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PRODESE E ACRA



VIDA QUE SEGUE...Uma
das principais bases de inspiração do PRODESE foi a Associação Crianças Raízes
do Abaeté-Acra,espaço institucional onde concebemos composições de linguagens
lúdicas e estéticas criadas para manter seu cotidiano.A Acra foi uma iniciativa
institucional criada no bairro de Itapuã no município de Salvador na Bahia, e
referência nacional como “ponto de cultura” reconhecido pelo Ministério da
Cultura. Essa Associação durante oito anos,proporcionou a crianças e jovens
descendentes de africanos e africanas,espaços socioeducativos que legitimassem
o patrimônio civilizatório dos seus antepassados.
A Acra em parceria com o Prodese
fomentou várias iniciativas institucionais,a exemplo de publicações,eventos
nacionais e internacionais,participações exitosas em
editais,concursos,oficinas,festivais,etc vinculadas a presença africana em
Itapuã e sua expansão através das formas de sociabilidade criadas pelos
pescadores,lavadeiras e ganhadeiras,que mantiveram a riqueza do patrimônio
africano e seu contínuo na Bahia e Brasil.É através desses vínculos de
comunalidade africana, que a ACRA desenvolveu suas atividades abrindo
perspectivas de valores e linguagens para que as , crianças tenham orgulho de
ser e pertencer as suas comunalidades.
Gostaríamos de registrar o nosso
agradecimento profundo a Associação Crianças Raízes do Abaeté(Acra),na pessoa
do seu Diretor Presidente professor Narciso José do Patrocínio e toda a sua
equipe de educadores, pela oportunidade de vivenciarmos uma duradoura e valiosa
parceria durante o período de 2005 a 2012,culminando com premiações de destaque
nacional e a composição de várias iniciativas de linguagens, que influenciaram
sobremaneira a alegria de viver e ser, de crianças e jovens do bairro de
Itapuã em Salvador na Bahia,Brasil.


segunda-feira, 23 de novembro de 2009

SALVE PALMARES!

Resistência

Lúcia Marçal*



Resistência

Persistência

Insistência

Consistência

Desistência?

ANCESTRALIDADE


Pele estica

Pêlo eriça

Poros abrem

Sangue ferve

Alma esfria?

IDENTIDADE


Mão macia

Cria calos

Cobra colos

Cobre pólos

Tocar solos?

SOCIABILIDADE


No atabaque

Na barrela

No ferro de engomar

No sax

Sentidos no cuaradouro?

COMUNALIDADE


Na busca de um lugar:

Academia

Recanto

Recôncavo

Além do oceano bastaria?

TERRITORIALIDADE


Samba-terapia

Jazz-filosofia

Blues-economia

Clássica-harmonia

Timbalar valeria?

ALTERIDADE


Estar em movimento

Não apresentar documentos

Saber-se sentimentos

Saberes milenares

Sentidos postulares

Conhecimento:

Produto da f(r)icção

Da pele com os apelos

Da África que vive aqui!


* Lúcia Marçal é Mestra em Educação e Contemporaneidade da Universidade do estado da Bahia –UNEB, Professora de Língua Portuguesa do Ensino Médio das escolas públicas do estado da Bahia.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

PALMARES, ONTEM, HOJE E SEMPRE por Marco Aurélio Luz

PALMARES, ONTEM, HOJE E SEMPRE.
Marco Aurélio Luz

Sobre Palmares, nos registros da ideologia da história há duas interpretações de expressão e inspiração marxista que sobressaem: uma reduz o evento a uma luta de classes, senhores contra escravos e escravos contra senhores - Décio Freitas - e o quilombo seria uma república palmarina. Outra percebe o quilombo do mesmo modo só que acrescenta e realça as relações de produção coletivas - Edson Carneiro. São obras importantes com pesquisas nos arquivos da documentação da época colonial e tudo mais.

Agora, eu prefiro adotar a metodologia "Sankofa", "nunca é tarde para voltar e apanhar o que ficou para trás...aprender com o passado para construir o futuro", em homenagem a Elisa Larkin, para compreender o Palmares como a transposição e continuação do reino do Ndongo (Angola) no Brasil.

No projeto da Companhia das Índias Ocidentais o tráfico e comércio triangular Angola-Pernambuco-Europa era o mais lucrativo para as aplicações do capital financeiro. O tráfico escravista era o segmento mais lucrativo. A afamada Rainha Ginga, a Rainha Invisível, que estabelece a guerra contra os invasores portugueses e seus aliados em seu território consegue quebrar com o fluxo escravista. Gente do Ndongo e de reinos vizinhos integrantes do império do Congo formaram a base do Palmares e desestruturaram no Brasil a economia de produção de açúcar em Pernambuco baseada na inaudita exploração do trabalho escravo sob tortura.

Palmares nas Américas, se destaca por repor a territorialização do contínuo civilizatório africano, agora africano-brasileiro, e por manter acesa a chama da liberdade, com que os palmarinos de Zumbi queimaram muitos canaviais.

Depois o tráfico escravista se deslocou para outras regiões da África e do Brasil. Vieram outras gentes, principalmente do império de Oyó e do reino do Dahomé. Aqui no Brasil com o mesmo denodo cultivam a busca de afirmação da liberdade e todos juntos, formam uma vasta comunalidade de cultura, valores linguagens e instituições.

Podemos dizer que o fluxo civilizatório africano brasileiro mantém através de nossa história sua pujança através da tradição de afirmação existencial dos ancestrais e hoje podemos afirmar que a força do negro está na sua própria civilização.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

CAPOEIRA PAZ NO MUNDO II

Esta semana damos continuidade à exibição do documentário Capoeira Paz no Mundo produzido pelo Ministério da Cultura em 2007 a propósito da afirmação da capoeira como partrimônio nacional e também por reconhecer nela, um canal de comuinicação valioso entre os povos, capaz de propor uma ética da coexistência visando a paz no mundo.

Na semana passada postamos as partes 1, 2 e 3. Acompanhem agora as partes 4, 5 e 6 do documentário que tem sua culminância em Genebra, numa homenagem ao diplomata Sérgio Vieira de Melo morto num atentado a sede das Nações Unidas em Bagdá.

Apreciem!

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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

AINDA CONVERSANDO SOBRE O QUILOMBO BURACO DO TATU

Em menos de um mês o blog da ACRA tem recebido muitas visitas que lêem, gostam, aprendem, extraem aspectos para estudos, indagam, indicam para amigos/as, aproximam-se de perspectivas importantes sobre a nossa população, etc.


Pois bem. Um dos nossos visitantes lendo sobre aspectos extraídos da pesquisa da Professora Narcimária Luz sobre o Quilombo Buraco do Tatu, comentou: “Gostaria de maiores informações sobre o Quilombo Buraco do Tatu. Por que esse nome? Enfim... Poderiam me ajudar?”


Aqui vai uma boa reflexão feita por um dos nossos importantes colaboradores, o cientista social Doutor Marco Aurélio Luz.


PANGOLIN OU TATU: ASPECTOS DA SIMBOLOGIA AFRICANA


Colaboração do Professor Doutor Marco Aurélio Luz


O animal equivalente ao tatu na África é o pangolin. Ele come insetos, evita o combate direto e diante de um ataque inevitável ele aproveita sua carapaça dura para se enroscar virando uma bola se tornando inviolável e invulnerável. O tatu, ou pangolin, possui grandes garras que lhe permite cavar extensos buracos que se constituem em rotas de fuga e esconderijo quando ameaçado.


No reino de Benin, (não confundir com o país Benin antigo Dahomé), o pangolin é elemento de grande significação simbólica. A linguagem e os valores da tradição cultural que o envolvem inspiram sábias estratégias de luta pela vida. Trajes do rei de Benin expressam essa identificação simbólica com esse animal. Também encontramos essa identificação simbólica com o pangolin nas "armaduras" dos guerreiros do reino do Benin expressas nos famosos alto relevos da arte esculpidas em bronze. A planta arquitetônica da cidade do Benin, de forma espiralada com o palácio do Oba, rei, e o mercado no ponto inicial também alude a forma esférica de defesa do pangolin.


Dessa forma como indica o símbolo Ashanti, Sankofa, "nunca é tarde para voltar e apanhar o que ficou para trás... aprender com o passado para construir o futuro”. Assim podemos ter uma idéia aproximada sobre a escolha do nome do quilombo em Itapuã (1744 e 1764) pelos nossos antepassados africanos: Buraco do Tatu.


Alto relevo em bronze arte tradicional do Benin.Guerreiros com “armaduras do pangolin”.


VALDEMAR SANTANA, AINDA UMA REFLEXÃO SOBRE O TATU.


Um aluno de capoeira de Mestre Bimba, meu amigo e irmão Muniz Sodré contou-me que certa feita em uma de suas lições o mestre perguntou aos seus alunos o que fariam se tivessem pela frente alguém os ameaçando armado com uma faca. Todos contaram suas bravatas demonstrando os golpes que dariam para livrá-los de tal situação e ainda dominar o agressor. Mestre Bimba nada disse, só ouviu.


Mas a ansiedade do grupo fez com que ousassem a pergunta inevitável:

-E o senhor Mestre o que faria?

Ao que Bimba respondeu mais ou menos assim:

-Eu? Eu saía correndo! Se insistisse procurava uma esquina para surpreender escorando...


A capoeira nasce para enfrentar um adversário melhor armado, procurando estratégias de contornar e evitar o combate de frente, para surpreender num momento mais favorável. É a inspiração da Rainha Ginga do Ndongo (Angola), a Rainha Invisível, na luta contra os portugueses escravistas, guerra de deslocamentos através dos Kilombos, acampamentos militares.


Pois, pois, como dizem os outros...


Na década de 1950 Valdemar Santana um dos maiores lutadores que o mundo já viu, discípulo de Mestre Bimba, morando no Rio de Janeiro estava na ambiência da academia de jiu-jítsu de Helio Gracie, até então tido como maior lutador do Brasil. Vai que quis o destino que Valdemar fosse enfrentar Hélio numa luta de vale tudo, sem quimono e sem rounds ,aberta ao público que lotou o ginásio de esportes. Com toda imprensa apoiando Hélio envolvida pelas ideologias racistas só esperavam a confirmação da "superioridade do branco descendente de inglês". Isso foi em 1955.


A luta tornou-se uma das mais longas que o mundo já viu. Sabendo que as armas de Hélio eram as chaves do jiu-jitsu, Valdemar adotou a tática do tatu, acocorado no chão enfeixado sobre si mesmo, não permitia uma sobra de membro que pudesse favorecer as táticas do adversário. Quando esse dava uma brecha tentando catar um braço, uma perna, um dedo, um pescoço, Valdemar punha-se de pé e forçava Hélio a persegui-lo dando um e outro golpe no contra ataque, em seguida, pronto novamente enroscado como o tatu. Depois de 3 horas e 45 minutos, com Hélio exausto e desguarnecido Valdemar desferiu a meia lua de compasso, o pé voa na cara do oponente. O adversário caiu desfalecido.


Valdemar Santana filho da Bahia, a Roma Negra como disse Mãe Aninha, Iyalorixa Oba Biyi, entra para nossa história, para nossa honra.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

“CAPOEIRA PAZ NO MUNDO”

“CAPOEIRA PAZ NO MUNDO”


Todos sabem que a base da linguagem inaugural da ACRA é a capoeira, sob a responsabilidade do Contra Mestre Luís Negão. Vamos apresentar durante o mês de novembro o documentário Capoeira Paz no Mundo produzido pelo Ministério da Cultura em 2007. A ACRA vai apresentar o documentário em 06 (seis) partes conforme encontramos disponibilizado no You Tube. O documentário foi feito a propósito da afirmação da capoeira como partrimônio nacional e também por reconhecer nela, um canal de comuinicação valioso entre os povos, capaz de propor uma ética da coexistência visando a paz no mundo.


Acompanhem as 03 (três) primeiras partes do documentário que tem sua culminância em Genebra, numa homenagem ao diplomata Sérgio Vieira de Melo morto num atentado a sede das Nações Unidas em Bagdá.


Vale a pena conferir!


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Semana que vem não percam as 03 (três) partes que finalizam este documentário

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

ACCRA - CAPITAL DE GANA?

COINCIDÊNCIA, HEIN PESSOAL?!


ACCRA capital de Gana?


ACRA-Associação Crianças Raízes do Abaeté?


Sim! É uma boa e prazerosa coincidência!


ACCRA é a capital de Gana e é a cidade mais populosa do país. Gana fica na costa da região ocidental de África. A palavra Accra é derivada da palavra formigas significado de Nkran, referência aos inúmeros formigueiros visto no campo em torno de Accra. Durante parte da sua história, Accra serviu como um centro de comércio com o português, que construiu um forte na cidade, seguido do sueco, holandês, francês, britânico e dinamarquês, até o final do século XVII. O que motivou essa invasão européia foram os recursos naturais de Gana destaque para o ouro, diamantes, manganês e bauxita.


Em Gana encontramos o kente um tecido colorido contendo um grafismo original. Ser tecelão em Gana é ter muito valor e faz parte da hierarquia que organiza as comunidades.O kente faz parte de uma tecnologia milenar muito importante. A cidade do tecido kente é Kumasi. Assim como na Bahia a percussão é a base da música de Gana.


Em 1957 Gana conquistou sua independência na época predominantemente britânica e a população no processo da independência usou o lema: "é melhor ser independente para governar sozinho, bem ou mal, do que ser governados pelos outros".


Outra coisa importante que nos liga a ACCRA é que a população afro-brasileira liberta que retornou para a África instalou-se em Gana e criaram uma comunidade conhecida como Tabom que, segundo alguns historiadores, refere-se à expressão que eles costumavam utilizar quando se referia há alguma coisa boa, ou dizendo que entendeu a mensagem:” tá bom!”. Esses afro-brasileiros ficaram em ACCRA, mas depois fundaram o bairro de Jamestown.


A Comissão de Defesa da OUA-Organização da Unidade Africana, hoje denominada U.A.-União Africana está instalada em Accra. Foi criada pelo imperador da Etiópia Haile Selassie 1963 reunindo 32 representantes de países africanos que assinaram um tratado com o intuito de : “promover a unidade e solidariedade entre os estados africanos; coordenar e intensificar a cooperação entre os estados africanos, no sentido de atingir uma vida melhor para os povos de África; defender a soberania, integridade territorial e independência dos estados africanos; erradicar todas as formas de colonialismo da África; promover a cooperação internacional, respeitando a Carta das Nações Unidas e a Declaração Universal dos Direitos Humanos; coordenar e harmonizar as políticas dos estados membros nas esferas política, diplomática, econômica, educacional, cultural, da saúde, bem estar, ciência, técnica e de defesa".


Vale ressaltar a importância da OUA no processo de descolonização dos países africanos através do seu Comitê Coordenador de Libertação da África. Estão aí incluídas as pressões internacionais contra o apartheid na África do Sul e na Rodésia. Nesses países as políticas genocídas à população foram encaminhadas internacionalmente condenado-os como “crime contra a Humanidade” na Conferência de Teerão de 1968. A OUA foi substituída pela União Africana a 9 de Julho de 2002. Maiores informações consulte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Organiza%C3%A7%C3%A3o_da_Unidade_Africana.)Vale








Bandeira de Gana


Colaborou para este texto Jackeline Pinto do Amor Divino pesquisadora do PRODESE e mestranda em Educação e Contemporaneidade da UNEB.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Miriam Makeba - Pata Pata

O Blog da Acra rende novamente homenagem a Miriam Makeba, cantora Sul-africana que encantou o mundo com sua voz e sua luta em defesa dos direitos humanos.

Miriam Makeba faleceu em 10 de novembro de 2008, em homenagem a este dia, publicamos aqui o vídeo da Música Pata Pata que já embalou várias gerações no mundo inteiro.


Divirtam-se!!!

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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

CULTURA NEGRA EM TEMPOS PÓS–MODERNOS

CULTURA NEGRA EM TEMPOS PÓS–MODERNOS

Para aproximar nosso leitor/a do tema Dinâmica da Civilização Africano-brasileira, trouxemos para o blog da ACRA uma entrevista especial com o Professor Doutor Marco Aurélio Luz, autor dos livros Cultura Negra em Tempos Pós–Modernos e Do Tronco ao Opa Exin, referências bibliográficas importantes nos estudos desenvolvidos pela equipe PRODESE-Programa Descolonização e Educação UNEB/CNPq, responsáveis pelo projeto DAYÓ na ACRA.


Essa entrevista com o Professor Marco Aurélio, foi realizada logo após a conclusão do seu Pós- Doutorado na Sorbonne e publicada na coluna do Professor Doutor Edivaldo Boaventura no Jornal A Tarde, no contexto do lançamento desses dois livros citados aqui. Agora a ACRA apresenta a entrevista atualizada acompanhando a 3ª edição do livro Cultura Negra em Tempos Pós–Modernos pela EDUFBA.


BOA LEITURA!

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PSobre a publicação dos livros Cultura Negra em Tempos Pós–Modernos e Do Tronco ao Opa Exin, o que eles representam no conjunto das suas obras?

Luz – Quase todos os meus livros procuram se situar num novo continente epistemológico, isto é, para além da problemática de “raça e classe”, e instalar-se no que poderia chamar de problemática de diversidade humana, afirmação socioexistencial, e pluralidade cultural e civilizatória. Nessa problemática refiro-me basicamente à cultura africano-brasileira. O livro Do Tronco ao Opa Exin é exatamente em torno da trajetória histórica dessa cultura, valores, linguagem e instituições.


P - Explique o porquê de situar-se ideologicamente para além da problemática de “raça e classe”.

Luz - Problemática é uma categoria divulgada pelo grupo de epistemólogos liderados por Althusser. Refere-se a uma construção ideológica cujos problemas a serem colocados limitam o âmbito das respostas. No caso específico essa delimitação recalca a presença do contínuo civilizatório aborígine, e também do africano no Brasil. Em certo trecho das obras de Marx, explicando que uma máquina só ganha significado histórico quando está inserida nas relações de produção diz que o mesmo se aplica ao “negro escravo”, fora das relações de produção é apenas um negro!!! Assim os marxistas só entendem, não só o negro, mas toda a humanidade pelo viés das relações de produção e da luta de classes no âmbito da Europa e de suas projeções coloniais e seus desdobramentos. Faz parte também do repertório marxista denominar outros processos produtivos como da África pré-colonial e da América pré-colombiana de “comunismo primitivo” inserindo já na própria denominação um recalque ideológico evolucionista.


No que se re fere a problemática criada pelo “conceito de raça” ele se sustenta numa falsidade ideológica, qual seja, a de que existem raças humanas. Ele opera para diferir e naturalizar relações de exploração no âmbito do colonialismo e do neocolonialismo. Os de “raça branca” são considerados de “civilização superior” aptos a mandar, as demais, “raças inferiores” para obedecer. Apresenta falsamente as diferenças como desigualdades, para manter ações de discriminações que caracterizam a ideologia que chamamos racismo.


Para mim diferenças há, mas elas são percebidas num outro continente teórico, ultrapassando essas barreiras ideológicas, constituindo, se podemos assim chamar, de uma nova problemática da diversidade humana e da pluralidade sociocultural resultante dos diferentes fluxos civilizatórios.


P - Porque diversidade humana e pluralidade sociocultural?

Luz – A humanidade em sua trajetória civilizatória desde o antigo Egito na África, que se apresenta socioculturalmente diversa, plural, politica, múltipla e variada. O que é comum é a sociabilidade, a pulsão de viver em sociedade, o desejo de estar junto. Povo território, identidade, ethos e eidos, o compartilhar paixões, emoções e elaborações na criação e ocupação, na construção dos espaços, territorialidades e do tempo, temporalidades sociais.


A riqueza existencial da humanidade é a variada forma das constelações simbólicas, culturais, civilizatórias, alicerçadas sobre elaborações em torno dos mistérios do estar no mundo e o próprio mundo...


Todavia, nos “tempos modernos” categorias totalizantes europocêntricas e evolucionistas como Estado, classe, raça, etc. procuram encobrir o trágico da modernidade: a tentativa de destruição do outro, do diverso, do diferente, e ao mesmo tempo semelhante: nascemos, crescemos, e morremos... Todo sangue é vermelho.


P- Em relação ao Brasil como se situam essas preocupações?

Luz- O que chamamos Brasil, nome dado pelos colonizadores, por um lado, é essa situação trágica vivenciada de modo agudo de maneira geral. Uma gênese do nome diz tudo: local de retirada de produtos matéria prima, através da exploração do trabalho e da conquista de territórios, para riqueza e acumulação contábil dos europeus e seus descendentes espalhados pelas Américas. Pau- Brasil, até hoje é o mesmo nome... “país mercado colonial e neocolonial.”

Há um hiato na composição do Estado-nação cujos limites territoriais são ocupados também por diversos povos pré – colombianos ou pré- cabralinos se preferirmos, incluídos aí os oriundos do continente africano.


O trágico da era moderna é que esses povos, vistos pela ideologia econômica que alimenta a razão de Estado como “mão de obra barata” e muitos deles, os chamados afro-descendentes e os chamados “índios” sem terem seus direitos sobre suas terras reconhecidos, também não são legitimados em suas formas próprias de sociabilidade, exatamente por isso. E como conseqüência disso tudo temos presenciado a guerra constante, a violência, o genocídio, a exploração, a desterritorialização, o racismo, as alterações catastróficas na natureza, que chegam a uma dimensão tão intensa que estão pondo até mesmo o planeta em perigo de destruição.


O Brasil não está fora dessa “ordem mundial” que está em crise, dando passagem a novos tempos, a modernidade dá lugar à emergência de novos valores, constituintes do que chamamos pós-modernidade.


Os tempos pós modernos na concepção de Michel Maffesoli resultam do movimento pendular do “sprit du temps”, o espírito do tempo que oscila entre valores prometéicos, e valores dionisíacos, querendo dizer com isso ora a predominância dos valores da “ciência” e da técnica ora a predominância dos valores sagrados ligados aos mistérios da natureza, à Mãe Terra.

Neste contexto na constituição do Estado totalizante atuam forças centrípetas e centrífugas simultaneamente, de um lado atraindo para o centro para a sujeição voluntária às chefarias burocráticas, aos especialistas da cidade, de outro afastando para a margem os que soçobram ou os que constituem outras formas de sociabilidade formando redes comunitárias, comunalidades. È nesse território que acontece o fluxo das civilizações aborígines e as de origem africana, no Brasil e nas Américas em geral.

È, portanto nessa territorialização que a pós modernidade encontra um solo fértil para suas utopias de uma nova ética de reconhecimento e respeito à alteridade bem como de reconhecimento da inclusão da espécie humana na composição da Natureza que, portanto tem que ser preservada como composição do mistério transcendente do existir.


Na dinâmica das dialéticas institucionais acontece a circulação de identidades e pertenças, e pelas fissuras e interstícios do Estado em crise sucedem-se os desafios da luta de afirmação existencial e por direitos de legitimação.


Nesse contexto se dá outra conotação do Pau Brasil, nome de uma árvore...


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O MUNDO DÁ VOLTA CAMARÁ!

AO SOM DO BERIMBAU...

O MUNDO DÁ VOLTA CAMARÁ!

Gostaríamos de convidar nossos visitantes para assistir Gilberto Gil cantando a música Parabolicamará de sua autoria. Tentem extrair da poesia da música aspectos que nos ensinam formas de pensar o mundo contemporâneo e os desafios que a todo tempo nos impõem novas formas de convivência.


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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

REBELIÕES AFRICANAS EM ITAPUÃ

REBELIÕES AFRICANAS EM ITAPUÃ

Por Narcimária Luz


Foto do Abaeté de Narcimária Luz



Em 28 de fevereiro de 1814, Itapuã foi cenário de rebeliões de africanos/as na Bahia. A rebelião aconteceu na propriedade de Manuel Ignácio da Cunha, na época, presidente da província da Bahia,[1] no âmbito do sistema de produção da pesca.


A liderança dessa rebelião foi do africano Francisco e de sua esposa Francisca, considerados pelos insurgentes como rei e rainha.


Essa rebelião foi muito bem organizada, pois os 250 africanos envolvidos foram sendo mobilizados através de viagens que Francisco e Francisca fizeram pelo Recôncavo e demais vilas e freguesias de Salvador.


A rebelião começou com um incêndio na armação pesqueira de propriedade de Manuel Ignácio da Cunha, resultando na morte do feitor que administrava a armação e sua família, se estendendo para outras armações nos arredores de Itapuã e surpreendendo com a meta de ir em direção ao Recôncavo.


Em Santo Amaro de Ipitanga (hoje município de Lauro de Freitas) as tropas do governo aparecem e reprimem a rebelião, depois de uma sofrida batalha que tirou muitas vidas dos africanos e africanas liderados por Francisco.


Como desdobramentos dessa rebelião, os arquivos registram que:


[...] Durante a revolta os rebeldes mataram 14 pessoas, entre elas escravos que recusaram a unir-se a eles, e perderam 58 de seu lado. Dos que foram presos, quatro terminaram condenados à morte e enforcados; muitos foram punidos com penas de açoite, inclusive quatro mulheres; 23 foram deportados para colônias penais na África portuguesa. Além desses, mais de duas dezenas morreram nas prisões por maus tratos. Entre as vítimas da repressão deve-se também incluir muitos que de acordo com relato policial, teriam se ‘suicidado’, afogando-se no Rio Joanes ou enforcando-se. Parece que os insurgentes que conseguiram romper o cerco continuaram a luta. Foram parar em Alagoas, onde teriam planejado um levante, que afinal não apareceu, com data marcada para dezembro de 1815. [2]


Outra rebelião marcante na Bahia, em Itapuã, foi a de 12 de março de 1828 e o alvo mais uma vez foi outra armação pesqueira de Manuel Ignácio da Cunha e Francisco Lourenço Herculano.


Aproximadamente cem insurgentes saíram de Itapuã em direção a Pirajá e nesse trajeto queimaram casas e canaviais. Na Engomadeira os insurgentes foram reprimidos pela polícia. Uns foram presos, outros desapareceram pelas matas e um deles, Joaquim, de origem nagô, recebeu cento e cinqüenta açoites como exemplo para todos/as aqueles/as que se recusavam a aceitar a ordem escravista colonial.


As organizações quilombolas também foram fundamentais para a vida dos africanos em Itapuã, que mantinham vínculos com outras freguesias de Salvador submetidas ao regime escravista Itapuã também é uma referência importante no contexto das insurgências dos africanos na Bahia, cujas estratégias de luta pela liberdade de existência constituem um importante legado para a Rebelião Malê em 1835, uma das mais importantes das Américas.


Para saber sobre essas rebeliões consulte o livro Rebelião Escrava no Brasil do historiador João José Reis.



[1] Cf. REIS, João Rebelião Escrava no Brasil, Brasiliense, 1987, p.76

[2] REIS, op. cit., p. 71