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PRODESE E ACRA



VIDA QUE SEGUE...Uma
das principais bases de inspiração do PRODESE foi a Associação Crianças Raízes
do Abaeté-Acra,espaço institucional onde concebemos composições de linguagens
lúdicas e estéticas criadas para manter seu cotidiano.A Acra foi uma iniciativa
institucional criada no bairro de Itapuã no município de Salvador na Bahia, e
referência nacional como “ponto de cultura” reconhecido pelo Ministério da
Cultura. Essa Associação durante oito anos,proporcionou a crianças e jovens
descendentes de africanos e africanas,espaços socioeducativos que legitimassem
o patrimônio civilizatório dos seus antepassados.
A Acra em parceria com o Prodese
fomentou várias iniciativas institucionais,a exemplo de publicações,eventos
nacionais e internacionais,participações exitosas em
editais,concursos,oficinas,festivais,etc vinculadas a presença africana em
Itapuã e sua expansão através das formas de sociabilidade criadas pelos
pescadores,lavadeiras e ganhadeiras,que mantiveram a riqueza do patrimônio
africano e seu contínuo na Bahia e Brasil.É através desses vínculos de
comunalidade africana, que a ACRA desenvolveu suas atividades abrindo
perspectivas de valores e linguagens para que as , crianças tenham orgulho de
ser e pertencer as suas comunalidades.
Gostaríamos de registrar o nosso
agradecimento profundo a Associação Crianças Raízes do Abaeté(Acra),na pessoa
do seu Diretor Presidente professor Narciso José do Patrocínio e toda a sua
equipe de educadores, pela oportunidade de vivenciarmos uma duradoura e valiosa
parceria durante o período de 2005 a 2012,culminando com premiações de destaque
nacional e a composição de várias iniciativas de linguagens, que influenciaram
sobremaneira a alegria de viver e ser, de crianças e jovens do bairro de
Itapuã em Salvador na Bahia,Brasil.


quarta-feira, 5 de abril de 2017

HOMENAGEM DA UNEB A DOUTORA NARCIMÁRIA





No dia 7 de março no Teatro da Universidade do Estado da Bahia- UNEB no Campus I, houve a aula inaugural e sessão de intercâmbio entre diversos Programas de Pós-Graduação do Campus I em Salvador. O coordenador do Programa de Pós Graduação em Educação e Contemporaneidade, Professor Doutor César Leiro dirigiu os trabalhos.
Destacamos o momento de homenagem à Doutora Narcimária Correia do Patrocínio Luz.
O professor César Leiro se referiu primeiramente ao curriculum da homenageada e logo em seguida, solicitou a presença da Doutora Narcimária no palco.



Graduada em Pedagogia, Mestrado em Educação(UFBA), Doutorado em Educação(UFBA), Pós-Doutorado em Comunicação e Cultura/UFRJ. Professora Titular Plena do Departamento de Educação do Campus I da Universidade do Estado da Bahia-UNEB. Desenvolveu pesquisas com incentivo do Instituo Nacional de Estudos e Pesquisas-INEP(1987-1990), Conselho Nacional de desenvolvimento Científico e tecnológico-CNPq(2006-2008), Fundação Biblioteca Nacional-FBN(2008-2009). Coordenadora do PRODESE- Programa Descolonização e Educação que desenvolve estudos e pesquisas na área de Educação inspirado na epistemologia africana, tendo como desdobramento a afirmação dos valores e linguagens das comunalidades africano-brasileiras. Concebeu e coordenou a publicação SEMENTES Caderno de Pesquisa (2000-2005).Idealizadora do projeto Dayó: afirmando a alegria socioexistencial em comunalidades africano-brasileiras indicado como semifinalista na 8ª Edição do Prêmio ITAÚ UNICEF em 2009.O Dayó foi desenvolvido no âmbito da Associação Crianças Raízes do Abaeté no bairro de Itapuã em Salvador Bahia, um dos pontos de cultura do Ministério da Cultura(2005-2012).As publicações da pesquisadora, integram a WorldCat que é um catálogo que reúne as coleções de 72.000 bibliotecas em 170 países e territórios que participam da Online Computer Library Center (OCLC) cooperativo global, considerado o maior do mundo bibliográfico de dados.
Após a apresentação da homenageada, o Professor César comentou sobre as razões pelas quais era conferida duas placas com os seguintes dizeres:
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Agradecemos a Professora Doutora Narcimária Correia do Patrocínio Luz, por fazer a diferença no Departamento de Educação-Campus I, durante todos esses anos. Sua ética, responsabilidade, comprometimento e competência merecem nossos aplausos, reconhecimento e gratidão.
Departamento de Educação, Campus I”
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“O Programa de Pós Graduação em Educação e Contemporaneidade – DEDC/UNEB, ao completar 15 anos, expressa seu reconhecimento pelo decisivo trabalho acadêmico desenvolvido na fundação do PPGEduC.
Nossa homenagem e Gratidão.”


Foram entregues as duas placas honoríficas e após os aplausos dos presentes no auditório foi passada a palavra a Doutora Narcimária.


O Professor César Leiro entrega a placa em homenagem a Professora
Foto: Filismina Saraiva
                             Professor Nathanael Reis Bonfim representando o Departamento de Educação do Campus I entrega a placa a homenageada
Foto: Filismina Saraiva 

A Professora Narcimária grata pela importante homenagem no âmbito das gestões dos Professor Doutor César Leiro e do Professor Doutor Valdélio Silva Diretor do Departamento de Educação do Campus I, ressaltou que não considera um reconhecimento a ela pessoalmente ou individualmente. Não foi uma trajetória solitária dentro da Uneb, não. Essa pulsão em promover institucionalmente iniciativas bem sucedidas na área de Educação no campo da Pluralidade Cultural, ao longo de quase 30 anos, envolveu muitas gerações de graduandos/as e pós-graduandos/as. Uma trajetória que representa todo um pensamento intercontinental de revisão de determinados paradigmas da Educação que não aceitam e nem acolhem a alteridade civilizatória africano-brasileira, especialmente no Brasil e mais ainda, na Bahia.
Então, a professora Narcimária dedicou a homenagem a todas os ancestrais...
Ainda nos seus agradecimentos Narcimária destacou que nas nossas comunalidades africano-brasileiras, há uma ética que se baseia no valor da ancestralidade. É um grande equívoco pensar ancestralidade como uma carga genética! Ancestralidade não é apenas uma sucessão genética. Fiquem atentos/as!
A ancestralidade se caracteriza por representar as lideranças comunitárias que se dedicaram em vida ao bem estar da família, linhagem, comunalidade através da manutenção e preservação dos valores e linguagens que sustentam o bem estar e destino individual e coletivo. Ancestral é, portanto aquele ou aquela que em vida deu continuidade e garantiu a expansão da memória da sua comunalidade. Os ancestrais são lembrados e consagrados para depois em outro plano de existência continuar protegendo a existência e promovendo a alegria de sua gente. Enfim, é aquele que dedicou sua vida para garantir a continuidade da tradição.


Participação em evento no Ilê Asipa
Foto: Marco Aurélio Luz

Quando se entra numa comunalidade africano-brasileira logo se aprende que ali não é a trajetória individual do “self made man” (o indivíduo solitário que se faz por si mesmo (parafraseando Marco Aurélio Luz) que vale”. A sua história está entrelaçada com outras gerações, com os ancestrais...Daí ser comum indagar a quem chega: Quem são seus pais? Quem são seus avós? Qual o seu orixá? Esse é o valor que comunica o seu estar no mundo! A sua identidade coletiva! O seu valor para a comunalidade!
Seu trabalho foi o de propor outras formas pedagógicas de transmissão do saber para além do monopólio da escrita. 
Educação e Academia de Capoeira do Contra Mestre Luís Negão  Festival Awon Esó Prodese
Ganhadeiras de Itapuã, Festival Awon Eso, PRODESE, Programa de Educação e Descolonização

A base do seu trabalho é a epistemologia africano-brasileira, elaborada na Mini Comunidade Oba Biyi, primeira experiência de Educação Pluricultural no Brasil(1976-1986) concebida pelo grande educador Deoscoredes Maximiliano dos Santos o Mestre Didi, Alapini Sacerdote Supremo do Culto aos ancestrais da tradição nagô. Lembrou ainda, a Uneb está envolvida nos preparativos do centenário do Mestre Didi.
Chamou atenção para a presença no auditório, do Professor Doutor Marco Aurélio Luz que foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Universidade Federal Fluminense, e que veio para a Bahia a convite do Mestre Didi para participar da Mini Comunidade Oba Biyi. Marco Aurélio Luz transferiu-se para a Universidade Federal da Bahia onde recriou em nível acadêmico na graduação e pós-graduação da Faculdade de Educação da UFBA, linhas de pesquisa e programas para disciplinas que abriram novos horizontes para uma educação que acolha a riqueza da civilização africano brasileira. Através dessas linhas de pesquisa da UFBA, muitos   professores/as que hoje atuam na UNEB se formaram.

Professor Michel Maffesoli, Doutor Marco Aurélio Luz e Doutora Narcimária Luz em Sorbonne, Paris V.

Os agradecimentos da professora Narcimária Luz foram envoltos a uma solicitação ao atual coordenador do Programa de Pós Graduação em Educação e Contemporaneidade Professor César Leiro: que se acabe o silêncio ou “censura” sobre seu nome no site do Programa. Egressos do Programa de Pós-graduação que foram alunos/as e orientandos/as da Professora visitando o site, identificaram que não há nenhum registro que informe que a mesma teve alguma importância na história institucional dessa Pós-graduação.
O Professor publicamente se comprometeu a corrigir esse grande equívoco no site do Programa de Pós-Graduação.
Breve Histórico
A vida científico-acadêmica da Professora Narcimária na UNEB se alimenta dessa seiva de valores e linguagens africano –brasileiras tão bem cuidada por Mestre Didi e Marco Aurélio Luz, e que se expandiu através das suas valiosas iniciativas institucionais.


Poeta Lande Onawale escritor Dalmir Francisco, poeta José Limeira e escritor Marco Aurélio Luz em evento do PRODESE.

Além das experiências no ensino, pesquisa e extensão Narcimária teve ânimo para a criar e mobilizar colegas de vários campus da Uneb para a criação do Núcleo de Educação Pluricultural Nep(1994-1995); concebeu o Centro de Estudos das Populações Afro - Indígenas nas Américas Cepaia(1996). Do Programa de Descolonização e Educação Prodese(1997) vinculado ao Conselho de Desenvolvimento Científico e Tecnológico(CNPq) onde desenvolveu pesquisa e está credenciada como orientadora de Mestrado e Doutorado, se desdobraram criações institucionais importantes a exemplo: Revista SEMENTES, Caderno de Pesquisa (2000 a 2005) reunindo importantes ensaios de intelectuais do Brasil e do exterior; o premiado Projeto Dayó(2005-2012) no âmbito da Associação Crianças Raízes do Abaeté-Acra.





Auto coreográfico "A Canção do Infinito" de Narcimária Luz por integrantes do ACRA, direção musical Sidnei Argolo


Participantes d e organizadores do Festival Afro-brasileiro de Arte da ACRA
 Célia, Paula Grejianin, Rosângela Accioly, Daniela Cidreira, Jackson Costa, Narcimária Luz, Sidney Argolo, Jaqueline Amor Divino, Sara Santos e Janice Nicolin.

 Narcimária é autora, organizadora e co-autora de diversos livros além de ensaios, artigos e verbetes.


Narcimária autora do livro "Itapuã da Ancestralidade Africano Brasileira" compartilhando momento de confraternização ao lado da  professora Gilca Assis e professor Narciso José do Patrocínio


Lançamento do livro Oba Nijo de autoria de Narcimária do Patrocínio Luz com ilustrações de Ronaldo Martins.

 No âmbito do Programa de Pós-graduação em Educação e Contemporaneidade, foi assídua colaboradora desde a sua concepção no que tange a estrutura, forma e conteúdo da Linha Processos Civilizatórios: Memória e Pluralidade Cultural(Procemp)conhecida como Linha 1 na qual foi coordenadora até 2004.


Defesa de tese da professora Janice Nicolin.
 A banca examinadora composta pelas Doutoras Nadir Nóbrega, Ana Célia Silva, Jaci Menezes, Narcimária do Patrocínio Luz, e Inaicyra Falcão dos Santos

Defesa de dissertação da professora Léa Austrelina Ferreira.
Apresentação do auto-coreográfico A Fuga de Tio Ajayi de autoria de Mestre Didi com integrantes do programa Odemode Egbé Asipa.
 Na foto Caio Santos, Jefferson Ferreira e Walney do Amparo.

A doutora Narcimária representou a UNEB em inúmeros Eventos, progamas de TV e rádio

 O Compositor Martinho da Vila e o escritor angolano Manoel RuiP palestrantes  e Narcimária Luz coordenadora da Mesa de abertura do SINBAIANIDADE II.


Participação da professora Narcimária como palestrante na Universidade Federal do Recôncavo
 em Amargosa.

No decorrer de sua atuação universitária a professora Narcimária foi homenageada como patronesse e paraninfa em  várias turmas do curso de  graduação em Pedagogia.
Autoridades da UNEB na composição da Mesa solene da formatura da primeira turma de Pedagogia da Uneb em Lauro de Freitas.
 Reitor José Bittes e o Diretor do Departamento de Educação Doutor Valdélio Silva dentre outras.

A doutora e professora homenageada pela turma de formandos pronuncia suas mensagens.















sexta-feira, 10 de março de 2017

OPÔ BABA N`LAWA e Homenagem ao Mestre Didi

Por Marco Aurélio Luz


Placa comemorativa ofertada pela prefeitura de Salvador ao Ilê Asipá em homenagem ao  centenário de Mestre Didi

Na abertura do carnaval de 2017  a  Prefeitura homenageia o Centenário de Mestre Didi. Na placa comemorativa do centenário do Mestre Didi, a imagem da escultura Opo Baba Nla.
Na véspera do dia de entrega das oferendas da colônia de pescadores do Rio Vermelho `a Yemanjá, num local bem próximo num outeiro sobre o mar , descortinando todo horizonte de luzes e cores que a vista alcança e se perde em direção ao continente africano, foi inaugurado o Opô Baba  N’Lawa.
No momento solene , com a presença das autoridades governamentais, de autoridades da  tradição e do povo em geral , Mestre Didi e o  prefeito de salvador , acompanhados das respectivas senhoras, descerraram a placa comemorativa da inauguração.
O Opô Baba N’Lawa é um cetro em homenagem a nossa ancestralidade africano-brasileira , um marco histórico , a maneira negro-africana como o Opa Oraniyan dos yorubá, ou os famosos obeliscos egípcios.



Opo Baba N`Lawa no Rio Vermelho
Foto: M A. Luz

Embora uma das características estruturantes da tradição africana seja o culto aos ancestrais, cuja origem se perde na noite dos tempos, não deixa de ser significativo que a sociedade oficial , através da prefeitura , outorgue ao Mestre Didi , um sacerdote – artista , Alapini e Assogbá , supremo sacerdote do culto aos ancestrais masculinos , os Baba Egun , e  também sacerdote supremo do orixá do panteão da terra , Obaluaiyê , a responsabilidade da elaboração do cetro que homenageia a ancestralidade africana responsável pelo legado civilizatório que marca profundamente nossa identidade.
No Brasil , o culto aos ancestres africanos  possui diversas matrizes  litúrgicas e rituais adaptadas a nossa terra e que constituem um dos pilares da tradição , que vai das  congadas aos cultos de Baba Egun , passando pela genuinidade dos Caboclos, Preto- Velhos , e dos Inkices , Bakuros , Voduns , etc  constituindo a cultura predominante que alimenta a alma e a espiritualidade brasileira.Os cultos aos ancestres ora se referem a linhagens fundadoras de reinos e cidades e mantenedoras da continuidade dos valores civilizatórios , transmitindo seu precioso legado as novas gerações , baluartes na defesa e manutenção de sua identidade própria , ora se referem as origens da própria humanidade , transcendendo a temporalidade histórica para elaborar o mistério da gênese nos momentos mais profundos da liturgia.Na primeira referência , a temporalidade histórica tem como ponto inicial as origens africanas e sua ancoragem nas Américas e passa pelo período recente de lutas de libertação e resistências à escravidão européia, enfim , contra o sistema colonial mercantil escravista ,para alcançar os diais atuais, em que a tradição preservada , alimenta a comunalidade e a sociabilidade africano-brasileira, que se desdobra , perpassando de forma diversa a totalidade do tecido social componente da identidade nacional.
Localizado de forma a ter como fundo a linha do horizonte infinito do oceano em direção a África , ambas situações estão contempladas na simbologia da historicidade expressa no Opô Baba N’Lawa . É que a nossa ancestralidade é homenageada não só pela riquíssima herança cultural trazida pelos africanos para as Américas, mas também porque a origem da humanidade , do homo sapiens tal qual somos, está na própria África.
Emergindo do solo , a lança projetada em direção a atmosfera , celebra a continuidade da tradição que por sua vez garante a continuidade da humanidade. Sentinela dos valores da tradição garantidora da circulação de axé, da força vital , os ancestres são depositários e guardiões da sabedoria capaz de proporcionar a expansão do existir.Os ancestres portanto , são  a fonte de onde flui a continuidade da tradição. Na tradição nagô são sempre invocados e homenageados em todos os ritos precedendo ou iniciando a liturgia que mobiliza as relações entre o aiyê, esse mundo , e o orun, o além.
Assim como na cosmogonia nagô , os orixá, forças da natureza que governam o universo são classificados por princípios femininos e masculinos, também os ancestres têm ritualmente  essa qualificação.No Opô Baba N’Lawa , os dois princípios e poderes estão contemplados. Além da lança de forma fálica e com  a representação em bronze de sua textura de feixe de taliscas de mariwo caracterizando o poder da ancestralidade masculina, o interior da terra ventre  fecundado, de onde emerge o Opô caracteriza o poder da ancestralidade feminina. Os dois passarinhos em ambos os lados da peça por sua vez representam o poder de progenitura, resultante do movimento e da interação entre os princípios.


Mestre Didi e a escultura Opa Exin
Foto: disponível na internet

Na forma original das recriações de Mestre Didi , a textura de suas esculturas segue os elementos simbólicos dos orixá do panteão da terra especificamente o Xaxará e o Ibiri. Assim, as taliscas de palmeira mariwo, os búzios , couro , contas e cores , fazem parte das obras recriadas. Na presente peça, foi constituída uma réplica em bronze, material capaz de melhor resistir as intempéries da exposição em praça pública. Todavia convém sublinhar que o bronze retorna a arcaica técnica de cêra perdida , característica  do acervo das famosas esculturas do patrimônio cultural de Ilê Ifé , a cidade sagrada dos yorubá.



Opa Exin ati Eiye Meji. Cetro representando a ancestralidade que assegura descendência, expansão e continuidade.Reprodução da escultura de Mestre Didi no Pelourinho 1983.Criação de Óscar Ramos.
foto: M.A. Luz
Em 1974 , participando do Iº Seminário sobre o Nordeste: Preservação do Patrimônio Histórico e Artístico , realizado em Salvador, Juana Elbein dos Santos realizou a comunicação Conscientização do Patrimônio Negro-Brasileiro , chamando a atenção para o fato de que a ausência de quaisquer políticas de preservação , se constituía num desdobramento do recalcamento de projeções coloniais escravistas. Alertava para  pontos cruciais que pouco a pouco , no decorrer das últimas décadas alguns  , foram devidamente contemplados como:

  1. Inventário de peças museáveis da arte negro-brasileira;
  2. Inventário e as homenagens aos quilombos , do passado e do presente;
  3. Desobstrução da fachada do Ilê Iyá – Nassô , prejudicada pela presença ostensiva de um posto de gasolina;
  4. Exposição em local adequado e/ou devolução de material sacro confiscado pela polícia e exibido de forma deplorável em museus da academia de polícia ou afins.
Enfim , vários outros aspectos significativos de nosso patrimônio cultural foram apontados  ,e que agora, com o Opô Baba N’Lawa, se vai assumindo também uma nova postura do poder público , reconhecendo a diversidade sócio-cultural como característica componente da riqueza de nossa identidade própria.
A escolha da homenagem à ancestralidade não poderia estar melhor representada do que por uma escultura de Mestre Didi. Ele que além de ser considerado um dos mais insignes representantes da arte contemporânea , que recria uma linguagem estética a partir de sua profunda experiência de sacerdote-artista , é descendente de uma das mais tradicionais linhagens componentes do antigo império nagô-yorubá, a família Asipá; referência de ancoragem e continuidade ininterrupta do processo civilizatório negro –africano.
A importância do cetro , obelisco em homenagem a ancestralidade é de um efeito estético análogo ao oriki , poema de louvação à memória da Iyá Oba Tosi , uma das fundadoras da tradição nagô  na Bahia  e as mães ancestrais, invocado em determinadas ações litúrgicas. Diz o poema em um de seus versos:

 A de o!
 Chegamos e estamos aqui!


 Kosi mi fara e awa re!
 Nada há no mundo que possa contra mim, aqui estamos!
 Kosi mi fara e awa re!
 Nada há no mundo que possa contra mim, aqui estamos!
 Awa kasa i fara e la i be si bo.
 Nunca deixaremos de ofertar e rogar em nossos altares por nossa gente.
 Idan toba fara a ng a lo lo dan.
 Podem usar o poder que quiserem.
 Kosi mi fara e awa re!
 Nada há no mundo que nos atinja, aqui estamos!


 Kosi mi fara alejo.
 Nada há que possa contra mim, nem mesmo os estrangeiros.
 Ara wara kosi mi fara!
 Todos unidos num mesmo corpo, nada há no mundo que possa contra mim!


Na pequena enseada do Rio Vermelho barcos e canoas ancoradas compõem o cenário das relações da humanidade com o reino de Olokun e Iemanjá. Uma canoa com pescadores singra o mar em direção a praia , onde no amanhã serão embarcadas as oferendas aos orixá, para que o mundo não se acabe...

Notas:


 1. Cf. SANTOS, Juana E. Conscientização do Patrimônio Negro-Brasileiro, in SÁRÉPEGBÉ. Salvador:  Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil- SECNEB, p.21- 23, 1995 .

2. SANTOS, Deóscoredes M. Homenagem a Asipá Oba Tosi ati Iya Mi Agba. (mimeografado Salvador,1983) in LUZ, Narcimária do Patrocínio. ABEBE a Criação de Novos valores na Educação. Salvador: Edições SECNEB,2000 ps. 137-139.







quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

TRINTA ANOS DE FARAÓ



Foto disponível na Internet

Por Oju Oba Marco Aurélio Luz

Em 1974 o Ilê Aiye trouxe o mundo negro para o carnaval que se transformou no turbilhão dos blocos afro.
Com ele vieram posteriormente outros tantos, Olodum, Muzenza, Male De Bale, Araketu, Badauê, Oba Dudu, Oba L’ Aiye, Oju Oba, Bankoma, etc.expressão da afirmação existencial da comunidade negra, e na Bahia, apoiada pelos valores do riquíssimo legado da civilização negro africana.

Foto disponível na Internet

O Ilê Aiye manteve-se como “o mais belo dos belos.” O conjunto de beleza desfilando com impávido orgulho de sabedoria negro africana encanta a todos.

Foto disponível na Internet

  A presença da Iyalorixá Jitolu D. Hilda, mãe do líder fundador Antônio Carlos dos Santos, gerou um calendário de atividades culturais destacando-se “A noite da Beleza Negra”. Foi constituída toda uma original e criativa linguagem própria, na música, na bateria, nas danças, nas roupas, nos penteados e torços etc.

Foto disponível na Internet

É importante destacar a Escola Mãe Hilda Jitolu que oferece ensino fundamental às crianças ressaltando a herança da civilização negro africana e sua história presente nas temáticas dos desfiles.


Em 1979 foi fundado o Olodum, no contexto de renovação do Pelourinho através do IPAC sob a direção do professor Vivaldo da Costa Lima.

Foto disponível na Internet

Depois de Petu e Jair chegou João Jorge vindo do Ilê Aiyê e juntamente com Neguinho do Samba e Lazinho, proporcionaram um calendário de atividades, como o Festival FEMADUN, a Escola Olodum e um mar de criatividade musical.

Foto disponível na Internet




A genialidade de Neguinho do Samba proporcionou a criação do gênero samba reggae e implantou a forma orquestral do Olodum constituindo sua principal identidade.

Foto disponível na Internet
Foto disponível na Internet

As interpretações intensas e originais do canto de Lazinho combinaram com a excelência da música e das letras dos compositores.

Foto disponível na Internet


As temáticas do Olodum para os desfiles apresentam-se mais livres de compromissos  com a civilização e história negro africana.
A letra do clássico “Revolta Olodun” de autoria de José Olissan e Domingos Sergio revela de forma magnifica uma condensação das revoltas contra as injustiças perpetradas contra o povo do nordeste. O panorama histórico abrange o Palmares de Zumbi que comandou “exército de ideais, libertador”, passando pela Balaiada , revolta Malê, Canudos de Antonio Conselheiro, o sertão de Lampião, Maria Bonita e Corisco com música pertinente encerrando com a onomatopeia do som das metralhadoras.

Foto disponível na Internet


A obra do cientista Cheik Anta Diop revelando o Egito Negro Faraônico repercutiu em toda comunidade afro descendente. O Egito antigo berço da civilização era negro africano.

Foto disponível na Internet


O Olodum celebrou e divulgou na Bahia e no Brasil com a temática e o desfile “Faraó”. A excelente composição de Luciano Gomes fez de “Faraó” um clássico que atravessou fronteiras. Tornou-se a principal música e a essência do Olodum.

O bloco afro Muzenza que anunciou “A terra tremeu e o céu mudou de cor” num sonho de Liberdade  um vulcão lançou lavras de criatividade beleza alegria e sabedoria pelas avenidas de Salvador carnavais a fora.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

RETERRITORIALIZANDO CLARÕES A CAPOEIRA SOLO, QUE GERA VIDA, LIBERDADE E DIREITO DE SER




http://www.sodetox.com.br/wp-content/uploads/2016/02/capoeira.jpg

Por Narcimária Correia do Patrocínio Luz

Todo o pensamento e todas as iniciativas que realizo como intelectual  estão vinculados ao cotidiano e à pulsão de vida que eles apresentam. Aprendi a escutar pacientemente os sinais desse cotidiano, e por meio dele a pensar radicalmente o lugar em que estamos e as raízes que anunciam quem somos. Como costuma dizer meu amigo Muniz Sodré: você só muda ou se transforma a partir do seu lugar, da sua comunidade. Você só se universaliza a partir da sua cidade e de seu país.
Como ser educador sem conhecer a História das civilizações da África, das Américas, do Caribe, da Ásia, da Europa e da Oceania? Que educador pode viver sem conhecer a história das suas origens?




Então, pensar com base em nosso “solo de origem” é primordial!
Faço um convite ao leitor para pensar algumas inquietações que constituem desafios do nosso tempo presente. Para isso, apelo para a filosofia e e para as linguagens da capoeira semântica tupi-guarani, que assume, a partir do século XVI, o repertório de valores e de linguagens da civilização africana. Sim, capoeira! A linguagem criativa do corpo, do jogo, da dramatização da vida, das histórias, narrativas, comunalidades.
Existem várias “explicações” a respeito da origem da capoeira. Gosto de uma em especial, que se refere à semântica tupi-guarani, “Ka puêra”. 
No processo predatório da colonização, no século XVI, as agressões à Mata Atlântica, por meio dos constantes desmatamentos para a plantação de
cana-de-açúcar ou pastos para a criação de gado, esgotava a vida do solo.
Devido a esse desgaste, os colonos buscavam sempre outras terras para continuar exaurindo. Essas terras surradas e abandonadas viravam grandes clarões bem isolados e envoltos pela mata. Depois de certo tempo, nascia nesses clarões um capim fininho e frágil chamado pelo povo tupi-guarani de
“ka puêra”.
Foram nesses clarões que os africanos (re)estabeleciam seus espaços de liberdade e de dignidade, (re)criando condições existenciais possíveis à repressão da ordem escravista.
Os clarões envoltos pela mata eram de difícil acesso para a fiscalização dos capitães do mato, que estavam a serviço da ordem escravista – a qual sempre era desestabilizada diante das estratégias de insurgência permanentes dos africanos vindos de Angola no século XVI. A capoeira foi se (re)territorializando  de modo especial em Salvador e Recôncavo da Bahia. Os clarões, ou as capoeiras, ganharam uma dinâmica existencial singular, pois se organizaram por meio de um traçado urbano eminentemente africano-brasileiro.
A (re)criação da capoeira, nos clarões da mata, significava uma  territorialidade possível, de um corpo livre e de permanente movimento criativo, além de um afirmação da  identidade profunda individual e coletiva. São as capoeiras imantadas pelo universo simbólico das territorialidades negras que desestabilizam o establichement colonial, fomentando insurgências importantes nas Américas e no Caribe.  



Chamo atenção para o fato de que os africanos provenientes do Ndongo, a atual Angola, responsáveis pelas estratégias de (re)territorialização e da  “ka puêra” no século XVI e início do XVII,  carregavam consigo vínculos de sociabilidade importantes, principalmente aqueles cujo repertório comunal vincula-se ao conhecimento  de guerrilhas instituído pela  
Rainha Nzinga, a Rainha Ginga ou Rainha Invisível, como destaca os relatórios  portugueses. Nzinga foi uma rainha, cuja autoridade  envolvia as províncias do Ndongo e Matamba, e hoje representa uma legenda primordial. Daí o termo ginga para se referir ao repertório coreográfico da capoeira.
A capoeira contemporaneamente como uma instituição reconhecidamente secular, inspira-nos a tentar compreender as tensões e os conflitos do nosso cotidiano, principalmente no que se refere às agressões institucionalizadas que fomentam as políticas genocidas e as de abandono a nossa população.
É desagradável reconhecer comportamentos que tendem a reger as instituições jurídico-políticas do nosso país e que estão nas mãos de uma elite dirigente descompromissada com a nossa territorialidade e com a identidade profunda da nossa população. São elites, extensão das relações de prolongação neocolonial, que se mantêm no poder de Estado, agredindo as territorialidades brasileiras, incentivando a política de embranquecimento, estratégia do racismo no Brasil. Infelizmente a Educação é um dos principais alvos dessa ação predatória!
Max Weber criou a expressão “desencantamento do mundo”, referindo-se às tensões e aos conflitos, ao desgaste e à anomia que envolve o nosso tempo. Esse desencantamento do mundo se caracteriza pelo jogo das aparências, geralmente atravessado pelo individualismo: a onipotência narcísica de lidar com a existência, a capacidade de acumular bens, TER em detrimento de SER.
Nessa perspectiva, “time is money”, o tempo é dinheiro, trabalho é dinheiro, vida é dinheiro, e é esse valor que irá mover políticas perversas de prolongação neocolonial sobre povos e territórios.
Professor Narciso José do Patrocínio, personalidade muito conhecida na  história da Educação na Bahia  costuma dizer:
“Acredito em Educação como um caminho valioso para superarmos as desigualdades sociais, a desesperança que toma o planeta... A Educação para mim é uma forma de aplacarmos o ponto de interrogação que temos sobre o futuro. Estamos vivendo em uma sociedade que valoriza o ter mais que o ser... O dinheiro é a máxima da vida agora, e esse valor coloca a vida por um fio... Aprendam uma coisa: todas as questões e angústias humanas precisam ser compreendidas a partir do tempo, esse princípio fundador que nos ajuda a pensar o passado o presente e o futuro.”
Daí, sair da angústia de fato e buscar a utopia que nos permite respirar vida, mesmo em uma atmosfera de vulnerabilidade.
Pensar o imaginário do século XXI é reconhecer a urgência da proposição de uma ética da coexistência entre os povos, e isso exigirá, como afirma Marco Aurélio Luz: “(...) assumir a riqueza da humanidade que é a sua diversidade e multiplicidade de formas de sociabilidade, significa abandonar a ética de subjugação e imposição de uma univocidade de ser, procurando esvaziar a identidade do outro. Implica, por outro lado, na aceitação da alteridade própria, como sendo capaz de engendrar uma ética que proporcione novas formas de negociação dos problemas emergentes em determinados contextos sociais. Essa é, para nós, a possibilidade real de uma nova ordem nacional e mundial, mais equilibrada e harmônica. E não esqueçamos: “Para além da diversidade, todo sangue é vermelho”.




Desse modo, temos assistido formas de insurgências contemporâneas, desdobramentos das capoeiragens dos nossos ancestrais, como as recentes ocupações das escolas em todo o Brasil, por alunos, pais e comunidades, devido ao total abandono e sucateamento que esses espaços públicos de educação há muito vêm sofrendo.
Vejam que não estamos no século XVI, não estamos falando do ciclo da
cana-de-açucar ou da criação de gado voltado para a acumulação de capital, levando o solo à exaustão e explorando o trabalho forçado de africanos. Não! Estamos nos referindo ao fato de crianças, jovens e adultos se sentirem agredidos cotidianamente quando não encontram as condições mínimas e necessárias para terem direito a uma educação de qualidade.
Apelando para a metáfora da capoeira, percebo que as escolas públicas e universidades se tornaram solos esgotados, doentes e sem vida! O establishment usa esses espaços na lógica de uma geografia civilizatória anglo-saxônica, que organiza a arquitetura, as metanarrativas do currículo geralmente racista, patriarcal, homofóbico, eivado de intolerância religiosa.
A dinâmica institucional que se impõe tem uma estrutura e organização que não reconhece as linguagens e os valores civilizatórios que imantam as territorialidades em que essas escolas e universidades são implantadas. A população não se identifica e nem se encontra representada nessas instituições.
O jeito é reterritorializar as escolas e universidades, que agora se constituem como clarões, uma boa capoeira que forma uma roda de alunos, pais, professores e toda a comunidade, recriando com altivez uma  nova forma de pensar e fazer educação.
 Estamos nos referindo a uma alusão simbólica e política da capoeira, que carrega a imponência e a altivez característica da nossa população, a qual não abre mão do direito à sua alteridade civilizatória.
Assim, destaco dois documentos fundamentais que estabelecem políticas públicas as quais podem servir como polos de reflexão para as nossas capoeiras.
O primeiro foi elaborado no âmbito do Congresso Internacional de Cultura e Desenvolvimento em Havana, em junho de 2001 e investe na noção de desenvolvimento, que nos é tão caro contemporaneamente.
“[...] o desenvolvimento supõe a capacidade de cada povo para informar-se, aprender e comunicar suas experiências; um número cada vez maior de mulheres e homens deseja um mundo melhor, perseguindo não apenas a satisfação das necessidades fundamentais, mas a possibilidade de convivência solidária com todos os povos. Seu objetivo não é a produção, a ganância, o consumo, mas a plena realização individual, coletiva e a preservação da natureza; toda política cultural deve resgatar o sentido profundo e humano do desenvolvimento, requerendo novos modelos no âmbito da cultura e da educação; o desenvolvimento equilibrado deve integrar os fatores culturais e as estratégias para alcançá-lo em consequência, tais estratégias deverão levar sempre em conta a dimensão histórica, social e cultural de cada sociedade.”
Então, a noção de desenvolvimento deve ser reconsiderada para a expansão da vida no século XXI!
O outro documento mais recente é a Declaração de Incheon, na Coreia do Sul, com orientações legais de políticas para a educação, mobilizando todos os países para o período de 2016 a 2030. Nesse se afirma: o direito à vida, à saúde, à educação; o direito de brincar, à vida familiar, à proteção contra a violência,  a discriminação, o racismo, a homofobia, a intolerância religiosa e, ainda, a preocupação de formar gerações que contribuam para o desarmamento nuclear.
O imaginário do século XXI está em cada um de nós!
Insistindo: é preciso dar valor às nossas territorialidades, ao povo que nela vive. É necessário aprendermos a recorrer a esses arquivos vivos de sabedoria e memória para falarmos a respeito do nosso solo de origem, sobre quem nós somos e o impacto desses valores para as gerações sucessoras.
Encerro com uma legenda da capoeira angola por meio da metáfora do Mestre João Grande:
“Sou como fruta madura que cai lentamente. Procuro terra fértil para me transformar em semente e virar fruta novamente.”
Essa é a manha, a ginga de um bom capoeira! A ideia é exatamente essa! Cair no mato! Identificar os clarões para reterritorializá-los com os valores e as linguagens que devolvem à nossa população a dignidade de  SER e VIVER, o direito à alteridade civilizatória.
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