do corpo feminino constitui e expressa o mistério e o poder da mulher, tanto mais em sociedades em que o valor da expansão de famílias e linhagens significa fortes elos de ancestralidade, sucessão, gerações, continuidade comunal.

ACRA - A IYÁ IBEJI expressa em sua simbologia esses valores?

Marco Aurélio Luz -
Sim. Sei que vocês irão ilustrar essa entrevista com a foto dessa escultura e isso dará ao leitor a dimensão dos comentários que irei fazer. Uma mulher jovem e fértil sustenta duas crianças gêmeas em suas pernas caracterizando poder de procriação. Os gêmeos, IBEJI, ibi+eji, nascidos dois, são símbolos de fertilidade e como tal são entidades muito cultuadas na Bahia. Eles seguram com uma mão o seio da IYÁ, e com a outra um abebe, emblema em forma de leque, de forma a representar o útero fecundado. O abebe é emblema característico dos paramentos dos orixá que regem príncipios femininos como Oxum e Iyemanjá caracterizando seus poderes e mistérios.

ACRA - Na escultura vemos outro abebe também gravado na figura de um ovo.O que significa?

Marco Aurélio Luz -
O ovo é um elemento símbolo integrante da representação de Oxun caracterizando a continuidade das próximas gestações, que está representado nos IBEJI por Dou o nascido subsequente.

ACRA - Na base da escultura você esculpiu umas ondulações o que representam?

Marco Aurélio Luz –
Contornando a escultura na base, tem a representação de água corrente, expressão da natureza regida pelos poderes de Oxum, simbolizando também o corrimento menstrual símbolo do poder de fertilidade feminina. Oxum representa poderes de beleza, encantamento e sedução da jovem mãe. Conforme uma saudação da tradição africana relatada por Fatumbi Verger, "Oxum limpa suas jóias de cobre antes de limpar seus filhos".


Atrás da escultura, referência e alusão a passado, poente, dois pássaros caracterizando a proteção das IYA-MI, as antigas e venerandas mães ancestrais, que se consubstanciam em pássaros, peixes ou sereias...
Muitos outros aspectos podem ser abordados sobre OBIRIN é um assunto que não tem fim.

ACRA - Mais uma vez agradecemos sua valiosa colaboração nos ajudando a consolidar o blog da ACRA.

Nota: Publicado em 2010

domingo, 29 de abril de 2018

OONI IFE VEM A BAHIA



Por Marco Aurélio Luz



O Ooni Ife rei de Ife Adeyeye Babatunde Enitan Ogunwusi virá ao Brasil.
Foto disponível na internet 

Ile Ife é a cidade sagrada e origem do império yoruba. Aí se encontra a marca de Oduduwa entidade que primeiro pisou nesse mundo o aiye. Foi ela que a mando de Olorun criou a terra. Oxalá por sua vez criou os seres que vieram habitá-la.
Oraniyan descendente de Oduduwa partiu de Ife num longo périplo constituindo a fundação de reinos que vieram a compor o império e depois retornou a Ife.
Ile Ife a cidade que se expande possuíu originariamente a composição urbanística em forma espiralada. No centro o palácio real e na sua frente o mercado do rei Oja Oba. Desde esse núcleo desenvolve-se a sequência dos “compounds” moradias dos idile as famílias extensas por ordem de antiguidade.
Integra o afin o palácio, a floresta sagrada contígua.
O Ooni é o rei de Ife. A origem de Ife se perde na noite dos tempos. Todos os reinos do império yoruba reconhecem o poder sagrado do Ooni e seus reis devem ter sua anuência para tomar posse do cargo.


Escultura em bronze dos Ooni Ife.
Foto disponível na internet

Ainda no afin está uma série de aposentos e um deles abriga as reuniões da sociedade secreta Ogboni composta por representantes das instituições da cidade, femininas e masculinas. 



Escultura do casal em bronze unidos pelos elos da corrente (sucessão de descendência)
Foto disponível na internet

A cidade com o portão possuía elevados muros em seu entorno.
O culto à Oduduwa caracteriza a religião tradicional em Ile Ife. Oduduwa é o orixá patrono pertencente ao mito histórico da criação do mundo.
Também o culto à Orumila Baba Ifa faz parte da cidade. Os babalawo tem sua formação exponencial como sacerdotes do conhecimento dos misteriosos caminhos dos destinos.



Araba alto sacerdote do culto de Ifa.
Foto Marcos Kalish
Acervo M.A. Luz

São famosas as magnificas esculturas em terra cota e em bronze que constitui o patrimônio histórico e cultural de Ile Ife.
Também se destaca o Opa Oraniyan marco exponencial da origem do império yoruba.




Opa Oraniyan, Mestre Didi em Ife
Foto Disponível na internet

A cidade também abriga a Universidade de Ife com o importante papel de garantir e dar legitimação aos valores, as linguagens e instituições da tradição cultural yoruba.
Na década de 1980 o Caribean Visual Art Center de Nova York por iniciativa da dirigente Marta Moreno Vega reuniu importantes líderes da tradição religiosa africana.
Deoscoredes Maximiliano dos Santos Mestre Didi Alapini do Brasil, Julito Collaso Babalawo de Cuba, Max Beauvoir Ougan de Haiti, e Wande Abimbola Reitor da Universidade de Ife tiveram um encontro histórico e concordaram em repeti-lo de forma mais abrangente.


Ile Ife foi escolhida a cidade onde se realizou o encontro internacional em 1981 com a acolhida do OOni Ife



O Ooni Ifé Oba Okunade Sijuwade, Olubuse II.
Foto Marco Kalish
Acervo M. A. Luz

Das conclusões do magnifico encontro de lideranças da tradição ficou estabelecido por Ifa, a realização de novas Conferencias até complementarem sete ao todo.



Participantes da Iª Conferência Mundial da Tradição dos Orixá e Cultura em Ile Ifé.
Foto Marco Kalish
Acervo Marco Aurélio Luz

 Em 1983 Salvador foi  escolhida para sediar a IIIª Conferência Mundial da Tradição dos Orixá e Cultura sendo realizada com grande esplendor.


 



quarta-feira, 25 de abril de 2018




SOLISLUNA EDITORA
Lançamento do livro Terreiro do Bogum - Memórias de uma comunidade Jeje-Mahi na Bahia, de Everaldo Conceição Duarte.
 Marque na agenda: próxima sexta-feira, dia 27/4 às 17h, no Terreiro da Casa Branca! Venha participar

Everaldo Conceição Duarte
Nascido em 1937, no antigo logradouro chamado Pedra da Marca, defronte à ladeira de São João na Avenida Cardeal da Silva, Everaldo Conceição Duarte cresceu vivendo as transformações ocorridas na paisagem social econômica e religiosa na comunidade chamada Bogum, desde os anos quarenta. Neto carnal de Maria Valentina, Mãe Runhó, sobrinho carnal de Maria Evangelista, Gamo Lokossi, ambas dirigentes dessa comunidade, cada uma a seu tempo, foi suspenso para Ogã Agbagigan em 1942 e confirmado, após muitas reflexões e pesquisas. Desde então, tem se voltado ao trabalho de orientação e a contar histórias aos mais novos e interessados na questão afro religiosa do lado do Jeje. Nesse universo de palestras, esteve contando histórias e estórias, palestrando na Argentina, no Benin, em Cuba, em Nova Iorque e em vários estados do Brasil. Diplomou-se Economista pela Universidade Católica de Salvador e foi um dos diretores da SECNEB, Sociedade da Cultura Negra do Brasil, e Coordenador Nacional do INTECAB, Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro-Brasileira.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Rei do Benin no Forum Social Mundial



Disponível em https://www.ufrb.edu.br/portal/noticias/5059-forum-social-mundial-ufrb-recebe-visita-da-comitiva-real-do-benin

A Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) recebeu na quarta-feira, 14 de março, a visita da Comitiva Real do Benin composta pelo Pontífice do Culto ao Vodun no Mundo e Rei de Toda Ouidah, Rei Hounon – Houwamenou Daagbo; pela Rainha de Ouidah, Acackpo – Kpessi Ko’Ndodo, e pelo Soberano de Agouagon, Rei Quenum – Gustave Espoir.
A recepção ocorreu no auditório do Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL), em Cachoeira, como parte das atividades do Fórum Social Mundial 2018, que acontece na Bahia até este sábado, dia 17.


O evento foi promovido pelo Comitê Facilitador do Fórum, pela Confederação Nacional de Turismo (CNTur) e pela UFRB, com objetivo de estimular discussões concernentes à temática Brasil-África, com a participação de autoridades tradicionais Fongbe.
Compuseram a mesa solene o reitor da UFRB, Silvio Soglia; o diretor do CAHL, Jorge Cardoso Filho; o coordenador do curso de Pós-Graduação em História da África, da Diáspora e dos Povos Indígenas, Antonio Liberac; o diretor de Turismo Sustentável da CNTur, Marcelo dos Anjos; o primeiro secretário da Embaixada da República do Benin, Adedodj Ibikounle; e o Ogã Buda de Bobosa, representante da Roça do Ventura e das casas irmãs Fongbe no Brasil.
Abrindo a cerimônia, o Doté Marcelino Gomes, da casa de Adorno de Cachoeira, fez uma saudação inicial. Em seguida, os representantes do Comitê Facilitador do Fórum, Tatá Edson e Ekedi Marina, deram as boas-vindas aos presentes.
Marina ressaltou a importância do momento histórico e clamou a todos para a tarefa de construir a unidade dos povos africanos no mundo. “Cá estamos nós a ver o quanto a nossa identidade religiosa e cultural está representada. É responsabilidade de todos esse processo de transformação. Estamos todos na busca da resistência e sobrevivência”, disse.

Rei Hounon  Houwamenou Daagbo
O professor Antonio Liberac sugeriu o encaminhamento de convênios com as instituições sociais da República do Benin para intercâmbios acadêmicos. “Pelas tradições que vocês trouxeram para cá, nós somos parte de vocês e vocês são parte de nós. O Brasil tem essa especificidade de ser constituído de uma energia de vários povos. Nossa missão aqui é preservar e entender esse processo histórico, antropológico e político”, resumiu, destacando pesquisas já existentes no âmbito da Pós-Graduação e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros do Recôncavo da Bahia (NEAB).
Em nome do CAHL, o diretor Jorge Cardoso Filho afirmou que o centro de ensino da UFRB em Cachoeira sempre apoiou e continuará acolhendo as temáticas que se relacionam de forma direta com os povos africanos e a diversidade religiosa, seja em seus cursos ou projetos. “Para nós, receber essa comitiva para nos ajudar a pensar essas questões é uma oportunidade única. Temos a honra de acolher essas autoridades e debater a construção e consolidação de pautas que aqui sempre foram muito importantes”, disse.
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Reportagem disponível em Disponível em https://www.ufrb.edu.br/portal/noticias/5059-forum-social-mundial-ufrb-recebe-visita-da-comitiva-real-do-benin



Rei do Benin Visita a Casa do Benim

Casa do Benin recebe visita da Família Real beninense
Disponível em http://bahiaja.com.br/
A Casa do Benin, no Pelourinho, recebeu, nesta segunda-feira (19), a visita da Comitiva Real do Benin, composta pelo rei Daagbo Hounon Owamenou e sua esposa, a rainha Acakapo Kpesi Ko’Ndodo, e do rei de Agouagon, de V. M. Kenoun Gustave Espoir. A família está na cidade em razão do Fórum Social Mundial 2018, e demonstrou satisfação e disposição durante a visita ao museu que conta um pouco da história da sua terra natal.

Doté Amilton do kerebetan Hunkpame Savalu Vodun Zo Kwe acompanha a comitiva real
O gerente de Equipamentos Culturais da Fundação Gregório de Mattos (FGM), Chicco Assis, recebeu a comitiva, destacando a importância da visita no ano em que o local completa três décadas de existência, ressaltando que “a Casa representa um espaço de diálogo e intercâmbio entre Brasil e África”.

 A senhora Acakapo Kpesi Ko`Ndodo esposa do rei  admira a obra de Mestre Didi na visita a Casa do Benim.
A arte-educadora Régia Ribeiro conduziu a todos numa visita guiada em francês pelo espaço museal, explicando desde a exposição permanente com obras trazidas do Golfo do Benin, passando pela mostra itinerante Afèto, com fotografias feitas pelo fotógrafo Róger Cipó registrando a relação de afeto dentro dos terreiros de Candomblé em São Paulo, até o anexo, onde fica o Tata Somba, tenda africana com mesa redonda ao centro que pode ser usada para as refeições, bem como reuniões.
Antes da chegada à Casa do Benin, a Associação Afro-ameríndia (AFA), recepcionou a Comitiva Real no Curuzu em direção ao Hunkpame Savalu Vodun Zo Kwe, primeiro terreiro tombado pela Lei Municipal 8.550/2014. Eles foram recebidos por Doté Amilton de Sogbo, sacerdote do Terreiro. “Momento histórico, onde África e Brasil reafirmam seus laços ancestrais reforçando todo legado do Culto aos Vodun na Bahia e no Brasil”, afirma Leonel Monteiro, presidente da AFA.



quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

SALGUEIRO NO SEU TERRITÓRIO DE ORIGEM


Imagem disponível na Internet

Por Oju Oba Marco Aurélio Luz

A Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro em seu desfile, deu uma aula acadêmica explorando seu território de negritude.
Seu enredo focalizou o poder e o mistério da mulher, especificamente da mulher negra, as primeiras que deram início a saga da humanidade desde a África.
A Cabaça ventre fecundado
Foto disponível na Internet
O mistério e o poder de transformação de seu corpo gerando filhas e filhos, e sua capacidade de alimentá-los, está representado logo do início do do enredo, pela simbologia da grande cabaça de onde surgem primeiramente óvulos fecundados com embriões e depois se espraiam mulheres segurando seus nenén

As mães com seus neném
Foto disponível na Internet
O enredo segue apresentando a presença da mulher negra africana em várias fases das histórias das civilizações.
Lindíssimos trajes e alegorias ilustram o esplendor do Egito negro faraônico, berço das civilizações. Apresenta a presença da mulher no poder faraônico e também como deusas na mitologia e na religião.

Deusas e rainhas no Egito Antigo
Foto  disponível na Internet

O poder das mulheres no Egito negro faraônico
Foto de Alexandre Durão disponível na Internet
O enredo se desenvolve com a sucessão de alas apresentando vários reinos de forma exuberante onde se destacam a presença feminina, como as Candaces, rainhas e guerreiras do reino da Núbia e Kush, a importância da rainha de Saba que encantou o rei Salomão.

Guerreiras e rainhas na antiguidade negro africana 
Foto disponível na Internet
Outra ala apresenta a rainha Nzinga Ngola Bandi Kiluanji, para nós a rainha Ginga que manteve o reino do Ndongo independente, enfrentando o colonialismo português no século XVII. Nzinga a “Rainha Invisível” como chamavam os portugueses por suas táticas de guerra, é enaltecida ainda mais, porque o quilombo dos Palmares é um desdobramento dessas lutas. Akotirene, Dandara, Aqualtune, que se destacam no “reino” do Palmares representam as mulheres libertárias na luta contra a escravidão.

Guerreiras libertárias
Foto disponível na Internet
Outras  mulheres heroínas se destacam nessa luta de libertação e afirmação, como Luíza Mahim na revolta Malê de 1835 na Bahia e Maria Felipa nas lutas de independência da Bahia em Itaparica.
A presença significativa das mulheres na reposição das tradições religiosas africano- brasileiras ganha destaque em magnífica alegoria.

 Gelede culto às ancestrais femininas é apresentado. No Brasil destacou-se a alta sacerdotisa Iyalode Erelu Maria Julia Figueiredo. As Iya Mi Agba as mães ancestrais se apresentam na forma de corujas, grandes passaros, peixes, sereias, metade mulher metade peixe ou pássaro, morcegos...
Foto de  Alexandre Durão.Imagem disponível na Internet

Gelede, escultura ritual do culto as mães ancestrais originário da cidade de Ketu.
Foto disponível na Internet
 Desde a religião se desdobra a contribuição da mulher negra para sua pujante presença na cultura brasileira.
A imprescindível ala das baianas, homenagem permanente as fundadoras do mundo do samba.
Foto de  Alexandre Durão.Imagem disponível na Internet
Foto disponível na Internet
O desfile de esplendor e beleza exuberante engrandece o carnaval brasileiro e foi merecedor de uma premiação. 






















terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

VAMOS CHAMAR O VENTO?




Imagem disponível na Internet


Por Narcimária C.P. Luz
A descolonização nos obriga a pensar radicalmente o lugar em que estamos, pensar a partir das nossas raízes, das histórias que envolvem os nossos antepassados. Só podemos nos fortalecer e compor projeções de futuro que deem dignidade as gerações sucessoras, se imprimirmos atitudes e iniciativas que estabelecem novas fronteiras de pensamento para além do déjà vu da ditadura midiática ou, parafraseando Muniz Sodré, para além do “monopólio da fala”.
Uma propaganda de perfume recente, tem a música “O Vento” (1949) de autoria de Dorival Caymmi como fundo. Dois personagens solitários ilustram a narrativa:  uma mulher caminhando pelas dunas com uma roupa esvoaçante solta ao vento, e um rapaz no mar fazendo manobras de windsurfe.
Para além do exótico, folclórico e turístico é necessário alertar as gerações que não tiveram a oportunidade de verem florescer a obra de Caymmi ao longo das décadas, que “O Vento” perde a sua significância, pois é retirado do contexto simbólico africano-brasileiro que ele carrega. “O vento” que integra as canções praieiras de Caymmi, assim como as demais canções, nos permite conhecer narrativas que contam as histórias do viver cotidiano das populações negras, que têm o mar como referência essencial para organizar seus vínculos comunitários.

Foto de Narcimária Luz
“Vamos chamar o vento/ Vento que dá na vela/ Vela que leva o barco/ Barco que leva a gente/ Gente que leva o peixe/ Peixe que dá dinheiro/Curimã ê, curimã lambaio ...”

Imagem disponível na Internet
O vento entoado por Caymmi, soa como uma oração que apela para as forças cósmicas que regem o universo, imprimindo movimento na vela do barco construído num esforço coletivo de pescadores, que entram no mar para extrair o alimento que vai prover a comunidade. 

Caymmi com pescadores em Itapuã
Imagem disponível na Internet
O mar e seu entrelaçamento com a correnteza dos rios, repercute na organização da pesca através dos princípios femininos do panteão nagô: Iemanjá e Oxum.

Foto Narcimária Luz


O que queremos chamar atenção, é que “O Vento” que Caymmi chama e nos ensina a escutar, carrega o  riquíssimo repertório que os pescadores utilizam para classificar os peixes, observando seu comportamento e/ou natureza, seus habitats, os ciclos de migração e reprodução, a teia alimentar, informações sobre temperatura e luminosidade na água que podem interferir na pesca, as fases da lua, a tábua das marés, além da culinária, da presença e poder  feminino no contexto da pesca, etc. – que são descritas com a propriedade de quem herdou o legado dos mais velhos africanos na lida com o mar.

Imagem disponível na Internet


Estamos nos referindo as formas e códigos da comunicação milenares, cujas relações simbólicas riquíssimas são carregadas de elaborações emocionais, transcendentais, primordiais à experiência humana com seu meio ético, social e cósmica.

Imagem disponível na Internet


A seguir vídeo que apresenta Caymmi interpretando "O vento"