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PRODESE E ACRA



VIDA QUE SEGUE...Uma
das principais bases de inspiração do PRODESE foi a Associação Crianças Raízes
do Abaeté-Acra,espaço institucional onde concebemos composições de linguagens
lúdicas e estéticas criadas para manter seu cotidiano.A Acra foi uma iniciativa
institucional criada no bairro de Itapuã no município de Salvador na Bahia, e
referência nacional como “ponto de cultura” reconhecido pelo Ministério da
Cultura. Essa Associação durante oito anos,proporcionou a crianças e jovens
descendentes de africanos e africanas,espaços socioeducativos que legitimassem
o patrimônio civilizatório dos seus antepassados.
A Acra em parceria com o Prodese
fomentou várias iniciativas institucionais,a exemplo de publicações,eventos
nacionais e internacionais,participações exitosas em
editais,concursos,oficinas,festivais,etc vinculadas a presença africana em
Itapuã e sua expansão através das formas de sociabilidade criadas pelos
pescadores,lavadeiras e ganhadeiras,que mantiveram a riqueza do patrimônio
africano e seu contínuo na Bahia e Brasil.É através desses vínculos de
comunalidade africana, que a ACRA desenvolveu suas atividades abrindo
perspectivas de valores e linguagens para que as , crianças tenham orgulho de
ser e pertencer as suas comunalidades.
Gostaríamos de registrar o nosso
agradecimento profundo a Associação Crianças Raízes do Abaeté(Acra),na pessoa
do seu Diretor Presidente professor Narciso José do Patrocínio e toda a sua
equipe de educadores, pela oportunidade de vivenciarmos uma duradoura e valiosa
parceria durante o período de 2005 a 2012,culminando com premiações de destaque
nacional e a composição de várias iniciativas de linguagens, que influenciaram
sobremaneira a alegria de viver e ser, de crianças e jovens do bairro de
Itapuã em Salvador na Bahia,Brasil.


sábado, 31 de dezembro de 2011

A ACRA DESEJA A TODOS/AS QUE NOS ACOMPANHAM NO BLOG UM ANO NOVO PLENO DE ALEGRIAS,SAÚDE,PAZ,PROSPERIDADE E CAMINHOS PLENOS DE CANÇÕES,DANÇAS,POESIAS,CONTOS,SABORES,ODORES,PAISAGENS... TUDO QUE POSSA AFIRMAR E RECONHECER O DIREITO À DIVERSIDADE CULTURAL CARACTERÍSTICA DOS POVOS. FELIZ 2012!

Este vídeo é uma contribuição do Professor e historiador  Rafael Vieira Filho.


FESTIVAL AFROBRASILEIRO DE ARTE E EDUCAÇÃO DA ACRA 2011


Elenco iniciando a dramatização do autocoreográfico

O IIIº Festival Afro brasileiro de Arte e Educação da ACRA 2011 envolveu duas etapas: a primeira foi a inauguração do Ponto de Leitura “Biblioteca Viva de Itapuã”; a segunda foi dedicada as atividades de projeção de vídeo, slides, exposição de grafite e desenhos mostra, apresentações de música, dança e a encenação do autocoreográfico “O CASAMENTO DA FILHA DO CORONEL ANTONIO BENTO”, de autoria de Januária Correia do Patrocínio e Narcimária do Patrocínio Luz. Em seguida formou-se um samba de roda, seguido de sorteios de lembrancinhas e lanche.
A inauguração do Ponto de Leitura ocorreu de forma muito singela, num clima de descontração, permitindo aos presentes fazer uso da palavra manifestando seus votos de realização e suas emoções.

Inauguração do Ponto de Leitura na extremidade à direita Professora Joselita Patrocínio e Professor Narciso Patrocínio

O primeiro a discursar foi o presidente da ACRA o professor Narciso José do Patrocínio, agradecendo a colaboração de todos especialmente de Narcimária do Patrocínio Luz que ele considera uma das mais importantes educadoras da atualidade, agradecendo-a pela participação da equipe de pesquisadores/as do PRODESE-Programa Descolonização e Educação que trouxe a colaboração de graduandos/as e pós-graduandos/as como a professoras Caroline Nepomuceno, Nayara Bittencourt e Jackeline Pinto do Amor Divino que idealizaram o projeto, contemplado pelo Edital de PONTOS DE LEITURA iniciativa do Ministério da Cultura e da Secretaria de Cultura através da Fundação Pedro Calmon.
A Professora Joselita do Patrocínio disse estar muito orgulhosa e satisfeita de integrar a ACRA vendo realizações tão benéficas para nossa infância e juventude, e que essas experiências nos trazem alento de esperança para a promoção da qualidade na área de Educação.
A professora Narcimária sublinhou que o Ponto de Leitura “Biblioteca Viva de Itapuã” não seja um espaço de leitura simplesmente, mas sim um centro de efervescência de atividades relacionadas ao patrimônio sócio- histórico de Itapuã e a riqueza da sua biodiversidade promovendo cultura e educação. Para tanto se espera participação comprometida dos animadores culturais com o desenvolvimento das crianças e jovens integrantes da ACRA.
Por sua vez a representante da Fundação Pedro Calmon  Carmen Azevedo de Melo disse estar muito satisfeita com o que estava vivenciando naquela manhã na ACRA.Destacamos a presença de Lúcia Cristiane Teixeira Rios também representando a Fundação Pedro Calmon.   

Da esquerda para direita professora Maria José,Carmen Azevedo de Melo  e Lúcia Cristiane Teixeira Rios representando a Fundação Pedro Calmon,Maristela Assistente Social do PROJOVEM  e Célia aeducadores/mbas da equipe de as ACRA 

A professora Jaqueline do Amor Divino participante do PRODESE e atual coordenadora executiva da ACRA agradeceu a todos que colaboram com a experiência, possibilitando essa e outras realizações.

Ao centro a Professora Jackeline ressaltando a importância do ponto de leitura

Depois de outros presentes fazerem o uso da palavra num ambiente de emoção entre todos, houve um momento e um espaço para sinceras confraternizações.
A segunda parte do Festival constou primeiramente da mostra de trabalhos de pintura de grafite, dos que acompanham as atividades do educador Tárcio Vasconcelos artista dedicado a arte pictórica, e desenhos e colagem do jovem Talles Brandão.
O Festival também proporcionou a exposição de instrumentos musicais e engenhos de material reciclado dos que acompanham a criatividade de Sidney Argolo. Depois foi exibido um vídeo documentário e slides que se referiam a trajetória da Associação desde sua inspiração e criação pelo Contra Mestre de capoeira Luís Negão, idealizador da ACRA.

O adolescente Talles com a Senhora Maristela expondo seu mosaico.

José Luís Correia do Patrocínio foi morar em Oxford na Inglaterra, e lá ele criou um grupo de capoeira ensinando a arte da Bahia e atraindo com essa sedução, pessoas que vindo ao Abaeté realizaram o intercâmbio que resultou na criação da ACRA. Luís Negão também criou um núcleo na África do Sul na cidade de Hamburg. Desde então, esse intercâmbio com esses países acontece, ingleses e sul africanos vindos para cá, e baianos crianças e jovens da ACRA indo para lá. Na projeção dos slides e vídeo documentário, os/as jovens se viram nas imagens deram risadas relembrando momentos muito especiais vivenciados desde 2005.

Público assistindo o documentário e slides
Seguindo a dinâmica do Festival a professora Jaqueline P. do Amor Divino e o professor Magno Santos, deram início a apresentação do auto “O CASAMENTO DA FILHA DO CORONEL ANTONIO BENTO” solicitando a uma das autoras que contextualizasse a abordagem do autocoreográfico.
Narcimária então explicou que se inspirou na música de autoria de João do Vale e Luís Vanderley e interpretada por Tim Maia, incrementando com as composições de Luís Gonzaga e Zé Dantas. Ressaltou que seu desejo é que nós nordestinos, assumamos nossa riqueza cultural tratando de temas relacionados com a nossa região fortalecendo nossa identidade, e que fica muito feliz em ver um grupo de jovens da ACRA assumir esse desafio.
Então com muita graça o grupo se apresentou. Cada artista do elenco era apresentado individualmente acompanhado da batida de palmas no ritmo de samba de roda dançando pequenos trechos de músicas referentes ao Abaeté e a Itapuã. Após iniciou-se a encenação da comédia, que foi muito bem aceita pelos presentes que consideraram um sucesso. Cada cena é reforçada por uma música de referência e tudo ficou lindo.
Um detalhe foi a participação das famílias, amigos/as, colaborando com a encenação, destaque para D. Mariinha que integra o grupo As Ganhadeiras de Itapuã, avó da jovem Evelyn Dias da ACRA (uma das protagonistas do auto).D.Mariinha  que idealizou e confeccionou os figurinos do auto , e a pedidos “deu uma canja” cantando com a neta uma bela canção”História de Itapuã” música e letra de Reginaldo Sousa.

D.  Mariinha cantando com sua neta Evelyn

Após os aplausos e encerrada a apresentação, todos os presentes foram convidados a participar de um animadíssimo samba de roda com muita animação e alegria.
As crianças e jovens fizeram uma homenagem ao professor Narciso, abraçando-o com muito carinho e agradecendo-o pelas oportunidades criadas nesse espaço tão especial que é a ACRA. Professor Narciso proferiu algumas palavras, e depois a confraternização foi recheada por sorteios, lanche, emoções e muita alegria.
A seguir imagens desses momentos especiais que culminam  a 3ª edição do Festival Afrobrasileiro de arte e Educação da Acra.








Equipe de educadores/as da ACRA.Da esquerda para a direita:Célia,Maristela,Magno,Tárcio,Jackeline,Narciso,Rosângela e Carol.




Professor Narciso recebendo a homenagem da crianças da ACRA

domingo, 18 de dezembro de 2011

O CONTEXTO HISTÓRICO DA COMUNALIDADE AFRICANO-BRASILEIRA

Por Marco Aurélio Luz
INTRODUÇÃO

Escultura que integram o patrimônio do Ilê Asipá
Escultor Marco Aurélio Luz Elebogi

A intenção da presente comunicação é de chamar atenção e, lançar uma semente de um novo enfoque de análise contextual da realidade brasileira ou da formação social brasileira, no sentido de perceber o desenvolvimento das comunidades terreiro e sua atuação histórica no processo de nossa sociedade.
Este propósito, visa evidentemente, a uma ação de desrecalcamento, posto que em toda historiografia nacional de que temos conhecimento são raras as publicações sobre o assunto, o que sucede é quando menos o silêncio. Até aqui não só na historiografia oficial, eivada de europocentrismo, tem recalcado esse significativo aspecto da história do negro , não só a historiografia baseada no materialismo histórico e dialético, que se restringe em operar o evolucionismo eurocêntrico com as categorias de luta de classes e alienação, mas também a pequena historiografia do negro, que tem se detido na perspectiva do “fato histórico” e com isso voltada essencialmente para análise dos quilombos, ressaltando também a resistência político militar e econômica, e das insurreições negras, ou ainda revoltas onde o negro teve ampla participação.
Se no período da formação colonial-mercantil-escravagista o Estado estabeleceu no Brasil o estatuto jurídico do negro como escravo e, no âmbito do direito civil classificou-o como bem semovente, isto é, equiparando aos bois cavalos etc. como em geral por toda a América, o negro todavia nunca permitiu em toda a história aí enquadrar-se, mesmo sofrendo as piores repressões. Sua identidade negro-africana foi mantida e expandida nas Américas pela continuidade de seu processo civilizatório milenar, que implantou-se no “novo mundo” então nosso continente e, mais do que América Latina ou América Anglo- saxônica se caracteriza como AFRO-América.

Escultura que integram o patrimônio do Ilê Asipá
Escultor Marco Aurélio Luz Elebogi


Essa identidade afro- americana, ou negro- americana baseada nos valores, linguagens e instituições do processo civilizatório dá continuidade a um sistema cultural que tem nas comunidades- terreiro o centro de irradiação e expansão. É aí que se concentram os valores mais profundos da cultura negra, ou seja no que se refere a seus aspectos cosmogônicos, filosóficos, científicos, estéticos, enfim uma sabedoria milenar contida em sua magnífica liturgia. É esse conjunto que estrutura e alimenta a identidade e com ela as formas de comportamento social e individual.
Tão importante é o desenvolvimento e expansão das comunidades terreiros na formação histórica americana que nessa dinâmica o silêncio e a deformação historiográfica fala censurando e recalcando a presença de um processo civilizatório que caracteriza a nação brasileira. Ir de encontro à fala desse silêncio é o que nos propomos, dando esse pequeno passo.
Inicialmente queremos destacar que no âmbito do continente civilizatório das tradições negro-africanas a história é compreendida de forma diferente da cultura européia.
Nas nossas tradições africano-brasileiras é no seio das comunidades terreiros que a memória coletiva é guardada e cultivada. Não só pelas regras e pela ética da preservação dos valores e linguagem da tradição mas também pela ancianidade medida pela continuidade das iniciações constituintes das hierarquias, coluna mestra da sociabilidade comunitária.


Escultura que integram o patrimônio do Ilê Asipá
Escultor Marco Aurélio Luz Elebogi

A ancestralidade é decorrente desses valores . Os ancestrais são cultuados para manter a tradição e com isso cuidar dos integrantes do egbe, a sociedade dos participantes da tradição.
A memória mais significativa que constitui a história comunitária está então desenvolvida por esse contexto.
O melhor exemplo dessa história escrita na atualidade é o livro HISTÓRIA DE UM TERREIRO NAGÔ de Deoscoredes M. dos Santos o Mestre Didi.
Agora temos a honra de divulgarmos o trabalho de seu neto José Felix dos Santos que se constitui no mesmo território epistemológico , na mesma bacia semântica, no solo da tradição.

TRAJETÓRIA DO ILÊ AXIPÁ ANCORAGEM DOS VALORES AFRO-BAIANOS


Por José Félix dos Santos, Otun Alagba n’Ilê Axipá.


Mestre Didi e seus descendentes Axipá confraternizando-se na ocasião do batizado da sua bisneta Madalena filha do Otun Alagbá José Félix dos Santos

Caros colegas de mesa, Professor Doutor Marco Aurélio Luz e Professora Doutora Narcimária Luz; senhores e senhoras aqui presentes, prezados ouvintes: bom dia. É sempre um prazer muito grande poder falar um pouco sobre a minha origem e sobre a religião africana. Ainda mais aqui, quando em meio a amigos já de longa data.
Antes, porém, que eu comece a discutir com os senhores sobre o tema que trago, peço um minuto. Todas as vezes que se vai fazer uma obrigação no terreiro, seja de Egun ou Orixá, pede-se antes licença às entidades através de uma saudação. Como irei falar sobre a religiosidade africana e afro-brasileira neste espaço, como falarei de Orixás e Eguns, também aqui devo pedir licença a essas entidades. Saudarei primeiro em iorubá e, logo em seguida, farei a tradução para o português:

Mojubá Olorum Baba Olodumare

Onile, Mojuba yin o!

Exu Yangi, obá Babá Exu, Mojuba yin o

Egun aiyê chebá orum, mojuba yin

Awon Orixá laiê, awon Orixá lorum, mojuba yin

Agô ô!

“A Olorum, Pai Olodumare, apresento meus cumprimentos”

“Ao dono da terra apresento os meus cumprimentos”

“A Exu Yangi, Rei e Pai de todos os Exus, apresento os meus cumprimentos”

“A todos os Eguns, deste e do outro mundo, apresento os meus cumprimentos”

“A todos os Orixás deste mundo e do outro, apresento meus cumprimentos”

“Me deem licença!”

Ainda dentro do minuto pedido, gostaria de recitar uma cantiga bem antiga, que faz parte de nossa tradição e diz muito sobre nossa religiosidade, sobre o nosso modo de ver e de viver no mundo:

Iyá mi, Axexê!
Baba mi, Axexê!
Olorun um mi Axexê o o!
Ki ntoo bo orixá a e!
Esta cantiga diz o seguinte:
Minha mãe é minha origem!
Meu pai é minha origem!
Olorun é minha origem!
Consequentemente, adorarei minhas origens antes de qualquer outro Orixá.
E assim, encerro este primeiro minuto saudando a Xangô:

Kawo Kabiesile

Nós vos saudamos por ter vindo para a Terra
Bom, agora eu já posso me apresentar.
Sou José Félix dos Santos, bisneto de Mãe Senhora, filho de Nídia e neto de Mestre Didi. Sou sacerdote do culto dos ancestrais, também trazido da África pelos escravizados africanos. Pertenço ao terreiro Ilê Asipá, onde sou Otun Alagbá (que significa “o segundo líder”) e fui iniciado no culto dos ancestrais no terreiro Ilê Agboula, em Itaparica.


Mãe Senhora
Sou também iniciado no culto aos Orixás, no terreiro Ilê Axé Opó Afonjá, situado no bairro São Gonçalo do Retiro, em Salvador. Lá, sou ogan de Iyansã, com o título de Ogan Toyadé, que significa “chegou o representante de Iyansã”. Como sou filho do Orixá Ossanyin, tenho o nome de Ewé Tolú, que significa “A folha é senhora do espírito”.
Ossanyin é a divindade das plantas medicinais e litúrgicas, por isso é um Orixá muito importante para a religião africana uma vez que não existe qualquer obrigação sem folha. Sua presença é sempre tão marcante e fundamental que os nossos mais velhos nos ensinaram: Kosi ewe kosi orixá, ou seja, sem folha não há Orixá. Nenhuma cerimônia pode realizar-se sem sua presença sendo ele o detentor do axé, ou poder, imprescindível até mesmo aos próprios deuses. Saúdo Ossanyin: Ewé Ô!
Bom, já que falei em axé, talvez seja interessante explicar um pouco o seu significado. Axé pode ser definido como várias qualidades de elementos que, reunidas, se transformam em uma grande força que passa a simbolizar e representar o poder do Orixá em qualquer circunstância, religiosamente falando. É, em verdade, o grande poder de realização que movimenta e estrutura o mundo. É, assim, um dos princípios básicos de nossa religião. Temos o dever de, obedecendo fielmente a tradição que nos foi passada, cultivar, expandir e transmitir o Axé de modo que, através dele, as coisas aconteçam. É, ao mesmo tempo, princípio e força.
É possível que os senhores já tenham percebido que por duas vezes utilizei, em minha fala, a palavra “dever”. Primeiro na abertura, ao saudar as entidades. Por último, agora, ao falar do nosso papel em zelar pelo Axé. Ora, o uso recorrente desta palavra não é por acaso, uma vez que significa compromisso – outro princípio fundamental em nossa religiosidade. Gostaria de aproveitar a oportunidade e explicar para os senhores, ainda que brevemente, as razões dos compromissos que mantenho com os dois cultos: tanto o dos ancestrais, quanto o dos orixás. Creio que, assim, poderá se ter uma boa noção do sentido que “compromisso” tem entre nós.
Antes de tudo, são compromissos herdados de minha família, pois descendo da linhagem real Asipá, uma das sete principais famílias fundadoras do Reino de Ketu, importante cidade do Império Yorubá.
Minha bisavó, Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, Oxum Muiwá, foi iyalorixá de um dos terreiros mais importantes da Bahia, o Ilê Axé Opó Afonjá, até 1967, quando faleceu. Mãe Senhora era neta de Marcelina da Silva, uma das fundadoras da primeira casa de culto aos Orixás na Bahia, o Ilê Axé Airá Intile, depois Ilê Iyá Nassô, também conhecido como Casa Branca.
Mãe Senhora, escolhida em 1965 como Mãe Preta do Brasil, dedicou sua vida à expansão dos princípios religiosos e dos valores culturais nagô. Conduziu, com competência e fidelidade à tradição, o terreiro do São Gonçalo do Retiro, bem como, com igual dedicação, ocupava posições de destaque dentro do culto dos Eguns no Ilê Agboulá, em Ponta de Areia, na Ilha de Itaparica. Era filha de Oxum e mãe de Mestre Didi, meu avô, Alapini, sacerdote supremo do culto aos ancestrais masculinos, artista e escritor. Meu mestre, fundador do terreiro Ilê Asipá, onde sou Otun Alagbá, o segundo líder. Portanto, a minha bisavó era sacerdotisa do culto dos Orixás e o meu avô é o sacerdote supremo do culto dos Eguns no Brasil – O Alapini. Observem os senhores que esta é uma tradição já de muitos séculos, desde os nossos ancestrais africanos, fundadores de Ketu. Tradição que se manteve e se expandiu com Marcelina da Silva, Mãe Senhora e Mestre Didi, Alapini. Ao herdar este legado, o dever de mantê-lo e cultivá-lo ultrapassa o simples sentimento religioso, da forma como este sentimento é entendido e vivenciado no mundo Ocidental. Existe mesmo um sentimento de pertença que se manifesta e nos conecta diretamente aos nossos ancestrais, uma sensação de continuidade da família Asipá, capaz de vencer as distâncias do Oceano Atlântico. A palavra que cantamos aqui, em nosso culto, é a mesma palavra que cantam os Asipá de Ketu, lá na África. Ecoa por lá o mesmo toque dos atabaques que batem por aqui. Isso só foi possível por conta do compromisso, passado de geração a geração, em manter a nossa história, a nossa identidade, os nossos laços... enfim... em manter nossa tradição.
Um relato do meu avô, registrado no livro Agadá, do Professor Marco Aurélio Luz, aqui presente, é bem significativo quanto a esta continuidade. O que vou ler agora, remonta à viagem do Mestre Didi à Ketu, quando esteve em presença do Alaketu e teve a oportunidade de recitar o oriki de nossa família. O meu avô conta:
Quando terminei, só vimos o Rei de repente exclamar: Ah! Axipá, e, levantando- se da cadeira onde estava sentado, apontou para um lado do palácio, dizendo: a sua família mora ali!
Mestre Didi Axipá visita  Ojubó o assentamento de Oxossi da família Axipá em Ketu
Todos nós ficamos parados, era uma coisa inacreditável. Em seguida, o Rei chamou uma pessoa das mais velhas, a Iya Naná, e nos mandou levar à casa dos Axipá.
Quando chegamos ao lugar, descobrimos que era todo um bairro, em vez de uma casa. Fomos levados à casa principal. Por ser um dia de semana, a maior parte dos homens estava trabalhando na roça da família denominada “Kosiku” – não há morte.
Mesmo assim, fui apresentado a todos os que estavam presentes, e, quando recitei o Orilé, foi uma alegria geral, todos a baterem palmas, vieram apertar minhas mãos, queriam entabular conversações comigo, e eu estava tão emocionado que cheguei a ficar fora de mim, não entendia e nem sabia de nada. Só via alegria no semblante de todos que se acercavam para me cumprimentar.
Percebem, neste relato, a continuidade que mencionei há pouco? Então, o compromisso que tenho com o culto de Baba Egun e também com o de Orixá nasce, obviamente do sentimento religioso, de uma fé profunda, mas também desta herança que recebi de meus pais, que, por sua vez, receberam-na de seus pais e assim por diante.
O compromisso de manter a tradição é, também, o compromisso de manter nossa identidade, nossos laços que atravessam séculos inteiros.
Tenho, desde o início desta nossa conversa, falado no culto dos Eguns. Mas, o que significam, o que são exatamente os Eguns? Bom, em resumo os Eguns são ilustres ancestrais: fundadores ou líderes comunitários da tradição yorubá, com vínculos familiares ou afinidades religiosas com as famílias fundadoras ou pertencentes àquela comunidade-terreiro específica.
Os Eguns ou Egungun são, assim, ancestrais guardiões de costumes, tradições e valores herdados, respeitados e temidos, que zelam pela comunidade, por sua ética e seu bem estar neste mundo.
É neste contexto que se renovam as alianças comunitárias, os vínculos de irmandade, os valores rígidos e estruturantes da hierarquia e respeito, a linguagem e os valores da tradição.
Os títulos nos terreiros de Egun ou Orixá são definidos através do jogo de búzios. No de Egun, é o Alapini quem faz a consulta e, no terreiro de Orixá, o jogo cabe a um Oluô Agbá, que significa “um iniciado velho”. Surge, então uma outra questão interessante: mas, qual a diferença entre Egun e Orixá? Para esclarecer esta dúvida, vou ler agora um texto escrito por meu avô, Mestre Didi, Alapini, há alguns anos:
“Anos após anos, séculos após séculos, a liturgia Nagô nos faz ver e escutar que os nossos antepassados apreciaram, amaram e passaram a cultuar entidades especiais, que recebemos como herança e que até hoje nós adoramos e invocamos como Egun.
Principalmente o Egun Siwajú, aquele grande ancestral que vai na frente do rebanho,para mostrar o caminho, prevenir o perigo, defender contra o mal e estimular a caminhada.
 culto de Egun veio com nossos mais velhos desde a terra Yorubá-Nigéria na África Ocidental.
A diversidade de suas formas visuais, que variam muito de um lugar a outro, até mesmo de uma comunidade a outra, não difere de como são invocados e cultuados no Brasil, especificamente em Salvador – Bahia.
O resultado das comparações indica, ao mesmo tempo, diversidade de formas e muita similaridade em seus significados.
A dificuldade em distinguir as similaridades reside na variedade das formas e na diversidade linguística.
Em alguns lugares, o Egun encarna o espírito dos antepassados e, em outros, algo especial, uma forma que representa um determinado falecido, devendo ser zelado e adorado. O mais importante é que todos são poderes ancestrais que atuam na comunidade.
A maior parte dos pesquisadores, inclusive alguns membros dos terreiros, tem dificuldade em saber qual a relação entre Egun e Orixá.
A relação que há entre Egun e Orixá é que todas as pessoas que se tornam um Egun, antes do falecimento, pertenceram, durante toda a sua vida, a um Orixá-Eledá, a força da natureza que o criou.
Os Orixá estão associados à origem da criação, à sua própria formação, à uma força de realização e emanação diretas de Olorun. Já os ancestrais e os Egun são espíritos associados à história dos seres humanos, famílias e linhagens. Os Orixá estão especialmente associados à estrutura da natureza, do cosmo, e os ancestrais Egun à estrutura da sociedade.
A separação das duas categorias são muito bem definidas: de um lado os Orixá –a força ou entidade divina –, e do outro os ancestrais, espíritos de seres humanos.
Para os nagô, os Orixá não são Egun e nem Egun é Orixá. São dois cultos completamente diferentes, com duas práticas litúrgicas bem diferenciadas, com dois tipos de organização e iniciação dos sacerdócios completamente diferentes”.
É importante ressaltar – e isso eu quero deixar bem claro – que as diferenças entre os cultos de Egun e Orixá não significam, de forma alguma, que um seja melhor, mais correto ou mais tradicional que outro. Muito pelo contrário, estas duas tradições são, em verdade, faces de uma mesma tradição – o universo religioso nagô. Esta complementaridade pode ser notada facilmente uma vez que não deixamos, nem poderíamos deixar, de cultuar os Orixás no Ilê Axipá, que é, por definição, um terreiro de Egun. Se é verdade que não seguimos um calendário específico de festas para cada Orixá, posto que temos o nosso próprio, destinado ao culto Egungun, é igualmente verdade que, em dezembro, celebramos todos os Orixás na festa em homenagem a Xangô, patrono da casa. Ou seja, os Orixás não deixam de permear o nosso dia a dia.
Para finalizar esta nossa conversa, quero avançar brevemente noutra direção. Até aqui olhamos basicamente para o passado, para nossas origens, para como o Ilê Axipá se constituiu como uma continuidade dos valores tradicionais nagô. Olhemos, agora, um pouco para o nosso presente, um pouco para o nosso futuro.
Com 30 anos de fundação, o Ilê Axipá sentiu a necessidade de, sem descuidar do passado, olhar para o presente e se preparar para o futuro.
É forçoso reconhecer que os tempos de hoje já não são aqueles em que nossos antepassados viveram. Embora tenhamos, dentro do Ilê, a obrigação de zelar pelas tradições tais como nos foram passadas ao longo dos anos, sem que se processem quaisquer modificações sobre elas, o mundo que estende do lado de fora de nossa casa e
que nos engloba se modificou. A questão que se coloca para a gente é simples e, ao mesmo tempo, complexa: Adaptar-se às exigências do mundo externo, sem descuidar ou modificar os princípios básicos do nosso mundo interno. Ou seja, estreitar relações “modernas”, no sentido de nos apropriarmos das novas possibilidades de comunicação organização, com a sociedade em geral, ao mesmo tempo em que, mantemos entre nós, e filhos da casa, as relações tradicionais que são estruturantes de nosso culto, do nosso dia a dia.
Aqui cabe um desabafo. Quem nunca foi a um terreiro na vida, ou mesmo aquela pessoa que já foi, gosta e frequenta, quando pode, as festas, mas não participa do dia a dia da casa, talvez não imagine o quão penosa, em termos materiais e financeiros, é a sua manutenção. Enfrentamos, cotidianamente, diversos problemas e, entre eles, como em qualquer outra casa de nosso país, manter as terríveis contas em dia. Água, luz, caseiro; alguns reparos aqui, outros consertos ali, materiais vários, as festas... enfim... Tudo isso demanda dinheiro que, como todos sabemos, infelizmente não brota assim tão fácil. É verdade que sempre conseguimos reverter nossas dificuldades, no entanto, ficávamos invariavelmente no limite.
É importante frisar que este tipo de problema, bem como outros, dos quais eu não quero aqui falar, não é exclusividade do Ilê Axipá. Muito pelo contrário, fazem parte do cotidiano de grande parte dos terreiros deste país – muitos, inclusive, são obrigados a fechar as portas por causa da impossibilidade de arcar com as exigências do mundo moderno.
Este não é o nosso caso, nem chegou perto de ser. Contudo, é a realidade de muitas casas em Salvador e região, que são literalmente estranguladas pela especulação imobiliária, pelo descaso de determinados setores do poder público e da sociedade em geral.
Foi, portanto, justamente na tentativa de guardar em passado, de manter a continuidade ininterrupta da tradição, que o Ilê Axipá se tornou, até onde consegui pesquisar, o primeiro terreiro de candomblé do mundo a elaborar um plano estratégico, ou seja, a planejar estruturar-se em sintonia com as demandas do contexto em que se insere para alcançar metas previamente traçadas. Contamos, para isso, com o valoroso apoio dos amigos Fábio Rocha, Érika Lins, Ramon e Ynaia, para os quais, deixo aqui e publicamente, um agradecimento em nome de todo o Ilê Axipá.
Passo agora a informar aos senhores alguns dos resultados desta dinâmica, que ainda está em processo de implantação.

Encontro para discutir o plano estratégico do Ilê Axipá

Nossa meta ou, visão 2020 como é chamada dentro do planejamento estratégico, é fazer do Ilê Axipá uma referência internacional em ações de cunho religioso, social e cultural, preservando os segredos da tradição nagô Egungun. A preocupação com a preservação do segredo e da tradição está marcada também na “missão” de nosso terreiro, que definimos da seguinte forma: “Preservar a tradição religiosa do culto nagô Egungun, conforme os nossos antepassados, construindo conhecimentos com o povo de axé e a sociedade em geral, através de ações religiosas, sociais, culturais, e educacionais”. Portanto, este diálogo com o mundo externo que estamos propondo não acarretará em mudança ou quebra de tradição, pelo contrário, tende a reforçá-la e expandi-la ainda mais. Note-se que, o fato de estarmos aqui, hoje, nesta conversa com vocês já é, talvez, um primeiro passo na direção que planejamos tomar.
Para atingirmos as metas traçadas, estabelecemos outras – estas devem ser alcançadas num período mais curto, cerca de três anos.

São elas:

1 – Reelaborar um novo modelo de sustentabilidade do terreiro;

2 – Consolidar a regularização jurídica e administrativa do terreiro com foco em

sua segurança;

3 – Fomentar as manifestações culturais, artísticas e religiosas do terreiro Ilê

Axipá;

4 – Fomentar as relações entre o terreiro Ilê Axipá, o Estado e a comunidade

externa;

5 – Conceber e implementar um sistema de comunicação do terreiro com as

partes interessadas;

6 – Conceber e implementar o Parque Cultural Opa Exin.

Importante ressaltar aqui a participação de todos os filhos casa, oloyês ou não, nas discussões que resultaram no planejamento geral acima traçado, de modo que estamos diante de um trabalho do Ilê Axipá como um todo.
Por último gostaria de enfatizar algo realmente interessante e bastante significativo para mim e, acredito, para todos aqueles que se sentem ligados ao Axipá.
Nessas mesmas reuniões, verbalizamos o que seriam os nossos valores e princípios – norteadores de nossas ações na busca das metas já citadas. Entre os primeiros, elencamos: “ancestralidade religiosa”, “alegria”, “Axé”, “retidão”, “acolhimento”, “multicultura” e “modo de organização social africano”. Já entre os princípios, temos: “respeitar as tradições estabelecidas no terreiro, conforme ensinado pelos antepassados”, “respeitar a hierarquia do terreiro, reconhecendo no cargo valor incontestável”, “ter a disciplina necessária para manter o compromisso da fé”, “entender a ancianidade como valor hierárquico e imprescindível para a transmissão do conhecimento ancestral”, “fortalecer os laços de família da comunidade”, “zelar pelo respeito às diferenças”, “coexistir e conviver com outras culturas de maneira respeitosa e igualitária” e “manter viva a dinâmica da comunidade nagô”.










Mestre Didi Axipa Alapini, fundou a Troça Carnavalesca Pae Buroko em 1935. Agora  durante a oficina de planejamento estratégico como ilustração do que é o Egbe, a comunidade se fez uma apresentação de trecho  do enredo do afoxé Pai Burokô:  “ a troça do babalaô”. A comunidade se diverte reina a alegria.

 O que me comoveu foi notar que, sem que tivéssemos percebido, repetimos quase que integralmente um comunicado antigo do Alapini, em papel já todo amarelo e quebradiço, intitulado “as obrigações dos participantes do terreiro” que, entre outras coisas, pontua:
1 – Preservar o culto conforme foi deixado pelos ancestrais, sem nenhuma modificação;

2 – Respeitar e honrar os mais velhos, principalmente os que possuem títulos importantes dentro da comunidade;

3 – Ser leal e sincero para com a comunidade

4 – Socorrer e auxiliar qualquer pessoa que necessitar da sua ajuda moral e espiritual.

5 – Corresponder a suas obrigações de acordo ao título que lhe corresponde.

Esta coincidência prova duas coisas: a primeira, que nunca nos afastamos da conduta moral e ética nos ensinada por meu avô, Mestre Didi, Alapini, o que manteve salva a tradição. A segunda, que apesar de estarmos nos organizado dentro de uma mentalidade moderna, nunca nos afastaremos da conduta moral e ética nos ensinada por meu avô, Mestre Didi, Alapini – o que manterá, sempre, nossa tradição a salvo e em contínua expansão.
Encerro a minha fala novamente citando o meu avô, Mestre Didi, em alguns trechos do documento intitulado “consagração do lugar”:

“A minha presença, a sua e a de todos que aqui (Ilê Axipá) se encontram em qualquer ocasião, é uma só presença. É a presença do amor que envolve todos os seres num só sentimento de unidade e crescimento.
Não pode haver o mal entre nós. Todos nós somos um só. Quem quer que aqui (no Ilê Axipá) entre, vai sentir a força dos EGUN e dos ORISÁ e a necessidade de ter fé em si próprio e de saber como proceder para dar a sua contribuição afim de poder captar e ajudar na preservação do Ase Asipa, forças que, independente do seu lugar de origem, aqui estão armazenadas e daqui irradiam para todos os seres, constituindo esse lugar num centro de emissão e recepção de tudo que é bom, útil, alegre e próspero para todos os seus seguidores e admiradores”.

Muito Obrigado a todos.


Mestre Didi Axipá presidindo o Encontro da Tradição Religiosa Afrobrasileiro em 1986 na ocasião da criação do INTECAB-Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afrobrasileira

sábado, 10 de dezembro de 2011

BIBLIOTECA VIVA EM ITAPUÃ

CONVITE

Esse patrimônio magniífico do Abaeté deverá ser  a inspiração para as atividades desenvolvidas através da Biblioteca Viva em Itapuã.


A Associação Crianças Raízes do Abaeté estará inaugurando no dia 14/12(quarta feira) às 09hs, a “Biblioteca Viva em Itapuã” um espaço importante que se implanta no bairro de Itapuã.
 A biblioteca é uma das conquistas da ACRA em 2011,após ter alcançado êxito no Prêmio Ponto de Leitura do Mais Cultura iniciativa do Ministério da Cultura através da Fundação Biblioteca Nacional,Secretaria da Cultura através da Fundação Pedro Calmon,Secretaria Municipal de Educação e Fundação Cultural Gregório de Matos.
Os objetivos da Biblioteca Viva em Itapuã são: promover espaços criativos que fortaleçam a identidade cultural própria da população descendente dos povos tupinambá e africano, aproximando-a de aspectos que contam a história de Itapuã, tudo isso através de linguagens lúdica sustentadas pela leitura.
A equipe de educadores/as da ACRA organizou a biblioteca disponibilizando diversos gêneros literários para jovens crianças e adultos. As atividades que planejadas para a tender a demanda da biblioteca envolve cursos, rodas de leitura e oficinas temáticas, visitas monitoradas a instituições culturais e exibição de filmes, exposições, etc.
Todos/as estão convidados/as para compartilhar conosco a “Biblioteca Viva em Itapuã”!



AGENDE:

INAUGURAÇÃO DA BIBLIOTECA VIVA EM ITAPUÃ

DIA 14/12 (QUARTA-FEIRA) às 09:00 h

LOCAL: ASSOCIAÇÃO CRIANÇAS RAÍZES DO ABAETÉ

PARQUE METROPOLITANO DO ABAETÉ (EM FRENTE À LAGOA DO ABAETÉ)

CONTAMOS COM A SUA VALIOSA PRESENÇA

IIIº FESTIVAL AFROBRASILEIRO DE ARTE E EDUCAÇÃO DA ACRA

 Esse logo é criação do escultor Marco Aurélio Luz assíduo colaborador e incentivador da ACRA

CONVITE

A ACRA tem o prazer de convidar todos/as os/as amigos/as,incentivadores/as e admiradores/as das nossas iniciativas,para uma tarde muito especial compartilhando as emoções do IIIº Festival Afrobrasileiro de Arte e Educação da ACRA.
Será no dia 16/12/2011(sexta-feira) às15:00hs.

PROGRAMAÇÃO

14:00HS

ABERTURA

Professor Narciso José do Patrocínio Diretor Presidente da ACRA e Equipe de educadores/as

EXPOSIÇÃO “CONTANDO,CANTANDO E GINGANDO ATRAVÉS DA NOSSA HISTÓRIA”


Fotos e vídeos do Contra Mestre Luís Negão
Trata-se do acervo de fotos e vídeos (2005 a 2011) que contam um pouco da história da Associação Crianças Raízes do Abaeté, e o intercâmbio internacional que cultivamos ao longo do tempo com adolescentes de jovens da cidade de Oxford na Inglaterra e em Hamburg na África do Sul.Essa imagens emocionam pelos depoimentos de amigos/as muito queridos/as que colaboraram com entusiasmo para consolidar a instituição.

EXPOSIÇÃO “DANDO ASAS A IMAGINAÇÃO”


Um conjunto de desenhos de Talles Brandão compõe a exposição.São  desenhos com traços coloridos e criativos que dão asas a imaginação desse adolescente que integra a ACRA.

15:30HS

"HISTÓRIA DE ITAPUÃ"



À esquerda  de saia com estampas de fundo verde Evelin Dias integrante do Grupo Ganhadeiras de Itapuã

Música e letra de Reginaldo Sousa

Intérprete Evelin Dias adolescente que participa do grupo de teatro da ACRA
A história de Itapuã e suas reminiscências, serão apresentadas através da poesia que revitaliza cenários muito especiais adornados pelas dunas,lagoas,nascente de rios,mar,pedras,puxada de rede,ganhadeiras,lavadeiras...
Através da voz e interpretação de uma adolescente neta de ganhadeira de Itapuã, o público terá a chance de saber um pouco do cotidiano que organizava a vida no bairro.

RODA DE CAPOEIRA E MACULÊLÊ



 Grupo de crianças e adolescentes sob a coordenação do professor Valmir Alves dos Santos- Rupi

16:00 hs

APRESENTAÇÃO DO AUTOCOREOGRÁFICO “O CASAMENTO DA FILHA DO CORONÉ ANTÔNIO BENTO”



Tela DE ANTÔNIO POTEIRO (1925)

Finalmente as crianças e adolescentes da ACRA irão apresentar o autocoreográfico , baseado na história contada e cantada na música“Coroné Antônio Bento”,de autoria de João do Vale e Luiz Wanderley,interpretada pela voz magnífica de Tim Maia.
O texto elaborado de autoria das professoras e Januária Patrocínio e Narcimária Luz inspirado na música de João do Vale e Luiz Wanderley,entrelaça narrativas nordestinas que embalam também as obras de Luiz Gonzaga e Zé Dantas a exemplo do "Xote das Meninas" e "Cintura Fina".
Dessa aproximação, foram nascendo inquietações sobre o significado e origem do baião,xote,forró,biografias e obras dos compositores e intérpretes das músicas que compõem o auto, e que tendem a caracterizar a sociabilidade de muitas comunidades no nordeste.
Texto:Narcimária Luz e Januária PatrocínioAlguns momentos que marcaram os ensaios do autocoreográfico  durante o ano de 2011.

Direção:Narcimária Luz,Januária Patrocínio,Jackeline Divino,Sidney Argolo,Magno Santos
Cenário: crianças e adolescentes da ACRA sob a coordenação do Professor Tárcio Vasconcelos e Maristela Sena Suarez
Elenco:
Andressa – Narradora
Carol – Narradora
Claúdio - Narrador
Evelin Dias-Juliana Bento(a Noiva)
Gustavo - Narrador
Jackson –Agnaldo Siri( o Delegado)
Felipe – Zé Macaxeira (o Noivo)
Joice – D. Dangolina(mãe da noiva)
Ludmila – Médica de confiança do Coroné Antônio Bento
Marcelo Luz-Coroné Antônio Bento(pai da noiva)
Ana Paula Patrocínio-narradora
Samuel – Pianista Bené Funkeiro
Vitória - Narradora
Um dos momentos dos ensaios durante o ano no embalo do Xote das Meninas


18:00


LANCHE

CONTAMOS COM A SUA VALIOSA PRESENÇA


CONVITE IIIº FESTIVAL AFROBRASILEIRO DE ARTE E EDUCAÇÃO DA ACRA

CANTANDO E DANÇANDO AS HISTÓRIAS DE ITAPUÃ

VALORIZAÇÃO DA CULTURA NEGRA NUMA PERSPECTIVA DE RESGATE DA IDENTIDADE DAS CRIANÇAS E ADOLESCENTE NO ÂMBITO DA ACRA/PARTE FINAL

Sara Soares dos Reis


ACRA visita ao Teatro Vila Velha para assistir "AFRICAS" .As crianças com o Bando de Teatro Olodum

A ACRA por entender que Itapuã, Salvador/Brasil um contexto profundamente marcado pela diversidade cultural procura oferecer cursos que resgatem com ações constantes os aspectos culturais e a herança africana e aborígine. Desta forma, a vivência neste projeto ACRA possibilitaram a aproximação desta territorialidade, consequentemente sentido a força do legado milenar africano, aspecto que aguçou ainda mais a vontade de realizar pesquisa com essa temática no âmbito deste instituição.
A ACRA- - Associação Crianças Raízes do Abaeté é uma instituição não governamental que atende crianças e jovens do bairro de Itapuã no Abaeté com o objetivo de incentivar a afirmação de alteridade civilizatória. Os alunos que compõe este projeto possuem descendência indígenas e africanas e por pertencer a essas civilizações milenares e viver em um lugar submersos aos valores capitalista possuem uma vivência que desvaloriza o patrimônio cultural e natural desta localidade.
Percebemos o recalque alteridade própria durante as atividades desenvolvidas neste projeto notasse o sofrimento silencioso e a rejeição das crianças e jovens negras por sua descendência africana. Esta constatação triste é resultado de práticas educativas extremamente preconceituosa adotada nas escolas onde há recusa as linguagens da maioria dos sujeitos que a frequentam.
Portanto o desafio se caracteriza em promover um cenário que estabeleça linguagens sócio educativas que garantam a essas crianças e adolescente condições primordiais para exerceram o direito a alteridade e criarem uma postura crítica e reflexiva sobre sua ancestralidade e sobre si.

Orquestra de Ritmos e Sons sob a orientação do professor Sidney Argolo

O desconhecimento sobre o legado cultural africano é um dos entraves para que crianças e jovens da ACRA tenham orgulho dos seus antepassados. Com isso, faz necessário desconstruir um cenário perverso de recalque, para que os mesmos conheçam reflitam sobre sua história e afirmem seus valores ancestrais.
Por isso esse trabalho tem como objetivo principal compreender os aspectos sócio histórico que recalcam a alteridade civilizatória, para que Identifiquemos linguagens socioeducativas que valorize a cultura negra no âmbito do ACRA, para o fortalecimento e resgate da identidade das crianças e adolescente. Para depois promovermos ações socioeducativas que expressem os valores afro-brasileiro. Estabelecendo proposições teórico metodológicas que sustentem o desenvolvimento da pesquisa.
A pesquisa foi desenvolvida na ACRA- Associação Crianças Raízes do Abaeté, situada no Parque Metropolitano do Abaeté. Instituição que promove ações socioeducativas, e atende 120 crianças, adolescente e jovens com idades entre 07 á 17 anos, todas moradoras do bairro, e que cursam o Ensino Fundamental e o Ensino Médio em escolas públicas da localidade.

Grafite sob a orientação do Professor Tárcio vasconcelos
Para dar conta das questões proposta deste projeto foi utilizada a pesquisa etnográfica de natureza qualitativa. Foi escolhida esta metodologia por se tratar de um estudo que procura entender significados culturais do contexto em que são inseridos. Foi escolhida a técnica da observação participante pela necessidade de integração local, compreensão do espaço externo de uma forma ampla, desta forma possibilitando ricas vivências de forma a perceber a dinâmica real do local. Para retratar a realidade de forma mais profunda também foram utilizados técnicas como aplicação de questionário, entrevista não diretiva, pesquisa iconográfica, pesquisa bibliográfica aliceçadas nos autores Narcimária Correia do Patrocínio Luz, Marco Aurélio Luz, Ana Celia Silvia.
A monografia está organizada em quatro capítulos: o primeiro retrata a o processo sócio histórico do recalque neocolonial contra a alteridade civilizatória africana. Trazendo a Escola Normal como um dos principais mecanismos que fincaram e perpetuaram a cultura eurocêntrica em face aos valores da população africano- brasileiro. A resistência negra quilombola como marco de luta contra um cenário de submissão deixando gerações sucessoras que atualmente conseguiram vitórias significativas no âmbito educacional são questões que também foram abordadas neste capítulo.
Esse capitulo também busca retratar da nova lei 10/10.639 que obriga a introdução do ensino de História e Cultura Afro-brasileira no currículo escolar, na tentativa de romper paradigmas do preconceito e descriminação nas escolas, consequentemente na sociedade.
O segundo capitulo traz A ACRA –Associação Crianças Raízes do Abaeté como uma instituição que acolhe perspectivas de linguagens baseado na pluralidade cultural. Também destaca sua parceria com o projeto Dayó/PRODESE que primam iniciativas sociopolíticas que assegurem ás populações o direito á existência plena e a alteridade. Abordando a ligação profunda que a instituição possui com os princípios inaugurais de Itapuã. E devido ao comprometimento deste projeto não podíamos deixar de relatar suas premiações.
O terceiro capitulo retrata inicialmente a metodologia abordada descrevendo o contexto cultural do local estudado, envolvendo a escolha do local, população envolvida e a duração da pesquisa. Tendo seus dados coletados através de técnicas pertinentes á análise de documentos, observação participante, aplicação de questionário, entrevista semi estruturada e outros. Alem de destacar os critérios utilizados nas seleções das oficinas.
E o quarto capítulo relata as experiências e construções durante as realizações das oficinas na ACRA. Apresentando as dúvidas, questionamento e relatos das crianças e adolescentes no desenvolvimento dos trabalhos e as nossas impressões adquiridas ao longo do processo. E por ultimo, encerro minha monografia trazendo novas perspectiva em educação que possibilitam novas didáticas pedagogias promovendo um novo cenário lúdico estético para que crianças jovens e adolescente tenham o direito a existência plena.
Como educadores comprometidos com uma educação que contemple a pluralidade cultural. Pretendemos provocar ao leitor/ar uma reflexão sobre as ações didáticas com referenciais pertencentes ao seu legado ancestral, contribuindo para constituição do direito a alteridade própria, na construção de uma imagem positiva de si mesmo, valorizando a auto estima de uma população infanto-juvenil herdeira de um expressivo patrimônio cultural.

Grupo de Teatro da ACRA