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PRODESE E ACRA



VIDA QUE SEGUE...Uma
das principais bases de inspiração do PRODESE foi a Associação Crianças Raízes
do Abaeté-Acra,espaço institucional onde concebemos composições de linguagens
lúdicas e estéticas criadas para manter seu cotidiano.A Acra foi uma iniciativa
institucional criada no bairro de Itapuã no município de Salvador na Bahia, e
referência nacional como “ponto de cultura” reconhecido pelo Ministério da
Cultura. Essa Associação durante oito anos,proporcionou a crianças e jovens
descendentes de africanos e africanas,espaços socioeducativos que legitimassem
o patrimônio civilizatório dos seus antepassados.
A Acra em parceria com o Prodese
fomentou várias iniciativas institucionais,a exemplo de publicações,eventos
nacionais e internacionais,participações exitosas em
editais,concursos,oficinas,festivais,etc vinculadas a presença africana em
Itapuã e sua expansão através das formas de sociabilidade criadas pelos
pescadores,lavadeiras e ganhadeiras,que mantiveram a riqueza do patrimônio
africano e seu contínuo na Bahia e Brasil.É através desses vínculos de
comunalidade africana, que a ACRA desenvolveu suas atividades abrindo
perspectivas de valores e linguagens para que as , crianças tenham orgulho de
ser e pertencer as suas comunalidades.
Gostaríamos de registrar o nosso
agradecimento profundo a Associação Crianças Raízes do Abaeté(Acra),na pessoa
do seu Diretor Presidente professor Narciso José do Patrocínio e toda a sua
equipe de educadores, pela oportunidade de vivenciarmos uma duradoura e valiosa
parceria durante o período de 2005 a 2012,culminando com premiações de destaque
nacional e a composição de várias iniciativas de linguagens, que influenciaram
sobremaneira a alegria de viver e ser, de crianças e jovens do bairro de
Itapuã em Salvador na Bahia,Brasil.


sábado, 8 de dezembro de 2012

“O SEGREDO DA MACUMBA”:40 ANOS DA PUBLICAÇÃO/O RETORNO DO REPRIMIDO PARTE 5


O SENHOR DOS CAMINHOS
Por Marco Aurélio Luz

Embora Exu seja um orixá da cosmogonia nagô, com o poder de proporcionar o movimento, ação, de gerir a comunicação e a circulação, o poder de abrir e fechar os caminhos, Exú L'Onan, o Senhor dos Caminhos, os caminhos do destino, os caminhos da circulação do corpo Exú Bara, O Rei do Corpo, na Umbanda ele possui algumas funções similares. "Seu Tranca Rua" que é o dono da gira" e proporciona todo poder da ação ritual. Há também empréstimos de uma relação com os candomblés Congo e Angola que cultuam Bombo Njila, Aluvaiá e outros nomes que circulam pela Umbanda. Todavia o panteão de entidades e a liturgia é distinta e cada qual possui seu próprio sistema ritual.
Na Umbanda do morro a gira de Exu começa por volta de meia noite após encerradas as de Caboclo e Preto Velho. Uma cortina cerra o altar e então começam as cantigas de Kimbanda invocando a presença de vários Exus e também uma versão feminina a Pomba Gira. A presença dos fiéis é muito concorrida.

Na Kimbanda ele mantém seu princípio fundamental Senhor do Movimento:

"Ele pisa num tôco

Ele pisa num galho

Exu balança

Exu não cái

Oh Ganga

É Exu ele pisa num tôco num galho só"

Durante a colonização os padres católicos procuraram projetar aspectos de suas teologias no significado de Exu comparando-o ou afirmando ser o diabo, o mal a ser combatido. Estratégicamente essa associação tem a intenção de combater a outra religião, isto é, o catolicismo visa a atacar exatamente o orixá que garante a existência e a dinâmica do sistema ritual nagô; pois sem movimento nada existe.
No Brasil, no culto nagô, embora se evite a manifestação de Exu, ele é fundamental para a realização da liturgia, dos rituais de culto aos ancestrais e aos orixá.
Na Umbanda Exú , embora tenha aqui e ali imagens que adotam a aparência do diabo e da diaba desdobrada do imaginário católico, na verdade durante o ritual nada tem a haver com o original significado delas projetadas do catolicismo. Aqui o Exu é uma das giras mais concorridas, ele se manifesta e é cultuado com muita fé para que os caminhos sejam abertos. O Senhor dos Caminhos, Exu Tranca Rua. Nessas imagens aparece um tridente, três pontas na forma de setas, indicando deslocadamente a encruzilhada de três pernas, orita, três caminhos sob o poder de Exu, quem abre ou fecha.

"O sino da igrejinha faz belem blem blão

Seu Tranca Rua que é dono da gira

Dono da gira que Ogum mandou"

A simbologia católica também aparece nas cantigas mas na verdade para reforçar o significado de Exu. Bem e mal são apenas referências circunstânciais de fechar ou abrir os caminhos de permitir a circulação da existência, dos destinos:

“Exu que tem duas cabêças

Oh ele olha sua banda com fé

Oh uma é Satanás do inferno

A outra é de Jesus Nazaré”

Por fim convém destacar a diferença de valores entre a tradição cultural africana e a europeia .
Na Europa a virgindade e a castidade são valores simbólicos valorizados e regem a moral das famílias monogâmicas. Garantia dos direitos de sucessão e herança dos bens econômicos a sociedade como um todo se constitui pelo valor de acumulação de capital.
Na africana ter muitos filhos e poder cria-los é um valor, pois assim os ancestrais serão melhor lembrados e cultuados garantindo a continuidade da tradição. Os valores estabelecem as regras das famílias poligâmicas. A sociedade se constitui pelo valor de expansão de gente.
Rituais de fecundidade e fertilidade também fazem parte das culturas da tradição.
Exu é orixá patrono da relação sexual. Promove as concepções e as gestações, e também os nascimentos. Todavia é também quem promove a viagem de retorno, a restituição, a morte, porquanto é o patrono do movimento e promove a ação dos princípios regidos pelos orixá.
Então vários símbolos fálicos aparecem nas simbologias de Exu como o ogó, o ado niran, na tradição nagô e a faca obé que separa Exu Obé.
Na Umbanda/Kimbanda além do tridente, as garrafas de marafo, etc. Tem o Exu sete facadas e o Exu Caveira.
Aliás muito me impressionava a presença desse Exu no terreiro de D. Maria bem como o do Exu Mangueira no terreiro de seu Alcides na Rocinha capaz de esvaziar várias garrafas de marafo.
Aproveito também para registrar, numa noite de lua, próximo a casa de Chico Alencar, então muito jovem, no Conjunto Habitacional dos Trapicheiros no morro, numa roda de samba, já na alta madrugada a chegada da entidade Zé Pilintra, espírito da Kimbanda que nos remete ao fundo da alma de parcela do povo do Rio de Janeiro e outras paragens.
   
 
Muniz Sodré comenta na revista Visão 1973





“O SEGREDO DA MACUMBA”:40 ANOS DA PUBLICAÇÃO/O RETORNO DO REPRIMIDO PARTE 6

SÓCIO-PSICANÁLISE
A PRESENÇA DO PALMARES
Por Marco Aurélio Luz

Há pelo Brasil alguns autos dramáticos que se referem a luta dos africanos e seus descendentes contra a escravidão e pela liberdade.
Na Bahia é bastante conhecido o auto do “Nego Fugido” que acontece no Recôncavo:



Apresentação em Salvador do auto do “Nego Fugido”

Imagem disponível em http://dancasdobrasil.blogspot.com.br/2010_10_01_archive.html



Auto do “Nego Fugido”, Recôncavo Ba.




Preto Velho no alto, Caboclos em baixo apontando flexa, altar de terreiro de Umbanda,região de Ribeirão Preto, SP.
Foto M. A. Luz

Um altar num terreiro de Umbanda em Santa Rosa de Viterbo na região de Ribeirão Preto no interior de S. Paulo acendeu-me a idéia de compará-lo com um relato de Arthur Ramos no livro "O Folklore Negro do Brasil" referente a uma comemoração nas imediações da Serra da Barriga onde existiu o Quilombo dos Palmares.
Dizia ele: “No brinquedo dos quilombos a que eu assisti, em pequeno na cidade do Pilar (Alagoas) havia a cena inicial das danças dos negros, com muitos cânticos, de que guardei os seguintes:

"Folga nêgo

Branco não vem cá

Se vié o diabo há de leva

Folga nêgo

Branco não vem cá

Se vié

Pau há de leva

Folga parente

Cabôco não é gente”

Convém lembrar que o paulista bandeirante Domingos Jorge Velho contratado pela Coroa Portuguesa para combater o Palmares numa derradeira batalha, conforme Edison Carneiro:“Em épocas diferentes, computava os seus homens, ora em 800 indios e 150 brancos”... Com essas referências aproximei a macumba, um culto aos ancestrais, incluindo também a saga do Palmares e a simbologia dos chefes maiores Ganga Zumba e Zumbi.
Mas essa é uma referência de certa forma censurada, sublimada e deformada no imaginário, e Zumbi é então tido como uma entidade que “vagueia altas horas da noite. Tornou-se uma entidade indeterminada, sem forma e sem culto, identificando-se com a multidão das almas penadas, fantasmas, espíritos errantes”...
E adiante, “a Umbanda se assemelha a um sonho isto é a linguagem mais característica do inconsciente. Um sistema de mitos, símbolos e representações imaginárias que é na verdade a linguagem de uma formação social.”
Como culto aos ancestrais a Umbanda ritualiza em sua liturgia a ancestralidade africana no Brasil, caracterizada por desafios e lutas, mas também pela confraternização comunitária, e pela expressão estética sedutora, encantadora de alegria e beleza.
Convém aqui entretanto sublinhar, que as giras de Caboclo na Umbanda, creio eu, derivam ou têm uma analogia com os candomblés de Caboclo que realizam um culto aos ancestrais à maneira africana de enaltecer os fundadores de um território, os “donos da terra” no caso os primeiros habitantes do Brasil.


A PRESENÇA DO PALMARES:ESPIRITUALIDADE, ANCESTRALIDADE E HISTÓRIA.


Certa feita, mais recentemente Joel Rufino me disse a boca pequena que essa abordagem foi mais uma centelha que ajudou a acender, e concorrer para pouco mais adiante, favorecer o interesse do movimento negro em resgatar e reverenciar a memória de Zumbi e do Quilombo dos Palmares numa simbologia política de luta de afirmação. Possa ser... tanto mais que eu já tinha muitas amigas e amigos nesse processo, dentre as quais destaco as renomadas e admiradas professoras Lélia Gonzales e Beatriz Nascimento de saudosa memória. Convém observar que uma pequena bibliografia já existia com outras abordagens como o livro de Édison Carneiro, O Quilombo dos Palmares, o de João Felício dos Santos, Ganga Zumba, e ainda o enredo de 1960 da escola de samba Salgueiro campeã com o tema O Quilombo dos Palmares, e alguns ensaios do Movimento Negro a procura de uma data comemorativa da Consciência Negra como alternativa ao 13 de maio.
Convém registrar que no ano de 1.980 quando houve um ato político de retomada dos valores do Palmares pelo movimento negro na serra da Barriga, lá esteve Mãe Hilda Jitolu a Iyalorixá que sustenta as bases religiosas do bloco Ilê Aiyê e seus desdobramentos culturais. Mãe Hilda aceitou convite de Abdias do Nascimento para realizar os rituais necessários para manter em paz e em bom lugar no orun no além o espírito de Zumbi.



Mãe Hilda ladeada por Passarinho e Abdias Nascimento no caminho do Palmares




Depois desses acontecimentos o movimento negro consegue incluir a memória de Zumbi no panteão dos heróis nacionais, são feitas inúmeras homenagens, erguidos monumentos, e estabelecida uma data alusiva ao Palmares e feriado comemorativo ao Dia da Consciência Negra.

“O SEGREDO DA MACUMBA”:40 ANOS DA PUBLICAÇÃO/O RETORNO DO REPRIMIDO-PARTE 7

 “SINCRETISMO” MULTI FACETADO
Por Marco Aurélio Luz

Em geral um trabalho pioneiro está sujeito a alguns equívocos, tanto mais em se tratando de um retorno do reprimido, conceito que tomei emprestado da obra de Freud e que se refere a que nehuma repressão é completa, sempre haverá formas dos desejos de uma forma ou de outra encontrarem caminhos para ultrapassar a censura. Essa por sua vez tentará atuar da mesma forma.
Sabemos o quanto sofreu e ainda sofrem as tradições africano brasileiras para se afirmarem e se legitimarem em nossa terra. Daí que a associações simbólicas com santos católicos e teorias espíritas se apresentam como códigos que flutuam no retorno do reprimido.
Naquela época ainda não tinha a percepção das tradições religiosas nagô e também da forma como se processaram as associações simbólicas que geraram as percepções ideológicas do sincretismo. Na verdade uma africanização do catolicismo. A associação preserva a autonomia dos símbolos. De um lado o nagô com a constelação dos orixá mantendo incólume seu sistema litúrgico, e de outro a agiologia dos santos católicos associados nas datas comemorativas com festa de largo.
Por outro lado a censura e o recalque também tem suas sutilezas. Assim o que são associações simbólicas como estratégia de luta de manutenção da tradição dos orixás, é recuperado pela Umbanda do asfalto como condensação com o agiológico católico com fins de combater a umbanda de morro.
Então temos dois conceitos oriundos da psicanálise: associação e condensação operando mecanismos da luta simbólica.
Enfim as associações simbólicas tem como propósito manter a tradição africana e sua territorialização comunitária como um mecanismo de defesa frente a repressão europocêntrica da religião oficial. As associações são sempre no sentido de manter a simbologia da tradição e a manutenção dos significados originais.
Já a condensação tenta esvaziar conteúdos originais e promover uma síntese ou amálgama simbólico com a predominância do catolicismo ou melhor segundo alguns,”catolicismo popular” atribuindo ao “povo” “incapacidade para compreender a teologia apostólica romana”!


Altar do Templo Umbandista,
Foto Roberto Moura, Corisco filmes


Anos mais tarde, precisamente em 1994 fui convidado a participar do IV Congresso Afro Brasileiro promovido pela Fundação Joaquim Nabuco de Recife cujo tema foi Sincretismo Religioso.
Transcevo um trecho de minha comunicação a título de ilustração publicada nos anais do Congresso vol. 4 sendo Tânia Lima a organizadora:
A tendência da ideologia oficial à redução do processo civilizatório negro à cultura branca caminha pari passu com a política de branqueamento, ou seja a ideologia da absorção étnica, da cultura e da 'raça'negra pela branca".
Nada melhor para ilustrar essa situação,do que um debate ou entrevista da Iyalorixá, Escolástica Maria Conceição Nazaré,Mãe Menininha, concedida a Jorge Amado partidário da ideologia do embranquecimento ( mestiçagem e sincretismo).

J.A.- E todos os costumes que vieram da África estão continuando aqui e se misturaram também com os costumes portugueses, da mesma forma que aqueles africanos se misturavam aqui pelos casamentos com brancos.

M.M.- E aí começaram as filhas cabrochinhas...

J. A.- Aqui os santos se misturaram também: Xangô tornou-se S. Jerônimo e Ogum S. Antônio...

M.M.-Eu acho que isso foi feito para que a Igreja aceitasse. Porque não tem nada em comum.

J.A.- São duas coisas diferentes, mas as necessidades... o pessoal, os escravos não podiam adorar seus orixás...

M.M.- Santo Antônio- Ogum?! São Jerônimo Xangô?! Parece que eles aceitavam que fossem parecidos...

J.A.- Sempre procuravam nos santos coisas que os identificassem com os orixás...

M.M.- Eu sei perfeitamente que São Jerônimo não é Xangô, que Ogum não é Santo Antônio. Ogum na África é o maior guerreiro. Ele não perde guerra... Que seja Santo Antônio, temos que aceitar...

J.A.- Pois é...Houve costumes de africanos e costume de brancos que se misturaram”.

( Publicada por Pierre Verger no jornal A Tarde de 22/11/1981)


 Chaim Samuel Katz comenta no Jornal do Brasil 1973



“O SEGREDO DA MACUMBA”:40 ANOS DA PUBLICAÇÃO/O RETORNO DO REPRIMIDO-PARTE 8

CONTEXTO DA CONTRA CULTURA
Por Marco Aurélio Luz

          LIVING THEATER
No ano de 1971 aportou no Rio de Janeiro a companhia de teatro Living Teather. É um afamado e importante grupo de teatro experimental de vanguarda americano localizado em Nova York fundado em 1947. Seus diretores eram o casal Julien Beck e Judith Malina. Na ocasião integravam e navegavam na onda do movimento da contra cultura originado nos EUA, uma repercussão e reação à guerra fria e a guerra do Vietnam.
Nessa ocasião no Brasil procuravam reforçar suas experiências teatrais de vanguarda estabelecendo também uma estratégia de observação da linguagem da dramatização sagrada nos cultos afro-brasileiros, especificamente a Umbanda.
Foi então que foram me encontrar para que pudessem ter acesso aos terreiros. Com eles participava também o professor Georges Lapassade da Universidade de Paris VIII. Ele era um sociólogo dedicado a uma nova linha de trabalho a Análise Institucional.
Depois de visitarem diversos terreiros, inclusive do Sr. Alcides na Rocinha, cuja entidade Exu Mangueira muito impressionara os visitantes, se reuniram para uma reflexão conjunta e avaliação.
Foi então que Lapassade muito impressionado com o que assistira nos terreiros, indagado respondeu mais ou menos assim: - "comparado com o que vi nos rituais de Umbanda os recursos dramáticos do Living Teather são uma merda" .




Georges Lapassade

Depois dessa análise foi convidado a se retirar do grupo. Sem ter para onde ir encontrou abrigo em minha casa e por lá ficou alguns meses.
Nesse tempo me acompanhou nas idas aos terreiros e foi se inteirando dos meus estudos que comparavam os terreiros de morro com os templos do asfalto, trocando idéias sobre análise institucional. Fazia muitas anotações e retornou para Paris com a idéia fixa de voltar para o Brasil. Por outro lado me revelou através das teorias e de sua prática provocativa o significado e o valor da Análise Institucional que me permitiram descongelar, dar elásticidade e ultrapassar o conceito de aparelho ideológico de estado de Althusser.
Meus cursos na ECO UFRJ e no IACS UFF já refletiam esses estudos e conversando com o amigo e colega Muniz Sodré estabeleci a linha: Formas de Comunicação no Brasil: A Cultura afro-brasileira.
O amigo e colega Antonio Serra do IACS/UFF subiu muitas vezes o morro em minha companhia. Ele também acompanhou as andanças e as intervenções de análise institucional do professor Lapassade.
Roberto Moura então estudante de cinema se interessou a ponto de me acompanhar nos terreiros e baseado nos meus estudos concebeu um roteiro para um filme curta metragem documentário. Juntando seus amigos formou uma equipe da qual faziam parte Murilo Salles, Roberto Foster, Ismael Cordeiro, Sergio Santos, Valéria, Monica Secreto, José Paulo e eu próprio.
Quero porém registrar que por indicação da professora Lélia Gonzales fui dar aulas de filosofia num colégio particular na Praia de Botafogo. Não sei dizer como alguns alunos souberam das “pesquisas” e me pediram com insistência que queriam visitar o terreiro de Umbanda. Levei-os ao D. Marta. Maravilhados com a experiência espalharam pela turma, no final do ano fui demitido sem que nem prá que.
Num dos retornos de Lapassade lendo meus escritos ele achou que já cabia uma publicação e dizendo ter também os dele, sugeriu um livro em co- autoria. Acabei aceitando e apresentamos os originais ao poeta Moacir Felix editor da Paz e Terra.
Ele era muito admirado e respeitado e enfrentava as pressões da censura naquela época o que já estava inviabilizando a editora bem como a co-irmã a Civilização Brasileira. 


Depois de tomar conhecimento dos originais, Moacir propôs uma edição de 10.000 exemplares a ser distribuída nas bancas de jornal, o que daria um retorno rápido. Com Lapassade acordou o título O Segredo da Macumba capaz de atrair a atenção de possíveis leitores e não deixar de ser uma revelação pela abordagem original, tanto mais que nada existia sobre esse assunto na bibliografia da época.
O resultado desta combinação foi uma incrível repercussão nos meios jornalísticos e intelectuais e nos meios de comunicação de maneira geral.
Entre erros e acertos o livro marcou um momento e acendeu uma fagulha no ainda latente Movimento Negro principalmente em relação a simbologia do Quilombo dos
Palmares e ao respeito as tradições religiosas africano brasileiras e seus desdobramentos.
Apesar disso a editora foi vendida e não houve novas edições.
Por outro lado, com o interesse do diretor da ECO, professor Simeão Leal, o filme de Roberto Moura Sái Dessa Exú, foi realizado com o apoio da Embrafilme.Tanto o livro como o filme se tornaram marcos iniciais nos nossos trabalhos. Roberto dentre vários trabalhos publicou o livro sobre Tia Ciata, um ponto de refêrencia obrigatória, e também sobre Cartola e ainda Grande Otelo dentre outros escritos e filmes.

Professor Simeão Leal e Marco Aurélio Luz.
Foto Roberto Moura, Corisco Filmes



Roberto Moura e Aloisio Salles filmagem de "Sái Dessa Exu"
Foto Corisco Filmes

"Sái Dessa Exu" termina com uma bela imagem do culto ao Preto Velho na praia, o sol nascendo no mar que vai dar na África com Vovó Maria Conga cantando a cantiga que diz:
“Um dia serás reis Preto Velho/serás dono de comarca, branco chegará na minha mão e nos meus pés para gritar maleme e pedir/hoje em dia estão pedindo.”

O sol nasceu já vai baiana

O sol nasceu nas ondas do mar

As ondas do mar batia

Lá se vai Maria Conga feticêra da Bahia”

Eu fui convidado por Muniz Sodré a ir a Bahia visitar o terreiro de culto aos ancestrais nagô, os Egungun na ilha de Itaparica em 1973. Aí já começa uma outra história que mudou completamente a minha vida.
O Segredo da Macumba foi um ponto de partida. O início de um rompimento com sistemas ideológicos de prolongamentos neocoloniais eurocêntricos, uma irrupção vulcânica de novos valores de liberdade.

sábado, 17 de novembro de 2012

"O SEGREDO DA MACUMBA":40 ANOS DA PUBLICAÇÃO/PARTE 3

UMBANDA NO MORRO
Por Marco Aurélio Luz

Era o espiritismo que se africanizava no asfalto embora o recalque resistisse na sua ideologia preconceituosa.Por outro lado nas conversas com D. Maria e seus familiares principalmente sua filha Dalva, Mãe Pequena, predominavam suas recordações de Campos de Goytacazes onde nascera. Campos era uma região de plantações de cana e de usinas de açucar. No tempo da escravidão muitos africanos e seus descendentes vivenciaram o doce amargo do açucar presente na memória ritual das giras de Preto Velho.

D. Maria depôs no filme Sái Dessa Exu:

 “... do tempo do cativeiro/que andavam mendigando/não tinha licença a nada/não tinha casa para morar/não tinha comida para comer/não tinha dinheiro/não usava roupa, usava tanga/nesse tempo ainda muito apanhava/tiravam assim correia de couro nas costas deles/Pai Tomé chegava lá no tempo dele, em que ele era matéria, eles ficavam lá para o lado de fora igual um cachorro/os principes conversando, eles não podiam nem passar na frente se tivesse uma visita na porta/o nego era chibatado, metiam a chibata/porque naquele tempo a palmatória batia nos velhos e era a políça/qualquer um de vocês era políça para Preto Velho/porque qualquer fazendeiro aí que tinha qualquer coisa, pegava, mandava bater, botava no tronco, batia, apanhava, era castigo.”

Cantigas de lamento como:


"Chora meu cativeiro meu cativeiro meu cativerá

Chora meu cativeiro meu cativeiro, meu cativerá

Ai no tempo de sua sinhá

Quando o sinhô lhe batia

Eu gritava por nossa Senhora

Ai meu Deus

Como a pancada doia".

Mas também cantigas de luta e superação contando com as forças espirituais dos ancestrais:

"Vovó Maria Conga é quem vence demanda
Maria Conga é quem vence demanda"...


"Pai Joakin ee

Pai Joakin ea

Pai Joakin é rei de Ngola

Pai Joakin é de Angola, Angolá”


E ainda:


"Bahia oh África

Vem cá vem nos ajudar

Nêga baiana nêga africana nêga de Mina

Vem cá vem cá".



Gira de Preto Velho, Terreiro de Vovó Maria Conga.
 Foto Roberto Moura,
Corisco Filmes.

Tempos depois continuando as pesquisas que redundaram no livro Agadá, Dinâmica Da Civilização Africano Brasileira, compreedi que o têrmo favela que designa as comunidades do morro, está diretamente relacionado com a guerra de Canudos.
A guerra de Canudos resultou de um processo que pôs fim a escravidão e erigiu novas formas de exploração do trabalho, a do "trabalhador livre" "livre de tudo" como diria Marx. Um contingente de uma população recém saída da escravidão no nordeste criou a vila de Canudos entre morros onde vicejava a planta favela, que tem por caraterística queimar quando é tocada. O recém criado governo republicano totalitário e totalizante não admitia formas de organização social fora de seus poderes e domínio. Então ocorreram as batalhas, as tropas governamentais com ânimo genocida.
Cessada a guerra retirantes vieram para o Rio de Janeiro e se concentraram no morro que então tomou o nome de Morro da Favela, e esse nome se generalizou pelas formas conhecidas Brasil a fora.
Então no repertório das cantigas da Umbanda de morro ou de favela temos:

"A poliça evem que evem braba,
Quem não tem canoa cai n`água

Quem não tem canoa cai n`água"

Porém a Umbanda como um culto aos ancestrais de Caboclo e de Preto Velho em suas homenagens faz então refêrencias aos períodos históricos em que viveram, que envolveram e ainda envolve num qui e agora entidades e fiéis. Todavia não se pode esquecer que trata-se de espiritualidade, de religião, uma relação transcendente.
Trata-se de uma relação entre esse mundo e o além. É o mistério que envolve o sentimento religioso e que promove o desejo comunal de busca de proteção pelas entidades.

José Paulo deu o depoimento no filme Sái Dessa Exu:

“Sempre existirão umbandistas que não cederão/sempre existirá uma luta/a macumba/Umbanda quando começou os negros se refugiavam em certos lugares para praticar a Umbanda/se não podiam praticar naquela hora eles esperavam os senhores dormir para praticar/mesmo que acontecesse qualquer problema, ou se a polícia fechasse/as vezes parava o tambor, mas nós prosseguimos/havia aquele debate, aquela força de vontade/então, mesmo que a Federação ganhe terreno, sempre existirá aquela batalha/Nem que se refugiem no mato para praticar a Umbanda da forma que eles acham, sempre existirá alguém que praticará a Umbanda dessa forma”.


Terreiro de Vovó Maria Conga.
 Foto Roberto Moura,Corisco Filmes
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Marco Aurélio Luz é Elebogi ni Ilê Axipá,;Oju Oba ni Ilê Axé Opô Afonjá;Filósofo; Doutor em Comunicação; Pós-Doutorado em Ciências Sociais Paris V-Sorbonne-CEAQ-Centre D’Etudes sur L’actuel du Quotidien; membro do Conselho Consultivo do INTECAB-Instituto Nacional da Tradição Afro-Brasileira.Autor de diversos artigos e livros em destaque:Agadá:dinâmica da civilização africano-brasileira.Escultor de imagens da temática arte sacra afrobrasileira.

"O SEGREDO DA MACUMBA":40 ANOS DA PUBLICAÇÃO/PARTE 4


REPERCUSSÕES NA INTELGENTZIA

Por Marco Aurélio Luz


Abel Silva, comenta a seguir no Jornal Opinião em 1973


Luiz Carlos Maciel comenta a seguir no O Jornal 1973





Antonio Serra, comenta  a seguir na Revista de Psicologia 1973
 “O SEGREDO DA UMBANDA”

Marco Aurélio Luz e Georges Lapassade – Paz e Terra ed. Rio de Janeiro 1972

Apresentamos o comentário bibliográfico do prof. Antonio Serra, do Instituto de Artes e Comunicação Social da UFF, licenciado em Filosofia pela UEG.
O Segredo da Umbanda se constitui em trabalho de dupla importância: teórica e cultural. Tanto num como noutro aspecto vem os dois autores falar com algo que a cultura estabelecida e a ciência universitária ignoram e silenciam: o lugar e a importância de uma “religião popular”, “negra” e “selvagem”.
Antes de mais nada, este silêncio é o sinal do isolamento e auto-contemplatividade de nossa ciência social, para quem o que é dominante é “folklore” ( exótico, fragmentado, próprio para eruditos pacientes e curiosos).E perfeitamente conforme à marginalização imposta e cultivada pela instituição religiosa dominante no país, cujo tratamento em tais assuntos é remetê-los ao diabólico.
E tudo isso como se a “macumba” não fosse uma forma cultural de aceitação cada vez maior, profundamente enraizada em nossa história social e cultural, presente no cotidiano do povo, seduzindo setores crescentes de classe média e sobretudo, núcleo do universo de ampla massa de nossa sociedade.
Temos sem dúvida os estudos de Edson Carneiro, de Bastide e de Artur Ramos. Importantes e rigorosos mas que jamais ultrapassaram o aspecto genético (explicar as origens e o desenvolvimento dos cultos) ou o reducionismo sociológico (compreensivista, no caso) cujo resultado é eclético ou, enfim o ensaio de abordagem psicanalítica (A. Ramos), restrito, contudo, à aplicação de alguns conceitos freudianos, sem resolver toda a problemática e constituir um campo de estudo que exija novos recursos teóricos e, por outro lado, coloque à cultura dominante questões incomodas.
Claro que não pretendemos ver no ensaio de Lapassade e Marco Aurélio a “obra” esclarecedora da Macumba. Seu alcance é o dos começos, pleno de dúvidas, de imprecisões, de convergências ainda pouco claras – mas se coloca diante do material de modo que não é só a Macumba que é questionada, mas a própria ciência e a cultura em que estamos inseridos.
A abordagem de Marco Aurélio tenta situar-se no eixo de encontro de duas problemáticas decisivas: o Inconsciente e a História. Encontro este que tem sido até agora considerado como sincretismo, ou como incorporação de uma ciência pela outra enfim como veleidade historicista ou psicologizante. E de fato, a grande maioria dos trabalhos nesta área chamada “psicossocial” ou psicohistórica não passam de “bricolagens” de mau gosto, exercício ideológico de “conciliação” e aproximação de “objetos” que, neste processo, perdem sua especificidade, (sua objetividade).
Na verdade o horizonte da história está presente na psicanálise, e aponta seguidamente nas obras de Freud, por exemplo, como problema, a que jamais Freud dá uma resposta; problema que só hoje estamos começando a ler, não como uma região a mais nos vastos “interesses” de Freud, mas como seu permanente encontro com uma problemática – limite da psicanálise. Leitura esta que aguardava, talvez, o desenvolvimento da teoria do simbólico, dos estudos sobre parentesco, e sobretudo, da própria teoria da história.
Se a referência de Marco Aurélio é Reich, é por se ter nele o primeiro a enfrentar este campo limite e sem dúvida ponto de referência obrigatório para tal indagação. Sabemos que Reich sustentou-se numa temática biologizante (como tantas vezes fez Freud) por não estar ainda apontada uma teoria do significante que materializando a linguagem (retirando-o do arbitrário de sentido imanente ou da especulação idealizante), fornecesse a linha de encontro do imaginário com o simbólico (apontando para a história). E ainda porque a própria teoria da história se mostrava incapaz de enfrentar o velho problema das superestruturas, e contentava-se em reconhecer nas ideologias (cuja dimensão aceita era a da consciência, todo o resto indo por conta do irracionalismo) os reflexos pontuais das forças produtivas. Ou seja, só recentemente uma teoria da cultura e da ideologia, que trabalhe sua autonomia e seu modo específico de articulação com a totalidade histórica veio a se constituir e permitir que trabalhos dessa ordem sejam encetados.
É pois, dentro desta novidade teórica, “novidade inovadora” e ponto de partida para a concretização destes campos teóricos: é este o primeiro aspecto que vemos no trabalho de Marco Aurélio.
Falamos, além disso, de sua significação cultural. Pois os dois autores não se limitam a uma análise explicativa dos fenômenos,etc,etc: o que está em questão é uma “intervenção institucional” onde os autores veem confrontar seu aparato teórico (no que ele tem de inconsciente e ideológico, resistente, pois) com referenciação radicalmente nova que coloca a macumba. Esta marcação não se traduz por uma adesão ingênua, uma fascinação elitista e colonial pelo “povo”, mas representa uma verdadeira psicanálise do trabalho teórico e da posição (ideológica) de classe do intelectual, cujo discurso tende a recuperar e reproduzir a ordem do discurso dominante. Daí o seu aspecto um tanto alucinado de rompimento e conservando muito da identificação operada no terreiro.

Nota Final:
O incômodo teórico e cultural que o livro representa pode ser muito bem constatado na “sabotagem que a própria Editora praticou, sua venda bloqueada literalmente nos meios universitários e, potencialmemte nos meios umbandistas era o sinal de uma insatisfação com o modo tradicional de tratar o assunto.
Marco Aurélio de O. Luz – professor de Fundamento Científico da Comunicação da UFRJ.Co-autor de “Epistemologia e Teoria da Ciência”(Vozes); co-autor de “ O Segredo da Macumba” (EditoraPaz e Terra).

 
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Marco Aurélio Luz é Elebogi ni Ilê Axipá,;Oju Oba ni Ilê Axé Opô Afonjá;Filósofo; Doutor em Comunicação; Pós-Doutorado em Ciências Sociais Paris V-Sorbonne-CEAQ-Centre D’Etudes sur L’actuel du Quotidien; membro do Conselho Consultivo do INTECAB-Instituto Nacional da Tradição Afro-Brasileira.Autor de diversos artigos e livros em destaque:Agadá:dinâmica da civilização africano-brasileira.Escultor de imagens da temática arte sacra afrobrasileira.


domingo, 4 de novembro de 2012

"O SEGREDO DA MACUMBA":40 ANOS DA PUBLICAÇÃO/PARTE 2

UMBANDA DO ASFALTO         

Por Marco Aurélio Luz

O Templo Espírita estava numa das ruas principais, num antigo sobrado. Um letreiro na entrada indica o local. Passando por um portão num pequeno espaço ao ar livre estão em um nicho fechado e outro com grades os altares de Exu e de Preto Velho. Após adentra-se no templo.
Logo um quadro de avisos com informações sobre médiuns e entidades, dias de giras e de consultas. Nas paredes reproduções de quadros de Rugendas do tempo da escravidão, e pinturas diversas, e ainda frases sobre comportamentos a serem adotados.
O corredor ainda é composto nas laterais de um lado por saletas da secretaria e da diretoria, e de outro, pelas de consultas e “trabalhos”.
Após nos deparamos com o salão, com lugar para assistência e o espaço para o ritual com um grande altar composto com imagens de santos, o lugar do microfone para chamar por sua vez os fiéis com suas fichas para as respectivas consultas com as entidades.
Enquanto nas giras do morro as entidades tinham seu tempo e espaço determinado ao longo da noite da cerimônia, como a Gira de Caboclo, a Gira de Preto Velho, a Gira de Exu, a Gira das Crianças, aqui era uma vez por semana dedicado a uma dessas entidades, além de um dia reservado à "mesa branca" .


Exterior do Templo Umbandista-
“Cenzala Pretos Velhos”(conforme estã escrito no cartaz da foto)

Foto Roberto Moura, Corisco filmes


Fui fazendo essas comparações e percebendo a intencionalidade e as diferenças entre essas Umbandas.
A Umbanda de morro um culto aos ancestrais Caboclos e Preto Velhos e aos Exus para abrir os caminhos para a realizações dos pedidos de proteção da gente da comunidade, a Umbanda do asfalto tentando ser um culto espírita para fazer "caridade" mas combatendo o "baixo espiritismo" a "macumba" e procurando enaltecer através da "mesa branca" os "grandes mestres do oriente e os doutores".
Conversando com o Dr. Nilo fui percebendo que ele estava envolvido por uma literatura que circulava pelos Centros Umbandistas que difundia uma ideologia adaptada da filosofia de Augusto Conte, filósofo francês ideólogo da República brasileira. Ao invés porém da teoria da evolução dos três estágios da humanidade, mítico/religioso,filosófico/metafísico, e por fim o científico o último considerado o superior, aqui são os espíritos que entram numa escala evolutiva, adaptando as teorias do espiritismo de Alan Kardec. São então os espíritos de pouca luz, inferiores a serem combatidos pelos demais, os em evolução, que precisam de desenvolvimento, e os de muita luz, superiores a quem era dedicada a "mesa branca".
Então as giras de Exu, Caboclo, e Preto Velho promoviam consultas a serem encaminhadas para os trabalhos que visavam a desfazer os trabalhos da quimbanda que "causavam o mal".






Gira de Exu no Templo Umbandista. Foto Roberto Moura, Corisco Filmes.

A "mesa branca" não era uma curimba. Sem atabaques e com som de disco com músicas tipo "Assim Falava Zaratrusta" era para promover o "desenvolvimento" dos médiuns e dar conselhos e passes aos fiéis.
Em depoimento ao filme Sái Dessa Exu, Dr.Nilo expõe seu pensamento:
“A gira de Oriente é uma gira mais calma/ é uma gira que não há atabaques, não há tambores/é uma coisa mais elevada, mais pura, de pessoas mais selecionadas/é uma gira mais mental/a umbanda a tendência dela é de crescer cada vez mais e naturalmente ela vai se aprimorar cada vez mais/podendo até chegar a um grau de aprimoramento que você vai talvez, acredito, abolir os atabaques/irão ser introduzidas outras coisas dentro da Umbanda/aliás eu considero pejorativo chamar a Umbanda de macumba porque macumba é uma coisa completamente diferente/quem chama de macumba é o público, digamos assim, é o povo, que não conhece a terminologia/costumam também chamar de macumbeiro aquele elemento que trabalha dentro da Quimbanda, esse é que chamam o macumbeiro, mas a Umbanda não tem nada disso/nós estamos lutando pela unificação/para que seja unificada como a religião católica/no futuro, acredito, nós teremos todos os centros de Umbanda trabalhando de uma maneira só, porque esse é o certo/naturalmente irá ter essa cúpula de Umbanda os seus elementos que irão correr os centros para fiscalizar/para ver se está tudo moldado direitinho dentro dos moldes da cúpula/tem muito centro aí que não é registrado e isso naturalmente eu acredito que vá acabar/e deve acabar.”
Raros eram os médiuns que recebiam os Mestres do Oriente ou Doutores, como o Dr. Nilo e sua esposa. A maioria constituida de pessoas que hoje denominamos de afro-descendentes recebiam Caboclos e Preto Velhos.


 Assistência no Templo Umbandista, Foto Roberto Moura, Corisco Filmes.

Assim sendo apesar das tentativas de alteração o que predominava mesmo era a estrutura original da Umbanda, ou seja, a antiga Cabula, mesmo sofrendo discriminação ideológica ou novas roupagens burocráticas.
A ‘Umbanda do asfalto” era uma tentativa ideológica de combater a “Umbanda de morro”. Mas até onde havia êxito nessa catequização? Como vim a perceber depois havia sim era mais uma africanização  do  espiritismo de Alan Kardec.  

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Marco Aurélio Luz é Elebogi ni Ilê Axipá,;Oju Oba ni Ilê Axé Opô Afonjá;Filósofo; Doutor em Comunicação; Pós-Doutorado em Ciências Sociais Paris V-Sorbonne-CEAQ-Centre D’Etudes sur L’actuel du Quotidien; membro do Conselho Consultivo do INTECAB-Instituto Nacional da Tradição Afro-Brasileira.Autor de diversos artigos e livros em destaque:Agadá:dinâmica da civilização africano-brasileira.Escultor de imagens da temática arte sacra afrobrasileira.

sábado, 27 de outubro de 2012

"O SEGREDO DA MACUMBA":40 ANOS DA PUBLICAÇÃO/PARTE 1

Por Marco Aurélio Luz

Capa do livro " O Segredo da Macumba"  de autoria de Marco Aurélio Luz e Georges Lapassade lançado em 1972 pela Editora Paz e Terra

O BRASIL DO APARTHEID IDEOLÓGICO E CULTURAL-O RETORNO DO REPRIMIDO

Era o tempo da ditadura; com a publicação do ato institucional nº5, o movimento estudantil em geral tomou duas direções; uma foi a resistência armada, outra foi tentar compreender o povo brasileiro para além da linguagem e dos paradigmas e valores universitários. No panorama internacional a guerra do Vietnã causava essas repercussões e parte da juventude se rebelava.
Junto com amigos estudiosos de filosofia e ciências sociais acreditando num revisão teórica do marxismo publicamos o livro Epistemologia e Teoria das Ciências ed. Vozes, que se situava no âmbito filosófico socrático de se indagar do porque dos por que das coisas e seu conhecimento. Era a época da influência dos intelectuais franceses como Bachelard, Lévy-Strauss, Althusser e seu grupo, Lacan e seu grupo, Foucault etc.
Recém-formado em Direito e Filosofia, era professor da ECO UFRJ e do IACS UFF. Então, depois disso, fomos desafiados a aplicar nossa epistemologia numa "análise da realidade".
Aceitei o desafio vindo principalmente de meu amigo Chaim Samuel Katz e comecei a procurar uma base teórica que me desse condições. Apoei-me no que era mais conceituado na época nos meios acadêmicos, as obras de Marx e Freud. Nesse caminhar me deparei com os trabalhos de Wilhelm Reich, revelado pela atuação dos movimentos de contra cultura que começavam a repercutir no Brasil.
Foi nessa conjuntura que comecei pela minha própria iniciativa a subir o morro separado do asfalto no Rio de Janeiro. Isso talvez por que fui nascido e criado em meio a um conjunto de favelas que formavam a zona sul. D. Marta, Macedo Sobrinho, Sacopã, Catacumba Cantagalo, Pavão e Pavãozinho, Vila Rica, Praia do Pinto, Vidigal, Rocinha, Hípica, Sossego, fora o Parque Proletário da Gávea e talvez outras que não me lembro de todas, mais ou menos situadas no entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas. Um senhor que desfilava pelo Filhos de Gandhi na rua Jardim Botânico me disse que era naquela região que mais se encontrava a “negrada” no Rio de então. “Oh tempore oh mores!”...
Tinha uma intuição que a religião era a fonte da identidade desse povo. Quando o destino me levou ao morro D. Marta, fui acolhido pelos terreiros de Umbanda que ficavam equidistantes na subida do morro. Num a sacerdotisa que chefiava era D. Rosa no outro a D. Maria Batuque. Com o tempo fiz amizade com o filho de D. Maria e passei a frequentar mais esse terreiro cuja patrona era a entidade Vovó Maria Conga.


D. Maria e as filhas, foto Roberto Moura, Corisco filmes.



 Imagem da Rainha Maria Conga no salão do terreiro, foto Roberto Moura/ Corisco filmes

Ao subir os degraus irregulares de acesso num dos becos de entrada do morro nas noites de sexta-feira, na chegada ao barraco de madeira, tomando conta da "porteira" estava o assento de Exu Tranca Rua e de Pombagira num pequeno nicho lateral. Avançando pelo pequeno corredor de acesso ao ar livre na entrada do terreiro deparava com uma vista deslumbrante. Avistava uma senda cintilante do bairro de Botafogo que ia até a enseada onde majestosamente se erguiam o morro da Urca e o Pão de Açúcar e lá longe, do outro lado da baía de Guanabara as luzinhas de Niterói. Em noite de luar então a emoção era ainda maior.


Vista do Morro D.Marta

Cruzando a soleira da porta estava o pequeno salão. Em frente um altar com uma cortina e, ao lado o lugar dos tambores candongueiros. Estava assim maravilhado conhecendo a fonte da cultura do Rio de Janeiro, a religião e seus valores.
José Paulo, filho de D. Maria e cambono da casa e também presidente da sociedade me levou por incursões por outras regiões e instituições da cultura negra. Subindo o morro, entra em beco sai em beco, além de ser apresentado aos moradores vizinhos, tomei conhecimento de um terreiro de candomblé, visitei o clube com times de futebol e bailes, fui às escolas de samba do próprio D. Marta e no morro Vila Rica em Copacabana.


José Paulo, foto Roberto Moura Corisco Filmes.

 O morro se apresentava com uma vida sócio cultural pulsante, a sociabilidade de uma rêde de instituições, a comunalidade. Apresentava um traçado urbano e uma arquitetura própria que me causava impacto e admiração, uma outra cidade, cidadela.
Numa dessas ocasiões de minhas andanças por esse caminhar pelas comunalidades, não posso deixar de mencionar um magnífico evento de encontro dos terreiros de Umbanda organizado pelo Tata Tancredo da Silva Pinto presidente da Confederação Umbandista na Praça do Preto Velho em Inhoaíba, Campo Grande onde havia um busto homenageando Mãe Senhora, Iyalorixá do Ilê Axé Opo Afonja. Considerada como a Mãe Preta do Brasil foi consagrada num congresso promovido pelo Tata e que lotou o Maracanã.
Centenas de terreiros reunidos na Praça do Preto Velho se organizavam no espaço aonde a curimba ia se desenvolver noite adentro.
Antes porém, num grande semicírculo cercado de frondes de palmeira, todos reunidos, aguardavam a chegada do Tata Inkice Sr. Tancredo que foi saudado pelo som de cerca de 200 tambores candongueiros, caminhando soberanamente com simplicidade com seu séquito sob a proteção de um palio até a sua poltrona ou diria trono?
Por outro lado, no asfalto, em frente ao morro D. Marta, na rua S. Clemente em Botafogo havia um Centro Espírita Umbandista. O destino me levou para lá, ocasião em que conheci o Doutor Nilo Maia chefe do Templo Umbandista. Projetando a ideologia espírita sobre a Umbanda ele fazia parte de uma parcela de umbandistas distintos.


 Fachada do Templo Umbandista no “asfalto”. Foto Roberto Moura, Corisco Filmes.
Continua na próxima semana.

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Marco Aurélio Luz é Elebogi ni Ilê Axipá,;Oju Oba ni Ilê Axé Opô Afonjá;Filósofo; Doutor em Comunicação; Pós-Doutorado em Ciências Sociais Paris V-Sorbonne-CEAQ-Centre D’Etudes sur L’actuel du Quotidien; membro do Conselho Consultivo do INTECAB-Instituto Nacional da Tradição Afro-Brasileira.Autor de diversos artigos e livros em destaque:Agadá:dinâmica da civilização africano-brasileira.Escultor de imagens da temática arte sacra afrobrasileira.